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Essa tal de genética

Fui almoçar esses dias com um colega de trabalho que está planejando adotar. Fomos conversar sobre as dúvidas e preocupações que ele tem – sei bem que aparecem uma porção delas nessa fase. E uma das coisas sobre a qual falamos foi influência genética.

Genética pode influenciar duas coisas: o desenvolvimento físico e o comportamento. Chamei de “desenvolvimento físico” aquelas coisas que aprendemos na escola: o bebê recebe metade da carga genética do papai e a outra metade da mamãe e desenvolve características físicas semelhantes aos dois. Ter filhos parecidos fisicamente comigo e com meu marido nunca foi uma prioridade, senão não teríamos escolhido a adoção. Tenho super orgulho dos cachinhos lindos dos meus bebês e da pele mulata do meu filho e nunca fiquei pensando no que as pessoas pensam quando olham para nossa família. Simplesmente não importa. Eu não os amaria mais se eles tivessem olhinhos puxados.

Predisposição para algumas doenças é outro assunto que nunca nos preocupou. Deve haver casos de doenças graves na família biológica deles, assim como houve em nossas duas famílias também. Eu prefiro pensar que, se quisesse garantir nenhuma chance de doenças nos meus filhos, era melhor não ser mamãe. Uma vez alguém me perguntou, antes de adotar, o que eu ia fazer se meu filho precisasse de um transplante de medula óssea e não tivesse doadores compatíveis na família. Ai, gente, cada hipótese macabra, né? Estar perto da família biológica não garante doadores compatíveis também. Por que alguém fica pensando nessas coisas?

E, por fim, a gente sabe que genética influencia comportamento também. Eu até cheguei a ir no Google e digitar “influência genética no comportamento”. Encontrei milhões de estudos que pareciam ser bem confiáveis para colocar um pouco de teoria nesse post, mas desisti de estudar esse assunto. Sabe por quê? Porque também não importa. Comportamento é moldado por um milhão de fatores, e genética pode ser um deles. Mas tem também a história de vida, a relação com a família, a relação com os amigos, a personalidade, os acontecimentos da vida e por aí vai. Eu nunca conseguiria isolar o que é genético no comportamento dos meus filhos e também não sei o que faria com essa informação.

Sim, já ouvi perguntas esdrúxulas sobre esse assunto, como “e se o genitor for um criminoso e passar essa carga genética para seus filhos?”. Sempre fico um pouco brava com essas perguntas, porque parece que as pessoas acham que filho adotivo vai necessariamente dar problema e que filho biológico vem com certificado de garantia. Aí, gente, desculpa se for muito chocante, mas fiquei com vontade de contar a história mais bizarra que já vi acontecer perto da minha família.

Meus pais estudaram engenharia juntos e tinham um grande amigo super inteligente, que se casou com uma moça que estudava medicina, e tiveram dois filhos fofos. Era uma família linda. Temos fotos juntos cantando parabéns nas minhas festinhas de aniversário e brincando na piscina do sítio em domingos de sol. Um belo dia, a filha mais velha, já na faculdade, chamou o namorado e o irmão do namorado para assassinarem os pais a pauladas enquanto os dois dormiam tranquilamente em casa. Garanto que todo mundo conhece essa história. História de uma filha biológica.

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Difícil lição de casa

Hoje os bebês trouxeram a primeira lição de casa, que precisa ser entregue até segunda-feira. Eu imaginava que lição de casa para crianças com cerca de dois anos fosse alguma coisa na linha desenhar-pintar-recortar-colar, mas recebemos a missão de escrever uma redação com o tema “a história da escolha do meu nome” para cada um deles. Precisamos responder quem escolheu o nome deles e como foi feita esta escolha. Pô, escolinha. Por que complicar a vida dos papais adotantes? Podiam ter começado com “minhas férias”, né?

