Docinho (mas não)

Meus filhos estavam com o pai há vários dias e liguei para falar com eles. Falei com a Ruth, depois com Isaac e desliguei. Aí vem mensagem do pai:

– Ué, você não vai falar com o Isaac?

– Eu não falei com o Isaac?

A Ruth engoliu o capeta quando nasceu, não é possível. Quando terminamos a conversa, ela disse “beijo mamãe tô com saudades vou passar pro Isaac” e voltou com “oi mamãe é o Isaac você tá bem eu tô bonzinho na escola”. E repetimos a conversa toda. E ela devolveu o telefone para o pai dizendo “papai, enganei a mamãe”.

Affe.

(e, não, não dá para reconhecer as vozes dos dois ao telefone ainda. ou eu não tenho esse skill ainda de reconhecer a voz dos meus próprios filhos)

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Formulários

Eu estava me preparando para um exame desses de mulher, preenchendo aqueles formulários com data da última menstruação, doenças anteriores etc. e aí chego nas perguntas: “Tem filhos?” Quantos?”.

Perguntinha mal formulada, né? Tenho aqui Isaac e Ruth que não me deixam esquecer que tenho filhos, DOIS FILHOS, então eu tenho obrigação de responder “sim, 2”. Mas isso não responde nem um pouco o que o laboratório precisa saber, e teria sido bem melhor perguntar o número de gestações, de partos, de abortos. Algo mais específico.

Porque não são só as mães adotantes. Tem também as mulheres que entregaram os filhos para a adoção, que não têm o filho, mas que precisariam falar da gravidez e parto antes de um exame. E tem as mães cujos filhos faleceram, que não sei se responderiam que têm ou que não têm.

De qualquer forma, a pergunta estava ruim e coloquei uma observação ao lado: “adotivos”.

Aí, juro:

– Moça, por favor, esses filhos adotivos são humanos ou cachorros?

Taqueopariu.

Ernesto, desculpa não ter pego o formulário de volta, riscado o 2 e colocado um 3. Porque se são humanos, cachorros ou chinchilas, pouco importa para quem devia ter me perguntado sobre gestações, abortos e partos. Taqueopariu, viu?

 

Mãe, tô voltando

Só nas últimas semanas:

  • Meu aspirador parou de funcionar
  • Os canos das máquinas de lavar roupa e louça estouraram, molharam toda a área de serviço e tive que chamar um técnico (e limpar tudo depois)
  • Meu fogão também pifou, então primeiro eu tive que chamar o vizinho (emergência) depois um técnico (agendado)
  • Meu aquecedor começou a cheirar gás e tive que chamar outro técnico
  • Deu bichinho estranho na minha composteira
  • Apareceram pulgões na minha árvore da felicidade
  • Isaac e Ruth se penduraram na cortina do quarto e derrubaram tudo, inclusive um pedaço da parede, e agora preciso chamar um pedreiro
  • Meu namorado consertou o vazamento do meu box que estava lá há um ano
  • Um banco de madeira desmontou e meu namorado teve que colar tudo de volta
  • Minha impressora passou dias sem reconhecer a rede sem fio e eu fiquei dias tentando descobrir como fazer para ela voltar a funcionar
  • Tive que chamar um moço para limpeza de sofá e poltrona porque Ernesto emporcalhou tudo

Fora a lista de coisas que estão quebradas mas ainda não entraram no planejamento, tipo o ventilador de teto que não liga (oi, inverno) e o varal que não sobe nem desce (tá fixo).

Tudo isso para dizer que desisti de ser adulta. Essa coisa de querer ser independente, ter o próprio lar e cuidar do próprio nariz é supervalorizada.

Mãe, quando você voltar de férias vai me encontrar morando na sua casa, esperando você fazer meu jantar e lavar a minha roupa.

Te amo, mãe.

