Menos controle, mais tempo, mais amor

Quando me separei do pai dos meus filhos, nós fizemos um acordo que era muito comum, igual ao de muitos amigos e conhecidos nossos: a guarda das crianças ficou comigo, o que significa que elas moravam comigo e ficavam comigo a maior parte do tempo, e o pai as visitava aos finais de semana e uma noite por semana.

A gente entendeu que era melhor para as crianças dessa forma e realmente foi bom para elas. Eu morei mais um ano e meio no apartamento em que vivíamos os quatros juntos, então eles praticamente não mudaram a rotina neste período. Eu também achava que era bom ter a mãe por perto na maior parte do tempo. Na verdade, inconscientemente, eu também achava que eles eram meus filhos, então só eu saberia cuidar deles e tudo deveria estar sob meu controle. Então encarei a vida de mãe solo e assumi tudo o que viesse pela frente, a.k.a. toda a responsabilidade e todo o stress. Muito stress. Mas eu achava que era um super-herói e pronto. O pai sempre foi presente, mas eu sempre achei que daria conta de absolutamente tudo sozinha se precisasse porque eu era boa demais, claro.

Aí o câncer fez minha vida virar de ponta-cabeça, não sem antes dar quatro mortais e cair de costas no chão algumas vezes e quebrar vários ossos. A primeira pessoa para quem eu liguei após receber meu diagnóstico foi o pai dos meus filhos (sorry, mãe, sorry, pai, sorry, Manu). Não foi uma ligação de AI MEU DEUS VOU MORRER VOLTE PARA OS MEUS BRAÇOS QUE NÃO SEI VIVER SEM VOCÊ. Na verdade, a primeira coisa que me veio à cabeça quando soube que tinha câncer foi um GZUIZ COMO EU VOU SER UMA MÃE COM CANCÊR? e eu liguei para ele para contar. E a partir deste dia ele ficou cada vez mais presente em nossas vidas, na nossa casa e realmente me ajudou e me apoiou muito nesta coisa chata que é ter câncer. E não foi só por ele ter realmente se preocupado, ter perguntando exatamente o que estava acontecendo e por ter aparecido em casa no dia seguinte para dizer que queria me ajudar. Ele pegou a parte mais importante desta coisa toda, que era deixar Isaac e Ruth bem para eu poder me cuidar.

Eu me surpreendi muito porque meus filhos viveram tranquilamente durante quatro semanas enquanto eu pirei. Eu realmente não me envolvi em nada do que acontecia no dia-a-dia deles neste período e tudo correu bem. Eu, no fundo, achava que ia dar tudo muito errado, porque eu sou extremamente necessária em tudo o que diz respeito a meus filhos.Eu achava que o pai ia aparecer chorando aqui em casa com os dois mergulhado em desespero. Não, Ruri. Primeiro veio aquele balde de água fria de “não, não é só você que sabe fazer as coisas direito”. Depois percebi que muitas coisas estavam melhores que antes. Por fim me peguei pensando nesta dinâmica toda que temos na nossa família.

Sim, ser amiga de ex é missão impossível que só aquelas almas evoluídas e livres de raiva-culpa-saudade-vontade-de-matar-inveja-ciúmes-loucura-desprezo sabem fazer. Mas não era apenas uma questão de ser ou não ser amiga do ex: o pai dos meus filhos deveria ser o meu melhor amigo, porque estamos juntos na missão mais importante de nossas vidas, que é criar nossos filhos. Então ele deveria ser não apenas um amigo, mas um grande amigo, um mega amigo.

Mano do céu, como eu me surpreendi com tanta clareza e maturidade. Obrigada, câncer.

Depois de muitas conversas, nós partimos agora para uma guarda compartilhada das crianças. Eu, ex-pessoa controladora, achava que guarda compartilhada era coisa de gente tentando roubar meus filhos de mim e tentando meter o bedelho no que eu estava fazendo, e eu era orgulhosa demais para permitir isso, afinal de contas ninguém poderia ser tão bom quanto eu. Era tanta vontade de controlar que eu nunca tinha parado para pensar em como é bom que meus filhos convivam mais tempo com o pai.

Metade da semana com cada um, é assim que vai ser daqui para frente. Para o pai, um tempo maior para curtir os filhos. Para as crianças, o pai bem mais presente no dia-a-dia. Para mim, um parceiro para compartilhar as dores e as delícias dessa história toda, um tiquinho menos de stress porque não acho mais que tenho que carregar tudo isso sozinha e mais tempo para mim. Tempo, gente, tudo o que eu mais gosto nessa vida. Ou seja, uma família bem mais feliz.

PS: só para esclarecer, quando eu digo “obrigada, câncer” nunca-jamais-de-forma-alguma estou agradecendo por ter tido câncer. Eu preferia não ter tido câncer e seguir vivendo na minha imaturidade e na minha mania de controle. Mas, como não pude escolher ter ou não ter câncer e o dito-cujo entrou na minha vida sem ser convidado, eu escolhi aprender com ele.

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Mais que um câncer

Minha vida entrou em um hiato no último mês, como se eu parasse tudo o que eu vivia para viver algo que eu não queria viver.

Eu tenho bastante histórico de câncer na família, então eu sempre tive no radar alguns tipos de câncer que eu poderia ter um dia e acompanhava essas coisas. Câncer de mama nunca esteve no radar e eu fui diagnosticada com câncer de mama aos 35 anos, bem no ano mais cagado de toda minha vida. Meu ano de 2016 já estava todo cagado e eu descobri um câncer no meio do ano, que me fez morrer de medo de ainda viver os quatro meses que vinham pela frente.

