Conto do meu amor pela Europa

Eu não fiz intercâmbio durante o colégio ou faculdade, não fiz pós-graduação fora, fiz apenas cursos de inglês e francês durante poucos meses na Europa e um projeto de consultoria na África do Sul.

Mas eu tinha essa vontade imensa de morar fora, lá na Europa. Meu passaporte italiano sempre falou mais alto que o brasileiro e eu passei anos pensando em planos para morar na Europa, com meu primeiro marido, com meus filhos, depois com o segundo marido, e nada deu certo.

Eu queria viver em uma cidade com predinhos baixos e varandas fofas, andar de bicicleta sem medo de ser atropelada, falar outra língua, ter um inverno de verdade com neve, não ter tanto medo de violência, essas coisas que nunca experimentei.

Mas aí me vi doente e agradeci com todas as forças o fato de morar na mesma cidade que minha família, que meus amigos e que o pai dos meus filhos. Eu usei e abusei de toda essa rede e não teria sobrevivido sozinha. E criei raízes. Aos 35 anos, depois de 35 anos querendo fugir de São Paulo, criei raízes e decidi que o melhor para nossa vida é viver pertinho do pai, da família e dos amigos.

Mas eu fui lá pra Europa passear, porque é lá também que gosto de passear, e me apaixonei.

Por um europeu.

Que vive na Europa.

Amo muito a vida e todas as suas ironias.

Foi amor à primeira vista, quando eu o vi, eu já sabia que eu ia querer largar tudo e correr pra ele.

Rasguei as raízes, quis comprar outra passagem assim que voltei pra São Paulo e seguir pra lá de volta porque eu tinha que viver um amor europeu.

Mas não.

Porque tenho meus pequenos.

Porque eu só tenho R$ 3,80 pro busão e não posso gastar R$ 3.800 em passagens.

Porque nosso plano continua a ser viver em São Paulo, perto do pai, da família e dos amigos, até que eles sejam adolescentes e possam decidir junto comigo se também querem aproveitar o passaporte italiano que herdaram de mim.

Vou viver em São Paulo com vocês, meus pequenos, mas meu coração agora vive um pouquinho mais praqueles lados. ❤

A gente fala sobre esses planos de viver lá daqui a 10 anos, combinado?

Escrito no comecinho de janeiro de 2017, publicado hoje porque
encontrei nos arquivos antigos e achei fofinho.

A confiança que depositam na gente

Meu melhor amigo compartilha comigo uma imensa falta de habilidade para conduzir a vida. Quando digo vida, digo num sentido bem amplo: a vida amorosa, a vida financeira, a vida profissional, a vida doméstica, tudo é difícil de conduzir direito. E aí a gente estava papeando sobre isso, e no meio da conversa eu mencionei o aniversário de 97 anos da minha avó na semana que vem, e ele disse assim:

– Pqp, Ruri, a velhinha tá aqui fazendo hora extra e não consegue morrer em paz porque você não resolve sua vida nunca.

Pois é. E olha que obatian tá preocupada com minha vida amorosa, mas a vida amorosa tá ótima perto da minha conta bancária. Ainda bem que ela não sabe.

Aí tem a minha mãe, filha desta minha vó. Minha mãe também fica de cabelo em pé com a minha vida, mas a preocupação dela não é a falta de marido. Pelo contrário, na cabeça dela rola um “ainda bem que essa doida tem dois filhos que impedem um outro casamento rápido porque eu tenho certeza que ela vai fazer caca de novo”. Para minha mãe, falta um emprego fixo, uma previdência privada, um imóvel, uma estabilidade financeira, uns bens, umas rendas para garantir o sustento das crianças, um monte de coisa que não tenho.

Aí a gente almoçou, eu estava ouvindo um sermão sobre como conduzir melhor esta vida de deus-me-livre e eu contei a história acima para ela, sobre a obatian estar fazendo hora extra por minha causa. E minha mãe me respondeu o seguinte:

– Eu não. Eu faço questão de morrer na hora em que eu tiver que morrer. O que eu não quero é viver muito e ficar assistindo o desenrolar da sua vida, EU NÃO MEREÇO.

Nada como o amor de nossos pais pra gente seguir firme e forte na vida. Também te amo, mãe. ❤

 

 

Fast forward

– Bom dia, mamãe! Quando você vai chamar alguém (jurei que ela ia dizer “arquiteto”) pra transformar meu quarto em um quarto de adolescente (“adolescente” ela falou)?

