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Fidel

Nosso cachorro é o que menos entendeu toda a mudança pela qual passamos nas últimas duas semanas.

Quando os bebês chegam recém-nascidos, os pets têm um tempo para se acostumar com a presença e o cheiro deles sem uma interação física. No nosso caso, nossos bebês chegaram engatinhando pela casa toda, acompanhados de um monte de brinquedos que ficam espalhados pelo chão e com mãozinhas fortes que batem e puxam a barba e o rabo do Fidel.

Como a nossa, a rotina de nosso cachorro também mudou drasticamente. Ele estava acostumado a passar os dias de semana sozinho em casa ou na companhia de nossa faxineira, que vem duas vezes por semana. Hoje fico em casa quase o dia todo com os bebês e recebemos visitas e mais visitas, o que tem deixado Fidel bastante cansado – em qualquer momento que haja silêncio, ele vai para um cantinho tentar uma soneca. No entanto, antes ele era o centro das atenções: quando estávamos sozinhos ou quando recebíamos alguém, ele sempre era o primeiro a ser cumprimentado e todas as brincadeiras e gracinhas eram para ele. Com os bebês, por mais que continue recebendo atenção, ele precisa dividi-la com mais dois serzinhos e está bastante ciumento. Fidel também precisou mudar seus horários de alimentação (para não esquecermos da papinha dele, ele passou a comer nos horários de mamadeira) e com os horários de banheiro (a porta da varanda não fica mais aberta o dia todo e Fidel precisa pedir para fazer xixi ou cocô). O pior foi que enquanto escrevia, olhei para o Fidel e percebi que tinha dado mamadeira, mas esquecido da papinha.

O que está mais difícil de fazê-lo entender é por que ele não pode mais brincar com qualquer brinquedo que fica no chão de casa. Os bebês chegaram com uma infinidade de bolinhas, potinhos, bichinhos e peças coloridas e uns 70% deles já foram mastigados pelo Fidel. Nós damos bronca quando percebemos, mas os bebês jogam tudo para ele, e aí fica difícil. E além dos brinquedos, Fidel também comeu algumas outras coisas, como o negocinho para limpar o nariz dos bebês, um babador, algumas meias.

Depois de uma semana em casa, os bebês “descobriram” o cachorro e começaram a querer brincar com ele. Brincar para os bebês significa cutucar e bater e brincar para o Fidel significa morder as mãozinhas e puxar as meias e roupas deles, o que ainda não deu muito certo, claro. Mas eles se dão bem e se entendem. A frase que mais falamos é “Fidel! Tenha paciência com os bebês!” e os bebês já começaram a imitar o Fidel com “au-au”.

Fidelzucho, nós sabemos que eles serão seus melhores amigos, te amarão muito e durante toda sua vida eles terão mais tempo para você que nós dois. Então, faz uma força, tenha paciência com os bebês!

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Nova rotina

Para que eles se sentissem seguros (e também porque gostamos dos horários deles), mantivemos a mesma rotina que eles tinham enquanto moraram no abrigo: antes das 7h, os papais tomam banho e ficam prontos para acordar os bebês (alguns dias eles resolveram acordar antes das 7h e ficou um pouquinho atrapalhado). Quando acordam, trocamos as fraldas, tiramos o pijama e eles vão tomar café da manhã. Papai então sai para trabalhar e mamãe vai brincar na sala (vida boa!). Às 9h30 eles comem fruta, depois brincam mais um pouco. Às 11h30 almoçam e vão para o quarto para o soninho, que dura até umas 14h30. Depois acordam e tomam lanche da tarde. O jantar é às 17h30, depois banho, pijama, última mamadeira, escovar dentes e cama às 20h. Acontecem algumas trocas de fraldas durante todo esse processo.

Alguns costumes do abrigo vamos manter em casa, porque achamos ótimo. Eles não são “ninados” antes de dormir. Nós os colocamos nas caminhas, fazemos um pouco de carinho, deixamos a luz bem fraquinha, damos beijinho de boa noite e fechamos a porta. Às vezes eles ficam resmungando no quarto uns 5 minutos, mas logo dormem. Os horários de dormir também são muito bons: às 20h vamos jantar juntos, conversar e temos um “tempo de adulto”; depois temos uma noite inteira de sono até o dia seguinte. Também comem super bem e de tudo: muita fruta, muitos legumes, chá, suco, leite. E já chegaram treinados em várias coisinhas: deixam escovar os dentes e limpar o nariz e ajudam a vestir as roupinhas.

Em outras coisas, ainda estamos apanhando: nosso filho não gosta muito de banho. Está melhorando, mas nos primeiros dias berrou durante o banho todo e só parou quando tiramos de lá. Nossa filha faz o contrário: se diverte no banho e começa a berrar quando tem que sair. Ela deixa pingar as vitaminas na boquinha, com ele é uma pequena batalha para dar certo. Também têm ciúmes um do outro e brigam bastante, com direito a alguns tapas e mordidas.