Ninguém quer ter câncer porque o câncer simplesmente não se encaixa na vida de ninguém. Ele estava errado na minha vida, não tinha lugar para ele. Primeiro, porque eu nunca quis colocar prótese mamária, eu adorava meus seios do jeitinho que eles eram. Nunca cogitei na minha vida uma cirurgia nos seios, ainda mais uma cirurgia forçada, que não necessariamente me deixaria mais bonita. Quando as enfermeiras vieram me buscar para ir para o centro cirúrgico, eu desci chorando na maca e só pensava em como assim tantas mulheres entravam em cirurgias nas duas mamas ao mesmo tempo por livre e espontânea vontade. Outra coisa é que eu tinha feito um corte diferente no cabelo há uns dois meses e estava feliz como nunca com ele, pensando em refazer as luzes, e ia gastar uma nota com isso. E aí eu comecei a me perguntar se minha mãe ainda tinha a peruca dela e se algum dos meus lenços serviria para cobrir a cabeça toda ou se eu já deveria comprar alguns. Também fiquei pensando se minha cabelereira toparia vir em casa para raspar, para eu não ter que chorar copiosamente ao ficar careca no salão. Eu estava me preparando para o processo seletivo do doutorado, dando aulas, assistindo aulas, estava no meio de uma proposta para um projeto de consultoria, não tinha planos de tirar férias forçadas para ficar de molho em casa me recuperando de cirurgia e tratamento. Nem em julho eu tinha conseguido tirar férias para me divertir, que dirá parar tudo em setembro para ficar doente. Eu estava feliz como nunca com meu corpo, malhando bastante há um ano e meio, estava magra, sarada, feliz com o que via no espelho, aí eu comecei a pensar em meses sem poder fazer ginástica direito, sem correr com meu cachorro, sem andar de bicicleta, sem jogar tênis. Fora os planos e os sonhos que ficaram on hold: duas viagens adiadas, alguns ingressos já comprados, as próximas férias, o plano de estudar fora, um monte de coisas que eu não sabia se ia poder fazer.

Foi foda. Receber um diagnóstico horroroso, depois continuar investigando mais um pouco para entender o tamanho do problema e descobrir coisas mais horrorosas, ficar escutando alternativas dos médicos que eram todas ruins e ficar torcendo para cair no quadro menos pior foi bem foda.

Fiquei bem de mal com meu corpo, como se ele tivesse me traído, como se ele não tivesse o direito de ficar doente. Eu sempre sempre sempre cuidei muito bem do meu corpo e me senti traída. Justo eu, que nunca fui sedentária, que pratico exercícios físicos quase diariamente, que nunca estive acima do peso, que prefiro orgânicos, que não como carne, que não ponho na boca refrigerante, macarrão instantâneo, nuggets, bolachas recheadas e coisas com glutamato monossódico há anos, que não fumo, que não uso adoçante, que durmo bem, que não tiro as cutículas, que quase não tomo sol e sempre com protetor 60, que faço o check-up anual sempre em dia. Meu corpo não tinha o direito de fazer isso comigo.

Nunca tive medo de morrer, porque morrer parece ser fácil. Meu medo era viver mal, viver doente, viver com medo, viver com limitações. Eu já estava passando por um período não muito bom, daqueles que nos deixa descontentes com a vida pessoal, com a carreira e com todas as decisões que já tomamos. Mas, de uma hora para a outra, minha vida, minha casa, meus trabalhos, meus amigos, meus filhos e todas as coisas que gosto de fazer voltaram a ser incríveis e fantásticas e eu só queria viver tudo aquilo da melhor forma.

Tudo o que eu ouvia sobre câncer de mama me deixava irritada. Uma das grandes irritações eram panfletos e sites dizendo que não ter engravidado até os 35 anos aumentava o risco de câncer de mama. Como se fosse culpa minha, porque eu resolvi por livre e espontânea vontade adotar. Como se todas as mulheres devessem escolher engravidar antes dos 35 para diminuir este risco, da mesma forma que se recomenda não fumar, tomar dois litros de água por dia ou cuidar bem da alimentação. Como se engravidar não gerasse uma vida, não tornasse a mulher uma mãe, algo que ela precisar querer e tem o direito de não querer. Como se para engravidar a mulher não precisasse de um homem participando do processo ou de um tratamento de fertilização. Não estou questionando se isto está estatisticamente ou cientificamente correto ou não, mas é o tipo de informação que não ajuda em nada. Principalmente porque um dos questionamentos que os médicos fizeram sobre meu caso é se não era uma questão genética e aí eu deveria ficar feliz por não ter passado isso para a Ruth? Ah, meu.

Eu me deixei ficar triste por isso e chorar muito. Chorar porque descobri que tenho câncer me pareceu genuíno desde o começo, como se não fizesse sentido não chorar por uma coisa dessas. Eu chorei todos os dias desde que soube e também alguns dias antes de saber, entre marcar a biópsia, fazer a biópsia e esperar o resultado. Até hoje parece ser o único choro que vale a pena ser chorado. A gente sempre se envergonha por chorar no trabalho, pelo namoro que termina ou por brigas com alguém querido, mas eu nunca senti que eu não deveria chorar porque eu tinha câncer e chorava sempre que tinha vontade. E em qualquer lugar, aliás.