– Affff, Ruth, acordou com fast forward? Põe seu uniforme e vai pra escola aprender a ler que depois a gente conversa.

Édipo

Out of the blue:

– Mamãe, eu não quero que você tenha outro namorado nunca mais.

Affffff, cada uma, Isaac.

– Ah, é?

– É. Mas você podia ter uma namorada. Assim a gente teria duas mães e aí você poderia ser só minha mãe e a gente deixava a outra mãe pra Ruth.

A coisa que mais gosto nos cinco anos são as ideias de jerico que eles têm, cada vez mais bem elaboradas. 🙂

– Ótima ideia, Isaac, PENA que não é você que decide isso.

Negociação tem que ser ganha-ganha

Uma amiga me chamou para um café e eu estava com as crianças, então fomos em um lugar com brinquedoteca. O plano era a gente tomar café e conversar e eles brincarem, um plano lindo.

Funcionou bem um tempo. Aí a Ruth aparece na mesa:

– Mamãe, o Isaac está jogando um videogame e não deixa eu jogar e só tem um controle e eu quero jogar.

Afffff como é difícil ter dois. Respirei fundo e expliquei:

– Ruth, sabe o que acontece? Você me colocou em uma situação onde eu só me ferro. Não tem como eu sair ganhando, eu vou me ferrar. Ou eu te digo que você não vai jogar videogame e você vai ficar aqui chorando na minha orelha ou eu vou até lá e peço pro Isaac te deixar jogar e ele vai vir aqui ficar chorando na minha orelha. Não tem como isso que você está pedindo ser bom pra mim, entende? Me ajuda?

Ela passou bem uns cinco minutos quieta olhando pra minha cara.

Depois virou as costas e foi brincar com bexigas. Nada como ser sincera com as crianças e resolver todos os problemas!

Mentira. Passou uns 10 minutos, ela voltou com a mesma história e aí ferrou todo meu café. 😀

 

 

Conflito de gerações

Eu tava acompanhando a conversa da minha filha de 5 anos com minha avó que faz 97 mês que vem.

– Obatian, posso te ajudar a cozinhar?

– Não, você vai me atrapalhar, chama sua mãe pra ajudar que ela que devia cozinhar nessa casa.

Aí vem a pérola:

– Ruth, seu pai casou de novo?

– Não.

– Então fala pra sua mãe voltar com ele que tava bem melhor antes.

Nessa hora eu separei as duas porque o assunto ficou inadequado demais pra Ruth, mas não culpo a obatian, não, que é uma fofa.

Obatian, fica tranquila, eu vou me casar de novo. Mas vou me divorciar de novo, tá? Porque agora que entrei nessa disputa, faço questão de vencer a Gretchen e não posso perder tempo.

Outra coisa, obatian. Tem um produto que não existia na sua época e que por isso você nem considera, mas é muito comum hoje em dia e não vivo mais sem. Se chama “namorado que cozinha”, melhor coisa da vida atual.

🙃🙃🙃

Te amo, obatian!

Vida após a morte

Minha mãe tentando me convencer a comprar um apartamento:

– Filha, você tem que ter uma casa própria, imagina se você morre, onde Isaac e Ruth vão morar?

– Mãe, se eu morrer, Isaac e Ruth serão problema de quem ficar vivo, não meu. Não preciso me preocupar com isso, alguém vai resolver.

Isaac em uma declaração de amor:

– Mamãe, te amo tanto que quando você morrer eu vou morrer junto e ficar no mesmo caixão que você.

– Tá doido, menino, você quer ficar grudado em mim até quando eu morrer? Sai pra lá, vai curtir sua vida enquanto eu curto meu caixão em paz!

Mãe e filho: entidades que querem te controlar até depois da morte.

(amo muito vocês três, mamis, Isaac e Ruth) ❤

Homem hétero e seus problemas

Um amigo veio dizer pra mim que está saindo com uma mãe solo e que tá complicado, tá difícil, ele tá em crise, não sabe se continua blá blá blá. Queria dicas minhas. Eu pensei em classificar como “pequenos desgastes” e deixar pra lá, mas resolvi dissertar.

Vamos lá, meu querido.

