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Hora de dormir

Eu estava há 20 minutos no quarto da minha filha, no escuro, tentando me desvencilhar dela para que ela pudesse dormir e para que eu pudesse fazer outras coisas. E ela num “só mais um beijinho, só mais um carinho, dorme aqui comigo” infinito. Até que eu implorei:

– Filha, vamos dormir, você na sua cama e eu na minha cama. Mamãe está muito cansada, preciso ir dormir lá no meu quarto.

– Tá, mas não vai dormir sem tomar banho, que você tá fedida.

Notas para mim mesma: 1) fica tranqüila, que se você estivesse realmente fedida, ela não ia te abraçar e deixar você deitar na cama dela, 2) pára de dizer que está na hora do banho porque eles estão fedidos que uma hora isso vai ser usado contra você em público.

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Eu prefiro água gelada, mamãe

Foi em meados de fevereiro que cheguei em casa no final do dia e não tinha luz no prédio. Acho que tinha caído um temporal no final da tarde e nada de a energia voltar. Esquentei leite no escuro, brincamos no escuro e decidi que o banho teria que ser de balde aquele dia. Não dá para deixar duas crianças que passaram o dia pulando e correndo na escola num calor indiano irem para a cama sem banho.

Eu juro que achei que ia ser o máximo. Todos os dias eles levam potinhos para o chuveiro e ficam se molhando, ou seja, era a mesma coisa. Minha filha foi primeiro e em 5 minutos estava limpa. Meu filho deu tilt.

Joguei um pouquinho de água morna que estava no balde nele e ele berrou como tivesse levado um tapa. Esperei se acalmar, expliquei, conversei, mostrei o pote, mostrei o balde, deixei ele colocar a mão na água, sugeri que ele se molhasse sozinho, tentei de novo, cantei, dancei e nada de o menino parar de berrar. Não só berrar: ele se encostou na parede do box na pontinha dos pés, e gritou várias vezes um “não faz isso, por favor, mamãe” e comecei a ficar com medo que algum vizinho chamasse a polícia.

Aí eu – que já estava há 15 minutos ajoelhada na frente dele implorando para acabar com aquilo logo – perdi um pouco a paciência e deixei ele escolher:

– Ou você toma banho de balde ou vai tomar banho gelado, mas sem banho não pode ficar.

– Quero banho gelado, mamãe.

É assim: tava fazendo uns 52 graus na sombra, ele estava imundo e eu não estava a fim de perder a briga. Sorry, filho.

No dia seguinte tinha luz. Mas eu entrei em casa e mandei a brincadeirinha:

– Oi, linduchos. Vamos tomar um banho de balde com a mamãe?

Berro. Menino se jogando no chão, batendo braços e pernas. Choro histérico: “nãooooooooooo!!!!!! Eu prefiro água geladaaaaaaaaaaaa!!!!!”.

Doido.

Aprendizado do dia: crianças pequenas não entendem ironia. Não tentem em casa.

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A principal função dos papais

Quando nós ainda não temos filhos, mas já estamos sonhando com a chegada deles, temos a doce ilusão que vamos ter muito trabalho com temas comuns, tipo alimentação, sono, educação e saúde, não é? Antes de ter filhos, eu achava que seria dificílimo enfrentar doenças, noites mal dormidas, crianças não querem comer e as milhões de dúvidas para escolher uma escola e decidir em que momento começar uma educação bilíngue.

Eu me enganei. Essas coisas são simples de resolver. Difícil mesmo é evitar o suicídio infantil, minha gente. Hoje eu invisto 90% do meu tempo tentando evitar que meus filhos se matem. Não sei se estou indo contra a seleção natural ou se existem outras espécies na natureza que também nascem com tendências suicidas como o ser humano. Mas a verdade é que a principal função dos papais até os filhos completarem três anos (assim espero) é mantê-los vivos.