Eu também me dei o direito de esquecer todos os outros problemas que não eram eu mesma, me dei o direito de ser egoísta literalmente. Ernesto – meu cão –  foi para a casa de uma amiga, porque ele sentiu de verdade o fato de eu não estar bem e começou a não ficar bem junto comigo. No meu caso, eu revezava entre chorar em posição fetal no sofá e querer fazer todos os programas que acho legais fora de casa. No caso dele, começaram a rolar umas coisas que ele não fazia há tempos, como xixi na sala, destruição de livros e almofadas e latidos constantes, fora as vezes em que ele ficou horas olhando para a minha cara e chorando, mesmo que eu brincasse e fizesse carinho nele. Eu continuei os trabalhos que vinha fazendo porque não queria prejudicar as pessoas com quem tinha me comprometido, mas me deixei não ser tão produtiva. Eu fui meu único problema durante algumas semanas e não me arrependo nem um pouco disso.

Uns dias antes da cirurgia, Isaac e Ruth foram para a casa do pai, porque eu não estava conseguindo me concentrar no papel de mãe, nem nas coisas simples como fazer jantar, muito menos nas coisas mais complexas como questões na escola. Ser mãe é difícil, ter câncer é difícil, ser mãe com câncer foi impossível para mim. Eu me desliguei uns dias dos meus filhos e acho que fiz bem. Fiz bem porque pude confirmar que, sim, eu escolhi o melhor pai do mundo para os dois e que nunca mais preciso me preocupar com o que irá acontecer com eles se um dia eu morrer. Eles seguiram a vidinha deles e o pai estava lá ao lado deles cuidando de tudo que eles precisavam enquanto eu enlouquecia e tentava voltar ao normal. Fiz bem porque não queria dividir com eles todos os altos e baixos pelos quais eu passei.

Porque entre receber o diagnóstico e operar eu vivi 12 dias de loucura. Operei rápido, o que foi bom, não apenas porque eu tinha câncer e precisava dar um jeito de tirar o câncer de dentro de mim, mas porque receber diagnóstico de câncer enlouquece – literalmente enlouquece – e obviamente eu não estava preparada para isto. Ninguém está preparado. Depois que fiz a biópsia, metade de mim achava que iria ser benigno e a outra metade não fazia a menor ideia do que era ouvir ou ler “é um câncer”. Eu estava dando uma aula quando minha ginecologista me ligou com o resultado do exame. Eu atendi, ouvi o diagnóstico e resolvi que ia continuar as duas horas de aula e lidar com aquilo mais tarde. E daquela noite em diante eu passei a conviver com um tsunami de emoções e experimentei todos os sentimentos possíveis que iam e voltavam em questão de minutos. Eu me sentia triste e chorava muito, mas ao mesmo tempo tinha esperança que eu ia enfrentar e vencer tudo isso e que o caso ia ser simples, morria de raiva da vida, do meu corpo e dos médicos que não diziam o que eu queria ouvir (briguei feio com um deles em uma consulta e minha mãe morreu de vergonha), ficava eufórica alguns dias e resolvia fazer tudo o que eu gostava de fazer como se eu fosse morrer dali uns dias e aí eu era a melhor companhia do mundo, mas dali a poucas horas eu virava a pior companhia ever, que só chorava, atacava ou reclamava. Lembro de um amigo me dizendo durante um jantar em que eu cheguei chorando e revirei o prato chorando porque nem consegui comer nada: “como isso aconteceu se passamos a manhã juntos e você tava ótima, se te dei tchau às 16h e você estava sorridente?”. Naquele dia eu pedalei 26 km, almoçamos super gostoso falando de assuntos leves, voltei pra casa, vi TV, tomei banho e quando escureceu eu tive uma crise de pânico e ansiedade e chorei sem parar por mais de 24 horas, incluindo um outro passeio no dia seguinte em que mal consegui falar. Teve outro amigo que me ligou na noite anterior à cirurgia para saber como eu estava, me pegou em uma crise de choro gigante que só passou porque ele chegou na minha casa em minutos e aí eu consegui dormir. Uma amiga foi me fazer companhia no laboratório porque eu estava fazendo os exames pré-cirúrgicos chorando, sem nenhum motivo, porque eram apenas os exames de coração e tal, e eu já imaginava que não ia sair nada errado. Em compensação, nestes mesmos 12 dias eu provei drinks incríveis de bartenders ótimos, assisti um show de jazz lindo, fui ao cinema e me concentrei no filme por duas horas, assisti um musical, entreguei uma proposta para um projeto de consultoria, recebi um monte de amigos para jantar e cozinhei coisas incríveis para eles. Foi muita loucura, porque eu não me reconhecia na raiva, nem nas crises de choro e nem nos momentos de euforia em que eu amava viver como nunca.

Eu vivi 12 dias com a certeza absoluta que meu seio direito era a coisa mais importante da minha vida e que toda minha existência girava em torno dele. Toda. Vivi 12 dias pensando que não podia perdê-lo, que não podia mudá-lo, que minha vida nunca mais seria a mesma sem ele. De fato a minha vida nunca mais será a mesma, mas eu custei a me convencer que minha vida mudaria pelo câncer, não pelo seio, porque no fim das contas o seio está aqui igualzinho ao que ele era antes, sem nenhuma prótese, como eu queria. E foi um trabalho muito grande para eu convencer a mim mesma que sou muito mais que o câncer ou que meu seio. E a melhor coisa que eu ouvi de um amigo neste sentido foi “eu não ligo nem um pouco para seu seio”, porque aí eu realmente comecei a pensar que ninguém olhava para mim e ficava pensando no meu seio. E também foi ótimo quando outro amigo me perguntou quantas vezes eu tinha me apaixonado por alguém sem nem ter visto o corpo da outra pessoa ainda, porque me fez lembrar que as pessoas são bem interessantes mesmo vestidas. E melhor ainda foi quando um amigo veio me ver em casa após a cirurgia, e eu não tinha ainda contado para ele onde era o câncer, e ele entrou, me disse que eu estava linda e perguntou o que eu tinha operado, porque eu estava me sentindo horrorosa usando o soutien pós-cirúrgico e achava que todo mundo iria olhar para mim e já perceber isso.

