Arquivo da categoria: Diálogos

Como rir pelo leite derramado

Eu estava fazendo alguma coisa na pia da cozinha e Isaac estava jantando atrás de mim. Daí ele grita:

– AI, JESUS, CAIU TUDO!

Eu virei rápido, pra ver o que tinha acontecido. Se tinha caído tudo no chão, na mesa, na roupa dele. Quando me virei, dei de cara com uma carinha de gato de botas.

– Que foi, mamãe? “Jesus” é palavrão? Desculpa?

Morri de rir. Nem sabia que esse negócio de criar filhos ateus tava indo tão bem!

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Toma essa bronca

Isaac contando uma história:

– Tio, hoje eu estava no ônibus com a mamãe e conhecemos um moço que não enxerga. Aí ele segurou no braço da mamãe e ajudamos ele a chegar no metrô. A gente ajudou o moço porque ele teve um dodói no olho e não consegue mais enxergar.

– Que legal, Isaac! – naquela empolgação.

– Claro que não é legal. Como legal? Não pode achar legal que o moço ficou dodói e não enxerga mais. Que feio!

Hahahaha. Isaac, maior amor dessa vida.

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De onde saem os bebês (continuação)

Numa conversa com a professora do meu filho:

– Isaac me contou que você explicou para ele como os bebês nascem.

Calma. Pera lá. Em minha defesa, eu não expliquei, eu apenas segui o que me ensinaram lá atrás: “responda apenas o que a criança perguntar” e “nunca minta”. Deu nesse diálogo aqui.

Acontece que, linguarudo que só ele, Isaac explicou como os bebês nascem para todo mundo. Acontece também que tem uma outra professora na escola que está grávida, e que ouve dele todos os dias:

– Calma, tia, que já já esse bebê sai daí pela sua periquita.

Orgulho desse pequeno defensor do parto humanizado. 

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Segredo

– Ruth, eu não vou te contar que a mamãe me deu um remédio porque é um segredo só meu e dela.

Grrrrrr. Pô, Isaac.

Contexto: uns 30 minutos antes, eu tinha levado o menino sozinho pra cozinha para tomar um remédio, que a gripe dele tá braba.

– Isaac, por favor, não diz pra Ruth que você tomou remédio, que ela vai começar a chorar dizendo que quer também e eu não vou dar remédio pra ela à toa. Por favor.

Só preciso declarar: odeio esses remédios infantis com gosto de morango, que fazem as crianças acharem que estão ganhando um presente.

Grrrrrr.

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De onde SAEM os bebês?

Isaac olha para uma moça grávida no metrô e começa a perguntar. 

– Tem um bebê na barriga dela?

– Tem. 

– Ele vai sair?

– Vai. 

– Vai explodir a barriga pra sair?

– Não, não vai. 

– Então como sai?

– Tem um buraco para sair. 

– Onde?

Me pegou desprevenida. Eu devia ter uma resposta adequada na ponta da língua, mas mandei:

– Na periquita. 

–  O BEBÊ VAI SAIR PELA PERIQUITA? COMO, MAMÃE??? – Ele gritou, espantado, bem alto. 

Alguém me indica um livro de respostas para perguntas complexas que crianças de 4 anos fazem, peloamordedeus?

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Diálogos da madrugada

1h30 da manhã e a mocinha me acordou porque uma das meias tinha caído do pé dela. Tive que acender a luz e tava lá revirando as cobertas, quando ela se senta na cama e manda:

– Mamãe, por que eu não posso usar calcinhas iguais às suas?

Ah, filha, cê mi jura que você mandou ESSA pergunta a ESSA HORA da madrugada?

Contexto: comprei cuecas novas para meu filho. Comprei cuecas com elástico grosso na cintura, pretas, sem super-homem ou homem-aranha estampados na frente. Cuecas de mocinho. Ele ficou super feliz porque estava usando cuecas de adulto. E, por razões óbvias, comprei calcinhas fofas para minha filha.

– Filha, isso não é uma boa hora para eu te explicar por que minhas calcinhas não são adequadas para crianças de quatro anos. Vamos dormir. Beijo. Tchau.

Morrendo de medo das coisas que ela vai me perguntar aos 12.

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A pessoa mais madura do relacionamento

– Mamãe, quero fazer xixi.

– Tá. Vai lá no banheiro, faz xixi e me espera sentadinha no vaso que eu vou só terminar de trocar seu irmão e já vou te limpar. Não levanta.

Aí eu ouço uma descarga. Entrei rasgando no banheiro e falei em tom de voz maior do que eu gostaria:

– Pô, Ruth, eu não pedi pra ficar sentada me esperando?

Ela chorou, esperneou, foi pro quarto batendo o pé e eu fiquei brava também. Aí ela acalmou e me chamou.

Gente, presta atenção, muita atenção, no que eu ouvi.

