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Desapega desses brinquedos

Foi num sábado, final do dia, depois de um dia de bagunça tirando absolutamente todos os brinquedos do armário e espalhando pela casa: eu quase fiquei louca quando percebi a quantidade de tralha em forma de brinquedos que dois seres humanos conseguem acumular. Eram peças de origem desconhecidas, jogos que já estavam ultrapassados para eles, coisas quebradas, coisas nunca utilizadas.

No domingo, logo após o café-da-manhã, coloquei uma caixa grande de papelão no quarto e expliquei:

– Acho que vocês têm brinquedos demais. Algumas crianças irão ficar felizes se ganharem estes brinquedos. Vamos separar algumas coisas e doar?

Foram SEIS caixas grandes. SEIS. Levamos juntos até a farmácia que estava fazendo campanha de dia das crianças e eles ficaram super felizes porque me ajudaram a entregar tudo para a atendente. Até hoje, meu filho fala às vezes:

– Mamãe, lembra do dia que a gente levou os brinquedos para as crianças que não têm brinquedos lá na farmácia, lembra?

O que achei mais legal foi o desapego deles. Doamos muita coisa mesmo e eles não reclamaram, não sentiram falta, não resmungaram. Simplesmente desapegaram e estão satisfeitos com os brinquedos que ainda têm.

– Tinha muito brinquedo em casa, né, mamãe?

É, filho, seu lindo.

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Sem sexismos, por favor

Estou tentando criar meus filhos sem sexismos desnecessários. Temos um longo caminho pela frente. Atualmente estou brigando contra o “isso é de menina” ou “aquilo é de menino”.

Com um menino e uma menina em casa, nós temos todo tipo de brinquedo. No início, logo que eles chegaram, eu decidi que brinquedo não tinha dono porque queria que eles aprendessem compartilhar as coisas. Como as roupas e objetos de higiene e de alimentação são pessoais, achei que os brinquedos poderiam ser coletivos.

E o tempo foi passando e recentemente eles apareceram com a “boneca de menina” e o “carrinho de menino”. Obviamente eles nunca disseram “boneca da Ruth” ou “carrinho do Isaac”, porque sabem que todos os brinquedos são dos dois. Mas meu filho de vez em quando me pergunta se pode brincar com a boneca de menina. E eu respondo pacientemente: “não existe brinquedo de menino ou de menina. Todos os brinquedos são de meninos e de meninas e vocês podem brincar com o que quiserem”.

Eu também nunca fiquei tentando influenciar o tipo de brincadeira ou qual brinquedo eles vão usar: eles realmente brincam com o que querem em casa. E também escolhem o brinquedo que levam para a escola toda sexta-feira, que é o dia-de-levar-brinquedo. Para escolher o brinquedo da escola, existe uma única regra: não podem levar brinquedos com muitas peças para não perder. Só. E minha filha em geral escolhe uma boneca e meu filho em geral leva uma panelinha, uma Barbie ou um super-herói.

Não sei se ele sofre algum tipo de bullying na escola. Ele ainda não conseguiu me contar ou ainda é muito pequeno para entender. Se acontecer, vamos conversar bastante. Óbvio que eu espero que os outros papais me ajudem nisso. Mas eu, pelo menos, já ficarei feliz se souber que meus filhos nunca tiram sarro de um menino com uma boneca ou de uma menina com um carrinho. Já vou ficar bastante feliz se um dia as tias me contarem que eles ensinam para os coleguinhas que não existe sexo nos brinquedos e que, portanto, eles podem emprestar para quem quiser.

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Colher

O brinquedo preferido do meu filho é um conjunto de colheres. Esse aqui ó, bem colorido, que ganhamos de um amigo meu. Elas foram usadas um bom tempo, até ficarem muito pequenas para as boquinhas. Então eles foram promovidos a crianças que usam colheres do jogo de talheres da mamãe e as colheres foram promovidas a brinquedos.