O mal do câncer não é só um nome feio ou algo que pode nos matar, mas é ele nunca ir embora. Uma vez que descobrimos um câncer, nos vemos obrigados a viver com ele para sempre. Eu tive câncer cedo, então devo passar pelo menos metade (assim espero) da minha vida com o câncer. É como se ele não fosse acabar. Quando acabou a cirurgia, eu podia dizer que não tinha mais câncer, porque efetivamente meu cirurgião tinha tirado o câncer de dentro de mim. Eu tenho recebido muito carinho da família e dos amigos na recuperação, porque existe esta parte física e chata que é voltar à vida normal após uma cirurgia e a vida “normal” (tomar banho sozinha, voltar ao trabalho, cuidar da casa) vai voltar muito rápido. Mas tem uma coisa que ficou: a dúvida de como vai ser daqui pra frente. No curto prazo, esperar mais resultados de exames. No médio prazo, todos os tratamentos dolorosos, chatos e que podem me enlouquecer tudo de novo. No longo prazo, talvez para o resto da vida, ficar pensando no que fazer para minhas células não me traírem mais uma vez e não se multiplicarem de forma errada e não me fazerem passar por tudo isso de novo.

Eu não sei porque resolvi publicar este texto. Talvez porque uma das coisas que mais me deixaram tranquila neste processo todo foi conversar com mulheres que já passaram pela mesma doença que eu, porque eu pedia desesperadamente para que as pessoas me dissessem que estava tudo bem e que ia ficar tudo bem, mas a verdade é que eu sabia que as pessoas que não sentiram o que eu senti não faziam a menor ideia se ia mesmo ficar tudo bem. Então eu quis deixar aqui por escrito que posso conversar com quem quiser e que topo ser companhia para quem precisar só chorar, porque eu sei bem que chorar ao lado de alguém é muito mais fácil. É só me pedir!

Acho que quis publicar também para agradecer. A gente não escolhe nossa própria família, mas eu tive a sorte grande de ter uma família acolhedora e presente, daquelas que abraçam a causa com a gente e fazem o que precisar ser feito – amo muito vocês todos. Os amigos são a família que a gente escolhe e eu só soube escolher bem, então eu agradeci muito a mim mesma por ter cuidado dos meus amigos e por ter os mantidos por perto durante todos esses anos, uns por 10 anos, outros por 15 anos e dois deles por 25 anos! Aquela história de ser mais que um câncer foi construída na minha cabeça cada vez que eu estava na frente de alguém que conheci há mil anos atrás e ficava me perguntando se a pessoa estava olhando para um câncer ou para os muitos anos que temos para lembrar. Descobrir que eu tinha câncer me fez uma pessoa chorona, reclamona, baixo astral e com as emoções todas descontroladas, mas eu sei que isso vai passar e eu sei também que amigos e família estarão aqui enquanto não passar e depois que tudo passar. Amor e colo é tudo o que gente precisa dos outros enquanto convive com o câncer. Sim, eu sempre respondia “álcool” quando alguém perguntava se eu precisava de algo e achei umas fofas todas as pessoas que vieram em casa e lavaram minha louça enquanto eu não conseguia mexer o braço, mas o que mais me ajudou foi ter companhia e colo sempre, o tempo todo, em casa, no hospital, nos exames, nas refeições, nos passeios, todos os dias. No fim, o câncer me mostrou muito amor.

O câncer também me mostrou uma coisa que eu já vinha aprendendo com a maternidade: a gente não tem controle sobre as coisas que acontecem com a nossa vida. Ter câncer foi algo totalmente fora dos meus planos e do meu controle e agora vou ter que dar um jeito que seguir vivendo bem e feliz mesmo existindo a doença, os próximos tratamentos e a possibilidade de ela voltar um dia. Pensar nisso ainda me faz chorar todos os dias, porque ainda tenho muito medo do meu câncer. Mas meu principal objetivo neste hiato que estou vivendo é fazer o câncer se transformar em um detalhe na minha vida com o qual vou ter que conviver – querendo ou não – e voltar a me concentrar em quem eu sou: muito mais que um câncer, um seio ou uma cicatriz.

PS: Parece clichê, mas façam o auto-exame todos os meses e os exames anuais com a ginecologista direitinho. Não custa nada. Eu achei o nódulo num ultrassom de rotina, depois fui revirar todos os meus exames passados e foi muito bom saber que ele não estava lá há um ano atrás e que eu o descobri no menor tempo possível. Eu sei que vocês vão dizer que não sabem fazer o auto-exame, porque eu também não sabia fazer direito, mas é meu corpo e vou passar a conhecê-lo cada vez melhor para entender sinais e caroços que possam surgir por aqui. E, vocês, venham junto comigo.

Há dois anos

quatro anos de muito muito muito amor.