Quatro coisas que amo em você

(mãe, pai, tem pornografia no final)

Durante muito tempo, eu falava sobre os bofes (aprendi essa palavra hoje) usando os gostos, os hobbies, os trabalhos deles. Era mais ou menos assim: ele é super esportista, nem um pouco sedentário. Ele prefere a mostra internacional de cinema iraniano ao Fantástico. Ele votou no Haddad e não no Dória. Ele não ouve funk ou axé, só música erudita. Basicamente as coisas que os caras faziam por si só já podiam definir se eram caras bacanas ou não.

Mas nesse dia dos namorados eu fiz um balanço de por que tenho certeza que estou vivendo o melhor começo de relacionamento da minha vida inteira, e concluí que nada tem a ver com hobbies ou gostos. Tem a ver com a gente, com a forma como ele me trata, com o jeito que ele é.

São quatro coisas que amo no meu namorado:

1) Não tem aquele machismo de achar que ele (o homem) é melhor que eu (a mulher). Não existe nenhuma questão por eu ganhar mais ou por ser selecionada para projetos e ele não; ele me admira, comemora e apoia de forma muito sincera. Nós passamos muito mais tempo na minha casa que na dele porque eu tenho cachorro, e ele não se comporta como visita. Pelo contrário, ele arruma minha cama, lava a louça, coloca roupa suja no lugar e passeia com o cachorro para mim. A casa não é dele, mas ele participa quando está lá porque entende que não estou oferecendo um hotel – e nunca tivemos essa conversa, ele simplesmente é assim. Com um mês de namoro, e sem nenhuma pretensão de parar de usar camisinha, eu disse para ele que gostaria que nós dois testássemos todas as DSTs. Ele não questionou, não disse que eu estava duvidando dele ou o chamando de sujo e não me enrolou dizendo que faria depois: ele pegou o pedido que meu médico mandou para ele, fez todos os exames na semana seguinte e me mostrou os resultados. Quando eu agradeci, ele me disse que eu não tinha que agradecer, que era minha saúde e que ele sempre ia cuidar da minha saúde.

2) Não tem ciúmes doido e não tem controle. Não tem “quem é esse cara?”, “pára de falar com aquela pessoa”, “não usa essa roupa”, “não fala desse jeito que é vulgar e chama muito a atenção”. Ele sabe que estou com ele e só com ele e isso já está bom para ele. Nunca ficou no meu pé por alguma coisa que eu tenha feito antes de conhecê-lo, nem mesmo depois de conhecê-lo. E aí me deixa segura para sentir o mesmo e é ótimo.

3) E tem um respeito muito grande pela minha vida e pelas coisas que quero fazer e viver. Ele entende que os finais de semana com meus filhos são 100% das crianças e não me cobra esse tempo. Melhor que isso, ele programa as coisas dele, faz outras coisas, mas está sempre por perto. Ele não me cobra esse tempo, mas também não fica esfregando na minha cara que vai fazer um monte de coisas legais sem mim. É sempre tranquilo, é sempre fofo, e eu sempre sinto que continuamos juntinhos mesmo que a gente não se veja durante dias. E isso vale para os dias em que vou encontrar algum amigo sem ele, que vou viajar, que preciso trabalhar. Ele sempre respeita, entende, apoia, continua por perto, não some.

4) Por fim, ele sabe – eu nunca precisei dizer isso pra ele – que o pinto dele não é o centro do universo. Saber disso o faz entender que a gente não transa apenas para que ele sinta prazer, e ele não fica achando que tudo o que eu tenho que fazer é dar prazer a ele. Saber disso o faz entender também que o pinto dele é apenas uma parte do meu prazer e que espero muito mais dele. Em suma: saber que o pinto dele não é o centro do universo o torna um amante inacreditável.

Viajei com amigos no feriado e ele não pôde ir, mas nos falamos todos os dias com uma saudade boa. Voltei para São Paulo e encontrei uma pessoa me esperando no aeroporto, junto com meu cachorro (que ele buscou para mim na cuidadora) e junto com um jantar com sobremesa feitos por ele durante a tarde, querendo ouvir tudo o que fiz e ver minhas fotos. Nesta viagem, durante um trekking, o guia me perguntou se eu sabia contar piadas e eu respondi “olha piada eu não sei não mas posso te contar a história da minha vida que é praticamente uma piada pronta”. Mas tem uma coisa que não é piada: a sorte que eu tive de, quando achava que ia viver afogada em tanta cagada que só acontece comigo, ter encontrado uma pessoa assim. Gente, que sorte.