Nós não temos detalhes sobre a escolha do nome deles, que provavelmente foi feita pela genitora. São nomes bíblicos, mas não sabemos se foi uma escolha relacionada à religião da família biológica. Por coincidência, nossa filha tem o nome da minha avó e isso é tudo o que sabemos.

Antes mesmo de estarmos habilitados para adoção, nós já tínhamos decidido que manteríamos o primeiro nome do nosso filho quando ele chegasse, como contamos aqui. Nós achamos que é uma maneira de respeitar e não apagar a história que eles viveram antes de nos encontrarem. Além do mais, achamos que os bebês começam a reconhecer o próprio nome muito cedo e que, de alguma forma, perceberiam a mudança.

A professora deles vai ler histórias de nomes escolhidos pela mamãe, pelo papai ou pela vovó, histórias de nomes que homenageiam ídolos ou parentes queridos, histórias de bebês que só receberam seus nomes depois do nascimento porque os papais não chegaram a um consenso antes, histórias de mamães que sonharam com determinado nome desde crianças. E vão ler também a história que escrevemos, igual para os dois: a escolha do nome foi feita, provavelmente, pela genitora, mas desconhecemos as razões desta escolha. São os nomes que eles têm desde os primeiros dias de vida e nomes pelos quais serão chamados para sempre. 

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Infertilidade e adoção

No ano passado li muitos blogs de mamães tentando engravidar, porque é muito comum que elas falem em algum momento sobre adoção. Li histórias de casais lidando com infertilidade, fazendo tratamentos e passando por muita tristeza e angústia. Também conheci muitos casais que contaram histórias assim nos grupos de apoio que frequentamos.

Hoje passei por um blog que falava sobre a “decisão de amar um bebê de um estranho”. Decisão. Amar. Bebê. Estranho. Colocar essas quatro palavras na mesma frase me pareceu estranho. Então resolvi separar.

Nós tomamos a decisão de sermos mamãe e papai por adoção. Diferente da gravidez, que poderia ter acontecido por acidente, a adoção foi pensada e decidida, e tivemos que preencher formulários e entregar documentos. Mas, acima de tudo, tomamos a decisão de ter um filho. E o que queríamos era ter uma criança em casa que iria nos chamar de mamãe e papai.

E nós começamos a amar essa criança quando entregamos os documentos para iniciar o processo de habilitação. E esse amor começou a existir da mesma forma que acredito que o amor exista na gravidez: papais grávidos começam a amar seus bebês sem saber o sexo, sem saber se eles terão cabelos ao nascer, se nascerão com mais de 3Kg e 50 cm, se terão os olhos do papai ou da mamãe. Para nós foi a mesma coisa: nós não sabíamos o tom da pele, a idade exata, o sexo, a altura ou o peso, mas estávamos guardando um amor para nosso filho e esperando ele chegar.

E esse bebê (no nosso caso, bebês) são simplesmente nossos filhos. Temos certeza que são nossos filhos. Temos saudades deles quando ficamos longe. Queremos cuidar deles do nosso jeito, porque realmente sabemos que o nosso jeito é o melhor para eles. E, apesar de terem muitos cachinhos (mamãe e papai têm cabelos lisos), eles têm o nosso olhar e o nosso jeito de rir. Na última consulta médica que levei os dois, assim que entrei no consultório o médico comentou: “nossa, como eles são parecidos com você!”. Para quem não me conhece, sou mestiça, tenho olhos puxados. Meu filho é mulato. Minha filha tem cachinhos e olhos bem redondinhos. E se parecem comigo porque são meus filhos.

E não tem nada de estranho na história deles. Como na maioria dos casos de adoção, a família biológica passou por uma situação triste que os impediu de cuidar de suas crianças. Nós não os conhecemos, mas não são estranhos. São pessoas que fizeram parte da história dos nossos filhos. Também não é estranho que nossos filhos tenham vivido uma história longe da nossa família. Nós quatro fomos escolhidos uns para os outros em um determinado momento de nossas vidas, mas a história deles nunca será estranha.