Mas foram promovidas a brinquedo preferido, literalmente. Meu filho frequentemente leva as colheres para a escola no dia de levar brinquedos para brincar com os amigos. Ele frequentemente me pede para dormir com as colheres, mas acho perigoso. Ele acorda todos os dias e a primeira coisa que faz é ir até a sala buscar as colheres na caixa de brinquedos. Ele toma leite com as colheres carinhosamente sentadas ao lado dele no cadeirão e toma banho com as colheres. Mesmo que ele não esteja brincando de panelinha, ele não larga as ditas-cujas. Por nada.

Aí eu não sou boba e, como são seis, deixei uma estrategicamente guardada no meu carro. Sabe aqueles momentos de pânico, quando está trânsito e a criança está chorando impaciente no banco de trás? Eu dou uma colher para ele e ele fica quietinho. Na última birra monstruosa de não-quero-ir-embora-da-escola-me-deixa-brincar-mais-um-pouquinho, eu voltei até o carro, peguei a colher, mostrei para ele e ele veio bonitinho até mim, sem chorar.

Pois é. Vai entender.

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Brigas verbais

Primeiro vieram as brigas físicas. Tapas, arranhões, beliscões, mordidas, brinquedadas na cabeça um do outro. Eles vivem se pegando no tapa, em casa e na escola. Perdi as contas de quantos recadinhos na agenda vieram com um “mamãe, bebê x mordeu/ beliscou/ arranhou/ bateu no bebê y”. Então, a vida por aqui é assim: além de evitar o suicídio infantil e gerenciar criança que não pára quieta, nós temos que ficar de olho para um não machucar o outro.

Até aí, eu sempre achei normal. Posso estar louca, mas acho normal briga entre irmãos. Briguei com minha irmã do meio a vida inteira e só não brigo com a mais nova porque temos 21 anos de diferença (e me sinto um pouco mais adulta que ela para isso). Eu achava que era parte do desenvolvimento, sei lá. Apesar de brigarem muito, não era nada que me irritasse.

Até que eles começaram a falar. E a conversar entre si. Eles conversam, pedem favores um para o outro, chamam um ao outro para brincar, era tudo só fofura. Até que as brigas verbais apareceram e isso, sim, é irritante.

Começa com qualquer coisa. É um dizer “mamãe, quero tomar leite”, pro outro responder “não, você não vai tomar leite”. Assim, como se tivesse total autonomia para decidir se a(o) irmã(o) vai ou não tomar leite. E o primeiro responde “vou, sim”, e o outro responde “vai, não”, e depois um “vou, SIM” (bem alto), seguido de “vai, NÃÃÃÃÃOOOO” (mais alto ainda), e assim seguem gritando um com o outro cada vez mais alto até que eu tenha vontade de gritar muito mais alto pedindo SILÊNCIO. Mas não grito nunca, porque sou adulta e tenho que dar o exemplo. Mentira.

Brigas físicas eram mais fáceis de evitar. Era só manter um meio longe do outro nos momentos de confusão por causa de um brinquedo ou algo parecido. As brigas verbais vão rolando ao longo do dia todo. Qualquer coisa vira motivo de provocação e eu ainda não descobri como fazer pra parar. Criança devia vir com manual de instrução, viu?

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Cafuné na mamãe

Sabem aquelas pazinhas de brincar na areia que têm dentinhos? Os bebês acham que aquilo é um pente. Quando ganharam o baldinho com apetrechos para brincar na praia, cismaram de brincar de pentear o cabelo um do outro e, com aquele tanto de cachinhos bagunçados, a vítima sempre gritava de dor.

Aí o alvo virou a mamãe. Brincar de pentear cabelo tem que ser na mamãe, porque não dói. Só que dói, sim. Imagina toda aquela delicadeza de mãozinhas de bebês de dois anos e meio penteando, puxando, batendo com pazinha de dentinhos na sua cabeça.