Primeiro: o mesmo tipo de homem que diz que tá complicado sair com mãe solo também diz que não sai com mulher feia, mulher gorda, mulher pobre, mulher com doença, mulher com deficiência, mulher velha, mulher rodada, mulher divorciada e por aí vai porque ele enxerga o tipo ideal de mulher: branca, solteira, magra, bonita, inteligente, estudada, empregada, sem filhos, que tenha tido poucos parceiros sexuais, que queira casar só e somente só ele quiser e que queira filhos só e somente só ele quiser. Né não, gente? Quando eu ouço algo assim, parece que os homens finalmente entenderam que as mulheres não precisam mais ser virgens para valerem a pena, mas precisam manter a pureza e castidade mesmo assim. Filhos, casamentos anteriores, “bagagem” estragam tudo. Affff.

Amigo, quanto mais vivemos e mais velhos estamos e passamos a nos interessar por pessoas mais velhas (aka da nossa faixa etária, porque estou assumindo que pedofilia não é uma opção), maior a chance de estas pessoas já terem filhos. Aliás, não só filhos. As pessoas vivem, né? Elas passam por traumas, histórias, separações, doenças, dificuldades, conquistas, decisões, coisas que fazem parte da vida. Se chama “história de vida de cada um”.

Achar complicado sair com uma mãe solo significa o desejo de ter uma mulher disponível para o que você quiser a hora que você quiser, porque os filhos a impedem de sair quando der na sua telha, de dormir na sua casa, de viajar quando você está a fim de viajar. Significa que no fundo você quer controlá-la. Sou mãe solo e não são só meus filhos que não me deixam ter uma agenda 100% à disposição do meu namorado, sabe? Porque eu trabalho, estudo, faço esportes, tenho hobbies, tenho amigos e família e simplesmente não estou disponível a hora que ele quer, mas a hora que eu quero. E esta história de querer uma mulher disponível leva rapidamente a achar que você pode palpitar no cabelo, na roupa e no corpo dela, nos amigos e em quem ela conversa, no jeito que ela fala, no trabalho, nas coisas que ela quer fazer e por aí vai. O nome disso é controle e você começou querendo ter controle sobre o que ela viveu antes de te conhecer.

Ah, mas você diz que o relacionamento com uma mulher que tem filhos é diferente do relacionamento com uma mulher que não tem filhos. É, nego. Todo relacionamento é diferente um do outro porque as pessoas são diferentes, não importa se elas têm filhos ou não. Não adianta você comparar a ex-namorada sem filhos com a namorada atual com filhos porque a diferença não são os filhos, mas são as pessoas. Do jeito que você fala parece que namorar mulheres que não têm filhos é sempre igual, e você sabe que não é.

Os filhos dela não vão atrapalhar o relacionamento, não, porque são problema dela, não seu. Você pode escolher não conhecer as crianças, assim como ela pode escolher não te apresentar as crianças, mas vai por mim, os relacionamentos vão mal por causa dos adultos, não das crianças. E relacionamentos entre duas pessoas sem crianças vão mal o tempo todo, apenas para constar. E não precisa se preocupar agora se você quer casar/ não quer casar, quer ter filhos/ não quer ter filhos, porque casamento e filhos são decisões que duas pessoas tomam juntas (ou, no caso de gravidez acidental, é acidente que duas pessoas passam juntas). É a mesmo absurdo que começar a sair com uma mulher que não se casou e não teve filhos e ficar pensando AIMEUDEUSVAIQUEELAMEOBRIGAACASARCOMELA. Não, né? Qualquer mulher pode querer se casar e ter (outros) filhos, independente de ela já ter filho. Aliás, ele pode inclusive querer mais filhos mas não querer que você seja o pai, porque talvez você não seja o cara. Ou ela pode não querer. Sei lá. Só sei que você deveria assistir uns filmes abraçadinhos, transar loucamente, se enfiar no meio do mato no final de semana em vez de ficar se preocupando com isso. Assiste La La Land com ela, passa o dia cantando City of Stars e deixa pra pensar nisso no futuro, cara.

O que aprendi neste tempo como mãe solo em que namorei, casei, divorciei, conheci pessoas e me envolvi é que existe uma coisa essencial na vida que se chama respeito. Respeito pela vida do outro, pelo que a pessoa já viveu e por quem ela é. A maternidade faz parte da vida da mulher com quem você está saindo assim como todas as outras coisas que ela escolheu viver ou teve que passar e que a tornam única. Uma das coisas mais legais que já senti nesses anos como mãe solo foi o respeito de alguém que sabe de toda minha vida e que não fica me achando uma complicação ou uma dificuldade por eu ser quem eu sou. Uma das coisas que acho que as mulheres esperam – tendo filhos ou não – é encontrar alguém que não julgue, que não critique, que não fique falando sobre defeitos, que não fique vendo problemas em tudo. É muito mais um “nossa que legal que você gosta de cinema pedal forró viagens drinks papo cabeça” que um “ah que droga que você não pode fazer o que eu quero hoje porque vai estar com filho/ amigo/ família/ trabalho”, entende?