Consigo entender que a adoção não seja uma decisão tão simples para quem vive a infertilidade, principalmente porque ela não resolve todas as frustrações, como não poder engravidar, não poder parir, não ter um recém-nascido em casa com o nariz do papai. Mas a adoção nos fez virar papai e mamãe e ter dois filhos, que era o que queríamos. Prefiro dizer que foi uma decisão de amar um filho. Nunca vou achar que temos “bebês de um estranho” em casa.

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Escolinha

Depois de telefonar e visitar uma dúzia de escolas, escolhemos a escolinha onde os bebês vão estudar no ano que vem, quando mamãe voltará a trabalhar.

A primeira coisa que queríamos era um lugar pertinho de casa, porque eles não precisam conviver com o trânsito de São Paulo diariamente desde tão pequenos. Isso também facilita a logística, pois papai e mamãe vão se dividir para levá-los e buscá-los todos os dias (e, eventualmente, vamos pedir um socorro para uma das vovós).

Depois começamos a avaliar as instalações, alimentação, horários e valores das mensalidades. Eles vão estudar em horário integral (sairão de casa conosco de manhã e os pegaremos no final do dia, voltando do trabalho); de manhã ficarão na recreação e à tarde farão as atividades pedagógicas. Como sabemos que é bastante tempo, procuramos uma escola com vários ambientes (além da sala de aula, brinquedoteca, parquinho ao ar livre, biblioteca, refeitório, sala de vídeo etc.), para que eles não ficassem o dia todo no mesmo lugar. Também nos sentimos mais seguros sabendo que nossos bebês estarão em uma escola pequena, que atende apenas crianças até 5 anos.

De todas, alimentação foi nossa principal preocupação. Como vão passar o dia todo, farão todas as refeições lá durante a semana (café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar) e fomos bastante rigorosos com essa questão. Descartei as escolas que disseram que oferecem sucos ou outros itens industrializados para as crianças e li o cardápio mensal de todas elas, para ter certeza que oferecem refeições variadas com muitas verduras, legumes e frutas para os alunos. A escolinha onde nossos bebês estudarão também não permite que as crianças tragam lanches de casa, para garantir que ninguém consuma guloseimas na escola.

A escolinha oferece educação bilíngue, mas optamos por pensar sobre isso um pouco mais para frente e deixá-los aprender bem a língua materna antes. Ensinar inglês para bebês de menos de dois anos nos dá a sensação de já querer prepará-los para o mercado de trabalho, então decidimos que eles farão música no primeiro ano de escola e que depois poderão entrar no judô, ballet, artes e natação.

Nós também conversamos muito sobre como seria voltar a conviver com outras crianças, em um ambiente com menos atenção individualizada, e se eles já estavam preparados para isso, pois a experiência que nossos filhos tiveram é oposta à experiência de outras crianças: eles primeiro viveram em um ambiente “coletivo”, para depois conhecer a vida só com a família. Mas concluímos que são filhos de papais que trabalham e que faz parte da nossa vida em família ir para a escolinha o dia todo. Além disso, achamos entediante para eles passar o dia todo entre o apartamento e o parquinho do prédio com apenas um adulto, principalmente em uma idade em que precisam de muitos estímulos, e temos certeza que eles vão adorar a escola.

E ficamos mais tranquilos ainda quando soubemos que há outros alunos que foram adotados e que nenhum deles passou por um período de adaptação mais difícil que os alunos que vivem com a família biológica. Estávamos com medo que eles tivessem um sentimento de abandono nos primeiros dias de aula, como se fossem voltar a viver em um abrigo. Mas a diretora nos garantiu que eles rapidamente entenderão que papai ou mamãe voltarão no final de todos os dias para buscá-los e que não ficarão inseguros. Tomara! Porque confesso que já estou com dorzinha no coração por ter que ficar o dia todo longe dos dois.

