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Pensamentos sobre a morte

Eu achava que eu não tinha medo de morrer.

Na verdade, ainda acho.

Morrer é natural, é um fato, é o destino de todo mundo, certo?

Só que a morte fica mais real quando a gente tem câncer duas vezes. Eu me sentia um pouco imortal, eu sentia que devia me preocupar com previdência para pagar minhas contas na velhice, mas de repente vem algo que sussurra no meu ouvido “talvez você morra antes de ficar velhinha”.

E eu achava que não ligava para a morte, porque ela é um fato e porque eu tive uma vida boa até agora. Fiz muita coisa, vivi muita coisa, fui muito feliz, então tinha uma ilusão que já poderia morrer satisfeita.

Mas não.

Tem duas coisas coisas que me matam um pouquinho cada vez que penso sobre a morte.

A primeira delas é que catso de mãe sou eu que pode morrer antes de ficar velhinha e que pode não estar aqui para o Isaac e para a Ruth. Gente, como me sinto incompetente por isso. Eu me sinto na obrigação de estar aqui inteira para finalizar este projeto que é estar ao lado deles até o começo da vida adulta, e aí ficam aparecendo coisas que podem me tirar do projeto antes da hora. Not fair, nem comigo, nem com eles.

E a segunda, que pode até ser egoísta, é a dor que eu sinto só de pensar na possibilidade de não vê-los crescer.  Eu não consigo pensar em perder a vida deles. Meus filhos são crianças tão bacanas, e sei que serão adolescentes ótimos e adultos do bem, e eu quero estar aqui para conhecê-los em todas essas fases.

Eu não estou morrendo, pelo contrário, tô bem viva. E tô muito bem. O assunto pode parecer mórbido, mas não é assim que me sinto depois da semana linda que tive. Foi só esse pensamento que me veio que se tem uma coisa pela qual eu quero viver é a minha maternidade. Existe uma única coisa que me faz pensar que não estou pronta para morrer e esta coisa é minha maternidade. Então, Sr. Tumores, parem de me fazer pensar sobre a morte, por favor. Ainda não terminei o que estou fazendo nessa vida.

 

 

 

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Docinho (mas não)

Meus filhos estavam com o pai há vários dias e liguei para falar com eles. Falei com a Ruth, depois com Isaac e desliguei. Aí vem mensagem do pai:

– Ué, você não vai falar com o Isaac?

– Eu não falei com o Isaac?

A Ruth engoliu o capeta quando nasceu, não é possível. Quando terminamos a conversa, ela disse “beijo mamãe tô com saudades vou passar pro Isaac” e voltou com “oi mamãe é o Isaac você tá bem eu tô bonzinho na escola”. E repetimos a conversa toda. E ela devolveu o telefone para o pai dizendo “papai, enganei a mamãe”.

Affe.

(e, não, não dá para reconhecer as vozes dos dois ao telefone ainda. ou eu não tenho esse skill ainda de reconhecer a voz dos meus próprios filhos)

Formulários

Eu estava me preparando para um exame desses de mulher, preenchendo aqueles formulários com data da última menstruação, doenças anteriores etc. e aí chego nas perguntas: “Tem filhos?” Quantos?”.

Perguntinha mal formulada, né? Tenho aqui Isaac e Ruth que não me deixam esquecer que tenho filhos, DOIS FILHOS, então eu tenho obrigação de responder “sim, 2”. Mas isso não responde nem um pouco o que o laboratório precisa saber, e teria sido bem melhor perguntar o número de gestações, de partos, de abortos. Algo mais específico.

Porque não são só as mães adotantes. Tem também as mulheres que entregaram os filhos para a adoção, que não têm o filho, mas que precisariam falar da gravidez e parto antes de um exame. E tem as mães cujos filhos faleceram, que não sei se responderiam que têm ou que não têm.

De qualquer forma, a pergunta estava ruim e coloquei uma observação ao lado: “adotivos”.

Aí, juro:

– Moça, por favor, esses filhos adotivos são humanos ou cachorros?

Taqueopariu.

Ernesto, desculpa não ter pego o formulário de volta, riscado o 2 e colocado um 3. Porque se são humanos, cachorros ou chinchilas, pouco importa para quem devia ter me perguntado sobre gestações, abortos e partos. Taqueopariu, viu?

 

Manuel

– Ruri, chama o Manu também!