– Eu quase dormi triste com você, mas não quero dormir triste. Você falou para eu não levantar e eu não levantei. Eu dei descarga sentada. Porque sempre tem que dar descarga depois do xixi. Então você tem que pedir desculpa por ter gritado. E eu tenho que pedir desculpa por ter dado descarga e ter feito você achar que eu tinha levantado pra dar descarga. Aí a gente dorme feliz.

Quase morri de vergonha. Eu nunca tive nenhum namorado, mãe, pai, irmã, chefe ou vizinho que tenha sido tão maduro assim comigo em uma briga. Nem eu sou tão madura assim, tá? No lugar dela, eu teria xingado, falado palavrões e respondido bem alto “MAS EU NÃO LEVANTEEEEEEEIIIIIII”, e ficado uns meses dormindo virada pro outro lado.

Eu pedi desculpas, ela pediu desculpas, nos abraçamos, nos beijamos e dormimos de conchinha.

Thanks, filha, por me orientar nos meus relacionamentos daqui pra frente.

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Xingamentos

– Você é feio, horroroso, mal educado e eu vou te matar!

Ô. Ô. Ô. Podem parar. Entendo que brigam, ficam com raiva e querem xingar, mas dizer que vai matar não pode não. Tomam bronca, ficam de castigo.

– Gente, falar que vai matar é feio, não pode. Ninguém quer que o irmão morra. Quando a pessoa morre, ela some, desaparece, nunca mais volta, acabou pra sempre. Entenderam? Achem outro xingamento.

– Entendemos, mamãe.

Dali uns 15, eu ouço:

– Você é feio, horroroso, mal educado e eu vou trancar você em uma jaula!

:-/

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Conversa franca

Eu gosto de ballet e gosto de judô. Mas tenho um menino e uma menina e me incomodava esse negócio de “ballet para as meninas” e “judô para os meninos”. Não os coloquei para fazer ballet ou judô até que eles mesmo me pedissem para fazer uma coisa ou outra. E aconteceu essa semana:

– Mamãe, só eu não vou no ballet. Eu queria fazer ballet. Posso?

– Hmmm.

Poder, pode. Não posso dizer que é caro, nem posso dizer que é difícil de levar ou buscar, porque é dentro da escola. É legal. Ela vai ficar feliz. É fofinho. Eu adorava as aulas de ballet que fiz durante muitos anos. Qual o problema?

– O problema, filha, é que hoje você já convive com umas dez tias diferentes e todas chamam a mamãe frequentemente para conversar sobre o seu (mau) comportamento. A babá, a tia da perua, a professora, as tias da recreação, a coordenadora da escola, a diretora da escola, todas elas me trazem as queixas e eu preciso lidar e resolver. Por que eu entraria numa fria de ter mais uma tia nesta lista toda, me diz?

– Eu preciso me comportar melhor e obedecer mais?

– Seria bom. Ou você acha que eu vou ficar feliz quando a tia do ballet me chamar para dizer que você não coloca a roupa, não faz os passos, não fica em fila como ela pediu?

Sei que já contei aqui que minha filha é muito difícil. Ela me dá muito trabalho, tem gênio forte e não aceita todos os limites. E quem acha que, porque eu trabalho o dia todo, estou terceirizando a educação dos filhos não sabe que não tem nada disso. É tudo responsabilidade minha. Eu até gostaria de terceirar algumas coisas, tá? Eu queria poder fazer cara de paisagem, como se o problema não fosse comigo, quando a tia da perua me conta que ela jogou alguma coisa pela janela. Mas não funciona assim. Qualquer coisa referente a meus filhos é encaminhado de volta para mim e sou eu que tenho que resolver. E tá certo, né, porque eu sou a mãe. Mas aí eu acho justo poder escolher não ter mais uma tia na minha vida.

– Se eu obedecer bastante, você deixa eu fazer ballet?

Deal.

Ok, filha, temos um acordo. Você cumpre sua parte e eu cumpro a minha. Mas juro que cancelo o contrato na primeira sapatilha que voar na cabeça da amiguinha.

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Morri

– Mamãe, você conhece a Sandy?

– Quem é a Sandy?

– Aquele que canta com o “Julio”.

– Conheço, filha. Torci anos para ela virar a Britney Spears mas isso não aconteceu. Mas não gosto das músicas dela, não.

– E você gosta das poderosas?

(Eu jurei que eram as Super Poderosas, aquelas três menininhas da época em que minha irmã caçula tinha a idade deles).

– Como é a música das poderosas?

– Assim ó: “prepara, que agora é a hora”. Da Anitta, mamãe!

Busquei a letra completa da música no Google e quase me matei. Tá, criar filhos em uma bolha onde só podem entrar as músicas que eu gosto não pode. Proibir também não pode. Dar bronca também não, até porque eles não têm culpa nenhuma, nem entenderam nada. Chorar pode? Tô chorando muito.

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