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Amor incondicional

Nós não vamos ficar escrevendo o quanto amamos nossos bebês, o quanto eles são importantes para nós, nem nenhum clichê do gênero. Nesse post queremos dizer para todas as pessoas que nos parabenizam por termos coragem de adotar nossos filhos porque elas não conseguiriam fazer o mesmo e para as pessoas que nos perguntaram como é ter um filho tão diferente de nós (se referindo ao fato de nosso filho ser mulato) que elas não sabem o que é amor incondicional. Essas pessoas amam seus filhos com a condição de que sejam filhos biológicos e que sejam fisicamente parecidos com elas. Essas pessoas provavelmente valorizam mais os “laços de sangue” que os laços de amor e carinho.

Nos últimos dias começamos a pesquisar escolinhas para nossos filhos. Liguei para várias delas para pedir informações e para todas disse que tenho gêmeos de 1 ano e 5 meses. Todas as pessoas que me atenderam – sem exceção – fizeram comentários super positivos para os gêmeos, como “que legal!”, “que lindo!” ou “que sorte!”. Nós também achamos que ter gêmeos é muito legal, muito lindo e muita sorte. O engraçado é que ter gêmeos é legal, mas ter gêmeos adotivos é coragem (como contamos nesse outro post).

O que nos incomoda não é que nem todas as pessoas queiram adotar um filho. Nós não achamos que todas as pessoas deveriam adotar. No Cadastro Nacional de Adoção (CNA) há mais de 25 mil pretendentes e cerca de 5 mil crianças disponíveis para adoção, ou seja, não há exatamente necessidade de aumentar o número de papais que querem adotar. Também concordamos que ter um filho biológico deve ser incrível, e por isso ainda não desistimos completamente de talvez-quem-sabe-um-dia ter um filho biológico. Incomoda que pessoas, muitas delas sem nenhuma intimidade conosco, façam perguntas e comentários sem pensar no que vamos sentir ou se vão nos ofender.

Para terminar, hoje um conhecido escreveu no Facebook que, ao invés de publicar mensagens divulgando cães e gatos para adoção, as pessoas deveriam lançar mensagens com fotos de crianças carentes com um texto assim: “Fui jogada na lata de lixo, preciso me alimentar, preciso também de carinho e de medicamentos. E, claro, de escola, de cultura. Você não quer me dar um lar? Eu não pedi para nascer…“. Isto ofendeu bastante. Crianças não ficam expostas na vitrine, esperando que alguém tenha dó delas e queiram fazer a caridade e o favor de levá-las para casa. Adotar um filho não é caridade e não é salvar uma criança. Adotar uma criança é amor. Incondicional.

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Adoção de irmãos

Algumas pessoas nos perguntam se nossos bebês são gêmeos mesmo. Hoje uma delas foi ainda mais específica: “era mesmo pai e mesma mãe?”. Sim, eles são gêmeos mesmo, da mesma gestação, nascidos no mesmo dia. Porque se não fosse assim, não os chamaríamos de gêmeos, certo? Algumas vezes, a pergunta que vem a seguir é: “vocês tiveram a opção de escolher só um deles?”. E essa opção não existe, não só porque eles são gêmeos, mas porque são irmãos e havia vínculo afetivo entre eles.

Na adoção, a separação de irmãos só é permitida em último caso, quando todas as tentativas de encontrar uma única família adotiva para eles tiverem sido esgotadas. Geralmente isso ocorre com grupos de irmãos muito grandes (quatro, cinco, seis…) ou com crianças mais velhas, pois é mais difícil encontrar pretendentes para esses perfis. Como essas situações são muito delicadas, a forma como as crianças são separadas é feita de acordo com a afinidade que elas têm entre elas, e não como desejam os pretendentes. E as famílias adotivas precisam assumir o compromisso de manter o vínculo entre irmãos, através de telefonemas e visitas, porque, se já é difícil lidar com a dor da perda da família de origem, romper o vínculo já construído com os irmãos seria uma segunda agressão para as crianças.