Quando algum outro amigo sugere incluí-lo em qualquer programa, eu sei que está querendo essa companhia fora do comum que ele é. Ele é sorridente, bem humorado, bom de papo. Não tem como não gostar dele. Acho que nunca nesta vida alguém não gostou dele ou falou mal dele. Não tem como não gostar de alguém que está sempre com um sorriso de orelha a orelha, que puxa papo com as velhinhas na fila do cinema, que transita bem em qualquer tipo de conversa, de política a receitas de torta.

E ele ainda é um partidão pra sair por aí, porque tudo o que ele gosta também é legal. Ele tem o dom como poucos de descobrir exposições, eventos e restaurantes pela cidade, então sair com ele é sempre diversão na certa. Eu já cheguei a comprar ingresso sem nem ler sobre o que eu ia assistir porque já sabia que ia ser bom. E, também, se não fosse bom, eu ia curtir meu barbudo preferido e já ia valer o programa.

Mas o que eu quero contar é que não é o bom humor, os papos ou os passeios que fazem dele o melhor amigo que já tive nessa vida. É muito bom ter alguém com estas características por perto, mas sorte mesmo eu tenho por causa de tudo o que ele faz por mim.

Ele está por perto o tempo todo, todo dia, e nunca fica sem tempo pra mim. E sente também quando estou quieta mas está tudo bem, ou quando estou quieta mas preciso receber um telefonema. Ele já cuidou dos meus dois filhos quando eles tinham dois anos durante um dia inteirinho, para que eu pudesse curtir o dia de noiva de uma amiga nossa de quem fui madrinha. Ele foi a pessoa que mais agitou a pista de dança na minha festa de casamento. Ele já traduziu abstract de artigo científico pro espanhol num prazo de trinta minutos, já montou meu criado-mudo, já me ajudou com muito trabalho. Ele saiu comigo toda sexta, sábado e domingo durante semanas quando me separei, porque sabia que estava difícil me acostumar a estar sozinha (e haja cinema, teatro, drinks e jantares, hein?). Ele usou os dois dias de férias que ele tinha tirado para as olimpíadas para ficar comigo no hospital, para deixar minha mãe dormir na casa dela, e transformou uma recuperação de cirurgia na melhor balada. Ele simplesmente está em tudo, mesmo quando me diz que acha uma bobagem eu ficar correndo tantos km por aí, fazendo spinning e machucando os joelhos de tanto cair da bicicleta. 

Eu já casei duas vezes e considero casar outras vezes mais, mas sei que o “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença” é com ele. Não vai existir marido no mundo que faça isso melhor que ele. Não consigo pensar em nada que tenha me acontecido nos últimos 15 anos de muito bom ou de muito ruim e que ele não estava lá. Ele me conhece melhor do que ninguém e sabe da minha vida melhor que eu mesma. E se importa com todos os meus dramas, dos mais sérios (tem muitos) aos mais banais (tem bem mais).

Por isso eu preciso dele e não tem ninguém nessa vida que eu queira nesse tanto. Preciso que ele fique sempre bem, feliz, saudável, realizado, por muitos anos. Muitos anos, I mean, preciso que ele viva bem mais que eu. Não consigo nem imaginar como seria sobreviver a esta vida sem ele. Então, chuchu, quando você me perguntou no final da minha festa de aniversário “nossa quem será que vai morrer antes?”, só tenho uma coisa a te dizer: POR FAVOR ME DEIXA IR ANTES.

Adulto que mora com a mãe

Aqui em casa sempre rola um assunto que não sei de onde eles tiraram que é “mamãe, eu vou poder continuar morando com você quando eu for adulto?”. E eu acho cedo pra dizer que meu sonho de consumo é que eles entrem em uma faculdade acabando o colegial e se mudem para uma república, e nao é falta de amor, é um querer bem, que eles tenham o próprio canto, privacidade, responsabilidade, cuidem de uma casa, convivam com roommates etc. Mas é cedo e eu respondo:

– Claro que podem. Mas precisam continuar cuidando da nossa casa junto comigo, e cada vez que crescerem mais um pouquinho vão ganhar novas tarefas aqui, e quando ficarem adultos vamos dividir inclusive o aluguel – porque, né, aí já aproveito para falar sobre essa coisa de divisão de tarefas do lar.

Então as conversas são mais ou menos assim:

– Mamãe, eu vou ficar adulto e continuar morando com você e vou te dar meu dinheiro para você pagar as contas.

– Mamãe, quando eu for adulto e ainda morar com você eu vou cozinhar seu jantar e lavar sua roupa.