Então quando você me pede dicas, eu tenho uma só: respeito. E não é só respeito pelas questões do filho, tá? É respeito pela liberdade dela, pelas vontades dela, pela forma como ela conduz a vida dela, pelo espaço dela, pelo tempo dela, pela vida toda dela. Vai por mim, respeito.

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Estranho no jantar

Eu estava jantando com os dois e tinha um homem, bem mais velho que eu, puxando conversa com eles da mesa ao lado. Só o fato de ele estar chamando a atenção dos meus filhos enquanto eu queria conversar com eles e enquanto eu queria que eles comessem direito já estava me incomodando, mas eu estava tentando não ser chata e não olhar torto.

– Qual o nome, quantos anos, que time vocês torcem, que gostam de fazer, que estão comendo. – moço, é tanto trabalho pra ensinar crianças a não falar com estranhos, porque infelizmente isso pode ser perigoso, e você estava definitivamente me irritando e atrapalhando nosso jantar.

Aí vem a pérola:

– Não vão comer muito pra não engordar. Deixa eu ver sua barriga. E a sua. Agora a sua, mamãe.

Isaac foi mais rápido que eu, que estava com um palavrão na ponta do língua:

– Minha mãe não vai mostrar a barriga dela pra você porque é particular.

Impressionante como tem homem que faz nossa fé na humanidade evaporar. Mais impressionante ainda é como Isaac é sensível e maduro quando preciso dele. Obrigada, pequeno.

Sem gravidez nesta vida :)

Há uns dias o Facebook me mostrou um post que publiquei há um ano atrás falando sobre meu luto por não ter engravidado. Eu estava a seis meses dos 35 anos, data mágica do relógio biológico, concluindo que apesar de ter, sim, uma curiosidade com a gravidez, eu não tinha vontade de ter um terceiro filho e que iria passar por esta vida sem a gravidez. Um pouco antes, na semana do meu aniversário de 34 anos eu publiquei outro post também falando sobre gravidez. Não tinha me dado conta até agora, mas eu senti os 35 chegando como minha data limite para pensar em engravidar e registrei isso em vários momentos.

E os 35 chegaram e ironicamente bateram o martelo na não-gravidez, por três motivos que não têm nada a ver com o relógio biológico. Primeiro eu me divorciei do meu segundo marido e fiquei sem um reprodutor. Considerando que maternidade solo de novo não é uma opção, ter ficado sem um potencial pai é um motivo para uma não-gravidez. Segundo eu tive câncer e eu não quero ter filhos biológicos que vivam com medo de ter câncer porque a mãe teve câncer aos 35 anos. De verdade, não quero, eu não conseguiria lidar com essa culpa de poder passar algum gene maluco que causa câncer para um filho. E, por fim, vou tomar um medicamento por dez anos que pode trazer sérias complicações para o feto. Eu poderia parar o medicamento para tentar engravidar, mas isso me deixaria exposta a uma recidiva, então não é uma boa opção.

Não é irônico? Eu achei irônico. Parece que eu sempre soube que gravidez não era uma opção para mim, porque nunquinha nunquinha eu fiz sexo desprotegida me deixando no risco de engravidar. E, por não ter engravidado, eu não virei mãe solteira de uma criança a mais nem vou viver me culpando por genes malucos espalhados por aí.

A parte linda dessa história tem dois nomes: Isaac e Ruth. Isaac e Ruth são as duas melhores escolhas que fiz nessa vida, porque me fizeram mãe da maneira como eu deveria ser mãe e que me fizeram chegar aos 35 totalmente bem resolvida com a questão da maternidade. Eles vieram para minha vida e hoje, depois de tanta confusão que passei, já sou mãe de duas crianças lindas e já dei check no to-do “maternidade” que eu tinha no planejamento estratégico da vida. Isaac e Ruth, porque vocês já existem, eu tô aqui vivendo felizona pensando em doutorado, em viagens, em projetos de consultoria, em trilhas de bike, em shows e passeios e me sinto completa. Obrigada por terem aparecido. E ao meu primeiro marido, obrigada por ter entrado nesta aventura junto comigo que me trouxe estas duas porcarias lindas. Adotar foi a melhor coisa que fiz nesta vida.

 

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