Antes de adotar, nós achávamos que a adoção de mais de uma criança seria complicado por ser mais difícil fazer aproximação e criar vínculos com crianças que sentem e reagem de forma diferente. Tínhamos medo de gostar menos de um do que do outro, por exemplo. Isso era uma grande bobagem! Cada um de nossos filhos tem a sua personalidade, seus gostos, suas manias e seu jeito de sentir e gostamos dos dois da mesma maneira. Cada vez que pensamos em como seria nossa vida com apenas um deles, percebemos que sem o outro não teria tanta graça!

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Onde encontramos os nossos filhos

Nossos brigadeirinhos chegaram através do fórum onde fizemos nosso processo de habilitação para adoção. Nós nunca visitamos nenhum abrigo para procurar nossos filhos por um motivo bem sério: as crianças abrigadas não são produtos expostos em vitrines e ninguém deve ir aos abrigos para “escolher” a mais bonitinha, mais engraçadinha, mais educadinha ou sei-lá-o-que. Um segundo motivo seria que nem todas as crianças abrigadas estão disponíveis para adoção: muitas ainda têm algum vínculo com a família biológica ou ainda estão aguardando o processo de destituição de poder familiar se encerrar.

Nós acompanhamos alguns grupos de discussões virtuais, onde eventualmente as pessoas divulgam crianças disponíveis para adoção. O GAARJ (Grupo de Apoio à Adoção do Rio de Janeiro) tem um fórum aqui e acompanhamos como “ouvintes” uma comunidade no Orkut chamada GVAA – Adoção, um exemplo de amor (como “ouvintes”, porque um dos requisitos para ser membro é ter perfil no Orkut com muitos amigos e outras comunidades – muito difícil!). Conheci uma amiga que adotou através dessas divulgações. Geralmente são crianças que não encontraram pretendentes na própria comarca e isso provavelmente aconteceu porque estão fora dos perfis mais desejados, ou seja, não são bebês, têm irmãos ou problemas graves de saúde.

O processo de destituição de poder familiar de nossos bebês foi conduzido pelo mesmo fórum onde fomos habilitados. Quando estavam destituídos e o fórum começou a procurar uma família substituta para os dois, fomos chamados. Então achamos justo dizer que foram nossos filhos que nos encontraram!

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Revelação?

O nome do post é “Revelação” seguido de ponto de interrogação porque nós não acreditamos que exista um momento de “revelação” na adoção.

Revelação nos dá a ideia de contar alguma coisa que antes era desconhecida ou secreta. E adoção nunca será secreta na nossa família por vários motivos, e vou destacar dois deles. Primeiro, nós temos um número bastante grande de familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e conhecidos. Nenhuma dessas pessoas vai me ver grávida e, portanto, saberão mais cedo ou mais tarde que nosso filho chegou em nossa família através da adoção. Se não vamos esconder a adoção dessas pessoas todas, porque esconderíamos da pessoa mais importante das nossas vidas – nosso filho? Em segundo lugar, porque nós queremos ensinar nossos filhos a não mentirem. E não faria sentido começarmos a educação deles mentindo sobre a própria história deles. Então, se nunca será secreto, nunca haverá a revelação.

Por outro lado, nós também acreditamos que a criança não deve receber mais informações do que ela é capaz de entender. Isso significa que não pretendemos sentar com uma criança pequena e contar toda a história da família biológica e como foi decidido que os genitores não poderiam mais cuidar dela. Acreditamos, sim, em uma fórmula simples: não esconder, não mentir e responder exatamente aquilo que a criança nos perguntar. E sempre que sentirmos que ela está madura, preparada e curiosa por mais informações, contar um pouquinho mais sobre a história. Queremos também que ela não tenha raiva ou mágoa da família biológica. Ainda não sabemos a fórmula para esse ponto, mas a primeira ideia é nunca falar mal deles ou criticá-los.