Papais Adotantes

Há dois anos, Isaac e Ruth me escolheram para ser mãe e vieram morar junto comigo. Nesse dia eu deixei de ser uma pessoa sem filhos e virei mãe. Eu morri e renasci nesse dia. Morri, porque nunca mais vou ser quem eu era. Renasci, porque ganhei uma nova vida e tive que reaprender a viver.

Eu era egoísta, no sentido mais literal da palavra. Eu era a pessoa mais importante da minha vida. Tudo que eu fazia era para ME sentir bem: saía quando eu quisesse e para onde eu quisesse, trabalhava até a hora que achava conveniente, gastava dinheiro com as coisas que me deixavam (ou eu achava que) me faziam feliz. Tinha liberdade para ir e vir. Organizava minha rotina do jeito que achava mais bacana para mim mesma: a hora de ir na academia, a hora de sair para ir ao trabalho, a hora de voltar…

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Fofuras do cotidiano 

Sair a pé para levar os filhos na escola junto com o cachorro e o cachorro espernear/ chorar/ se recusar a andar quando percebe que eu pretendo voltar pra casa sem os dois.❤

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Mamãe, eu não te entendo

Ruth tem uma mania de não sair da cama quando acorda: ela grita. Se acorda de madrugada, ela começa a gritar “mamãe”, “mamãe”, “mamãe” em intervalos que começam com 5 segundos e vão reduzindo até chegar a 1 milésimo de segundo, e o tom de voz vai aumentando. Pode ser para arrumar o cobertor, reclamar de alguma dor imaginária, avisar que está chovendo ou pedir para fazer xixi, ela não se move um milímetro, ela abre os olhos e começa a gritar.

Num gosto não de ser acordada de madrugada.

Aí hoje, ao sair da minha cama com os berros, eu disse para ela:

– Você não precisar ficar gritando “mamãe” quando tiver vontade de fazer xixi. Levante, vá até o banheiro, aí você volta para o quarto e continua dormindo, que tal?

– Não dá.

– Por que não dá?

– Porque você brigou comigo quando saí do quarto uma vez.

Ruth, eu não quis te contar a verdade, então disse que você tinha razão e que a mamãe é confusa. Mas aconteceu esta semana que pus os dois para dormir e saí andando pela casa totalmente no escuro e sentei no sofá da sala com tudo apagado e resolvi que ia ler absolutamente todas as notícias do fidi do feicebuqui e quando olho para o lado e dou de cara com a versão O Chamado de cabelos cacheados e gritei igual quando vejo taturana.

Nunca mais quero passar por isso.

Túnel do tempo

Acorda cedo, leva crianças na escola, corre 5k (apenas o que cabe no tempo disponível para academia), toma banho, pega três metrôs, um ônibus, trabalha o dia todo, faz todo o percurso de volta, chega na porta da escola.

– Olá, mamãe. Hoje Isaac pegou a cabeça da Ruth e bateu na parede e <outras coisitas mais relacionadas a quebrar regras e não respeitar os educadores>.

– E a Ruth enfiou a mão toda dentro da boca para vomitar de propósito e se sujou inteira.

Aí você anda os poucos metros que separam a escola de casa pensando que, em vez de relaxar e falar amenidades e brincar, você vai ter que conversar sobre não resolver os problemas batendo na irmã ou xingando a professora e sobre que história é essa de vomitar de propósito e ainda vai ter que lavar roupa fedendo vômito. Abre a porta e descobre que seu cachorro derrubou uma fruteira no chão e encontra cacos de vidro em toda cozinha, área de serviço e sala. Não só isso: ele derrubou a fruteira em cima de uma poça de xixi que ele fez no chão, já que ele também tinha comido o tapete higiênico que deveria servir como banheiro. Então você adia a conversa sobre questões da escola para decidir se é melhor varrer cacos de vidro molhados de xixi ou se é melhor passar um pano em xixi cheio de caco de vidro e demora uns 25 minutos para limpar a coisa toda.

Mano.

Tá muito difícil chegar viva aos 35. Meu melhor presente de aniversário este ano seria passar um dia inteiro em 2011, aos 30, bem longe dos 40, sem filhos, sem Temer no governo, sem cacos de vidro no chão da cozinha.

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Todos os dias de mãe 

Isaac e Ruth,

Nesse dia das mães, quero dizer que ser mãe é – mesmo, mesmo, mesmo – a coisa que mais gosto na vida. É também uma das coisas mais difíceis, mais cansativas e mais irritantes, mas vou deixar as reclamações para outro dia.🙂

Obrigada pelos sorrisos felizes que vocês me dão todos os dias, principalmente quando acordam e quando busco vocês na escola. Eu me sinto querida quando acordo vocês e me sinto perdoada por não ter passado o dia com vocês quando chego na escola. Adoro o sorriso de saudades que vocês abrem depois de algumas horas separados.

Obrigada por me pedirem desculpas quando erram. Eu sempre desculpo vocês mesmo antes de pedirem desculpas, mas gosto da preocupação que vocês têm em garantir que estamos bem. Obrigada também por sempre aceitarem meus pedidos de desculpas quando sou eu que erro. Eu me sinto muito amada quando vocês dizem “tudo bem, mamãe” com sorriso no rosto e realmente me perdoam, sem bicos, sem voltar na discussão depois.

Obrigada por sempre quererem minha companhia. É muito legal saber que sempre preferem ficar comigo e fazer as coisas comigo. Sei que não vai ser assim para sempre, mas quero que saibam o quanto me deixam felizes quando chega a sexta e seus olhinhos brilham porque vamos passar o dia juntos amanhã.