E algumas coisas queremos mudar, aos pouquinhos. Eles estavam acostumados a comer muito rápido, porque muitas crianças almoçam e jantam ao mesmo tempo no abrigo e são poucas educadoras, então mal terminam de engolir e já gritam pela próxima colherada. Estamos ensinando a comer mais devagar. Também estavam acostumados a descer do cadeirão assim que terminavam, pois outras crianças seriam alimentadas logo em seguida. Em casa, eles ficam sentados um pouquinho mais antes de voltar para a sala. Estamos fazendo assim porque queremos começar a sair para almoçar fora com eles e eles terão que ter paciência para ficar sentadinhos no cadeirão enquanto os papais comem. Além disso, eles brincavam todos os dias em um lugar onde só ficavam coisas de crianças e podiam mexer em tudo. Aqui em casa, temos plantas, vasos, livros que ficam na mesa de centro, quatro luminárias de piso e outras coisas que não são de criança, e não queríamos mexer na decoração da casa toda. E estamos pacientes tentando ensiná-los tudo isso.

Como eles dormem bem, nós também conseguimos descansar e não estamos parecendo zumbis. Mas todo o tempo pensamos neles: fizeram cocô? o que vão vestir? o que vão comer na próxima refeição? estão felizes?

… Sim, acho que estão felizes!

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O que pode acontecer depois da chegada

Em uma das reuniões do GAASP (Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo) que participamos, o palestrante disse algo assim: “imagina que um dia você tentou atravessar um abismo por uma ponte e esta ponte cedeu. Na próxima vez que você precisar atravessar o abismo por uma ponte parecida, antes de iniciar o trajeto você certamente vai testar bem a ponte: vai balançar muito e dar pisadas fortes, antes de ter certeza que ela é segura e que você pode atravessar tranquilamente. A mesma coisa acontece com as crianças que foram separadas de suas famílias de origem”.

Uma das principais coisas que aprendemos com os grupos de apoio, em reuniões do GAASP e do GEAA-SBC (Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de São Bernardo do Campo) foram as reações e comportamentos que podemos esperar (e nos preparar) de nosso filho. É claro que cada criança sente e reage de um jeito e eles não nos disseram que necessariamente vamos passar por essas situações. Mas nos ensinaram que são reações normais e esperadas e que devem ser tratadas com carinho e paciência.

Teste: testar os pais é uma reação parecida com a história da ponte que já cedeu uma vez. A criança estava abrigada e sabia que era uma situação provisória; depois passa a viver com uma nova família, que conhece há pouco tempo. Ela pode se lembrar da separação da família biológica ou já ter passado pela dor de uma devolução. Ou pode ter acompanhado a dor de colegas de abrigo que foram separados de suas famílias biológicas ou que foram devolvidos por famílias adotivas. Essas experiências podem gerar insegurança e medo de uma nova rejeição e o “teste” pode ser uma forma inconsciente de pedir uma prova de amor, para ter certeza que pode se apegar sem medo de ser machucada novamente. Por outro lado, para os papais, os testes serão exercício de paciência, dedicação e sabedoria, para enfrentar birras, bagunças e desobediência mostrando amor e impondo limites.

Regressão: muitas crianças passam a ter comportamentos incompatíveis com a idade quando são adotadas, como por exemplo, voltar a fazer xixi na cama, pedir mamadeira ou falar como bebês. Eles podem ser causados por ansiedade ou também como uma forma de preencher uma parte da história delas que foi rompida, como se a criança quisesse passar com os papais adotantes por fases anteriores à chegada na nova família. Faz parte da construção de vínculos e a criança nunca deverá ser humilhada ou repreendida por tais comportamentos. E faz parte do papel de papais adotantes saber suprir essas necessidades, também com limites, claro.

Grude: não queremos dizer que os cuidadores do abrigo não cuidam bem das crianças. Mas por mais que as crianças abrigadas estejam alimentadas, limpas, quentinhas e recebendo atendimento individual, elas entendem que a situação é provisória e que estão longe de uma família. Ou seja, são carentes. E vão precisar de atenção, pedir colo, querer carinho dos papais adotantes. Pode parecer óbvio, mas já ouvimos duas histórias absurdas de pais adotivos que devolveram crianças que eram muito “grudentas”.

Mas, no fim… não tem receita de bolo para resolver. Precisa de amor e paciência. Precisa também saber procurar ajuda, caso os papais adotantes percebam que não sabem lidar com os problemas sozinhos. E, depois, mais uma grande dose de amor e paciência.

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