Ao completar 18 anos, o filho adotivo tem o direito de conhecer toda sua história. Ele pode ir ao fórum e ter acesso irrestrito ao processo de destituição do poder familiar pelo qual passou antes da adoção. Não significa que ele não possa conhecer a história em detalhes antes dos 18 anos; ouvi algumas famílias que fizeram uma cópia de todo o processo para poder mostrar aos filhos adotivos quando acharem que estão preparados para isso. E nós concordamos com essas famílias: ainda não sabemos se vamos querer ter cópia desse processo em casa, mas com certeza conheceremos esse processo antes da adoção e vamos dividir com ele todas as informações que tivermos. Nós apoiaremos o direito de ir ao fórum e ler o processo. Mas também preferimos que ele saiba por nós. Principalmente porque, se ele ficar triste com a história, vamos estar ao lado dele.

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Comentários sobre adoção

Depois do episódio com o Dr. Geraldo, médico da nossa família que teve uma reação bastante negativa quando contamos da adoção, nunca mais – ainda bem! – ouvimos comentários negativos sobre o assunto. Nas demais vezes, quando contamos que vamos ser mamãe e papai e que já estamos esperando nosso filho, recebemos parabéns, abraços e desejos de felicidades!

Apenas duas vezes, no ano passado, ouvi duas coisas sobre adoção que não gostei, mas não foram diretamente para mim, pois as pessoas não sabiam que estávamos pensando em adotar. Uma dessas pessoas me disse que não acreditava em adoção porque conhecia um caso de adoção que não deu certo. Na hora, pega de surpresa, respondi que eu conhecia muitas histórias lindas de adoção: uma prima que foi adotada, uma grande amiga da minha mãe que adotou uma menina, além de três amigas que também adotaram e são muito felizes. Depois conversei com meu marido e ficamos pensando que eu devia ter respondido que “adoção que não deu certo” é despreparo dos pretendentes, que provavelmente não tiveram amor e paciência para lidar com as reações e comportamento da criança e que não se prepararam antes de resolver adotar. E, além disso, também conhecemos várias histórias de casamentos que não deram certo e nem por isso deixamos de nos casar.

Às vezes os comentários não são maldosos, mas são errados. Por exemplo, não gostamos quando as pessoas nos dizem “que coragem!”. Coragem é enfrentar o perigo ou fazer alguma coisa ousada. Ser mamãe e papai não é perigoso e ser papai adotante não é mais ousado que ser papai biológico. Então não é coragem, é só amor. Também não estamos fazendo nada “nobre”, como se estivéssemos fazendo caridade ou salvando a criança. Vamos ser pais, só isso. Nós também não entendemos quando nos perguntam porque não queremos um filho biológico antes. Os dois serão nossos filhos, então a ordem de chegada não faz diferença.

Mas ficamos tristes quando ouvimos histórias de colegas dos grupos de apoio que já ouviram comentários maldosos ou preconceituosos, como “vocês não têm medo que a criança tenha a índole dos pais biológicos?” e “o que vocês farão se a criança quiser conhecer os pais de verdade?”. A criança será um reflexo de sua família e da educação, carinho e amor que receber, então não há motivos para temer que ela “puxe” a índole dos genitores. Sim, ela terá a carga genética deles, mas não podemos afirmar que é melhor ou pior que a nossa própria carga genética. E os “pais de verdade” seremos nós dois, assim como a “família de verdade” será a nossa. No entanto, não temos medo de que ele queira procurar a família biológica. Apoiaremos o direito de nosso filho de procurar os genitores quando for adulto, pois é um direito dele e não faz sentido termos ciúmes ou impedir isso.

Adotar é amar um filho, exatamente o mesmo conceito que todos conhecem quando pensam em filhos biológicos. Nosso filho vai viver um amor assim: imenso e incondicional. A partir de agora que recebemos a habilitação, mais pessoas saberão que estamos esperando nosso filho. E estamos torcendo para ouvirmos só comentários carinhosos.