Obrigada por me respeitarem. Obrigada mesmo por todas as vezes que não estava me sentindo bem e vocês toparam ir pra cama cedo para eu cuidar de mim, porque eu sempre sinto que é uma forma que vocês têm de cuidar de mim.

Obrigada pela ajuda para cuidar da nossa casa. Obrigada por arrumarem a cama todos os dias e guardarem os brinquedos. Ruth, obrigada por ter limpado a bagunça que o Ernesto fez na cozinha hoje. Isaac, obrigada por ter limpado a mesa de jantar depois de você ter derrubado um monte de macarrão nela.

Vocês dois são o melhor relacionamento que tenho na vida. Vocês me dão dia das mães todos os dias, porque todos os dias me lembram que me amam, que sou importante e que vocês são minha família. Vocês são a melhor parte de mim.

PS: podem me acordar bem cedo neste domingo, que prometo não mandar ninguém de volta pra cama pra tentar dormir mais um pouco.

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Ninguém é mãe de pet

Eu já tinha rascunhado um texto sobre o assunto há um tempo, mas achei que estava fazendo uma comparação infeliz entre crianças e cachorros. Mas o dia das mães está chegando e tenho lido outras mães/ mulheres falando sobre a não-maternidade de cachorros/ gatos/ periquitos e afins. Então queria dizer para vocês: ninguém é mãe (ou pai) de pet. Você ama e cuida, mas não isso não caracteriza uma maternidade/ paternidade. Você não está treinando para um dia ter um filho porque tem/ ama/ cuida de um pet, porque isso não treina ninguém para nada.

Então, para ser clara, vou comparar o que é ser mãe e o que é ter um cachorrinho (Ernesto, nosso cachorro, foi adotado há uns seis meses).

  • Eu me preocupei em ensinar *apenas* duas coisas para o Ernesto: fazer xixi/ cocô no tapete higiênico e não latir enlouquecidamente quando fica sozinho em casa. Ele aprendeu essas duas coisas super bem em apenas algumas semanas na família e coloquei um ponto final na minha missão de ensinar algo para ele. Ah, sim, depois ensinamos a sentar, deitar, dar a pata e buscar a bolinha, mas são “acessórios”, sabe? Não vou ficar estressada se não tivesse aprendido mais nada. Nem vou ficar me cobrando se eu não ensinar mais nada na vida para ele, ponto final. Enquanto isso, estou lá diariamente ensinando duas crianças a andar, falar, comer sozinho, usar o banheiro, escovar os dentes sozinho, tomar banho sozinho, letras, cores, formas geométricas, jogos, amarrar o sapato, respeito, regras, brincadeiras, explicando filmes. Daí virá o Ensino Fundamental, as lições de casa, as provas, as amizades, os esportes, os cursos de língua, a convivência, o vestibular, a bicicleta sem rodinhas, as frustrações. Não tem ponto final, não termina.
  • Ernesto aprendeu a não latir enlouquecidamente quando fica sozinho em casa porque, veja bem, ele fica sozinho em casa desde o dia UM por aqui. Enquanto eu ainda não posso nem descer para pegar a pizza na portaria e deixar meus filhos sozinhos no apartamento, deixo meu cachorro por horas sozinho. E ele não morre. E não sou presa. E não me sinto abandonando ninguém. Ele fica sozinho durante o dia se saio para trabalhar ou durante a noite se vamos passear sem nenhum stress. Deixo água, comida, caminha e brinquedo e ele sempre está vivo quando volto para casa.
  • E, mais: se vou viajar, entro na Internet e posso escolher qualquer pessoa para ficar com Ernesto. É claro que já elegi uma cuidadora preferida pelo DogHero e sempre deixo Ernesto com ela, mas se um dia ela não puder e eu precisar viajar, Ernesto vai conhecer alguém de uma hora para outra sem muito stress. E vai ficar bem, vai ficar feliz e ninguém vai me julgar. Só quem é mãe sabe o-que-que-é deixar os filhos com alguém, seja amigo, parente ou babá, para sair por algumas horas ou viajar sem eles. Não, não tem aplicativo para isto.
  • Ernesto come todo dia a mesma coisa em todas as refeições e acho que só troca de ração quando ficar velhinho, né? Vem pronta, é só por no prato, nem precisa esquentar, ele vai lá sozinho e come. Ele só toma água. Sim, compro uns petiscos de vez em quando e dou uns pedacinhos de legumes e frutas às vezes, mas ele viveria bem só de ração e água. Nem preciso dizer o quão trabalhoso é gerenciar a alimentação de uma criança.
  • Faço home office alguns dias na semana e fico em casa com Ernesto. Mas estou trabalhando e não dou atenção para ele. Não tenho que dar atenção, não me cobro por não dar atenção e não me sinto mal. Ele fica quieto no canto dele e eu fico no computador, aí de vez em quando trocamos um carinho e a hora de brincar/ passear fica pra depois.
  • Ernesto parou de crescer em poucos meses, então a roupinha que comprei pra ele ontem por causa da frente fria vai durar pra sempre. E ele provavelmente só vai ter essa roupinha, porque quando eu precisar lavar ele não vai se importar de ficar pelado algumas horas.
  • Quando chega a hora de dormir, não tem processo nenhum, sabe? Eu só faço os meus processos (banho, escovar dentes, pijama etc.), deito, apago e luz e pronto. Ele encontra a caminha dele e fica lá até o dia seguinte. Ele não acorda durante a noite. Se acordar, ele faz o que quer fazer acordado e dorme de novo.
  • Sim, cachorro dá despesa. Mas não se compara. Não tem escola, plano de saúde, despesas médicas que o plano não cobre, roupas, sapatos, fraldas, refeições, brinquedos, material escolar, produtos de higiene de uso diário, Internet, festinha de amigo, cinema, aula de natação, curso de inglês, mesada, dinheiro do lanche, excursão da escola, livros.

