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Os parquinhos de Paris

Os parisienses gostam demais de suas crianças e também ajudam bastante os turistas que viajam com crianças: tem um parquinho fofo, limpo e bem sinalizado em toda quadra e ao lado de todo monumento histórico.
Parquinhos duas ou três vezes ao dia ajudaram meus filhos a descansar de longas caminhadas e de visitas cheias de regras (não pode mexer, não pode gritar, tem que dar mão). Também dava um descanso para nós dois, os adultos, pois podíamos sentar na sombra e conversar sem os “por quê? por quê? por quê?” de crianças de quatro anos.

Além da limpeza e quantidade, uma coisa me chamou atenção nos parquinhos de Paris: nenhum deles tem balanço. Em São Paulo, todo parquinho que conheço – incluindo meu próprio prédio – tem balanço. E eu detesto balanço.

Não só porque é perigoso, com criança voando e caindo de cara no chão e criança passando perto de outra criança balançando e perdendo a cabeça. Detesto balanço porque eles demandam adultos na brincadeira. Sabem? “Manhê, vem aqui me balançar?”. Aí você tem que levantar e ficar em pé no sol olhando aquele vai-e-vem entediante. Ou você sugere que outra criança balance, e aí sai briga na certa, além de ser perigoso. Inferno de balanços. Citei balanços, mas em São Paulo tem também as gangorras, outra coisa que detesto. Aquela coisa que prende o pé de um na hora que abaixa, que pode quebrar os dentes do outro na hora que levanta rápido, e é sempre difícil de entrar e sair para brincar sem ajuda de um adulto. 

Aqui não tem balanços. Claro que eles sempre podem cair de algum lugar em que subiram, faz parte. Mas sempre podem brincar sozinhos. Autônomos. Sem adultos por perto. Não precisam ficar chamando a mãe o tempo todo e nem preciso ficar preocupada se alguma coisa vai acertar a cabeça deles. Adultos podem ou não participar da brincadeira, mas não tem nada nos parquinhos que as crianças não consigam fazer sozinhas (desde que sigam as recomendações de idade que estão em todos os brinquedos). Nada é perigoso, tudo é pensado e adaptado para crianças e até o chão é emborrachado para amortecer as quedas. Em todos os parquinhos.

Uma vez levei os dois para passear no Horto Florestal em SP e fiquei mega frustrada com o parquinho porque eles não conseguiam subir em nada sem minha ajuda. Haddad, a gente precisa de mais parquinhos e de mais autonomia, ok?

E só para fechar: ninguém vem de branco no parquinho. Não sei se os adultos que estão aqui acompanhando crianças são parentes ou babás, porque ninguém está discriminado. Porque, né, não preciso saber se a moça que está olhando a menininha com quem a Ruth está brincando é a mãe dela ou babá dela. Alguém que vive na mesma cidade que eu já foi em um parquinho no meio da semana para ver a quantidade de moças de branco que estão por lá? Ou num clube? Ai, São Paulo, você e suas bizarrices. 

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Nightmare

Você arruma um namorado e está dormindo com ele. No meio da madrugada, você começa a esmurrar e socar o moço com todas as suas forças, tentando acertar o nariz dele. Ele segura suas mãos, acende a luz e fica muito bravo. Por pouco ele não sai correndo no meio da madrugada. Fim.

Em meus sonhos, eu estava num happy hour com os culegas da firma que já durava umas cinco horas. Tava abrindo a nona garrafa de vinho e dando gargalhadas. Não tinha hora pra voltar pra casa, porque meus filhos estavam com o dito-cujo, que tinha buscado na escola, dado banho, comida e colocado para dormir. Quando olho pra porta do bar, vejo o moço sorridente chegando pra me dar um abraço. “Cadê as crianças?” – eu pergunto. “Estão nanando. Eu chequei, estavam num sono pesado, não vão acordar, então vim aqui te encontrar”. Nessa hora eu voei no pescoço dele e a história termina conforme o parágrafo acima.

Fatos:

1) Se já me diziam que seria difícil arrumar namorado sendo mãe solteira de gêmeos, imagina sendo sonâmbula desse jeito.

2) Mãe é mãe até sonhando. Ruth e Isaac, fiquem tranqüilos que mamãe defende vocês até dormindo.

3) No fundo, como se vê pelo sonho, uma mãe solteira não quer namorar para ter companhia no sábado à noite. A gente quer namorar pra poder ir pra balada sozinha sem precisar pagar babá folguista. Fica a dica, amor.

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Simplifica

Há mais de um ano eu só penso em trabalhar menos. Eu gosto de trabalhar, não nasci pra ficar em casa e cuidar dos filhos em tempo integral, mas justamente por causa deles eu quero trabalhar menos. Não sei quão menos, mas certamente bem longe do modelo CLT de 40 horas semanais. Oito horas por dia de segunda a sexta é tempo demais. Isaac e Ruth merecem mais de mim.

E o primeiro passo desse plano foi reconhecer que trabalhar menos significa ganhar menos. Pra ser justo, né? A não ser que eu ganhe na loteria, mas para isso eu precisaria jogar na loteria, e nunca jogo. Então a alternativa é ganhar menos. E, para ganhar menos e continuar a nos divertir, eu fiz um plano de simplificação da vida. Um plano de desapego.