Manuel

– Ruri, chama o Manu também!

Quando algum outro amigo sugere incluí-lo em qualquer programa, eu sei que está querendo essa companhia fora do comum que ele é. Ele é sorridente, bem humorado, bom de papo. Não tem como não gostar dele. Acho que nunca nesta vida alguém não gostou dele ou falou mal dele. Não tem como não gostar de alguém que está sempre com um sorriso de orelha a orelha, que puxa papo com as velhinhas na fila do cinema, que transita bem em qualquer tipo de conversa, de política a receitas de torta.

E ele ainda é um partidão pra sair por aí, porque tudo o que ele gosta também é legal. Ele tem o dom como poucos de descobrir exposições, eventos e restaurantes pela cidade, então sair com ele é sempre diversão na certa. Eu já cheguei a comprar ingresso sem nem ler sobre o que eu ia assistir porque já sabia que ia ser bom. E, também, se não fosse bom, eu ia curtir meu barbudo preferido e já ia valer o programa.

Mas o que eu quero contar é que não é o bom humor, os papos ou os passeios que fazem dele o melhor amigo que já tive nessa vida. É muito bom ter alguém com estas características por perto, mas sorte mesmo eu tenho por causa de tudo o que ele faz por mim.

Ele está por perto o tempo todo, todo dia, e nunca fica sem tempo pra mim. E sente também quando estou quieta mas está tudo bem, ou quando estou quieta mas preciso receber um telefonema. Ele já cuidou dos meus dois filhos quando eles tinham dois anos durante um dia inteirinho, para que eu pudesse curtir o dia de noiva de uma amiga nossa de quem fui madrinha. Ele foi a pessoa que mais agitou a pista de dança na minha festa de casamento. Ele já traduziu abstract de artigo científico pro espanhol num prazo de trinta minutos, já montou meu criado-mudo, já me ajudou com muito trabalho. Ele saiu comigo toda sexta, sábado e domingo durante semanas quando me separei, porque sabia que estava difícil me acostumar a estar sozinha (e haja cinema, teatro, drinks e jantares, hein?). Ele usou os dois dias de férias que ele tinha tirado para as olimpíadas para ficar comigo no hospital, para deixar minha mãe dormir na casa dela, e transformou uma recuperação de cirurgia na melhor balada. Ele simplesmente está em tudo, mesmo quando me diz que acha uma bobagem eu ficar correndo tantos km por aí, fazendo spinning e machucando os joelhos de tanto cair da bicicleta. 

Eu já casei duas vezes e considero casar outras vezes mais, mas sei que o “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença” é com ele. Não vai existir marido no mundo que faça isso melhor que ele. Não consigo pensar em nada que tenha me acontecido nos últimos 15 anos de muito bom ou de muito ruim e que ele não estava lá. Ele me conhece melhor do que ninguém e sabe da minha vida melhor que eu mesma. E se importa com todos os meus dramas, dos mais sérios (tem muitos) aos mais banais (tem bem mais).

Por isso eu preciso dele e não tem ninguém nessa vida que eu queira nesse tanto. Preciso que ele fique sempre bem, feliz, saudável, realizado, por muitos anos. Muitos anos, I mean, preciso que ele viva bem mais que eu. Não consigo nem imaginar como seria sobreviver a esta vida sem ele. Então, chuchu, quando você me perguntou no final da minha festa de aniversário “nossa quem será que vai morrer antes?”, só tenho uma coisa a te dizer: POR FAVOR ME DEIXA IR ANTES.