Só fofura. 

Mas aí vem ela, a própria:

– Mamãe, quando eu for adulta vou poder morar com você, né?

– Claro, amor.

– E se eu ficar grávida?

PUTAQUEOPARIU, RUTH! 

Mau humor encarnado na mãe

A gente estava saindo pra jantar. Não bastasse eu ter que arrumar duas crianças e me arrumar, eu tenho um cão que complica todo o processo, porque ele tem que passear, tem que ter brinquedos interativos à disposição para não morrer de tédio e destruir a casa, tem que estar calmo para não uivar e matar os vizinhos do coração. Então​ eu tinha pedido para Isaac e Ruth me esperarem no térreo enquanto eu organizava a vida do Ernesto, que não ia junto. Quando chego no térreo, uma moça tinha dado uma bexiga de gás hélio para cada um deles. Socorro.

Moça, você tentou ser legal e não te culpo. Mas eu já estava acumulando um mau humor no dia, porque eu também tinha cochilado no sofá à tarde e acordado toda torta. Eu detestei aquelas bexigas. Entrei no táxi com uma criança de cada lado segurando uma bexiga voadora, e aquelas porcarias de bexiga ficaram batendo na minha cabeça e passando na frente dos meus olhos, e eu odiei profundamente a ideia de dar bexiga pro filho dos outros sem consultar os pais.

Aí eu me lembrei de uma outra vez que dei de louca. Eles tinham acabado de chegar na família, nem andavam ainda, e levei os dois sozinha em um médico. Nessa época, um ia no carrinho, o outro ia no meu colo apoiado em um braço, enquanto eu segurava a mochila e empurrava o carrinho com outro braço (não, carrinho de gêmeos é um trambolho maior ainda, eu usava um só carrinho mesmo). Quando estava saindo da consulta, a médica deu uma bexiga pra cada.

PQP.

Deu as bexigas, mas não deu uma cordinha pra amarrar as bexigas no braço. Eles tinham um ano e derrubavam ou jogavam a bexiga a cada meio segundo. E choravam. E eu lá, criança num braço, mochila no outro, outra criança no carrinho que eu empurrava com o joelho, e os infernos das bexigas que eu ainda tinha que pegar e devolver pra criança chorando. Teve uma hora que, já vendo que o choro era inevitável, eu deixei a fúria tomar conta de mim, estourei as duas bexigas e aguentei os berros – mas pelo menos não tive que correr atrás de mais nenhuma bexiga.

Não fiz isso hoje, mas tive vontade. Juro que só não fiz pois não queria que o motorista me avaliasse mal no aplicativo. #blackmirror

Agora pouco cruzei no feicebuqui com o desabafo de uma mãe que dizia que odeia brincar de boneca e que se sente muito cobrada e culpada por isso. Moça, sinta-se abraçada, e muito. Não só não gosto de boneca, como também odeio massinha, canetinha e areia (além de detestar bexigas as you know). A gente não é menos mãe por isso não. A gente é muito mãe, dá amor, educa, cuida, até faz umas coisas legais, mas não vejo essa necessidade de gostar de tudo só porque sou mãe. Eu escondo canetinha em casa, libero massinha uma vez por ano e olho desesperada para eles brincando na areia pensando que saco vai ser lavar crianças empanadas depois.

E estouro bexigas quando não tem ninguém me avaliando.

Xô, Páscoa

Sou ateia, mas eu gosto de reunir a família e tal. Também gosto de um feriadinho, quem não gosta?

Mas tem duas coisas que me fazem detestar a Páscoa.

Primeiro: o tanto de chocolate que eles ganham. Ai, gente, não gosto, não. Não gosto que eles comam chocolate, é mais forte que eu. Gosto que eles comam couve, mexerica e caqui, sabe? Eu fico regulando, escondendo, é um saco.

Segundo: EU NÃO TENHO MATURIDADE PARA VIVER EM UMA CASA COM TANTO CHOCOLATE. Não tenho controle de mim mesma. E, dado o tanto de home office que faço, vou acabar tendo uma intoxicação com tanto chocolate que tô comendo.

Ano que vem, família querida, não comprem chocolates pra gente não. Não sei lidar e não vou mentir: quem come tudo sou eu, não eles. ❤

Quando um quer, dois brigam

De uns anos pra cá, eu decidi que briga não iria mais fazer parte da minha vida. Significa que, se eu não consigo parar de brigar com alguém, eu saio fora. Paro de falar com a pessoa, termino o relacionamento, peço demissão, encerro contrato, vou pra bem longe.