Primeiro foi o carro. Eu tinha carro da empresa, mas os custos de combustível, estacionamento, multas e algumas manutenções eram meus. O stress do trânsito também era meu. Quando mudei para uma empresa que não tinha esse benefício, desapeguei. Deleite da minha planilha de controle de despesas as linhas: combustível, estacionamento, lavagem, multas, IPVA, seguro, manutenção.

Falta de carro me levou a desapegar dos sapatos de salto. Sapatilha custa um pouco menos que scarpin, mas o ponto aqui não é o custo. É a agilidade e a não preguiça. Quando a distância é curta, eu ando.

Depois foi a TV a cabo. Aquela que estava instalada na sala e no quarto e que nunca era acessada. Foi embora, coitada. Fiquei só com a Internet, o iTunes e a Netflix. TV em casa é só on demand, e o custo é menor.

Aí veio a mudança de casa, onde desapeguei de duas coisas em uma única tacada: a casa própria e o espaço extra. Vendemos nosso apartamento e fui morar com as crianças em um apartamento alugado que é 30% menor. Tem o espaço que precisamos e nada mais. Perdendo espaço, deixamos para trás as tralhas. Vendi e doei muita coisa. Não temos mais jogos imensos de pratos, talheres e taças, não tem eletrodoméstico encostado, não tem roupa que não usamos mais, não tenho mais 80 pares de sapatos, vendi grande parte dos livros, porque não cabe. Para comprar mais coisas, penso no que vou doar para caber. Tô mais leve.

O aluguel também me livrou de uma parcela do financiamento lotada de juros, de despesas extraordinárias do condomínio (sabem aquela reforma na academia que aprovam na reunião e que custa XXX reais por mês a mais no condomínio? eu não tenho nada a ver com isso), de alguns custos de manutenção que são responsabilidade do proprietário (infiltrações, por exemplo). Também nos deixou mais flexíveis para mudar de casa se precisarmos. Demorei um ano para vender o apartamento e fiquei um pouco traumatizada. Se para simplificar ainda mais eu quiser morar mais perto do trabalho um dia, é só agendar a mudança.

O desapego mais recente foi da empregada doméstica mensalista que vinha todos os dias. Trabalhando fora e com duas crianças, eu achei que não dava para viver sem. Achava ele iria me matar sem uma dessas. Mas não. Hoje temos só a babá e ajuda esporádica: sem nenhuma frequência definida (às vezes 7 dias, às vezes 10) eu chamo uma empresa de limpeza e pago por hora a limpeza pesada e passar roupas. O resto eu faço: arrumo as camas, mantenho a cozinha limpa, coloco as roupas para lavar, rego plantas. Eu, não, nós. Nessa história, as crianças ganharam responsabilidades de habitantes da casa: esticam o edredon de manhã e arrumam os bichinhos de pelúcia, levam a roupa suja no cesto, recolhem comida que cair no chão, ajudam com a roupa na máquina, guardam suas roupas e sapatos no lugar. Agora eles mesmos me falam: “a gente não tem mais ajuda e temos que deixar nossa casa limpa, né, mamãe?”. Isso. Eu também estou reaprendendo que, se deixar o tênis da academia na sala, ele vai estar lá quando eu voltar do trabalho. E também estou feliz por estar ensinando dois pimpolhos a serem bons roommates no futuro.

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Carta para minha filha

Querida filha,

Eu sei que você também sofre com todas as birras e descontrole, que não terminaram nos terrible two e já estão quase chegando aos four. Eu sei que é difícil ficar brava com o mundo, berrar até a garganta doer e se jogar no chão e bater a cabeça. Eu sei que eu sou a pessoa adulta nesse relacionamento e que é meu papel ter calma e paciência. Eu sei também que não sou um ser imaculado que tem calma e paciência 100% do tempo.

Mas você está me ensinando a ser paciente e tolerante. Você é a primeira pessoa neste mundo que nunca irá sair da minha vida mesmo que me irrite, que me teste ou que não faça as coisas que quero. Nós vamos ficar juntas e vamos tentar nos entender, para sempre.

Eu sei que você sofre de saudades. Eu sei que é difícil para você sair da escola com a perua e ser recebida em casa pela babá. Eu sei que você queria me ver antes. Sei também que no final do dia estou cansada, porque eu enfrento clientes atuais que precisam de atenção, novos clientes que entregam minhas metas de receita, chefe, equipe e colegas de trabalho que precisam de reuniões, materiais, definições e entregas. Você não tem nada a ver com isso e eu me esforço todos os dias para abstrair tudo isso enquanto estou no metrô para chegar bem humorada em casa.

Eu sei que todos os dias, sem exceção, você faz alguma bagunça feia na escola ou com a babá. O que você não sabe é que eu pedi para a escola e para a babá tentarem não me contar todas essas coisas em detalhes e hoje elas resumem, contam menos vezes, filtram um pouco mais. Fiz isso porque eu não quero chegar em casa todos os dias e ter conversas sérias e pesadas com você. Quero chegar em casa e te abraçar, ouvir suas histórias, contar sobre o meu dia. Quero te dar banho, brincar e te colocar para dormir. Quero te deixar feliz, quero te mostrar que não vou ficar brava e te dar broncas todos os dias.