Amo o Ernesto e acho o máximo ter cachorro. Amo muito e cuido muito, não tô dizendo que não dá trabalho. Ainda que seja tudo mais simples, ele faz sujeira, come, toma banho, precisa brincar e passear, fica doente e vai no médico. Faço com o maior prazer do mundo, dou e recebo muito amor dele, mas nada disso me faz mãe. O que me faz mãe são dois espuletas de cabelos encaracolados, eles, sim, me fazem mãe.

E, no papel de mãe, me sinto culpada, sou julgada, sou oprimida, sofri assédio moral no trabalho, tenho medo de errar, tenho muitas dúvidas sobre o que fazer, me sinto sozinha, me arrependo de coisas, mudei minha carreira, tenho menos liberdade, tenho uma responsabilidade maior que qualquer outra coisa que já tive na vida e sofro. Ser mãe tem seu lado bastante difícil, já falei várias vezes, e isso tudo faz parte da maternidade e nada disso existe quando você cuida de um cachorro. Por isso, afirmo: ninguém é mãe (ou pai) de pet.

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Spotlight

Assistiram este filme? Ganhou Oscar e tal.

Resenha que copiei da Internet: “Baseado em uma história real, o drama mostra um grupo de jornalistas em Boston que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo caso.”

Atentem para “baseado em uma história real” e “transferindo os padres da região ao invés de puni-los pelo caso“. Em suma, história da Igreja Católica acobertando milhares de padres que estupraram crianças por anos e anos. Não são poucos, não são casos isolados.

Dureza, né?

Vocês matriculariam seus filhos em uma escola se soubessem que vários professores estupraram alunos e foram acobertados pela diretoria, simplesmente transferidos para outras unidades?

Aí eu queria saber: vocês continuam batizando seus filhos e frequentando a igreja com eles, gente? Me contem, me expliquem.

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Chega de ter ódio de criança, gente!

Esta é minha conversa imaginária com culegas que detestam crianças e desejam viver longe delas. Antes, quero dizer que talvez eu já tenha sido um ser desses. Já tive dessas de querer tirar férias longe de crianças, de querer morar em um prédio onde havia poucas crianças, de detestar crianças em aviões, de escolher mesas bem longe de famílias com crianças em restaurantes. Eu entendo que vocês sejam assim, mas desaprovo. Sinto vergonha desse sentimento em relação às crianças. Mas, da mesma forma que muita gente me disse que nunca tinha pensado sobre o lápis “cor de pele” porque não tem um filho negro, talvez muita gente não tenha pensado no respeito com as crianças porque não convive com elas. Então, vamos lá.

Para começar: criança é uma pessoa em formação, que está aprendendo coisas todos os dias, o tempo todo, constantemente. A criança leva de 18 a 20 anos para se tornar um adulto. Crianças pequenas não têm a mesma maturidade e nenhuma condição para se comportar como um adulto. Elas precisam de tempo, paciência e muito treino. Existem alguns comportamentos que são absolutamente normais para uma criança pequena: 1) elas choram quando estão descontentes, e pode ser fome, cansaço, tédio, pode ser porque perderam um brinquedo, porque queriam fazer algo que não é possível fazer naquele momento, porque estão com saudades da mãe. Elas choram e precisam ser acolhidas – e, não, caladas; 2) elas não conseguem se concentrar tanto tempo como um adulto, seja quando estão à mesa em um restaurante, quando vão ao cinema, quando estão com os pais na casa de amigos. É normal que se entediem, que fiquem impacientes, que queiram se movimentar, mudar de lugar ou de atividade; 3) elas são curiosas, e que bom que são curiosas. Isso significa que vão mexer nas coisas, que vão querer andar pelos lugares, que vão falar com estranhos e que vão fazer um milhão de perguntas; 4) elas se distraem e esquecem o que foi combinado, e é papel dos adultos lembrar as regras com carinho e quantas vezes forem necessárias, como por exemplo, que não podem mexer nas obras em um museu ou que precisam falar baixo.

“Mas eu não tenho nada a ver com isso, porque o filho não é meu”. Primeiro, se o filho não é seu, tenha a certeza que existe alguém que cuida desta criança e que não quer vê-la fazendo o que quiser. Ninguém leva a criança para almoçar fora e come tranquilamente enquanto a criança grita ou joga comida no chão como se fosse algo tão natural a ponto de não intervir. Não. Existe alguém que está cuidando e orientando a criança. Ninguém está dizendo que a responsabilidade é sua e que você deveria se levantar e fazer alguma coisa. Aliás, se não for fazer com boa vontade e com carinho, por favor, não faça nada. Não fazer nada significa inclusive não bufar ou reclamar que a criança está incomodando. Porque não existe nada mais desagradável do que estar tentando confortar um filho que está berrando e esperneando e sentir aqueles olhares de ódio atrás de você te dizendo “faz logo essa criança calar a boca!”. Porque, sim, é o que estou tentando fazer, mas não por sua causa, por causa dela, porque quero que ela se acalme e fique bem. O que você tem a ver com isso? Como você faz parte da sociedade, é sua obrigação tolerar e respeitar a situação.