Mas tem um karma: ser mãe de duas crianças que não param de brigar. Não param, gente. No minuto 1 depois que acordam, estão resistindo para colocar o uniforme. No minuto 2, estão brigando por alguma coisa idiota do tipo “o tênis dele é de amarrar e eu também quero e não tenho e eu odeio ele por isso”.

Affe.

Eu entendo, porque tenho irmã e briguei com ela a vida toda até tipo o mês passado. E eu acho que, para começar uma briga, basta um só querer. Briga é a relação de duas (ou mais) pessoas e tem os sentimentos no meio, então não acho que quando um não quer, dois não brigam. Eu acho que basta um começar a provocar que a briga vem rapidinho, entre os adultos e as crianças.

Eu só não sei como suportar essa mediação constante de brigas. Eu fugi de toda e qualquer briga na minha vida adulta e não consigo ter sucesso no projeto “acabar com brigas dentro da minha casa”. 

De vez em quando estou paciente e repasso com eles os diálogos que levaram a uma briga, tentando mostrar como ser mais gentil, compreensivo e como não entrar na briga (ou sair dela). De vez em quando não estou paciente e dou uns berros do tipo PAREM DE FALAR UM COM O OUTRO PELOAMOR QUE NÃO AGUENTO MAIS VOCÊS BRIGANDO. Aí tem vezes que apelo mesmo e nem deixo a briga começar: coloco cada um no seu quarto pra brincar sozinho e nem deixo cruzar com o outro para nem dar chance (porque juro que nenhuma brincadeira amigável dura mais de três minutos).

E as brigas são tão bestas que até perco a razão de viver. Ontem eles brigaram para ver quem ia ficar com a caixa de papelão da próxima encomenda que eu receber. Eu não tinha recebido nada ontem, então não sei como eles conseguiram entrar nessa briga. Não sei nem como arranjar paciência para mediar e resolver uma briga hipotética tipo essa. Isaac, Ruth, eu vou jogar vocês dois no lixo reciclável junto com a caixa se isso efetivamente virar briga no dia em que chegar algo pelos correios. Juro.

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Para Ruth

Ruth,

No seu aniversário de seis anos, entrei em uma loja e comprei um monte de roupinhas fofas tamanho 10. Agora vou ter que trocar metade porque ficou pequeno.

Meu. Em respeito a sua mãe que tem 1,56 m, dá pra ir devagar neste crescimento desenfreado? Tá loco.

Mas também queria te dizer mais uma vez o quanto você foi fofa. No seu aniversário de seis anos, mamãe não fez festa como sempre fizemos, porque combinamos um passeio e uma viagem. Mas aí você acordou para fazer xixi dois dias depois do seu aniversário e encontrou uma festa no apartamento para a qual não tinha sido convidada (sou dessas mães que põem as crianças na cama, abrem um espumante e servem um jantar para 4 pessoas). E você só me chamou pra te ajudar com o xixi, confirmou quem estava na sala comigo porque tinha reconhecido as vozes (e risadas) e voltou para a cama para dormir lindamente até o dia seguinte. Sem nenhuma crise. Uma fofa.

Feliz aniversário, gatinha!

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Crianças que comem verdinhos

Eu coleciono uma série de cagadas na vida, nem vou listar.

Mas tem uma coisa que fiz certo: eu ensinei meus filhos a comerem bem. Aqui tem criança comendo todo tipo de fruta, verdura, legume e salada, recusando doce, tomando suco e chá sem açúcar, me deixando jogar fora bala e pirulito que ganham em festinha (sou dessas).

Mas hoje a Ruth me deu a prova viva de que me esforcei pra valer. Hoje estávamos comendo um macarrão com molho caseiro, tudo orgânico, uma fofura, e eu mandei uma afirmação modesta:

– Nossa ainda bem que a mamãe só faz comida saudável pra vocês e nunca fez um miojo, né?

Aí a Ruth me respondeu a melhor coisa que ela poderia ter respondido. Ela disse:

Mãe, o que é um miojo?

Muitas palmas para mim (e para o pai deles também) que mantivemos duas crianças longe de miojo durante seis anos de vida. Não é pra qualquer um. Tamo de parabéns. SEIS ANOS E ELES NÃO SABEM O QUE É UM MIOJO! (Isaac também não sabia, tentou responder alguma coisa, mas nem sabia que miojo era de comer)

É nóis!