Adulto que mora com a mãe

Aqui em casa sempre rola um assunto que não sei de onde eles tiraram que é “mamãe, eu vou poder continuar morando com você quando eu for adulto?”. E eu acho cedo pra dizer que meu sonho de consumo é que eles entrem em uma faculdade acabando o colegial e se mudem para uma república, e nao é falta de amor, é um querer bem, que eles tenham o próprio canto, privacidade, responsabilidade, cuidem de uma casa, convivam com roommates etc. Mas é cedo e eu respondo:

– Claro que podem. Mas precisam continuar cuidando da nossa casa junto comigo, e cada vez que crescerem mais um pouquinho vão ganhar novas tarefas aqui, e quando ficarem adultos vamos dividir inclusive o aluguel – porque, né, aí já aproveito para falar sobre essa coisa de divisão de tarefas do lar.

Então as conversas são mais ou menos assim:

– Mamãe, eu vou ficar adulto e continuar morando com você e vou te dar meu dinheiro para você pagar as contas.

– Mamãe, quando eu for adulto e ainda morar com você eu vou cozinhar seu jantar e lavar sua roupa.

Só fofura. 

Mas aí vem ela, a própria:

– Mamãe, quando eu for adulta vou poder morar com você, né?

– Claro, amor.

– E se eu ficar grávida?

PUTAQUEOPARIU, RUTH! 

Mau humor encarnado na mãe

A gente estava saindo pra jantar. Não bastasse eu ter que arrumar duas crianças e me arrumar, eu tenho um cão que complica todo o processo, porque ele tem que passear, tem que ter brinquedos interativos à disposição para não morrer de tédio e destruir a casa, tem que estar calmo para não uivar e matar os vizinhos do coração. Então​ eu tinha pedido para Isaac e Ruth me esperarem no térreo enquanto eu organizava a vida do Ernesto, que não ia junto. Quando chego no térreo, uma moça tinha dado uma bexiga de gás hélio para cada um deles. Socorro.

Moça, você tentou ser legal e não te culpo. Mas eu já estava acumulando um mau humor no dia, porque eu também tinha cochilado no sofá à tarde e acordado toda torta. Eu detestei aquelas bexigas. Entrei no táxi com uma criança de cada lado segurando uma bexiga voadora, e aquelas porcarias de bexiga ficaram batendo na minha cabeça e passando na frente dos meus olhos, e eu odiei profundamente a ideia de dar bexiga pro filho dos outros sem consultar os pais.

Aí eu me lembrei de uma outra vez que dei de louca. Eles tinham acabado de chegar na família, nem andavam ainda, e levei os dois sozinha em um médico. Nessa época, um ia no carrinho, o outro ia no meu colo apoiado em um braço, enquanto eu segurava a mochila e empurrava o carrinho com outro braço (não, carrinho de gêmeos é um trambolho maior ainda, eu usava um só carrinho mesmo). Quando estava saindo da consulta, a médica deu uma bexiga pra cada.

PQP.

Deu as bexigas, mas não deu uma cordinha pra amarrar as bexigas no braço. Eles tinham um ano e derrubavam ou jogavam a bexiga a cada meio segundo. E choravam. E eu lá, criança num braço, mochila no outro, outra criança no carrinho que eu empurrava com o joelho, e os infernos das bexigas que eu ainda tinha que pegar e devolver pra criança chorando. Teve uma hora que, já vendo que o choro era inevitável, eu deixei a fúria tomar conta de mim, estourei as duas bexigas e aguentei os berros – mas pelo menos não tive que correr atrás de mais nenhuma bexiga.

Não fiz isso hoje, mas tive vontade. Juro que só não fiz pois não queria que o motorista me avaliasse mal no aplicativo. #blackmirror

Agora pouco cruzei no feicebuqui com o desabafo de uma mãe que dizia que odeia brincar de boneca e que se sente muito cobrada e culpada por isso. Moça, sinta-se abraçada, e muito. Não só não gosto de boneca, como também odeio massinha, canetinha e areia (além de detestar bexigas as you know). A gente não é menos mãe por isso não. A gente é muito mãe, dá amor, educa, cuida, até faz umas coisas legais, mas não vejo essa necessidade de gostar de tudo só porque sou mãe. Eu escondo canetinha em casa, libero massinha uma vez por ano e olho desesperada para eles brincando na areia pensando que saco vai ser lavar crianças empanadas depois.