Mas eu confesso que gosto. Essa mamãe é muito carente e gosta de ganhar um cafuné de filho, mesmo virando a bruxa má no final da brincadeira. Mamãe se derrete cada vez que eles puxam o cabelo de um lado pro outro e me olham de frente para conferir se ficou bom. Fico toda despenteada e nem ligo.

Até o dia que minha filha me perguntou:

– Mamãe, posso passar creme?

E eu inocentemente respondi que sim, achando que ela iria fingir que estava passando creme. Mas não, né? E dá-lhe banho de saliva no cabelo da mamãe. Écati.

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Nossa filha não é uma princesa

É comum as pessoas perguntarem qual o nome da boneca preferida da nossa filha e ela não entender nada. Deixa eu explicar. Nós temos bonecas em casa. Temos bonecas, jogos de chá e panelinhas, mas também temos carrinhos, caminhõezinhos e uma porção de brinquedos de encaixar, montar, empilhar. Enfim, nossos filhos têm brinquedos que toda criança na idade deles tem. Só que aqui em casa brinquedo não tem dono, por dois motivos que são importantes para nós. O primeiro deles é que eles precisam aprender a compartilhar, e nós definimos que brinquedos são coisas totalmente compartilhadas. Eles têm suas próprias coisinhas para preservar a identidade de cada um, como roupas, objetos de higiene pessoal, copinhos e por aí vai, mas dividem os brinquedos, esperam o irmão terminar de brincar, emprestam, brincam juntos. O segundo motivo – e muito mais importante – é que nós não queremos classificar brinquedos como brinquedo-de-menina e brinquedo-de-menino. Não existe isso em casa.

Por aqui, mamãe e papai trabalham, o papai cozinha bem melhor que a mamãe, e os dois são capazes de fazer qualquer coisa relacionada a cuidados com bebê e com a casa. Nós dois dividimos absolutamente todos os cuidados com os bebês e os bebês brincam exatamente das mesmas coisas e têm as mesmas responsabilidades. Quando a brincadeira é casinha, comidinha, panelinha, bebezinho e por aí vai, nosso filho brinca junto e faz as mesmas coisas: dá comidinha pra boneca, vê se tem cocô na fralda, coloca pra dormir e canta música de ninar. Quando vamos brincar de carrinhos ou de bola, eles brincam juntos de novo. Simples assim. Conceitualmente, acho irritante esse negócio de menina-tem-que-brincar-de-boneca-e-de panelinha. Sabe por quê? Porque no futuro as meninas terão que participar de eventos como esse aqui, onde fica claro que a maioria das pessoas acha normal que só as mulheres cuidem das crianças. Ah, não, gente.

Outra pergunta que me deixa de cabelo em pé: “ela já tem uma princesa preferida?”, se referindo provavelmente às 55 princesas criadas pela Disney. Não, gente, claro que não. Claro que eu não coloco desenhos e fantasias de princesa na minha filha de 2 anos de idade. Claro que eu sei que já já as coleguinhas da escola vão apresentar esse mundo cor-de-rosa assustador para ela e vou ter que pensar em como lidar com isso. Mas eu prometo que eu não vou tomar a iniciativa de fazer isso com ela. Aí deixa eu explicar porque eu odeio as princesas antes que todo mundo fique me achando uma chata. Porque princesas são aquelas criaturas indefesas que precisam ser salvas por um príncipe encantado para só então serem felizes para sempre. Porque no mundo das princesas, alguém que não se casa é infeliz. Porque no mundo das princesas, a mulher nunca vai morar sozinha em seu próprio apartamento e trabalhar para pagar suas próprias contas. Porque no mundo das princesas, o príncipe é mais rico e mais importante que a princesa (não é, Cinderela, sua coitada?). Porque no mundo das princesas, o príncipe é encantado, um ser salvador que tem em suas mãos a felicidade da mulher. Ah, meu, não dá.

