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Comentários sobre adoção

Depois do episódio com o Dr. Geraldo, médico da nossa família que teve uma reação bastante negativa quando contamos da adoção, nunca mais – ainda bem! – ouvimos comentários negativos sobre o assunto. Nas demais vezes, quando contamos que vamos ser mamãe e papai e que já estamos esperando nosso filho, recebemos parabéns, abraços e desejos de felicidades!

Apenas duas vezes, no ano passado, ouvi duas coisas sobre adoção que não gostei, mas não foram diretamente para mim, pois as pessoas não sabiam que estávamos pensando em adotar. Uma dessas pessoas me disse que não acreditava em adoção porque conhecia um caso de adoção que não deu certo. Na hora, pega de surpresa, respondi que eu conhecia muitas histórias lindas de adoção: uma prima que foi adotada, uma grande amiga da minha mãe que adotou uma menina, além de três amigas que também adotaram e são muito felizes. Depois conversei com meu marido e ficamos pensando que eu devia ter respondido que “adoção que não deu certo” é despreparo dos pretendentes, que provavelmente não tiveram amor e paciência para lidar com as reações e comportamento da criança e que não se prepararam antes de resolver adotar. E, além disso, também conhecemos várias histórias de casamentos que não deram certo e nem por isso deixamos de nos casar.

Às vezes os comentários não são maldosos, mas são errados. Por exemplo, não gostamos quando as pessoas nos dizem “que coragem!”. Coragem é enfrentar o perigo ou fazer alguma coisa ousada. Ser mamãe e papai não é perigoso e ser papai adotante não é mais ousado que ser papai biológico. Então não é coragem, é só amor. Também não estamos fazendo nada “nobre”, como se estivéssemos fazendo caridade ou salvando a criança. Vamos ser pais, só isso. Nós também não entendemos quando nos perguntam porque não queremos um filho biológico antes. Os dois serão nossos filhos, então a ordem de chegada não faz diferença.

Mas ficamos tristes quando ouvimos histórias de colegas dos grupos de apoio que já ouviram comentários maldosos ou preconceituosos, como “vocês não têm medo que a criança tenha a índole dos pais biológicos?” e “o que vocês farão se a criança quiser conhecer os pais de verdade?”. A criança será um reflexo de sua família e da educação, carinho e amor que receber, então não há motivos para temer que ela “puxe” a índole dos genitores. Sim, ela terá a carga genética deles, mas não podemos afirmar que é melhor ou pior que a nossa própria carga genética. E os “pais de verdade” seremos nós dois, assim como a “família de verdade” será a nossa. No entanto, não temos medo de que ele queira procurar a família biológica. Apoiaremos o direito de nosso filho de procurar os genitores quando for adulto, pois é um direito dele e não faz sentido termos ciúmes ou impedir isso.

Adotar é amar um filho, exatamente o mesmo conceito que todos conhecem quando pensam em filhos biológicos. Nosso filho vai viver um amor assim: imenso e incondicional. A partir de agora que recebemos a habilitação, mais pessoas saberão que estamos esperando nosso filho. E estamos torcendo para ouvirmos só comentários carinhosos.

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“Parece que você está grávida!”

Esses dias fui almoçar com uma amigona, que também é uma das maiores torcedoras do nosso processo de habilitação para adoção. E no meio de uma conversa aleatória – porque eu faço força para não ficar falando SÓ de adoção – ela mudou de assunto e me disse assim: “Posso falar uma coisa? Parece que você está grávida!”.

E aí a ficha caiu: sim, acho que estou grávida! Nós estamos naquela fase em que as grávidas sabem que estão, porque os primeiros exames indicam que é positivo, mas queremos esperar os primeiros 3 meses (no nosso caso, a sentença final do processo de habilitação) para poder contar para todo mundo!

Nunca estive grávida, e confesso que acompanhei poucas mamães grávidas bem de perto, mas acho que a sensação é a mesma: uma super ansiedade para começar a arrumar as coisinhas do bebê, super curiosidade para ver a carinha e sentir o cheirinho dele e uma super preocupação sobre como vamos organizar a vida com um serzinho em casa (horários de escolinha, fazer comida caseira, passeios de criança no final de semana etc.).

E tem coisas que para nós serão bem diferentes. Um exemplo é a questão do nome do bebê: a gente não passa horas e horas tentarmos decidir um nome de menina e um nome de menino, porque nosso filho já terá um nome quando chegar. Outro exemplo é o parto: eu vejo que mamães grávidas têm uma super preocupação com o tipo de parto. Enquanto umas querem normal, outras querem cesárea, e eu quero poder abraçar o meu filho o mais rápido possível. E, por último, o que nos deixa mais ansiosos: não podemos comprar nada para o enxoval! Não temos como saber se precisaremos de um berço ou de uma caminha; também não sei se devo comprar uma cômoda para trocar fraldas ou uma mesinha com cadeiras para ele desenhar. E como não sabemos qual idade ele terá quando chegar (dentro do nosso perfil de 0 a 3 anos), não podemos comprar nenhuma roupinha ou brinquedos ainda.

E depois dessa conversa, cheguei em casa e falei para meu marido que estava grávida e que ele deveria atender meus desejos por comidas e ficar me mimando, como os maridos de mamães grávidas fazem. E ele me respondeu assim: “não é só você que está grávida, nós dois estamos. E o bebê não está na sua barriga, está nos nossos corações. Então você também tem que me mimar e fazer tudo o que eu quero!”. ❤

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Livro: Conversando com crianças sobre adoção

Na nossa primeira entrevista com a psicóloga, contamos que estávamos lendo diversas coisas sobre adoção (entre livros, blogs e tudo o que aparecia na nossa frente sobre o assunto). Ela então nos recomendou a leitura de materiais que trouxessem o ponto de vista das crianças que são adotadas, pois a maioria dos livros que tínhamos lido trazia os papais adotantes como protagonistas.