Criança pequena é fogo, não dá para desgrudar o olho um segundo. Você olha o celular para conferir as horas, e a criança sobe na mesa de jantar. Você olha para o lado oposto, e depois encontra a criança pulando em cima de um banco. Ou dependurada na janela. Ou correndo como um monstrinho desgovernado rampa abaixo. Ou tentando fazer carinho em um cachorro imenso que ela nunca viu antes. Ou correndo para o meio da rua, sem nenhum incômodo com carros. Ou tentando engolir brinquedos com peças pequenas. Ou colocando feijões no nariz ou no ouvido. Criança gosta de abrir o gás do fogão e de mexer em gavetas com facas, então nunca podem ficar sozinhas em cozinhas. Criança gosta de correr na beira da piscina mesmo sabendo que não sabe nadar. Criança não faz a menor cerimônia para escalar uma estante para pegar alguma coisa no alto. Criança gosta de pular e dançar no banho, justamente depois que ensaboamos o pé e não deu tempo ainda de enxaguar.

Em casa nós temos elementos básicos de segurança (portãozinho na porta da cozinha, telas na janela, travas em alguns armários e gavetas), então aqui dentro eu não fico tão estressada. Tenho chiliques em garagens e na rua, porque meu filho foge e agora corre mais rápido que eu. Eu não uso nem pretendo usar, mas juro que entendo as mamães que usam coleiras em seus filhos. Juro. Não acho que seja a melhor forma de educar, mas tenho certeza que meus cabelos continuariam pretos alguns anos a mais. Não tem nada que me tire mais do sério do que um bebê tentando soltar minha mão para correr na rua.

Eu já expliquei, conversei, pedi, implorei, chorei, mas só parece ter funcionado mesmo depois que ele tomou uma bronca do tamanho da torcida do Corinthians no último sábado. Desde então está grudado em mim, mesmo que eu solte a mãozinha dele. Minha filha entendeu a bronca por tabela e está boazinha também. Vamos acompanhar até quando, né?

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Babá e bagunça

No primeiro dia, eu estava na porta do prédio com a Cleide esperando os bebês e a perua. No segundo dia, vim para casa cedo, mas fiquei no apartamento enquanto a Cleide desceu sozinha para esperá-los. No terceiro dia que tinha uma reunião que terminaria às 18h e pouco e seria a primeira oportunidade para testar se todo o esquema tinha dado certo.

Antes de sair para ir para escola nesse dia, eu expliquei que eles iriam voltar de perua e que a Cleide estariam esperando os dois em casa. Que eles tinham que obedecer a Cleide e fazer tudo como fazem com a mamãe. No carro, retomei a conversa:

– Quem vai voltar de perua?

– Eu!

– Quem vai estar em casa esperando vocês chegarem?

– A Cleide!

– O que vocês vão fazer com a Cleide quando chegarem? (eu esperava uma resposta do tipo: “tomar leite”, “comer fruta”, “tomar banho”, “escovar os dentes”, ou algo assim)

– Bagunça!

Não. Não. Não. Nesse momento eu desenvolvi uma fobia. Medo de ter dois pestinhas que assustam todas as babás (acho que já vi um filme assim, não existe?).

Passei o dia mentalizando “Cleide, por favor, seja forte, não deixe os dois dominarem você”. Só liguei para ela para ter certeza que ela tinha chegado em casa para trabalhar e resolvi conferir o resultado da experiência só quando entrasse em casa. E passei o dia em um uorquixópi com um cliente, pensando na Cleide me dizendo: “eu só tenho medo mesmo de ter que dar banho nos dois sozinha”. O cliente discutia o novo maindiséti para entender seus clientes, e eu só pensava em como alguém pode achar difícil dar banho em duas crianças ao mesmo tempo. É tão fácil, pô. Liga o chuveiro, espera a água esquentar, tira a roupa da criança, pede para ela não fazer xixi ou cocô no chão (não desfraldei, às vezes dá nisso), molha a criança, lava o cabelo com xampu, enxágua, lava o corpo com sabonete, enxágua, passa condicionador no cabelo, enxágua, toma cuidado o tempo todo para a criança não escorregar no chão molhado e cair e bater a cabeça no chão e morrer, desliga o chuveiro, embrulha na toalha e enxuga. Ao mesmo tempo, presta atenção na criança que ficou do lado de fora do box, porque ela vai estar fazendo algumas das alternativas a seguir: 1) subindo no vaso e dando descarga, 2) subindo no vaso, abrindo a torneira da pia e se molhando inteira, 3) subindo na pia e tentando suicídio infantil, 4) puxando o rolo de papel higiênico e encenando aquela propaganda dos anos 80, 5) abrindo a tampa do vaso e pulando de cabeça lá dentro, 6) abrindo o armário ou gavetas e tirando todas as coisas para fora – o que inclui engolir produtos de higiene pessoal, 7) abrindo o cesto de lixo e brincando com papel higiênico usado, 8) brincando com alguma coisa que mamãe deu para ela se distrair (mas essa cena eu nunca vi). Quanto terminar, inverte as crianças e repete tudo isso só mais uma vez.