“Ah, mas como assim? Eu não tenho nada a ver com crianças”. Tem, sim, senhor. Ser criança faz parte do ciclo da vida. As crianças fazem parte da sociedade, assim como os idosos, deficientes, negros, palmeirenses, pobres e qualquer outro grupo que você tente discriminar. Você já foi uma criança um dia, você já sentiu na pele o que é ser uma criança. Se teve sua infância respeitada, espero que repasse isto a outras crianças, mesmo que não sejam seus filhos. Se não teve sua infância respeitada, eu sinto mesmo de verdade e espero que você não deseje o mesmo sofrimento para outras crianças.

“Que p é essa de respeitar a infância?”. A criança não deve crescer isolada só porque não se comporta como um adulto se comporta ou como um adulto espera que ela se comporte. Pelo contrário. É vivendo as situações do dia a dia – fazendo supermercado com a mãe, visitando parentes e amigos, frequentando hotéis, acompanhando os pais em alguns compromissos profissionais – que ela vai entender e aprender. Respeitar a infância é entender que a criança tem limites diferentes dos adultos – e diferentes de outras crianças também – e ajudá-la e apoiá-la, mas nunca escondê-la. Da mesma forma, você deve respeitar os pais, mães e cuidadores, que não nasceram para se esconder de você porque têm filhos.

“Então você acha normal que mães e pais levem seus filhos para qualquer lugar”. Sim, desde que este lugar seja apropriado para crianças. Veja bem, com muita atenção, que quando digo “apropriado”, estou pensando no bem estar da criança. Existem lugares que podem colocar as crianças em risco (alguns exemplos: assistir filmes “de adultos”, com violência ou sexo, casas noturnas, onde serão expostas à música alta, cigarros e bebidas). Agora, não vejo por que hotéis, restaurantes e aviões – para citar apenas alguns exemplos – não seriam adequados. Então, sim, elas podem frequentar esses lugares.

“Mas crianças incomodam”. Qualquer pessoa intolerante como você vai se incomodar com os outros, não apenas com as crianças. Você provavelmente vai se incomodar se o cara na poltrona ao lado estiver lendo Carta Capital, se o rapaz da mesa ao lado gritar “gol do Corinthians” ou se um velhinho demorar muito para manobrar o carro no estacionamento. Não é a criança que está incomodando, é você que está sendo intolerante. Até porque, te juro: quando uma criança começa a chorar, gritar, espernear ou qualquer coisa assim, ela não está tentando te incomodar. Ela está pedindo ajuda. E ela não está pedindo ajuda para você. Ela está pedindo ajuda para a pessoa que está cuidando dela.

“Mas crianças fazem muito barulho”. Quando você estava batendo panelas e falando palavrões para a presidenta, gritando gol e soltando fogos de artifício ou fazendo aquele churrasco com os bródis, você estava fazendo o quê? Please, né? Em uma das minhas últimas viagens, fiz um trekking de quase 100 quilômetros até o topo do Monte Roraima, passeio não recomendado para crianças por causa do esforço físico. Lá em cima só tinha adultos e você não imagina a capacidade que eles tinham de fazer barulho enquanto eu estava tentando ouvir passarinhos ou curtir um pôr-do-sol em silêncio. Barulho é do ser humano, não apenas das crianças. A diferença – grande diferença – é que o adulto já é capaz de entender que seu barulho interfere no silêncio do outro e tem a capacidade de controlar o seu barulho. As crianças, como disse no início, estão A-P-R-E-N-D-E-N-D-O.

“Mas quando eu vou a um restaurante chique, quero ter um momento romântico, em paz”. E você quer tirar o direito de mães e pais de frequentar o seu restaurante chique só porque você quer que seja assim? Ou você quer que mães e pais não andem mais de avião? Eu tenho muitos momentos românticos com meu marido, junto com as crianças, porque a gente se ama e pronto. Nenhuma criança na mesa ao lado vai acabar com seu romance. Engraçado que se busco no Google “hotéis proibidos para crianças” recebo milhões de indicações. Mas obviamente não existem hotéis onde sejam proibidos negros ou deficientes. Então discriminar abertamente a família com crianças é ok? Você entra tranquilamente em um restaurante com uma placa na porta dizendo “não aceitamos crianças”, né? Como você se sentiria se estivesse escrito “não aceitamos deficientes mentais”?

“Mas não dá para deixar a criança com outra pessoa?”. A gente que é mãe e pai não larga a criança em qualquer lugar por aí. É claro que às vezes elas vão dormir no vô ou na casa de um amiguinho, mas quando temos filhos estamos com nossos filhos a maior parte do tempo. E mais: a gente gosta de curtir os momentos de lazer com nossos filhos. Assim que funciona uma família. Então, não, não dá para deixar a criança com outra pessoa para podermos jantar ou nos hospedar em um hotel só porque você não nos quer lá. E, mesmo que a gente decida deixar a criança com um parente para fazer alguma coisa, essa decisão é nossa, não sua, nem do estabelecimento em questão.

“Tá, então o que você quer de mim?”. Eu quero tolerância e respeito com as crianças e com seus cuidadores. Eu não quero mais que você olhe feio para famílias com crianças, porque elas têm o direito de frequentar os lugares que você frequenta. Eu quero que você entenda que, como parte da sociedade, é seu papel também ajudar as crianças a aprenderem a participar da sociedade. Eu quero carinho com as crianças e não quero bufadas ou olhares impacientes. É bizarro ter que dizer isso, mas eu não quero mais ódio pelas crianças. É só isso que eu quero.

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