Outra coisa que você não sabe é que eu entro no seu quarto todos os dias depois que você dorme para te cobrir e te abraçar. Você dorme pesado e nunca acorda. Você também não sabe que eu queria não ter perua e babá e te buscar na escola todos os dias, junto com seu irmão. Que eu questiono esse “esquema” todos os dias, mas que não sei qual outra alternativa funcionaria bem pra gente. Eu sei que você gosta de dormir cedo, porque isso te faz bem, então sei que não adianta chegar tarde e te deixar dormir uma hora mais tarde, porque você vai estar cansada demais para curtir esse tempo com a mamãe. Eu só não sei o que tenho que fazer para chegar em casa mais cedo todos os dias, sem que isso afete nossa renda e o meu equilíbrio.

Eu quero te ver feliz. Quero ver você tranquila, quero que se sinta linda, que seja querida pelo outros e que pare de roer suas unhas. Por favor, me ajuda a entender o que tenho que fazer para você parar de roer unha. Quero curtir você. Quero ficar mais tempo com você, sem essa de “tempo de qualidade”. Quero mais tempo mesmo. Queria levar você para trabalhar comigo amanhã.

Eu te amo muito, pequenina. Dorme bem, tá?

um beijo e um quentinho

Mamãe Ruri

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Por que branco?

Outro dia vi uma menininha na rua acompanhada de sua babá. Sei que era sua babá porque a moça usava branco da cabeça aos pés. Aí eu saí perguntando: por que as babás usam branco?

Resposta 1: É um uniforme que facilita a identificação, é como um bombeiro ou um policial.

Sim, uniformes facilitam a identificação da pessoa. Quando entro em uma loja, acho bacana quando os vendedores estão uniformizados e é fácil saber com quem falar para tirar dúvidas. Se um prédio está pegando fogo, é fácil saber quem são os bombeiros que devem entrar para socorrer vítimas e apagar o incêndio (além, claro, da própria segurança que as roupas deles trazem para eles). Quando meus filhos vão a alguma excursão da escola, devem ir obrigatoriamente uniformizados, pois se se perderem do grupo será fácil identifica-los. Até aí, concordamos. Minha pergunta é: para que alguém precisa identificar uma babá?

Suponhamos que eu esteja em um parquinho e encontre uma criança perdida. Vou olhar em volta e ver várias babás vestidas de branco e várias mães vestidas com as roupas que puderam escolher pela manhã. Adianta eu devolver para qualquer uma das babás? Adianta eu ter simplesmente identificado quem é babá e quem não é babá uma hora dessas?

Se eu quisesse identificar a babá dos meus filhos por aí, eu pediria a ela que usasse roupas verde-limão com a foto dos dois estampada nas costas, porque aí, sim, eu veria vantagem em alguém identificá-la. E eu deveria fazer o mesmo, para tudo fazer sentido.

Resposta 2: É para evitar que elas usem roupas inadequadas para o trabalho delas.

… já que nenhuma roupa branca pode ser curta, justa ou ter decotes imensos. Sério, gente. Eu também tenho um dress code no meu trabalho. Todo mundo tem. Se eu for hoje trabalhar de shorts e chinelo, meu chefe vai me chamar para um feedback. Existem roupas adequadas e inadequadas para qualquer tipo de trabalho. Neste caso, é só assumir que a babá é adulta e madura (e se você a contratou para cuidar das criaturas mais importantes de sua vida, certamente você contratou alguém adulto e maduro) e ter uma conversa sincera e objetiva sobre a questão das roupas.

Resposta 3: É uma questão de higiene, para garantir a limpeza.

Neste caso, imagino que também seja obrigatório que todas as mamães em tempo integral ou em licença maternidade também usem branco. Vale também para todas as avós, tias, vizinhas ou familiares que tomam conta das crianças. Mas eu nunca vi uma mãe ou uma avó inteiramente de branco cuidando de uma criança. Você não acredita que as roupas da babá estejam limpas a não ser que sejam brancas para dar para ver de longe? Você tem uma pessoa que passa muito tempo com seu filho, muitas vezes sozinha, dando carinho e atenção, e você não pode confiar na limpeza das roupas delas? Sério mesmo?

Resposta 4: Elas são como médicos e enfermeiros, que também usam branco.

… e esterilizam as mãos a cada momento que tocam na criança, e usam luvas, máscaras e protetores para os cabelos. Também nunca se sentam no chão para brincar.

Resposta 5: Foi escolha da babá, ela prefere usar uniforme.

Preferir usar uniforme é uma coisa, usar branco é outra. Entendo que alguém não queira usar suas roupas “pessoais” no trabalho e prefira ter roupas específicas para isto. O uniforme poderia ser algumas camisetas básicas e confortáveis para cuidar de uma criança o dia inteiro, por exemplo.