E estouro bexigas quando não tem ninguém me avaliando.

Ernesto

Ernesto, eu não te queria. Eu já tinha perdido o Fidel quando me separei do meu primeiro marido e já tinha decidido que eu não queria mais ter cachorro. Sabe o que é, Ernesto? Eu era mãe solo de duas crianças bem pestinhas e tinha certeza que não queria mais criar nenhum ser vivo nesta encarnação.

Mas aí eu cedi, concordei, achei que de repente seria uma boa ideia e te trouxe pra casa. Pra me arrepender algumas horas depois.

Eu não tava a fim de educar cachorro, Ernesto. Mas não teve outro jeito. Eu tive que te ensinar, a contragosto, a fazer xixi e cocô no lugar certo, a comer ração nos horários, a não destruir minhas coisas, a não subir na minha cama, a andar de coleira na rua. Eu tive que te vacinar, te dar banho, limpar a sujeira, comprar suas coisinhas. 

Affe, Ernesto, como foi difícil. Você queria comer as peças dos quebra-cabeças e quase derrubava a porta se eu te deixasse em outro cômodo para as crianças poderem brincar. Você comia os brinquedos deles, meus livros, os objetos de decoração, e ainda fazia muito xixi e cocô para eu limpar. Como. Foi. Difícil.

E você latia muito, Ernesto, muito. Você demorou para entender que eu sempre volto. Sempre. Nunca durmo fora, cãozinho, por sua causa. Mas você latiu tanto, que os vizinhos reclamaram, e eu tive que ter um adestrador.

Foi difícil também te adestrar. Não só porque adestramento custa dinheiro e tempo (meu). Mas porque eu que fui adestrada, eu tive que aprender que tinha um ser vivo com necessidades e sentimentos dependendo de mim e que eu precisaria pensar nisso todos os dias. Eu precisei mudar a casa e as coisas que eu fazia para você ficar bem e eu penei com isso. Que fase.

Mas quando eu tive uma deixa, eu não cogitei deixar você ir. Nunca foi uma opção você ir embora. Esta é sua casa, sua família e você vai viver conosco. Comigo.

Você ganhou meu coração com esse jeito incrível de melhor cachorro que já tive. Você me ama todos os dias, mesmo nos dias em que não te levo pra passear ou esqueço da sua comida (acontece). Você me recebe com a mesma alegria se te deixo sozinho por 10 minutos ou 12 horas e você nunca ficou bravo ou guardou rancor por nada. Você nunca recusou um abraço ou um carinho e sei bem que a maior felicidade da sua vida é todo mundo chegar em casa no final do dia. E você ri quando eu te chamo. Eu tenho um cachorro que dá risada, gente.

Você me ajuda a ensinar para minhas crianças o que é família e amor incondicional. Toda vez que você faz alguma besteira (continuam acontecendo), eles me perguntam se vou mandar você embora. E eu te uso para explicar que não, que sua casa é aqui, que estou brava mas sigo te amando e que você nunca vai embora. Que depois vamos desculpar, esquecer e continuar nos amando. Você também me ajuda a ensinar para eles a responsabilidade que temos com os seres que dependem da gente, porque temos que te alimentar, te lavar, te levar ao médico e te preparar para ficar sozinho quando vamos sair. E que temos que cuidar de tudo juntos, então eles recolhem seus brinquedos e sua bagunça quando chegam da escola enquanto eu limpo o xixi e o cocô.