Eu comprei o livro “Conversando com crianças sobre adoção”, de Lilian de Almeida Guimarães, no dia seguinte e graças à agilidade do e-commerce em São Paulo, ele estava na minha casa em 3 dias.

Lilian entrevistou 3 crianças – um menino e duas meninas que são irmãs – que passaram pela adoção tardia e que já estavam morando há um tempo com suas novas famílias. Eles narram um lado um pouco triste da adoção, que é o medo e a insegurança de voltarem para o abrigo e ficarem de novo sem uma família. Nós já tínhamos discutido o medo da devolução em duas reuniões dos grupos de apoio, onde aprendemos que, mesmo que uma criança tenha sido abrigada bem novinha e não tenha vivenciado ela mesma a dor da devolução, ela provavelmente acompanhou o abrigamento ou mesmo devolução de coleguinhas de abrigo e sabe que o abrigo é uma situação provisória para ela. E durante as entrevistas, as três crianças falam sobre o receio que elas têm de voltar para lá. Umas das meninas conta que enquanto não receber o papel definitivo que diz que elas não podem ser devolvidas, pode ser que a mãe decida que elas devem voltar a morar no abrigo (ela provavelmente se refere à guarda definitiva e emissão da nova certidão de nascimento, que ainda não havia sido emitida). E quando Lilian pede que elas desenhem as novas famílias e casas, as três se colocam um pouco para fora do desenho, como se no fundo percebessem que não estão totalmente inseridas na família. É de partir o coração.

Acho que uma das coisas mais importantes para nós dois será fazer de tudo para nosso filho sentir que ele é a nossa família. Que aqui será a casa dele, que nós seremos pais para sempre e que ele já tem há muito tempo um espaço reservado só para ele nessa família.

E, por fim, vou contar um diálogo do livro que achei muito bonitinho. Lilian pergunta para uma das meninas se ela conhece outras crianças que foram adotadas, assim como ela e a irmã. E ela responde que sim e cita alguns amiguinhos, mas depois a psicóloga percebe que esses amiguinhos são filhos biológicos de seus pais. E após um diálogo confuso, eu percebi que no entendimento da menina, aquelas crianças também tinham sido adotadas, mas por seus próprios pais biológicos. Porque se adoção é cuidar, é amar, é dar uma família para a criança, significa então que todas as crianças – filhos biológicos ou adotivos – precisam ser adotadas por suas famílias, certo?

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O dia que percebi que queria ser mãe (ou viagem para África do Sul)

Documentos entregues no dia 23 de janeiro. No dia 01 de fevereiro, tive uma conversa com o RH da empresa onde trabalho sobre a possibilidade de fazer um projeto de 7 semanas na África do Sul, até o final de março. O contexto do projeto era ótimo: experiência internacional, tempo curto, 1 semana no Brasil no meio do projeto, gerente brasileira, indústria legal e sobre marketing, que adoro. O timing com relação à adoção também parecia ser perfeito. O fórum entraria em contato dois meses após a entrega de documentos, ou seja, final de março!

No dia 6 de fevereiro, depois de conversar muito com meu marido e decidirmos que eu deveria de ir para África do Sul, liguei no fórum para saber se a documentação que entregamos estava certa e se faltava alguma coisa. “Tudo certo, está com o setor técnico, em breve te ligarão”. E eis que no dia seguinte, 16 dias após entrega dos documentos, a gente recebe a ligação do fórum!!! Eu não atendi a ligação, ligaram para meu marido e a entrevista estava agendada para dia 20 de março! Dali 1 mês e meio. O tempo mais rápido que ouvi falar (e olha que li muito na internet sobre demora no processo de habilitação e ouvi relatos de colegas de grupos de apoio sobre espera de mais de 1 ano para agendamento da primeira entrevista).

Mas seria no meio do projeto. Depois de um tempão me contorcendo de nervoso, resolvi ligar de volta para a assistente social e perguntei sobre a possibilidade de remarcar. Ela foi irredutível. Para remarcar, eu precisaria de uma petição, eles cancelariam o processo e eu precisaria dar entrada novamente. Não, nunca. Confirmei para o dia 20 de março. Liguei para duas amigas, mandei e-mail para outro amigão, falei com meu marido. E decidido: eu não iria para o projeto na África.

Foi a primeira vez que senti que eu tinha uma grande responsabilidade e um grande compromisso com alguma coisa que não fosse eu mesma. Minha carreira é importante, gosto do que faço e o sucesso profissional me dá condições (digo, salário) para realizar as coisas que quero. Mas eu decidi que queria um filho, que queria a adoção e, se tenho que estar no fórum dia 20 de março sem possibilidade de remarcar, eu estarei no fórum nessa data. Meu filho agora é minha prioridade e não vai ser a única mudança de planos que vou ter que fazer na minha vida por causa dele. Eu acho que isso é ser mãe.

O final feliz da história é que eu trabalho em um lugar muito legal. Conversei com meu mentor, com a gerente de RH e também com minha gerente e sócio do escritório de Johannesburg e terei um flight back para estar em São Paulo no dia da entrevista! Assim, dia 14 de fevereiro eu embarco para África do Sul.

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