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Bad decision

Quando Isaac começou a falar e a cantar, ele já tinha aprendido a “se ninar” sozinho. Eu o colocava na cama, dava beijinhos e carinhos, dizia boa noite e ele ficava no escurinho até dormir. Sempre foi muito tranquilo. As musiquinhas vieram e começaram a fazer parte deste ritual só dele: depois que eu saía do quarto, ele cantava para si próprio uma musiquinha fofa de criança e logo dormia. Era uma fofura só. Tanta fofura que às vezes eu até ficava do lado de fora do quarto ouvindo a musiquinha fofa dele.

Não ter feito alguma coisa para ele mudar este processo foi a pior decisão que tomei. Se tem algo que eu queria ter feito diferente é a musiquinha da noite. Gente do céu, que coisa.

Hoje Isaac é uma criança de quase cinco anos com uma voz que chega no térreo. Hoje nosso apartamento é menor e os quartos são colados um no outro, então Isaac canta e Ruth grita pra reclamar que não consegue dormir. As musiquinhas não são exatamente fofas: às vezes rola um “livre estoooooooooooooouuuuuuuuu”, às vezes rola uma funkeira insuportável sobre a qual já falei aqui, às vezes algumas composições próprias. E ele também não canta mais UMA musiquinha; ele canta umas DOZE.

Aí todos os dias eu tenho que conversar com ele sobre os motivos pelos quais ele não pode cantar para dormir. Explico, explico, explico. Saio do quarto e ele volta a cantar. Volto pro quarto, saio do quarto, volto lá, e assim seguimos na cantoria diária até ele capotar de sono. Já me ofereci várias vezes para ficar com ele fazendo carinho até ele dormir, mas ele não quer; me diz para eu sair e deixá-lo cantar. Ele já me prometeu cantar bem baixinho, mas ele se esquece de cantar baixinho em 30 segundos e logo o porteiro volta a ouvi-lo. Acho que passei um ano achando a musiquinha da noite fofa e estou há mais de dois tentando me livrar dela. Aí hoje ele me disse assim: “mas é que eu gosto de cantar no escuro sozinho e quando eu era pequeno você deixava”. Mano, que memória. Por quê, meldels, por quê?

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A vida muda, e depois melhora

Há pouco tempo estava conversando com uma amiga e ela me disse que achava incrível como a natureza prepara as mulheres para virarem mães. Que no início da gravidez ela sentia muito sono e cansaço e ficou mais caseira, como se o corpo estivesse se preparando para a pausa nas baladas. E que no final da gravidez ela não conseguia mais dormir direito por causa da barriga enorme, como se o corpo estivesse se preparando para as mamadas noturnas e tudo mais.

Quando a gente adota não acontece nada disso, tá?

Eu tava lá trabalhando 14-16 horas por dia e saindo para jantar depois e acordando cedo para malhar e viajando aos finais de semana e meu corpo não mudou nada e eu estava fazendo o que desse na telha. Daí eles chegaram.

Não vou mentir. A vida muda muito com a chegada dos filhos. Tem que mudar. Nenhuma vida sem filhos pode ser igual a uma vida com filhos, as coisas mudam. Os horários, as preocupações, as tarefas domésticas, o sono, as prioridades, tudo muda.

Eu senti muito essa mudança toda. Não só porque adotei e não tive nove meses de preparação física, mas porque minha vida era bem diferente. Coisas que foram chocantes para mim:

  • Rotina. Durante a licença maternidade, ficávamos em casa todos os dias. E todos os dias, incluindo finais de semana e feriados, era aquela mesma coisa: eles acordavam cedo (gente, 6h no sábado, gente), eles tinham que fazer mil refeições todos os dias (não tem essa de almoçar amendoim e depois inventar um almojanta, sabe?), se dormissem tarde ou pulassem o sono da tarde ficavam irritados, e mais uma porção de coisas diárias que eu tinha que seguir. Eu estava acostumada a acordar cada dia em um horário, a voltar para casa cada dia em um horário, a almoçar quando desse fome e por aí vai.
  • Sair do trabalho às 18h. No início, era o máximo que eu podia ficar no escritório para chegar na escola no horário certo e já contei aqui, aqui e aqui como esse processo todo me estressava.
  • Ficar em casa todas as noites. Eu gostava de jantar fora, gostava de ir ao cinema à noite, trabalhava até tarde sem reclamar. Ter que voltar para casa e depois ter que ficar em casa até o dia seguinte foi algo bem difícil.
  • Ter preguiça de sair de casa. Porque eu tinha que levar uma mala com tudo que poderia precisar para cuidar deles, porque eu tinha que levar duas crianças e porque eu não podia relaxar e tirar o olho deles um único minuto. Dava muita preguiça.
  • Ser tirada do trabalho no meio do dia. Não sei por que eu tive a doce ilusão que crianças iam para escola e que mães iam trabalhar normalmente. Em meus sonhos, nenhuma escola me ligaria para nada e eu nunca teria que sair correndo para socorrê-los.
  • Mudar totalmente o lazer: comer fora era diferente, viajar era mais difícil, cinema exigia um planejamento muito maior que comprar ingresso e ir (com quem vão ficar? que horas dá para ir? preciso fazer mala para deixar na vó?), ir a uma festa de casamento parecia impossível.
  • Ter que fazer (aka responsabilidade): parece básico, mas funciona assim: se não der banho, eles não tomam banho. Se não escovar os dentes, eles não escovam sozinhos. Se não trocar a fralda, vaza tudo na roupa. Se não levar no médico, perde o timing das vacinas. Se não fizer comida, morrem de fome. Se não compra roupa nova, eles saem por aí com calças curtas e camisetas baby look. Cara, é muito processo. É muita coisa para fazer.