Eu me segurei e resolvi não ficar ligando para atormentar a moça – mais do que os dois já deviam estar atormentando – para fazer perguntas bobas do tipo: “você conseguiu subir com dois bebês e duas mochilas?”, “você conseguiu fazer os dois sentarem nos cadeirões para comer uma fruta?” ou “promete que não foge e não larga os dois sozinhos em casa até eu chegar?”.

Peguei trânsito. Cheguei ansiosa. Abri a porta da sala e entrei correndo. Encontrei os três sentados no chão do quarto, brincando, e foi muito legal. Foi muito legal porque ultimamente eles vinham me recebendo na escola com um ar de “mas já, mãe? não posso brincar mais um pouco aqui?” e sempre um ou outro entrava no carro fazendo birra. Ontem quando cheguei eles abriram sorrisos imensos e vieram me abraçar. Pediram para eu sentar para brincar também. A Cleide estava sorrindo também, então acho que ela não teve pensamentos suicidas.

Fiquei com eles até a hora de dormir e depois também fui pra cama. Feliz.

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Pequenas emoções e frustrações de uma mamãe

Dia desses saí um pouco mais cedo do trabalho e não peguei trânsito. Cheguei toda feliz na porta da escola, super adiantada, pensando que teria tempo para sentar no chão da sala e brincar um pouco com meus bebês em plena terça-feira. Super engano. Quando entrei, eles estavam com os amiguinhos no parque e ficaram muito bravos porque eu já estava lá. Assim que perceberam que era hora de ir embora, os dois choraram, espernearam, se jogaram no chão, cuspiram, gritaram, e foi aquele carnaval até chegar em casa. Um saco. E nem teve clima para brincar.

Aí hoje eu cheguei no horário certo e a tia veio logo me explicando:

– Mamãe, os dois fizeram cocôs gigantes depois do jantar. Sujaram as calças, as meias e até as camisetas. Você pode esperar só um pouquinho? O Isaac já tomou banho, e a Ruth já está saindo e…

– CUMEQUIÉ???? Vocês já deram banho NOS DOIS? Aeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!

Quase dei um beijo na boca em cada uma das tias, gente. Conseguem imaginar a emoção de receber seus DOIS bebês limpinhos e cheirosinhos na saída da escola? Conseguem imaginar como foi bom chegar em casa e pular essa parte do processo, ir direto para o pijama e poder passar mais tempo cantando e lendo historinhas?

Como faz pra programar super cocôs todo dia às 18h30, hein?

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Tagarelas

Cada coisinha que nossos filhos aprendem é uma conquista e é uma delícia. Os bebês estão super falantes, formando frases, e são duas gracinhas na maioria do tempo.

Na maioria do tempo. Eu confesso que eles estão me enlouquecendo um pouco. Eles agora começaram a verbalizar tudo o que vêem ou que acontecem. Tudo, tá? Eles falam em voz alta qualquer coisa que passa pela cabecinha deles. É enlouquecedor. Pra vocês me entenderem, imagina uma mamãe dando banho em um bebê que narra continuamente o que está acontecendo, repetindo pelo menos três vezes cada uma das coisas:

– To tomando banho to tomando banho to tomando banho to lavando cabelo to lavando cabelo to lavando cabelo limpar orelha limpar orelha limpar orelha assoar nariz assoar nariz assoar nariz lavar costas lavar costas lavar costas to lavando barriga to lavando barriga to lavando barriga tem que lavar bumbum tem que lavar bumbum tem que lavar bumbum vamos lavar pé vamos lavar pé vamos lavar pé passar creme no cabelo passar creme no cabelo passar creme no cabelo enxaguar enxaguar enxaguar cabou o banho cabou o banho cabou o banho…

Acharam enlouquecedor? Multiplica por dois agora. Mentalizem dois bebês tagarelando frases repetidas ao mesmo tempo. Porque o bebê que está do lado de fora do box assistindo o irmão tomar banho gosta de narrar as mesmas coisas, ao mesmo tempo, com a mesma repetição enlouquecedora de frases.

É tão enlouquecedor que eu já cheguei a demorar 30 segundos para responder para a moça que me perguntou “débito ou crédito” em uma loja porque eles não paravam de narrar tudo o que acontecia e tudo o que viam por lá. Às vezes eu não consigo pensar direito, de tanta palavra que entra pelos meus ouvidos o dia inteiro. E eu sei que eu falo muito, então, quando acho que uma outra pessoa está falando muito, é porque ela realmente está falando muito. E meus filhos falam muito, meldels.

Quando as crianças aprendem a pensar, hein, gente?

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Coisas que aprendi durante a licença maternidade

Cinco meses e meio foi o maior período da minha vida que fiquei sem trabalhar ou estudar desde que entrei na escolinha com um ano e nove meses de idade (por coincidência, a mesma idade com que nossos filhos entraram na escolinha). Fiquei entendiada e cansada de ficar em casa alguns dias, confesso. Mas estou feliz por ter ficado esse tempo com meus pequenos. Estou feliz por não ter pensado que minha carreira era mais importante e por não ter voltado antes a trabalhar. E, principalmente, estou preparada para saber como é conciliar a vida de funcionária e mamãe.

Nesses meses eu percebi o quanto gosto da minha casa. Gosto do nosso apartamento, gosto da decoração semi-acabada que estamos fazendo, gosto de ter muitas janelas e muitas plantas, gosto de ficar sentada na sala olhando para as coisas que temos aqui.

Também percebi que gosto de estar em casa quando meu marido chega do trabalho. Desde que nos casamos, isso não tinha acontecido muitas vezes porque eu sempre trabalhei até tarde. Também gosto de jantar em casa, mesmo que seja um qualquer-coisa inventado de última hora.

Com relação aos nossos filhos, aprendi que algumas coisas precisam ser feitas ou pensadas pelos papais:

  • Mamãe ou papai precisam ir junto com eles nas consultas médicas. Somos nós que os conhecemos e os acompanhamos no dia-a-dia e que podemos dar informações importantes para avaliação do médico. Somos nós que ficaremos responsáveis por medicações ou cuidados e precisamos ouvir o que o médico tem a dizer.
  • Alimentação saudável é responsabilidade dos papais. Sabemos que nossos filhos vão experimentar guloseimas oferecidas por outras pessoas em festinhas, então fazemos questão de preparar somente comida caseira, fresquinha, variada, com pouca gordura, pouquíssimo sal e nada de açúcar em casa. Também escolhemos uma escolinha que toma esse mesmo cuidado com alimentação e vamos acompanhar o cardápio semanal das refeições dos bebês para saber o que estão comendo.
  • Hora do banho também é hora de ficar junto com mamãe ou papai. É hora de relaxar, de ficar quentinho, de brincar com a água, de fazer carinho, mas é a hora que os observamos peladinhos e podemos reparar se tem alguma errada na pele ou no corpinho.

Também aprendi que me sinto presa se ficar muito tempo em casa. Que sinto falta de conviver com adultos sem crianças por perto. E que nunca vou me arrepender por nunca deixar meu emprego para cuidar exclusivamente dos meus filhos, porque acho que sempre serei uma mamãe bem melhor trabalhando.

Voltei a trabalhar há duas semanas. Sinto falta deles, mas estamos nos saindo muito bem. Buscar na escola é a melhor parte do dia. Nada mais gostoso que chegar na porta da sala de aula e vê-los correndo na nossa direção, dando gritinhos de alegria, também morrendo de saudades.

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