Separação dos bebês

Acho que o grande problema em irmãos gêmeos é que eles acabam virando sombra um do outro. Por mais que sejam crianças diferentes, com gostos diferentes, personalidades diferentes, a gente acaba fazendo tudo exatamente igual com os dois. Eles dormem no mesmo horário, acordam no mesmo horário, vestem o mesmo tipo de roupa, comem a mesma coisa no café da manhã com o mesmo tipo de utensílios, vão para a escola juntos, estudam na mesma sala com a mesmíssima rotina e os mesmos amigos e terminam o dia com banho no mesmo horário e cama no mesmo horário. No final de semana, mesma coisa: mesmos passeios, mesmos horários, sempre a mesma pessoinha colada no outro o dia todo, pra todo canto. Com exceção dos compromissos médicos, a vida dos dois é muito igual.

É claro que para os papais este aspecto é um ganho de escala e facilita a vida. Deve ser muito mais difícil gerenciar duas crianças com logísticas diferentes. Mas esse grude todo acabou nos trazendo duas questões para pensar e resolver.

A primeira delas foi na escola. Meu filho é bagunceiro. Bagunceiro, levado, arteiro, é só olhar para a cara dele que dá pra perceber. Segundo as professoras, é ele que tem ideias mirabolantes de subir em cima da mesa do refeitório, levantar da roda quando a tia está contando histórias, tirar os sapatos e ficar correndo descalço. Mas se ainda fosse um só… O problema é que quando ele pensa em uma travessura, imediatamente convoca a irmã, que imediatamente segue o mocinho, e todas as bagunças já começam com dois envolvidos. Antes dessa conversa com a coordenação da escola, nós já vínhamos pensando que seria interessante para os dois ter os próprios amigos, a própria professora, uma vidinha independente durante o dia e reencontrar o irmão no final da tarde para matar as saudades. Só não sabíamos o momento ideal. Mas com toda essa questão da bagunça, decidimos: no ano que vem eles estudarão em classes diferentes.

A segunda questão foi o quarto dos dois. Eu sempre achei que dividir quarto com o irmão, independente de sexo e idade diferentes, trouxesse um monte de coisas positivas para as crianças, por causa da convivência, divisão do espaço comum e coisas assim. Até meu filho trazer para casa a mesma forma de tocar-o-terror quando estão sozinhos dentro do quarto. Na hora de dormir, ele desenvolveu uma mania extremamente irritante de bater a cabeça na cama antes de dormir, enquanto canta alto. Ele bate a cabeça na grade que o protege para não cair no chão, que é molinha, então não machuca. O problema é a cama balança, anda, faz barulho, encosta no armário ou na parede e faz os vizinhos acharem que estamos martelando alguma coisa em horário proibido. Difícil deixar a irmã dormir nessa confusão toda, principalmente porque a mamãe precisava entrar no quarto 357 vezes para pedir para ele parar com aquilo. Geralmente ele caía no sono em uns 20 minutos de tortura materna, então se fosse só isso estava bom.

Mas não. Ele resolveu começar a acordar às 5h da manhã. CINCO. DA. MANHÃ. E o que você faz quando acorda às 5h da manhã? Pula na cama da irmã, claro. Pula na cama da irmã, garante que ela acorde bem acordadinha, aí você decide se brincam, se cantam alto, se pulam descontroladamente em cima da cama ou se brigam, gerando choros, mordidas, tapas e puxões de cabelo. Em qualquer uma das alternativas, você obriga sua mãe a sair da cama dela e colocar ordem no ambiente, e faz com que a família toda inicie o dia nesse horário cruel, porque ninguém volta a dormir depois de tanta agitação. Podem me achar malvada, sem paciência, mas não dá para viver assim não.

Eles tiveram que ganhar quartos separados, para garantir a sanidade mental da mamãe. Toda minha teoria sobre deixá-los dividindo quarto até uns 10 anos foi por água abaixo quando eu percebi que estava pirando com tanta bagunça na minha vida. Numguentei, levantei a bandeira branca, desisti, e mudei a cama do meu filho para o quarto do lado.

Nos primeiros dias, minha filha achou que o irmão não merecia o privilégio de ganhar um quarto novo por ser tão bagunceiro e resolveu bater fortemente a cabeça na cama antes de dormir, numa tentativa desesperada de ganhar um quarto novo também. Ah, filha, desculpa, mas só temos esses três quartos aí e não posso te dar um quarto novo. O único motivo para eu ter mudado meu filho e não a minha filha é que não temos armário no novo quarto dele. Eu queria evitar de deixá-lo sozinho em um quarto com armário, porque sei que mais cedo ou mais tarde ele iria resolver tirar todas as roupas das gavetas e jogar no chão, na falta de uma irmã para atormentar. Eu sei que ele é capaz disso. Eu já o vi fazer isso em um dia que – não lembro por que – a irmã não estava com ele no quarto quando acordou. Acho que ela me entendeu e parou de bater a cabeça na cama. Ele continua chacoalhando a cama antes de dormir, mas pelo menos não incomoda mais a irmã.

A coisa linda mesmo aconteceu na parte da manhã. Quando ele acorda e se vê sozinho no quarto, ele resolve simplesmente VOLTAR A DORMIR. Sério. Nenhum drama, nenhum choro, nenhuma reclamação. Ele simplesmente dorme melhor. Desde o primeiro dia que meu filho foi dormir sozinho no quarto, ele dorme até eu acordá-lo para ir para a escola. No primeiro final de semana após a mudança de quartos, nós dormimos até às 9h no sábado E no domingo. Juro. Desde que eles chegaram em casa eu não dormia tanto assim em dois dias no mesmo final de semana. Lembro de ter acordado às 7h e pensado “oba, posso dormir mais”. Depois às 8h: “uau, que silêncio gostoso”. Depois às 9h me veio um “gente, não aguento mais ficar deitada, mas é bom demais para ser verdade e não quero estragar”. Adorei.

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Um pensamento sobre “Separação dos bebês

  1. Igor disse:

    Ruri, que medo! rs
    Mas ainda bem que a situação foi controlada, né?

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