Eu te amo porque você gosta de tudo, Ernesto. Porque você gosta dos meus filhos, dos meus amigos e do meu namorado, e porque você tem certeza que as pessoas vão em casa para te visitar. Amo seu olhar de bagunçado que você tem, e amo quando você encolhe as orelhas denunciando que fez caca. Também amo quando você gruda na porta do corredor quando já está tarde e ainda estou trabalhando na sala, porque você quer que a gente vá pro quarto. Amo que você come todos os petiscos vegetarianos que te dou e morro de orgulho quando você devora talinhos de rúcula. E amo que você é meu melhor amigo de corrida, porque é pra você ficar bem durante o dia que eu saio da cama cedão pra gente correr, e parabéns por já ter chegado aos 10k! Juro que sempre penso se um dia você não devia fazer mountain bike comigo e correr ao meu lado nas trilhas.

Eu não te queria, mas não te largo por nada, Ernesto. Tô voltando de viagem a trabalho e saber que já te levaram para casa e que você vai estar lá pra me receber com pulos e latidinhos alegra meu fim de noite. Sabe o que é? Home is where your dog is 🙂

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Xô, Páscoa

Sou ateia, mas eu gosto de reunir a família e tal. Também gosto de um feriadinho, quem não gosta?

Mas tem duas coisas que me fazem detestar a Páscoa.

Primeiro: o tanto de chocolate que eles ganham. Ai, gente, não gosto, não. Não gosto que eles comam chocolate, é mais forte que eu. Gosto que eles comam couve, mexerica e caqui, sabe? Eu fico regulando, escondendo, é um saco.

Segundo: EU NÃO TENHO MATURIDADE PARA VIVER EM UMA CASA COM TANTO CHOCOLATE. Não tenho controle de mim mesma. E, dado o tanto de home office que faço, vou acabar tendo uma intoxicação com tanto chocolate que tô comendo.

Ano que vem, família querida, não comprem chocolates pra gente não. Não sei lidar e não vou mentir: quem come tudo sou eu, não eles. ❤

Quando um quer, dois brigam

De uns anos pra cá, eu decidi que briga não iria mais fazer parte da minha vida. Significa que, se eu não consigo parar de brigar com alguém, eu saio fora. Paro de falar com a pessoa, termino o relacionamento, peço demissão, encerro contrato, vou pra bem longe.

Mas tem um karma: ser mãe de duas crianças que não param de brigar. Não param, gente. No minuto 1 depois que acordam, estão resistindo para colocar o uniforme. No minuto 2, estão brigando por alguma coisa idiota do tipo “o tênis dele é de amarrar e eu também quero e não tenho e eu odeio ele por isso”.

Affe.

Eu entendo, porque tenho irmã e briguei com ela a vida toda até tipo o mês passado. E eu acho que, para começar uma briga, basta um só querer. Briga é a relação de duas (ou mais) pessoas e tem os sentimentos no meio, então não acho que quando um não quer, dois não brigam. Eu acho que basta um começar a provocar que a briga vem rapidinho, entre os adultos e as crianças.

Eu só não sei como suportar essa mediação constante de brigas. Eu fugi de toda e qualquer briga na minha vida adulta e não consigo ter sucesso no projeto “acabar com brigas dentro da minha casa”. 

De vez em quando estou paciente e repasso com eles os diálogos que levaram a uma briga, tentando mostrar como ser mais gentil, compreensivo e como não entrar na briga (ou sair dela). De vez em quando não estou paciente e dou uns berros do tipo PAREM DE FALAR UM COM O OUTRO PELOAMOR QUE NÃO AGUENTO MAIS VOCÊS BRIGANDO. Aí tem vezes que apelo mesmo e nem deixo a briga começar: coloco cada um no seu quarto pra brincar sozinho e nem deixo cruzar com o outro para nem dar chance (porque juro que nenhuma brincadeira amigável dura mais de três minutos).

E as brigas são tão bestas que até perco a razão de viver. Ontem eles brigaram para ver quem ia ficar com a caixa de papelão da próxima encomenda que eu receber. Eu não tinha recebido nada ontem, então não sei como eles conseguiram entrar nessa briga. Não sei nem como arranjar paciência para mediar e resolver uma briga hipotética tipo essa. Isaac, Ruth, eu vou jogar vocês dois no lixo reciclável junto com a caixa se isso efetivamente virar briga no dia em que chegar algo pelos correios. Juro.

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