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O que fazer durante a espera

A vida me trouxe muitas amigas que estão na fila de adoção. Eu não tive muito tempo de espera, mas consigo imaginar o quanto deve ser angustiante não saber que tempo é esse. A gestação biológica é mais regrada: são nove meses, você tem que fazer essas x coisas nos primeiros três meses, depois outras w coisas nos próximos três meses e use os três meses finais para z, aí o bebê chega e pronto. Na adoção não é assim, porque a espera não tem tempo definido e a gente não sabe o que fazer antes de a criança chegar, até porque muitas vezes a gente não sabe nem que idade a criança terá. Então, além das dicas clássicas como ler bastante sobre maternidade e sobre adoção, frequentar grupos de apoio e controlar a ansiedade, resolvi montar uma lista de coisas que eu queria ter feito mais antes de adotar.

  1. Vá muito ao cinema. Muito. Vá na terça à noite, sábado à tarde, domingo último horário. Assista filmes não recomendados para menores de 18 anos e legendados.
  2. Faça maratonas de séries no sofá. Não vale um capítulo por dia, assista 7 capítulos de uma vez só. Assista séries com sexo, palavrões, violência, nudez, drogas, álcool e assista tudo legendado. Fique lembrando que quando a criança chegar, seu Netflix só te recomendará coisas coloridas, fofas, inocentes e dubladas.
  3. Faça viagens bem difíceis. Resort all inclusive é muito fácil e você vai conseguir fazer isto com crianças. Faça treckings super longos, pegue um avião por 12 horas para passar um feriado na Europa, vá acampar sem banheiro ou chuveiro, saia do hotel às 7h da manhã para visitar oito pontos turísticos, emende no jantar e vá dormir meia noite, faça uma road trip de dias e dias, parando em motéis de beira de estrada.
  4. Faça muito sexo gemendo alto, ou gritando se você quiser. Você vai continuar a fazer sexo com a maternidade, mas sempre com o rosto enfiado no travesseiro e com a mão na boca dx parceirx pra não fazer barulho. E o mais assustador não é o medo de a criança perceber que os adultos estão fazendo sexo, porque ela não sabe o que é isso. Meu medo é que eles achem que estou me machucando e fiquem apavorados.
  5. Faça sexo às três da tarde no sábado. Bem no meio do dia.
  6. Faça sexo assim que acordar sem nenhum medo de alguém bater na porta e perguntar se já está na hora de acordar.
  7. Faça sexo com a porta aberta, principalmente quando estiver bastante calor, porque a janela já tem que ficar fechada pra não dar show pros vizinhos e você vai passar a vida no sexo-sauna.
  8. Durma até meio-dia.
  9. Acorde cedo, tome café, volte pra cama e durma até meio dia.
  10. Pense em um horário bem bizarro para tomar banho, resolva tomar banho e tome um banho.
  11. Faça cocô pensando como é legal fazer cocô sozinha no banheiro, com a porta fechada, sem ninguém batendo. Mesmo que ninguém esteja batendo, pense como é bom não estar preocupada se alguém vai derrubar a TV da sala no chão ou pular da janela.
  12. Coma o que quiser a hora que quiser e fique feliz com isso. Sério. Jante pipoca. Coma feijão no café da manhã. Porque não é só o exemplo que a gente quer dar para que os filhos se alimentem bem. Eu morro de medo que eles cheguem na escola e digam para a tia que a mamãe jantou banana com pasta de amendoim e sakê.
  13. Entre no restaurante e fique o tempo todo pensando como é maravilhoso se preocupar apenas com o que você vai comer. Demore bastante pra escolher o prato, faça perguntas pro garçom, peça só uma entrada e deixe pra escolher o prato principal só depois de uma hora. Quando seu prato chegar, olhe bem pra ele quentinho e pense como é bom não ter que cortar a comida de alguém, não ter que dar comida na boca de alguém, não ter que limpar nada, não ter ninguém enfiando o garfo babado no seu prato, não ter que se levantar pra limpar cocô no meio da refeição.
  14. Tome um porre na quarta, chegue em casa sem sapatos e não seja julgada.
  15. Saia do trabalho e não vá direto pra casa. Vá no mercado, farmácia, shopping, bar, balada, cinema, casa de alguém, centro espírita, sei lá. Não volte correndo pra casa.
  16. Acorde às 5h da manhã e vá correr na rua (ou andar de bicicleta, patins, sei lá). Acorde às 5h e saia de casa sem se preocupar que alguém vai acordar sozinho em casa e que isso é abandono de menores.
  17. Escolha uma atividade física que você goste e invista nisso (ou siga fazendo o que você já faz e gosta). Na maternidade fica mais difícil ter tempo e pique para exercícios e vai ser ótimo já ter este hábito.
  18. Tome cerveja no jantar de quinta e não seja julgada.
  19. Deixe alguma coisa pequena e de valor em cima da mesa de jantar e comemore o fato de ela ainda estar lá dois dias depois (vale brinco, anel, abotoadura). Porque o duro não é só perder uma coisa de valor. O duro é ficar revirando cocô durante dias com medo de a criança ter engolido aquela coisa.
  20. Sente num boteco na segunda e coma frituras com caipirinha falando sobre política. Fique mentalizando um “não preciso voltar pra casa”.
  21. Se curte um panelaço, aproveite agora. Entre muitas coisas que me fazem ter ódio dos panelaços é que eles sempre acontecem depois do horário de dormir e minhas crianças acordam assustadas e com medo. Idem para gritar gol do curintia e soltar fogos na quarta à noite.
  22. Falando em panela, aproveite para se afastar de panelas de pressão. Panela de pressão vai ser sua melhor na amiga na maternidade e você vai cansar do medo de explosão, das explosões porque não fechou direito, daquela sujeira toda na válvula. Ou já invista em uma panela de pressão elétrica, que o retorno vai ser bom.
  23. Se você é workaholic, trabalhe muito. Trabalhe até tarde, peça pizza no escritório, fique lá até duas da manhã e faça o barulho que quiser quando entrar em casa, porque ninguém vai acordar (e se x parceirx acordar, é um adulto que rapidamente dorme de novo).
  24. Vá pra balada. Escolha uma festa estranha com gente esquisita na segunda, porque você nunca vai encontrar nenhuma avó com vontade de cuidar de neto na segunda. Vá pra balada, volte pra casa apenas para trocar de roupa e tentar tirar o rímel, chegue acabada no trabalho e não seja julgada.
  25. Queria fazer o 25 só pra ter um número redondo, mas não pensei em nada. Acho que poderia ser um VIVA INTENSAMENTE A VIDA SEM FILHOS.