E se você achou que estou exagerando, dá uma olhada nisso aqui e me diz se não dá vontade de pular da janela? Se ainda acha que estou exagerando, dá uma lida nesse estudo aqui, de onde saiu a pérola: “tia, para ser princesa precisa casar, né? Senão não vai ser princesa, vai ser solteira!”.

Estou tentando manter minha filha longe do mundo das princesas só porque realmente acredito que nós, mulheres, não precisamos disso. Nós não precisamos de príncipes encantados para nos salvar. A gente sabe se virar, né, filha?

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Fofa

Conversa com minha filha agora pouco:

– Mamãe, consegui! (encaixar um brinquedo em outro)

– Que bom, filha, parabéns!

– … pra você, nesta data querida, muitas felicidades…

Esmaguei.

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Leitura para mamães

Eu não tive muito tempo para ler livros e mais livros sobre maternidade porque meus filhos chegaram em tempo recorde. Cheguei a comprar esse aqui, mas não passei da página 5. Esses livros me lembram auto-ajuda e me dão um certo pânico. Coisas do tipo “como ser uma boa mãe” ou “como educar bem seus filhos” me dão medo. E eu também tive sorte de nunca precisar ler livros como esse aqui, porque meus bebês sempre dormiram lindamente a noite toda.

Mas eu trombei com um livro na África do Sul sobre maternidade em um dia em que todos os livros que eu tinha levado para lá já tinham acabado, chamado “French children don’t throw food, e comprei. Escrito por uma norte-americana casada com um inglês que vive na França com seus filhos, ela começa o livro comparando as mães francesas – elegantes, bem-vestidas e calmas – com as mães norte-americanas – descabeladas, fora de forma, usando roupas de moletom e gritando e correndo atrás de crianças mal-educadas. E ser uma mamãe-descabelada-gritando é algo que ninguém se planeja para ser, né?

A autora descreve no livro as principais coisas que aprendeu com suas amigas e colegas francesas. Algumas dessas coisas, como não se permitir comer o que quiser e engordar horrores na gravidez (porque depois o trabalho de voltar ao manequim original é maior) e esperar um pequeno tempo antes de sair desesperada para acudir um bebê chorando, não serviram para meu caso porque eu não engravidei e não cuidei de um recém-nascido. Mas eu gostei de uma porção de coisas que ela escreveu e tento fazer parecido.

Uma das primeiras coisas que ela conta é que sempre se sentia envergonhada quando levava o filho em restaurantes na França, pois eles eram a única família que não conseguia jantar tranquilamente. Cena clássica que apavora muitos amigos: crianças correndo e gritando porque não querem ficar sentadas à mesa e mães correndo e gritando atrás das crianças tentando contê-las. Quando saímos para comer fora com os bebês, eles participam o tempo todo do programa. Ficam sentadinhos no cadeirão, interagindo conosco (conversando, cantando ou brincando – nunca coloco Galinha Pintadinha no Ipad só para poder comer em paz, gente). Comem ao mesmo tempo que comemos, o mesmo tipo de comida, comem sobremesa, esperam a conta chegar e só então se levantam conosco para ir embora.

A segunda coisa é saber preservar a vida e rotina de adulto. É claro que nossas vidas mudam muito quando os bebês chegam e eles se tornam prioridade. Mas não dá para deixá-los tomar conta de todo o tempo do mundo. Gosto que meus filhos durmam cedo porque gosto de jantar com calma, gosto de ler, gosto de escrever, gosto de ouvir música de adulto e assistir filmes de adulto, gosto de receber amigos para conversar, e não dá para fazer essas coisas com dois brigadeirinhos falantes e bagunceiros acordados. Depois das 20h é o tempo que mamãe e papai têm vida de adulto em casa. Não gosto de brinquedos espalhados pela casa toda pelo mesmo motivo. É claro que é uma casa onde moram crianças, e temos cadeirões na cozinha e uma mesinha onde ficam os brinquedos na sala de estar, mas os brinquedos e coisas de crianças não dominam a decoração fora do quartinho deles.