Mas aí tudo melhorou. Não sei se foi a idade (love you, 4 anos), não sei se foram todas as mudanças que fiz na minha vida para me entender com todas as mudanças que meus filhos trouxeram, não sei se simplesmente entrei no esquema.

Em pouco tempo, estar em casa no final do dia não era uma obrigação, mas, sim, o maior prazer do meu dia e comecei a querer chegar cada vez mais cedo. Eles dormem e eu fico em casa sem nenhuma ansiedade. Durante um tempo eu tinha uma folguista para poder sair no sábado à noite enquanto eles dormiam, mas tem uns seis meses que não a chamo. Simplesmente gosto de estar na minha casa e de ir até o quarto deles caso precisem de alguma coisa. E gosto de passear com eles e de levá-los junto comigo. Escolho filmes e peças infantis e me divirto muito, planejo viagens, levo em festas, frequentamos restaurantes e até levei os dois em eventos da empresa do namorado. Eles fazem parte de mim e damos um jeito de adaptar o programa para crianças. Hoje eu já não sinto mais o “não posso”, “não vai dar”, “vai ser muito difícil”. Pelo contrário, eu acho que posso fazer o que eu quiser de novo.

Minha vida é muito melhor que há 3 anos e meio atrás. A sensação que tenho em relação à minha vida pré-filhos é a mesma que tenho com relação aos meus anos de colégio: morro de saudades de só estudar, dos amigos da época e dos papos que eu tinha na época, das preocupações com as provas e ficantes, das tardes livres, mas não me vejo jamais experimentando essa vida novamente.

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Brilha brilha estrelinha

Ela me chamou no meio da madrugada e lá fui eu com aquele mau humor padrão. Abri a porta do quarto e tudo brilhava muito.

Explico: ela estava usando um pijama que brilha no escuro e colocamos estrelas no teto que também brilham. Mas só brilham depois de ficarem um tempo expostos à luz, então eu saquei:

– Ruth, você estava com a luz acesa? Por que acendeu a luz?

– Mamãe, você não gosta que eu te chame para fazer coisas fáceis, então acendi a luz e arrumei o travesseiro, o Olaf e o cobertor sozinha. Mas agora quero fazer xixi e preciso de ajuda. Me leva no banheiro?

Ruth, você é genial. Queria ser madura assim como você é. Um dia vou te esmagar de verdade se você não parar de ser fofa.

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Desfralde noturno

Confesso: enrolei muito. Minha filha já estava madura para o desfralde noturno há um tempo (eu acho, não dá pra ter certeza), mas eu esperei o inverno acabar, esperei o verão chegar de vez, esperei as férias, esperei mais umas semanas, respirei fundo e tiramos a fralda da noite.

Foi simples e ela se saiu bem. Alguns escapes, nada de outro mundo. Mas essa história de levar criança pra ir ao banheiro meio dormindo é dose. Desfralde noturno acaba com a paz. A criança tá lá bem linda dormindo a noite toda e você inventa um intervalo, um “levanta da cama e vamos ao banheiro” e fica rezando pra ela não inventar de acordar de vez no meio da madrugada (nunca aconteceu). Nas primeiras semanas, eu colocava despertador no meio da madrugada pra checar se ela estava seca, uma crueldade pra quem acorda religiosamente todo dia às 6h. Não gosto nem de lembrar.

Agora estamos bem acertadas. Ela dorme cedo e eu a levo no colo para um xixi antes de eu deitar. Ainda não estou 100% confiante que ela aguenta 10-12 horas seguidas e prefiro fazer a voltinha ao banheiro enquanto ainda não dormi, para não interromper meu sono. Ela dificilmente me chama depois disso e tá tudo lindo.