Mas, considerando que: 1) cuidar de crianças suja as roupas dos adultos (porque é comida para todo lado, é um tal de sentar no chão, de ir no parquinho, de pegar no colo e receber aquelas marquinhas de sapato na roupa) e 2) roupa inteira branca não é um hábito comum (vejo poucas pessoas que não trabalham na área de saúde ou que não sejam babá ou guia espiritual usando só branco), duvido um pouco que alguma babá escolheria por conta própria esse look inteiro branco para trabalhar com crianças.

Minha resposta: não quero criar inimigos. Talvez as coisas estejam tão automáticas que algumas pessoas nem tenham parado para pensar. Mas eu acho que as pessoas pedem que as babás usam branco para diferenciar quem é babá e quem não é.

Eu não sei se o motivo é mostrar para que outros que tem uma babá ou se o motivo é evitar que a babá seja confundida com um membro da família ou uma amiga. Não sei. Só sei que o branco, na minha opinião, só tem função de deixar claro que o adulto X é a babá.

Não me odeiem, por favor, é só uma opinião, tá?

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Preciso de ajuda (ou como eu virei uma mãe com duas babás)

Trombei umas duas ou três vezes com esse texto nas redes sociais e vou copiar um pedaço.

“Nasce um bebê no Xingu. Todas as mulheres da oca se mobilizam. A mãe está cercada de cuidados e apoio. Nasce um bebê no sertão das Minas Gerais. A avó, a bisavó, as tias, a prima cercam a mãe de cuidados. Nasce um bebê numa aldeia africana. Numa tribo em Maui. Numa cidadezinha no interior da Tailândia ou da Polônia ou da Inglaterra – a cena se repete. Na favela da Zona Norte, as vizinhas e a tia que mora na laje de cima se encarregam de ajudar. E nas mansões dos jardins? Não são mais a avó e as vizinhas, mas as duas babás, a enfermeira, a faxineira, o motorista e o segurança.

Nasce um bebê em Copacabana, no apartamento 1104. A avó está trabalhando em tempo integral. O pai só tem cinco dias de licença. A vizinha do 1103 não só não ajuda, como sequer conhece, e ainda reclama do choro noturno. E a empregada diz que só ganha pra cuidar da casa. Ajudar à noite, nem pensar.

E aí temos esse fascinante fenômeno social: a única mulher do planeta que é deixada pra cuidar de um bebê sem nenhuma ajuda é a da classe media, urbana, ocidental. Pior: ela achava que ia conseguir…”

É, pois é. Não moro em mansão nos jardins nem em Copacabana, mas a cena é esta por aqui. Minha mãe trabalha em tempo integral, e eu me orgulho disso. Meu pai e minha madrasta também trabalham em tempo integral – também motivo de orgulho – e têm uma filha de 12 anos que demanda cuidados que, como mãe, conheço bem. Minha irmã uma vez me disse que não é obrigação dela cuidar dos filhos dos outros – o que até entendo, não é mesmo. A madrinha deles tem uma filha de 6 anos, que também demanda bastante. Minha vó tem 94 anos, não dá conta de duas crianças pequenas. E por aí vai. E, para ser justa, eu também não sei o quanto estava a fim de ver alguém da minha família frequentemente dentro da minha casa.

E eu achei que eu ia dar conta. Eu, a escola e nada mais, porque qualquer outra coisa seria sinônimo de fracasso. Eu nunca lamentei porque não tenho ajuda frequente de nenhum familiar, pelo contrário. Eu também acreditava no “quis ter filho? agora assume!”.

Durante minha licença maternidade, eu escolhi não ter uma babá. Na época, eu mal tinha ajuda em casa, apenas uma moça que ia duas vezes por semana. Ou seja, além de cuidar dos dois o dia inteirinho, eu ainda tinha roupas e louças para lavar e coisas para arrumar, porque ela não dava conta de cuidar de uma casa com quatro pessoas – sendo que três delas ficavam ali o dia todo – em apenas dois dias. Depois voltei a trabalhar, eles foram para a escola, a casa não ficava mais em estado de calamidade pública durante a semana e eu achei que tudo na vida estava resolvido. Me enganei. Eu precisei procurar uma pessoa para me ajudar com eles todos os dias, porque buscar na escola todo dia às 19h era humanamente impossível para mim. Essa parte da história já contei por aqui. A verdade é que eu resisti muito. Eu achava que qualquer pessoa que tinha uma babá na vida era uma incompetente ou uma folgada. Eu achava que as mães tinham a obrigação de dar conta do recado – senão eram incompetentes – e a querer dar conta do recado – senão eram folgadas. Eu demorei para reconhecer que eu precisava de ajuda e que eu seria muito mais feliz assim.

Sim, eu sou mais feliz com essa escolha. Em 80% dos dias, chego em casa às 19h, dispenso a babá e cuido dos meus filhos como sempre quis fazer. Mas tem os dias do trânsito, do vôo atrasado, da reunião que demorou um pouco mais, e ela está lá em casa com eles me esperando. Eu nunca mais voltei para casa chorando porque estava atrasada.