E lembre-se sempre que a vida fica bem melhor depois que eles chegam. Boa sorte!

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Manual de etiqueta para lidar com um adotante

Aconteceu hoje de manhã. São três anos como mamãe adotante, e três anos ouvindo perguntas indelicadas sobre adoção. Eu nunca dei uma resposta mal educada, porque sempre quero acreditar que a pessoa não pensou na gafe que estava cometendo ao perguntar. Mas espero que esse manual ajude a dar mais noção para quem quer conversar sobre adoção por aí, principalmente para quem for conversar com alguém com quem não tem nenhuma intimidade.

– Ah, eles são adotados. Então você não teve filhos?

Mano, como assim não tive filhos? Não estamos justamente falando sobre os meus FILHOS? Como você me pergunta se não tive filhos, pessoa?

– Mas você não quis ter filhos seus?

Eles são meus. Muito meus. Têm meu sobrenome. Meu nome está em todos os documentos deles. São MEUS pra caramba. E é irrevogável. São meus filhos e não deixarão de ser meus nunca.

– Mas você não quis/ não pôde engravidar?

Eu, particularmente, não quis engravidar, nem sei se posso engravidar, e não tenho problemas em falar sobre isso. Mas pense no que acontece para alguém não poder engravidar: 1) a moça não tem um parceiro para engravidá-la, 2) a moça não tem um parceiro para engravidá-la e não tem recursos para fertilização, 3) a moça não pode engravidar por alguma questão de saúde, 4) a moça pode engravidar, mas tem alguma doença que pode ser transmitida para o bebê e prefere não fazer isso, 5) a moça engravidou naturalmente e perdeu o bebê (uma vez, algumas vezes), 6) a moça fez diversos tratamentos para engravidar e não conseguir engravidar, 7) a moça não gosta de fazer sexo, e é preciso fazer sexo para engravidar por vias naturais, 8) <insira aqui outro motivo>. Qualquer coisa que tenha acontecido para alguém não poder engravidar é ÍNTIMO. Você, que não tem nenhuma intimidade com esta pessoa, não deveria ficar investigando estas questões. Às vezes dói, constrange, incomoda falar. Por favor, nunca mais façam essa pergunta.

Só para constar: não querer ou não poder engravidar não tem nada a ver com adotar. As pessoas podem querer engravidar E adotar, e pronto.

– E você conhece os pais deles?

Conheço. A mãe sou eu e o pai é meu ex-marido. Você se refere aos genitores? Por que essa informação é relevante na sua vida?