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Perfil

Definir o perfil do filho que estamos esperando foi uma das etapas mais difíceis até agora. Primeiro porque é uma decisão que precisa ser tomada em conjunto e cada um de nós tem suas vontades e seus limites. E, em segundo lugar, nós não imaginávamos que teríamos que pensar sobre determinados assuntos e critérios que são detalhados no cadastro do fórum.

Os itens que formam o perfil variam de fórum para fórum. No nosso fórum, junto com a assistente social definimos a primeira parte do perfil: sexo, cor (branca, preta, parda, amarela, indígena ou indiferente), faixa etária e se aceitávamos irmãos (gêmeos ou não). No caso de irmãos que não sejam gêmeos, é preciso definir o perfil do(s) irmão(s) também.

Queremos uma criança ou gêmeos. Nós não temos preferência por menino ou menina – seremos felizes sendo papais de meninos, meninas ou casal. Também achamos que não faz o menor sentido restringir cor de pele. Foi um pouco mais difícil definir a faixa etária. A princípio, sabíamos que queríamos uma criança pequena, mas não fazíamos questão de bebezinho. Mas é preciso definir o limite inferior e superior da faixa etária com anos e meses. Se o adotante define limite superior 2 anos e zero meses, ele não será consultado para crianças com 2 anos e 2 meses, por exemplo. E é muito difícil dizer que queremos uma criança com determinada idade e não uma criança apenas alguns meses mais velha. Fomos e voltamos nessa discussão até definirmos que nosso filho chegará com idade entre zero meses e 3 anos e zero meses.

Além disso, junto com a psicóloga tivemos que responder se aceitávamos:

– Problemas físicos não tratáveis

– Problemas físicos tratáveis graves

– Problemas físicos tratáveis leves

– Problemas mentais não tratáveis

– Problemas mentais tratáveis graves

– Problemas mentais tratáveis leves

– Problemas psicológicos graves

– Problemas psicológicos leves

– Pais soropositivos para o HIV

– Pais alcoolistas

– Pais drogaditos

– Sorologia negativada para o HIV

– Soropositivo para o HIV

– Proveniente de estupro

– Proveniente de incesto

– Vítima de atentado violento ao pudor

– Vítima de estupro

– Vitimizada (maus tratos)

Nós recebemos uma cópia da ficha no dia em que entregamos a documentação e achamos difícil de entender o que todos esses itens significavam. Não há uma lista exaustiva que nos indicasse quais doenças são classificadas como graves ou leves, por exemplo. Então, aproveitamos o tempo que tivemos até as entrevistas para pesquisar: procuramos sites e fóruns de discussão sobre adoção na internet e conversamos muito com as pessoas dos grupos de apoio.

Uma das coisas que aprendemos é o que significa “sorologia negativada para o HIV”. Crianças geradas por mães soropositivas nascem com os anticorpos da mãe e a sorologia para o HIV dessas crianças será positiva por cerca de 18 meses. Após esse período, a criança não terá mais anticorpos da mãe e, se não tiver sido contaminada, os exames passarão a ser negativos. Ou seja, “sorologia negativada para o HIV” significa que a criança tem mãe soropositiva mas nunca foi contaminada.

Eu e meu marido decidimos que não faria sentido fazer restrições aos pais biológicos do nosso filho e dissemos “sim” para todos os itens relativos a eles ou sobre a forma como a gestação aconteceu. E para os demais, foram horas e horas de conversas e achamos que o melhor é sermos honestos com nossos limites. No cadastro final, dissemos “não” para 6 dos 18 itens.

Segundo levantamento do Conselho Nacional de Justiça feito em maio de 2012, 91% dos pretendentes aceitam adotar crianças brancas, 62% aceitam crianças pardas e apenas 35% aceitam negras. 33% deles querem apenas meninas – há uma falsa impressão que meninas são mais boazinhas e se adaptarão mais facilmente. E, como nós, a maioria quer adotar apenas uma criança (82%) com até 3 anos de idade (76%).

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