Aí um belo dia eu marquei uma consulta em um médico para os dois e pedi que ela fosse comigo. Era no horário de trabalho dela e achei que pudesse ser bom. Não foi só bom. Foi simplesmente a coisa mais sensacional desse mundo, gente. Imagina como era minha vida antes disso, vamos lá: durante a licença maternidade, não tinha escola onde deixar. Ou seja, cada vez que um tinha médico, eu tinha que levar os dois. Alguém presta atenção em alguma outra coisa quando se está encarregada de manter dois bebês vivos? Alguém? Me ensinem como, por favor. Mesmo depois que eles foram para a escola e eu comecei a levar um de cada vez no médico, eu não conseguia prestar atenção. Eles correm, mexem em tudo, querem participar da conversa, querem falar sobre outra coisa, querem brincar com as coisas que estão em cima da mesa. A cena mais comum na minha vida até então era: um médico sentado tentando me explicar a consulta, uma criança correndo e mexendo em tudo e eu em pé no meio do consultório me revezando entre prestar atenção (10% do tempo) e ver o que a criança está fazendo (90%). Nesse dia, eu descobri a maravilha que é sentar na cadeira em frente ao médico e ouvir o que ele está perguntando. Responder o que ele está perguntando. Entender o que ele está explicando. Fazer perguntas sobre o que ele me explicou. Chegar em casa sabendo exatamente o que tenho que fazer com meus filhos. Fazer jus a todos os centavos que pago pelas consultas médicas, basicamente. É lindo.

Aí aconteceu mais uma coisa: o Carnaval 2014. Já contei também: mãe sozinha, duas crianças sem escola durante 5 dias. Eu tinha que preparar todas as refeições deles e a cozinha virava o caos; eles dormiam e eu ia limpar tudo, para ter louças limpas para o dia seguinte. Implorei para meu pai ficar um pouco com eles, mas minha madrasta ficou super doente naqueles dias. Implorei para minha mãe ficar um pouco com eles, nós fomos passear juntos, mas não foi suficiente para meu cansaço físico se resolver. Eu não dei conta. Ponto. No final de semana seguinte, eles foram para a casa do pai e eu fiquei 48 horas deitada, me recuperando de uma gripe gigantesca, repetindo para mim mesma: “não tem problema não dar conta, não tem problema não dar conta, você não é obrigada a dar conta”.

No final de semana em que ficariam comigo novamente, eu chamei a moça que trabalhou em casa durante o ano de 2013 para me dar uma força. Perguntei se ela toparia fazer um bico e ela veio, porque fiquei em pânico de ficar sozinha de novo e surtar, confesso. Queria um apoio moral e alguém que olhasse os dois para eu poder fazer xixi. Desde então, ela vem quase todo sábado e me ajuda muito. Porque sábado à noite era momento de pensamentos suicidas, tá? Eles iam para cama cedo e eu encarava uma cozinha de deusmelivre para termos espaço para o café da manhã no dia seguinte. Eles dormiam tranquilamente em seus quartos e eu jantava sozinha, porque não podia sair e deixar os dois sozinhos no apartamento. A folguista vem no sábado no final do dia e me ajuda nessas duas coisas: ela dá um tapa na cozinha para mim depois que eles jantam e fica aqui no apartamento para eu poder jantar fora depois que coloco os dois para dormir.

Há pouco tempo atrás, se eu lesse esse meu depoimento acima, eu ia julgar essa mãe, ia achar que ela é incompetente, folgada e dondoca (tinha essa também, babá era coisa de dondoca). Eu ia mandar um “onde já se viu levar a babá no médico?” ou um “onde já se viu babá no sábado?”. Hoje essa mãe sou eu: que realmente nem sempre dá conta do recado sozinha, que reconheceu que precisa de ajuda e que teve que apertar o orçamento do lar para ter ajuda.

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Trabalhar fora

Ser mamãe que trabalha fora é uma não-questão na minha vida. Não é só porque preciso de dinheiro para pagar as contas. Também não sou lá aquela super profissional agressiva que almeja um cargo de CEO em uma grande organização. Eu só não tenho vocação para ser mamãe em tempo integral. Sou feliz assim, com um emprego, saindo cedo para trabalhar todos os dias.

Só que, para sair de casa todo dia e ir trabalhar, tenho uma super infra-estrutura: a escola está paga 12 horas por dia (não uso, mas vai que), tenho uma pessoa em casa outras 8 horas por dia (também não precisaria sem os filhos) e uso a perua escolar. Tem o custo, tem a energia gasta na organização e manutenção de toda essa logística. E mais importante, é muito tempo longe dos meus pequenos para fazer tudo isso valer a pena.

Então eu criei um objetivo na minha vida: se é para sair da minha casa todo dia e morrer de saudades dos meus bebês, eu preciso me divertir. O conceito de diversão no trabalho envolve uma série de fatores: uma empresa em que eu acredite, cercada de gente interessante, inteligente e que eu admire, com um super espírito de colaboração, trabalho em equipe, ética e transparência. Não quero sair de casa só para ter um salário e passar os dias esperando o horário de poder voltar para casa.

Hoje saí de casa para o terceiro emprego pós-maternidade. Tô muito muito muito feliz. Me desejem boa sorte de coração?

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O casamento do meu melhor amigo

O meu melhor amigo vai se casar em um lindo sábado na véspera de dia das mães.