– E eles sabem que são adotados?

Cara, você que me fez essa pergunta certamente não é alguém próximo em minha vida. Então, raciocine: por que eu contaria para você um segredo que tento esconder de meus filhos? Você acha que tem algum privilégio para guardar uma informação que meus filhos não podem ter? Jura?

– E você não tem medo de <insira aqui alguma bobagem>?

Não. Eu não tenho medo de doenças, riscos, coisas que podem acontecer, problemas, traumas ou qualquer coisa que você esteja prevendo. Se eu tivesse – não há mal nenhum em ter medos na vida – certamente não estaria a fim de dividi-los com você. É íntimo e não temos intimidade.

Mamães e papais adotantes, mais alguma pergunta irritante que vocês costumam ouvir por aí?

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Nossa história

Minha irmã teve bebê. Os meus bebês acompanharam todo o processo de bebê na barriga, nascimento, a chegada da prima, a amamentação. Esses dias minha irmã questionou:

– Se um dia eles me perguntarem sobre gravidez ou amamentação, digo o quê?

– A verdade. Nossa história, como sempre conto para eles.

Eles conhecem nossa história, mas não sei ainda o quanto entenderam. Não sei se já perceberam que existem dois processos para “virar filhos”: a barriga e a adoção. Não insistem muito nesse assunto ainda, então também não forço. Não tem nada escondido, nenhuma mentira, mas também não sinto necessidade de falar sobre a chegada deles todos os dias. É natural, falamos quando o assunto surge, quando perguntam, quando olhamos fotos.

Eu adoro ter adotado. Hoje em dia, tenho curiosidade sobre engravidar apenas para confirmar que o amor é exatamente igual. Porque eu duvido que seja possível amar mais uma outra criança do que amo esses dois monstrinhos. Eu não consigo imaginar mais amor do que já tenho em casa.

Quando vocês nasceram, vocês vieram da barriga de uma moça, que não tinha uma casa e não podia cuidar de vocês. Ela queria, mas não podia. Vocês foram então morar em um abrigo junto com outras crianças e com tias que cuidavam das crianças. Um dia a mamãe foi visitar vocês lá e perguntou se vocês queriam ser meus filhos, e vocês olharam com olhinhos de “sim”. Nós adotamos vocês. E vocês viraram os bebês da mamãe e passamos a viver juntos e a ser uma família.

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Há dois anos

Há dois anos, Isaac e Ruth me escolheram para ser mãe e vieram morar junto comigo. Nesse dia eu deixei de ser uma pessoa sem filhos e virei mãe. Eu morri e renasci nesse dia. Morri, porque nunca mais vou ser quem eu era. Renasci, porque ganhei uma nova vida e tive que reaprender a viver.

Eu era egoísta, no sentido mais literal da palavra. Eu era a pessoa mais importante da minha vida. Tudo que eu fazia era para ME sentir bem: saía quando eu quisesse e para onde eu quisesse, trabalhava até a hora que achava conveniente, gastava dinheiro com as coisas que me deixavam (ou eu achava que) me faziam feliz. Tinha liberdade para ir e vir. Organizava minha rotina do jeito que achava mais bacana para mim mesma: a hora de ir na academia, a hora de sair para ir ao trabalho, a hora de voltar para casa, a hora de comer (ou não comer), a hora de acordar. Queria ser diretora, depois VP, depois CEO de empresa, porque estava na hora de investir na carreira.

Como mãe, eu me preciso me adaptar o tempo todo em minha própria vida. Eu quero que eles estejam felizes, que tenham todas as coisas que precisam, que tenham saúde, que sejam educados, que brinquem bastante. Eles têm seus horários para acordar, dormir, comer, ir para escola, voltar da escola e eu preciso respeitar. Monto meus horários só depois de organizar as coisas que eles vão fazer. Só tomo banho, janto, volto a trabalhar ou vou fazer qualquer coisa que gosto de fazer quando eles vão dormir. É difícil encontrar tempo para malhar. Se acontece qualquer coisa inesperada com eles (um dodói, uma ligação na escola, algum comportamento diferente) paro tudo o que estou fazendo para atendê-los. Saio do trabalho todos os dias apressada, porque quero chegar em casa o mais rápido possível para ficar com os dois. Depois fico em casa de vigia, zelando o sono deles. Acordo todo dia no mesmo horário porque eles têm hora certa para ir para a escola. Não posso aceitar convites para um HH depois do trabalho, porque meus filhos me esperam em casa. Por que você não os deixa dormir com a babá? Porque sou eu quem os coloca todos os dias na cama, não abro mão, faço questão.