Outro ponto é sobre o relacionamento deles com outras pessoas. Além de já terem aprendido a falar “por favor”, “obrigado” e “desculpas”, faço questão que eles digam “oi” e “tchau” para todos as pessoas que encontram. Eles cumprimentam todas as visitas que vêm em casa, a moça que trabalha aqui, os vizinhos no elevador, as outras pessoas no supermercado. Estamos ensinando os dois a esperarem a vez para falar e a não interromperem uma conversa. E estou struggling para ensinar a pedir as coisas sem chorar, sem exigir ou sem espernear, mas não vou desistir. 🙂

Nós também estamos ensinando – ou tentando ensinar – o conceito de autonomia. Toda semana eles ganham alguma nova responsabilidade ou passam a fazer alguma coisa sozinhos. Comem sozinhos na maioria das vezes, estão aprendendo a pegar os sapatos no armário e calça-los sozinhos, guardam os brinquedos e recolhem coisas do chão sozinhos se fazem alguma bagunça. Mais que isso, ultimamente estou dando autonomia para resolverem sozinhos seus próprios problemas. Todo mundo que tem irmão sabe que é normal brigar, e eu passei um bom tempo fazendo o papel de conciliadora, o que, além de tudo, me estressava demais. Não é fácil ficar abaixada para olhar nos olhos de dois bebês de dois anos chorando, apontando pro irmão, e reclamando algo como “pegou meu brinquedo buááááááá´”. Agora deixo que eles resolvam sozinhos quem vai pegar tal brinquedo ou quem vai fazer alguma coisa primeiro, e só fico de olho para que não se machuquem – porque não pode resolver conflito com mordidas e arranhões, bebês!

E, por fim, eles estão aprendendo que quem decide as coisas em casa é a mamãe ou o papai. Eu não negocio coisas como hora de dormir, hora do banho ou hora de comer. Não tem chantagenzinha do tipo só-um-desenho-e-depois-vai-pra-cama. Hora de ir dormir é hora de deitar, ficar quietinho e apagar a luz. Não tenho medo de traumas por ouvir um “não pode” ou “precisa esperar um pouco”, porque acho que eles precisam aprender a lidar com frustrações. Claro que não vivemos em um quartel general: eles escolhem o que querem fazer nas horas de brincar e participam de um monte de tarefas em casa só se quiserem – como regar plantinhas, por exemplo.

O livro é genial, gente. E vocês, mamães, têm alguma outra leitura para indicar?

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O exemplo e o consumismo

Como todos os papais – biológicos ou adotantes – nós temos uma porção de valores que queremos passar para nossos bebês e uma outra porção de coisas que queremos ensinar para eles. Coisas que dizem muito sobre quem somos e tal. Coisas comuns como alimentação, sono e educação.

Alimentação foi o que mais tomou nosso tempo até agora. Primeiro gastamos um tempo tentando entender por que todas as pessoas do mundo – mesmo que tenham seus próprios filhos – têm um desejo incontrolável de dar porcaria para as crianças comerem. Nós sabemos que um dia nossos filhos vão provar e gostar de guloseimas e não vamos proibir totalmente. Mas hoje eles têm um ano e meio e podem viver sem refrigerante, batata frita, bala, bolacha recheada, salgadinho etc. Depois de muita irritação, entendemos que o dever de oferecer e ensinar a ter uma boa alimentação é dos papais e estamos nos esforçando para isso. Não tem papinha salgada industrializada em casa; o papai prepara o arroz, feijão, lentilha, legumes, carne, frango, sopa, macarrão e tudo mais para as refeições em casa e eles podem comer alguma coisa do cardápio quando vamos a restaurantes. Também não temos guloseimas e a papinha doce é servida só na rua; em casa comem quatro porções de fruta na sobremesa e nos lanches, todos os dias. E não são coitadinhos porque comem só fruta. A hora da fruta é quando mais nos divertimos na cozinha: canto para eles enquanto lavo, descasco e corto e muitas vezes os deixo comer as frutas sozinhos – o que é uma farra e uma sujeira! Recentemente, durante a pesquisa de escolinhas para o ano que vem, desistimos de uma que era ótima em vários quesitos (localização, instalações, parte pedagógica, preço) porque eles só oferecem suco em pó ou concentrado – e achei muita preguiça não fazer suco natural para as crianças.