Casamentos não são eventos para crianças. Ou não são eventos especificamente para meus filhos. Ou eu não sei ser a mãe que leva os filhos em casamento sem enlouquecer. Em três bullets, vamos lá:

  • Cerimônia de casamento requer que você fique parado e em silêncio. Você não precisa necessariamente prestar atenção, mas precisa ficar em silêncio necessariamente. Meus filhos não têm essa capacidade. Eu até consigo entendê-los, porque sei que os padres só ficam pedindo para que as pessoas levantem e sentem a cada dois minutos para que ninguém durma, sejamos sinceros.
  • Drinks coloridos e caipirinhas de frutas deixados sobre as mesas da festa são um erro. Eu já os levei em uma festa de casamento e fiquei louca tentando convencê-los que eles não podiam tomar os sucos de frutas nem as bebidas com guarda-chuvinhas lindos.
  • Nesta mesma festa, meu filho foi até a noiva e pediu colo para ela no meio da cerimônia. E ela estava com um tomara-que-caia. Eu não quis ser a louca correndo atrás da criança no vídeo do casamento e resolvi ficar no meu lugar bem quietinha fingindo que o filho não era meu. Deixei ela se virar.

Em resumo, eu os levei em uma festa de casamento e passei a noite toda na função: levei ao banheiro, peguei água, pedi frutas cortadas para o tio da caipirinha, fiz os pratos do jantar dos dois, cortei tudo para eles poderem comer, não jantei porque eles terminaram antes de conseguir fazer o meu prato, fiquei de olho para que não tomassem nenhuma bebida alcoólica, fiquei de olho para que não saíssem pela porta e fugissem pelo estacionamento, fiquei de olho para que não comessem nada do chão e atendi um milhão de outros pedidos aleatórios que eles me fizeram. Fiz cabelo, maquiagem e comprei um vestido novo achando que eu ia ficar sensualizando na pista conversando com os amigos que não via há muito tempo, mas isso não deu tempo. Então eu não pretendo levá-los de novo em casamento por uns bons anos.

A opção que eu teria para não levá-los comigo seria dormir na casa do meu pai. Mas é véspera de dia das mães e eu quero que eles durmam em casa. Quero que eles acordem em casa, que me levem o café da manhã na cama e me entreguem todos os cinco presentes que compraram para mim, sabe? Não vou abrir mão disso.

Aí eu vou dizer uma coisa muito séria: se você tem alguma pessoa querida e disponível que tope ficar dentro da sua casa cuidando de suas crianças (inclui banho, jantar e colocar para dormir), cuide bem dela. Uma amiga tem um pai assim – ele sempre vai até a casa dela quando ela tem algum compromisso à noite. Um amigo tem uma irmã dessas, que coloca a filhinha dele para dormir e espera ele chegar. Tenho vários exemplos que dão inveja. Eu não tive essa sorte. Cuidaria com todo amor e carinho dessa pessoa se ela existisse em minha vida.

Eu tenho uma folguista, é verdade. Mas sair de casa arrumada para uma festa no final da tarde de um sábado e deixá-los sozinhos com uma pessoa com quem eles não têm tanta intimidade está fora de cogitação. Aí eu tenho sensação de abandono e não consigo. Não vai rolar.

Esperei a vida toda para bancar a Julia Roberts no casamento dele, mas não vou conseguir. Que droga. Ser mãe muda mesmo nossas prioridades.

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Mãe não é tudo igual

Quem inventou esse negócio de “mãe é tudo igual, só muda de endereço” só pode estar doido. Depois que virei mamãe, e passei a acompanhar blogs, posts e conversas de outras mamães, percebi que as mães são, sim, muito diferentes uma das outras. Mães são uma combinação de opiniões fortes a respeito de temas polêmicos, e é impossível dizer que são todas iguais.

Não tô dizendo que tem certo ou errado. São opiniões, pontos de vista. Não se ofendam, não, tá? Mas aí vão alguns assuntos que tornam as mães muito únicas:

  • Tipo de parto: tem mães que defendem o parto normal, humanizado, na água, em casa, de cócoras, sem médico, sem hospital, e depois comem a placenta. Tem mães que acham prático agendar dia e horário e aplicar uma boa anestesia, para não ter sofrimento nenhum. Essa polêmica não fez parte da minha vida, então não tenho nenhuma opinião. Tenho uma opinião muito forte sobre visitas aos recém-nascidos. Bem forte, quase mal educada. Imagina que você é um serzinho pequenino, que viveu nove meses dentro da barriga da sua mãe, quentinho, embrulhadinho, com poucos barulhos, pouca luz, bastante conforto e comida em livre demanda. Imaginou? Agora imagina que você teve que sair desse mundo confortável (por parto normal ou por cesárea, não importa!) e veio para o mundo exterior de uma hora para outra, sem período de adaptação nem nada. Imaginou? Aqui fora tem barulho, tem sujeira, tem gente falando alto, tem gente ouvindo axé, tem luzes, tem o Faustão falando na TV, e você precisa chorar para perceberem que está com fome. Eu não consigo imaginar nada mais traumático do que nascer, sério mesmo. Deve ser o pior momento de nossas vidas. Mas não tem jeito, tem que nascer. Cara, mas aí eu me pergunto: por que as pessoas vão visitar um serzinho que acaba de passar por essa experiência traumática nos primeiros dias de vida, e querem pegá-lo no colo, apalpar seu corpinho, dar beijinhos, fazer comentários em voz alta, em vez de deixá-lo se adaptar a essa triste realidade no colo de sua mãe? Por que, minha gente? Se eu tivesse parido, ia proibir as visitas. Desculpem a falta de educação, mas eu ia.
  • Amamentação: aí tem as mães que fazem questão de amamentar exclusivamente até os seis meses de vida, sem admitir um leitinho artificial, e depois continuam oferecendo o peito em livre demanda até que seus filhos desmamem naturalmente aos 2 ou 3 anos. Tem outras que – por motivos diversos – abrem mão da amamentação quando o bebê tem poucos meses de vida. Esse é outro assunto que não fez parte da minha vida de mãe. Se, por um lado, eu odeio coisas artificiais na alimentação dos meus filhos, por outro lado acho que eu ficaria um pouco louca se tivesse que ficar totalmente à disposição da(s) cria(s) para alimentá-la(s) durante seis meses ininterruptos. Difícil, hein?
  • Cama compartilhada: gente, é tanta coisa. Tá, eu não passei pelo período “recém-nascido mamando a cada 2 horas”, porque tendo a concordar que facilita a vida de todos se o bebê estiver no quarto da mãe. Também tendo a concordar que, depois de ter passado pela experiência traumática citada no primeiro bullet, é muita judiação deixar o coitadinho sozinho em um quarto desconhecido durante a madrugada. Difícil. O que eu não consigo entender é a falta do que vou chamar de “tempo de adulto” na vida das mães que fazem cama compartilhada. Explico: eu estou aqui na sala da minha casa enquanto meus filhos dormem tranquilamente no quarto deles há umas duas horas. Estou curtindo meu “tempo de adulto”, quando janto, tomo banho, leio, escrevo, fico em silêncio, trabalho, assisto um filme de adulto ou durmo. Se a mãe faz cama compartilhada, imagino que ela vá dormir junto com o filho, ou estou enganada? E não tem nem um tempinho só de adulto na vida? Aí hoje li esse post aqui, que cita a vida sexual das mães que fazem cama compartilhada: Você tem sofá/futon/chuveiro/ outros cômodos na casa?, a autora pergunta. Sim, todo mundo tem. Só não quer dizer que o sofá/futon/chuveiro (gente, please, e o tanto de água que isso deve gastar?)/ outros cômodos na casa sejam os mais legais para isso, né? Quer dizer que pós-nascimento dos filhos a cama de casal deixa de ser palco da vida sexual e os pais passam a utilizar outros locais na casa não originalmente concebidos para tal?
  • Trabalhar fora ou ser mãe em tempo integral: ser mãe e ter um emprego full-time é f. Você está sempre com a sensação que não faz nada direito e vive se sentindo culpada. Frequentemente, uma coisa invade o espaço dedicado a outra coisa e a culpa cresce ainda mais: é criança que fica doente e te obriga a faltar no trabalho ou é o trabalho que não termina na hora certa e te faz atrasar para chegar em casa. Aí você está no trabalho pensando nas coisas do filho e está em casa pensando que não respondeu aquele último e-mail antes de sair. É f. Mas f mesmo deve ser a vida de mãe em tempo integral. Vida de mãe em tempo integral não tem final de semana ou horário de almoço ou pausa para o café. A mãe em tempo integral é responsável por todas as refeições, todos os xixis e cocôs (na fralda ou no vaso, até que aprendam a se limpar sozinhos), por todas as brincadeiras, por todas as birras, por todos os banhos, todas as broncas. A mãe em tempo integral não pode simplesmente marcar um almoço com uma amiga, porque não pode deixar o filho sozinho em casa. Eu sei bem como essa vida é difícil porque tirei quase seis meses de licença maternidade. Admiro as mães em tempo integral, porque acho que a vida delas é bem mais difícil que a minha, que sou mãe que trabalha.
  • Escola ou babá: o que vou discutir não é nem a questão de deixar o filho aos cuidados de uma pessoa contratada para tal função, que não é da família, que pode pedir demissão a qualquer momento, com quem a criança criará laços profundos. Eu fico me perguntando como é que os pais garantem que a babá está entretendo seu filho de uma forma bacana, variando as brincadeiras, não os deixando morrer de tédio ou mofar na frente da televisão. Durante os finais de semana, eu frequentemente não tenho imaginação para ocupar e estimular meus filhos como eles precisam durante as 48 horas, e sofro com birras e momentos de tédio, quando eles resolvem fazer tudo o que sabem que não podem fazer. Haja criatividade no job description das babás, hein?

Só com esses cinco itens, a gente poderia criar pelo menos uns trinta tipos de mães diferentes. Não é só o endereço que muda, não, gente.

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É. Difícil.

Gente, tô de mau humor hoje, juntando uma TPM, um carro sem combustível na chuva, uma agenda de reuniões no trabalho difícil de coordenar e um calor que dá vontade de andar pelada por aí. Então vou ser um pouco amarga, ok?