Mas eu tenho gêmeos. Falta o outro. Meu filho não tá tão pronto, porque ainda deixa escapar xixis na calça com frequência durante o dia. Então eu pretendia esperar o tempo dele, com calma, talvez no verão que vem. Mas ele cresceu e não há fralda que aguente a noite toda. Molha pijama, molha cama, mesmo com fralda. Não temos água em São Paulo, não dá pra ficar lavando lençol todo dia. Eu poderia trocar a fralda dele no meio da noite, mas já basta a hora extra de fraldas noturnas para impactar o meio ambiente. Então, lá fui de novo, mas desta vez fiz diferente: nós combinamos que a fralda tem que acordar seca. Que não pode molhar a fralda. Que tem que me chamar pra fazer xixi. E ele topou o desafio. E cá estou eu sendo chamada de madrugada para xixis, saindo do quarto feito zumbi.

Não gosto de acordar no meio da noite. Ninguém gosta, né? Eu não consigo esconder meu mau humor. Só não vou reclamar porque estou sofrendo com isto só depois de quase três anos de maternidade. Para todas as mamães cujos bebês demoraram para começar a dormir a noite toda, meu abraço apertado e carinhoso. Vocês merecem.

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Colo

Mamãe sentada numa poltrona na casa da minha vó, cochilando, tipo velhinha depois do almoço, sabe?

– Mamãe, você tá com sono? Quer nanar no meu colo?

– !

Alguém recusa uma oferta dessas? Ele sentou no sofá, acomodou os brinquedos e deixou as perninhas livres. Deitei e dormi. Com cafuné. Meia hora. Até sonhei. Quem conhece meu filho sabe bem que foi a primeira e única vez que ele ficou sentado meia hora. Só saí de lá porque ganhei um beijo na boca do meu labrador.

E agora eu só penso em voltar pra casa todo dia e dormir no colo dele de novo.

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Apaga a luz

– Filha, arruma logo suas coisas pra dormir, que a mamãe vai apagar a luz.

– Precisa apagar a luz?

– Sim, não pode dormir com a luz acesa.

– Senão fica com dor de barriga, né?

Hein?

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No escuro

Agora ela inventou essa: assim que apago a luz para dormir, vem o escândalo. “Fica aqui, dorme aqui, não vai embora, não me deixa, buááááá”.

Só que é assim. Ela está alimentada, de banho tomado, de pijama quentinho, deitada em sua caminha, enquanto eu estou com fome, com vontade de fazer xixi (tem que fazer saindo do trabalho, Ruri), morrendo de frio porque estou de shorts e descalça (dei banho e não deu tempo de me trocar), cansada, descabelada.

Eu estava em pé no quarto dela, ao lado da cama, no breu, tentando conversar, avisando que era hora de dormir e que não dava mais para ficar ali, fazendo força para não perder a paciência, e ela berrando berrando berrando. Trancar no escuro chorando, não gosto, não. Dei um passo para trás na direção da porta e ela não podia ver, continuou berrando. Alcancei o interruptor. Acendi a luz.

Cara.

Que ódio.

No momento em que a luz acendeu, fiquei cara a cara com uma menina com cara de gargalhada, imitando um choro, se contorcendo para não dar na cara que estava rindo de mim. Nem disfarçou, começou a rir de verdade.

Gata, hoje você não iria conseguir entender a história do menino que fingia se afogar no lago, então não te contei. Mas é isso aí. Não vem tentando manipular, não, que quando você nasceu eu já tinha vivido 30 anos.

Humpft.

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Hora de dormir

Eu estava há 20 minutos no quarto da minha filha, no escuro, tentando me desvencilhar dela para que ela pudesse dormir e para que eu pudesse fazer outras coisas. E ela num “só mais um beijinho, só mais um carinho, dorme aqui comigo” infinito. Até que eu implorei:

– Filha, vamos dormir, você na sua cama e eu na minha cama. Mamãe está muito cansada, preciso ir dormir lá no meu quarto.

– Tá, mas não vai dormir sem tomar banho, que você tá fedida.

Notas para mim mesma: 1) fica tranqüila, que se você estivesse realmente fedida, ela não ia te abraçar e deixar você deitar na cama dela, 2) pára de dizer que está na hora do banho porque eles estão fedidos que uma hora isso vai ser usado contra você em público.

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Honestidade de pai

Frase de um amigo meu durante o jantar:

– Eu amo muito minha filha. Nunca tinha amado uma pessoa desse jeito. Amo mais que qualquer coisa. Mas é tão bom quando ela dorme!

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Namorar e casar

Antes de dormir:

– Mamãe, eu quero ser seu namorado.

Agarrei, amassei, apertei. Amo esse menino carinhoso que escolhe as coisas mais fofas para dizer para a mamãe. Aí eu respondi:

– Casa comigo, então?

– Ah, casar não posso.

– Por que não pode? (aquela cara de “tomei um fora”)

– Porque eu tô de pijama, mamãe. Só posso casar com roupa de festa. Boa noite, vou nanar.

Fugindo de compromisso sério desde cedo, filho?

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