Televisão foi outra preocupação. Nas primeiras três semanas, eles não assistiram televisão porque eu não costumo ligar a televisão se não for assistir alguma coisa específica. Depois ganharam DVDs da Galinha Pintadinha, Pequerruchos e alguns outros e me rendi: passei a colocar para eles um pouquinho por dia e gostei. Mas até hoje não ligo em televisão aberta ou fechada para que vejam desenhos. Não porque eu não reconheça que alguns programas são educativos e divertidos, mas porque a quantidade de anúncios sobre brinquedos e guloseimas me incomoda. É impressionante como a questão em torno da publicidade infantil vira relevante quando nos tornamos papais. Eu quero conhecer os produtos infantis e decidir se são bons para meus bebês, mas gostaria que os anunciantes falassem diretamente comigo, e não com meus filhos. Hoje mesmo passei por um canal infantil na televisão fechada e vi o anúncio de um cachorro que fala por apenas “x” reais. Sem discutir a utilidade de um cachorro de pelúcia que fala, desde quando as crianças precisam saber o preço do brinquedo ou conseguem entender se o preço “x” é razoável para seus pais?

E, com a publicidade, vem a discussão sobre os brinquedos. Nós não queremos ser radicais. Nossos bebês terão brinquedos e ganharão presentes no aniversário, no dia das crianças e no Natal. Mas não terão brinquedos exagerados ou caros. E não queremos que eles fiquem possessivos com seus brinquedos, então em casa não há “brinquedo da menina” e “brinquedo do menino”. Os brinquedos ficam juntos e os dois brincam com o que quiserem. Eles têm duas motocas e geralmente brincam ao mesmo tempo, mas nunca dissemos que ela tem que usar a rosa e ele tem que usar a azul – eles escolhem a que preferirem. Esses dias vi uma boneca em uma loja de brinquedos que me deixou arrepiada. De medo. Era uma boneca quase “real”, que come, fala, faz um monte de outras coisas e faz cocô. Ao lado da boneca, havia pacotes de papinhas e fraldas vendidos separadamente, para repor as fraldas que a boneca sujar. Quase caí para trás. Depois de longas discussões sobre o uso de fraldas descartáveis ou fraldas de pano em nossos bebês, porque estávamos preocupados com o impacto no meio ambiente, eu nunca poderia imaginar que um adulto pudesse achar que é legal desenvolver, fabricar, anunciar ou comprar fraldas descartáveis para uma boneca.

Nós não queremos que eles cresçam achando que podem ter ou comprar coisas sem nenhum limite. Ou achando que serão melhores se tiverem tal roupa ou tal objeto. E para ensinar isto a eles, nós damos o exemplo: quando compramos nosso apartamento, não saímos comprando todos os móveis e objetos de decoração sem antes decidir se realmente precisávamos ou queríamos aquilo. Da mesma forma, não saímos comprando um enxoval novinho em folha para os dois, sem nem saber exatamente do que eles precisariam. Ao invés disso, nós recebemos doações de amigos queridos e depois entendemos as necessidades dos nossos filhos. Uma delas foi a mamadeira, que eles largaram quando vieram para cá, e teria sido um desperdício comprar todos os cacarecos que a acompanham (esterilizador, esponja para lavar, bolsa térmica para carregar etc.).