Como mãe, mudei o jeito como encaro minha carreira. Hoje sou diretora, por acaso, mas o mais importante hoje é realmente me divertir no trabalho, senão não vale a pena passar o dia todo longe deles. Não faço coisa chata e sem sentido, não fico até tarde no escritório e não perco tempo com cafés demorados ou bobagens na internet porque preciso ser muito produtiva nas (só e somente só) 8 ou 9 horas que tenho por lá.

Passei a ter mais medo. Tenho medo de morrer e deixá-los sem mamãe. Tenho medo de que não sejam felizes, tenho medo de errar na educação, tenho medo de não ser boa mãe.

Quando virei mãe, ganhei muito mais amor. O meu e o deles. Aprendi a ter família, a pensar sempre em três, a chegar em casa e encontrar luzes acesas, bagunça e amor. Aprendi a ter pessoas dependendo de mim, precisando de mim, me querendo por perto e a achar isso muito legal. Aprendi a amar, a me dedicar, a cuidar de alguém.

Nunca mais serei só eu. Eu sou três. Ruri + Isaac + Ruth.

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Bebês da mamãe

Eu fiz uma perguntinha boba para os dois:

– Quem são os bebês da mamãe?

– A gente! – meu filho respondeu.

Aí minha filha manda a frase assustadora:

– A moça não quis a gente, né, mamãe?

Meu coração parou. Como assim a moça não quis vocês, gata? Que moça? Do que você está falando, meu?

Eu nunca diria uma coisas dessas para nenhuma criança, principalmente porque, em geral, isso não é verdade. A genitora dos meus filhos nunca declarou durante o processo que não queria ficar com as crianças, pelo contrário. Ela vivia nas ruas, doente e não tinha condições materiais e emocionais para cuidar dos dois. Tenho certeza que ela sofreu com a situação e que deseja o melhor para eles, de onde estiver.

Fiquei morrendo de medo de terem ouvido isso de alguém e perdi uns 15 minutos tentando entender de onde veio essa afirmação. Ela tem três anos e ainda é difícil contar as histórias inteiras exatamente como aconteceram, mas com muita paciência consegui decifrar.

Nós fomos ao supermercado um dia e coloquei os dois dentro do carrinho, porque senão era um bebê para cada lado e uma mãe louca correndo atrás. Aí eu disse para eles que eles eram meus bebês ainda e que tinham que ficar lá dentro. Quando a gente estava quase chegando no elevador que nos levaria do estacionamento até a loja, a porta se fechou porque a moça que já estava lá dentro não conseguiu esperar. E essa é a tal da moça que não quis a gente, justamente quando disse que eles eram meus bebês.

Filha, pliz, não assusta a mamãe desse jeito, não, poxa.

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Os planos de adotar

Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, queria ser decoradora ou arquiteta. Na época, minha mãe me deu régua, transferidor e compasso e eu passei meses projetando o quartinho da minha filha adotiva. Eu já pensava em adotar desde muito nova. E, apesar de nunca ter dito isso em voz alta até outro dia, nunca tive vontade de engravidar. O que eu mais queria era ser mamãe, mas não necessariamente ter um bebezinho dentro da minha barriga.

Em algum momento nós já falamos em ter um ou dois filhos biológicos antes de conversar sobre adoção. Mas essa é uma ideia que me incomoda até hoje: isso para mim se parece mais com um ato de caridade do que com a vontade de ter um filho. Parece que só iríamos pensar em adotar uma criança se tivéssemos condições para ter mais um filho, como se fosse uma decisão baseada em dinheiro.

Eu queria que a adoção fizesse parte do planejamento da família, até porque sempre falava sobre adoção quando o assunto “filhos” entrava em pauta desde o tempo de namoro. Se para mim a adoção era um dos meios para se ter um filho assim como a gravidez, não havia motivos para deixar para falar sobre isso só se tivéssemos as tais “condições”.

Eu virei mamãe do jeito que eu realmente queria virar: através da adoção. Tenho um super orgulho dos meus bebês e nunca me passou pela cabeça que vamos ser menos felizes porque eles não são meus filhos biológicos. Por ter adotado duas crianças, atingi minha capacidade máxima de ser mamãe, e tenho certeza que nunca vou ser menos feliz por nunca ter engravidado. A verdade é que quando eu penso nos meus filhos e em tudo o que sinto por eles, tenho vontade de adotar de novo. Acho que se eu um dia enlouquecer completamente, ficar totalmente pirada e resolver ter o terceiro filho, vou considerar de novo a adoção.

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