Eu lembro bem quando saí da casa da minha mãe para morar sozinha e achei a vida de adulto muito difícil. De repente, além de trabalhar e estudar (eu fazia mestrado na época), eu tinha que cuidar de um apartamento (incluindo problemas no encanamento e chuveiros que quebram no meio de uma semana caótica), de contas para pagar (incluindo lembrar de pagá-las, além de ter o dinheiro), de coisas para resolver (incluindo agendar e levar o carro na revisão, já que minha mãe não estava mais por perto para pedir favores aleatórios do dia a dia), tudo sozinha. Aí eu resolvi virar mamãe e somei a tudo isso o piémôu do projeto “conduzir dois bebês da infância até a vida adulta”.

Mano, não é mole, tá? Eu não tinha noção do quanto é difícil ser mamãe até virar uma mamãe. Hoje eu tenho admiração e compaixão por todas as mamães do mundo. Sério mesmo. Hoje sei que nenhuma escolha relacionada à maternidade é simples e admiro todas elas.

Eu escolhi conciliar trabalho e maternidade. Fazem parte dessa escolha argumentos como: 1) eu gosto de trabalhar, 2) eu não suporto ficar muito tempo em casa, 3) eu não nasci rica, 4) eu não me casei com um papai rico, 5) eu não ganhei na loteria até agora. Mas esses argumentos não vêm ao caso. O caso é que estou aqui tentando conciliar dois papéis e até agora não encontrei a fórmula mágica para estar totalmente feliz, satisfeita e realizada com a minha escolha.

Nesses doze anos desde que comecei a fazer meu primeiro estágio, nunca tive um ano tão confuso no trabalho. Trabalhar sempre foi o cargo principal exercido durante a semana e, apesar de nunca ter sido apaixonada por trabalhar aos finais de semana, virar madrugadas ou ter que viajar, eu nunca tinha tido tremedeiras ao pensar nessas coisas. Sempre trabalhei com coisas que eu gostava, sempre fui do tipo que abraçava mais coisas que cabiam nas 8 horas diárias, sempre fui dedicada, comprometida, disponível e feliz com tudo isso. Só que de uma hora para hora, eu não tinha mais que 8 horas por dia para ficar no escritório, não conseguia mais abraçar tudo o que eu queria, mas continuo gostando do que faço, continuo tentando ser feliz com tudo isso e passei a sofrer por não me achar mais tão dedicada, comprometida e disponível como eu era antes.

Quem fica escrevendo por aí que as mamães ficam mais produtivas depois da maternidade só deve ter conhecido mamães de sorte cujas rotinas nunca saem do previsto. Eu tento, tá? Juro. Mas a escola me liga no meio do dia para falar sobre os mais variados assuntos, fazendo meu coração pular cada vez que acho que aconteceu alguma coisa grave com eles. Eles ficam doentes e me fazem agendar consultas, exames, passar na farmácia, trabalhar de casa, tudo no horário que eu queria estar bem produtiva no escritório. A empregada pede demissão e me faz agendar entrevistas e mais entrevistas para encontrar uma nova pessoa para me ajudar com os dois no final do dia. E por aí vai.

Tá. Tô exagerando. Essas coisas não acontecem toda semana, mas acontecem de vez em quando e, quando acontecem, deixam a mamãe louca. É óbvio que meus filhos são prioridade, então é óbvio que paro o que estiver fazendo para resolver qualquer problema deles. Quando estou com eles, estou só para eles. Não atendo o celular, não checo e-mails, não respondo mensagens e só volto a ficar conectada para o mundo depois que eles vão para a cama. Chegar tarde para vê-los dói, como contei aqui. E, por serem prioridade e as coisinhas mais importantes da minha vida, eu tive que colocar alguns limites no trabalho por causa dos dois.

Colocar limites parece fácil, né? Eu não consigo chegar cedo demais em uma reunião porque não consigo adiantar o horário que a escola abre e também não acho tão legal ficar acordando os dois de madrugada para sair cedo de casa. Eu não consigo trabalhar até mais tarde porque eu não quero ser a mamãe que chega em casa e as crianças já estão dormindo. Eu não consigo viajar a trabalho porque dormir longe dos dois me destrói. Eu não consigo trabalhar aos finais de semana porque é meu tempo com eles, só para eles e nós precisamos desse tempo juntos. Fácil falar, né? Mas se eu não consigo fazer nada que extrapole minhas 8 horas diárias mas também não consigo ser 100% produtiva durante as tais 8 horas, que catso estou fazendo para merecer o salário no final do mês?

Ah, o salário. Eu gosto do salário e não posso ficar sem o salário. Claro, eu acho que eu devia e precisaria ganhar um pouco mais, porque o salário nunca dá para tudo o que quero fazer no mês (e sei que esse não é um problema só meu no mundo). Eu também olho pro orçamento e não sei onde reduzir para fazer caber em um salário menor, então gostaria que meu salário ficasse no mínimo onde ele está hoje. Mas para merecer, eu preciso trabalhar direito. Aí alguém me explica cadê o jeito de conciliar direito esse negócio de trabalho e maternidade? Como eu me livro dessa sensação diária de que não sou boa nem em uma coisa nem em outra?

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