Seja alimentação, consumismo ou qualquer coisa que os papais queiram ensinar, o mais importante é dar o exemplo. Nós acreditamos que nossos bebês vão sempre comer bem porque nós mesmos sempre colocamos verduras, legumes e frutas em nossos pratos. E também acreditamos que não adianta voltar carregado de roupas e eletrônicos dos Estados Unidos, trocar o carro e o celular todo ano e querer que os filhos tenham uma infância livre de consumismo. De novo, não queremos ser radicais e sei que tenho mais sapatos do que preciso – só achamos que as crianças precisam ver coerência no que ensinamos para elas.

Depois que os brigadeirinhos chegaram, mudamos um pouco o foco de nossas leituras do “como se preparar para a adoção” para “os cuidados com o bebê” e encontramos o movimento Infância Livre de Consumismo. E decidimos apoiar. Apoiamos uma infância feliz, com carinho, brincadeiras, músicas, passeios e gargalhadas. Sem consumismo.

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Fidel

Nosso cachorro é o que menos entendeu toda a mudança pela qual passamos nas últimas duas semanas.

Quando os bebês chegam recém-nascidos, os pets têm um tempo para se acostumar com a presença e o cheiro deles sem uma interação física. No nosso caso, nossos bebês chegaram engatinhando pela casa toda, acompanhados de um monte de brinquedos que ficam espalhados pelo chão e com mãozinhas fortes que batem e puxam a barba e o rabo do Fidel.

Como a nossa, a rotina de nosso cachorro também mudou drasticamente. Ele estava acostumado a passar os dias de semana sozinho em casa ou na companhia de nossa faxineira, que vem duas vezes por semana. Hoje fico em casa quase o dia todo com os bebês e recebemos visitas e mais visitas, o que tem deixado Fidel bastante cansado – em qualquer momento que haja silêncio, ele vai para um cantinho tentar uma soneca. No entanto, antes ele era o centro das atenções: quando estávamos sozinhos ou quando recebíamos alguém, ele sempre era o primeiro a ser cumprimentado e todas as brincadeiras e gracinhas eram para ele. Com os bebês, por mais que continue recebendo atenção, ele precisa dividi-la com mais dois serzinhos e está bastante ciumento. Fidel também precisou mudar seus horários de alimentação (para não esquecermos da papinha dele, ele passou a comer nos horários de mamadeira) e com os horários de banheiro (a porta da varanda não fica mais aberta o dia todo e Fidel precisa pedir para fazer xixi ou cocô). O pior foi que enquanto escrevia, olhei para o Fidel e percebi que tinha dado mamadeira, mas esquecido da papinha.

O que está mais difícil de fazê-lo entender é por que ele não pode mais brincar com qualquer brinquedo que fica no chão de casa. Os bebês chegaram com uma infinidade de bolinhas, potinhos, bichinhos e peças coloridas e uns 70% deles já foram mastigados pelo Fidel. Nós damos bronca quando percebemos, mas os bebês jogam tudo para ele, e aí fica difícil. E além dos brinquedos, Fidel também comeu algumas outras coisas, como o negocinho para limpar o nariz dos bebês, um babador, algumas meias.

Depois de uma semana em casa, os bebês “descobriram” o cachorro e começaram a querer brincar com ele. Brincar para os bebês significa cutucar e bater e brincar para o Fidel significa morder as mãozinhas e puxar as meias e roupas deles, o que ainda não deu muito certo, claro. Mas eles se dão bem e se entendem. A frase que mais falamos é “Fidel! Tenha paciência com os bebês!” e os bebês já começaram a imitar o Fidel com “au-au”.

Fidelzucho, nós sabemos que eles serão seus melhores amigos, te amarão muito e durante toda sua vida eles terão mais tempo para você que nós dois. Então, faz uma força, tenha paciência com os bebês!

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