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O trampo, o amor e a gestão da p$*%&# toda

Essa semana um amigo me perguntou se alguma vez eu tinha me arrependido de ser mãe, se eu pensava em como seria minha vida sem Isaac e Ruth.

Não dá para pensar nisso.

Filhx não é só o trabalho envolvido, a grana, a gestão de logística, as irritações com bagunças e aquele 1 quilo de feijão que você cozinha achando que vai durar o mês e acaba em quatro dias.

Filhx muda a gente. Transforma. Eu morri e renasci no dia em que eles chegaram, quando eu me tornei mãe. A maternidade muda a essência, os valores, a forma de encarar problemas e todas as prioridades. Não é questão de ser mais feliz como mãe, não é questão de encontrar “o real sentido da vida”, se é que isso existe. É a transformação. Eu me lembro como eu era, eu lembro da minha vida aos 31, quando trouxe os dois monstros para casa, mas não consigo projetar aquela vida hoje, cinco anos depois. É diferente de pensar em dar undo na adoção do cachorro. Amo o Ernesto, vou cuidar dele até o fim da melhor forma possível, mas ele não mudou nada em mim. Consigo imaginar direitinho como seria a vida sem ele. Mas não dá para pensar em como eu seria hoje sem Isaac e Ruth, porque eu não faço a mínima ideia.

A única ideia que faço é que a vida seria mais fácil, provavelmente. Menos boletos, menos feijão, menos preocupações talvez.

Recentemente dois fatos me causaram uma pontinha de inveja da minha melhor amiga: 1) ela foi avisada sobre um treinamento que faria em Londres umas duas semanas antes e teve duas únicas preocupações, que foram arrumar a mala e vender o ingresso para o show do Bon Jovi que já tínhamos comprado, 2) ela fez um treinamento corporativo de terça a quinta das 18h às 22h. Eu teria que envolver um time gigante para conseguir estes cinco dias em Londres e três dias em treinamentos noturnos.

Quando mudei toda minha carreira, uma das questões era justamente essa coordenação de logística, porque trabalhar com logística não era uma ambição na minha vida, mas fui me tornando uma gerente de logística exemplar. Era tanta coisa para gerenciar, minha gente, tanta coisa. Tinha perua, babá, escola, terapia, natação, supermercado, boletos, médicos, roupas, uniforme, lição de casa, horário de dormir e de acordar, muito mais coisa que eu gostaria de ter que cuidar. Aí eu mudei tudo.

Mas sou freelancer e os boletos insistem em chegar todos os meses, então – embora eu esteja bem mais feliz – não é que consegui uma vida mais fácil, não. Estou indo para a quarta viagem a trabalho este ano e vou contar como foi.

Na primeira, consegui organizar a agenda e ir para o Nordeste nos dias em que as crianças já iriam ficar com o pai e foi tudo lindo. Na segunda, para o interior de São Paulo, pedi uma ajuda para minha madrinha, que os pegou na escola, dormiu com eles na casa dela e devolveu na escola no dia seguinte. Na terceira, já tive mais tilt, porque só consegui um voo que descia em São Paulo umas 22h e a escola fecha às 19h, então eu tinha um problema. Pedi para meu pai, achando que ele teria suporte da minha madrasta para me cobrir essas três horas. Mas minha madrasta tinha um outro compromisso, meu pai topou pegar na escola e levar para a casa dele, mas me pediu ajuda com a comida deles, porque ele não fazia menor ideia do que dar, de como dar, de onde comprar alguma coisa para crianças jantarem. E aí eu pedi para minha mãe (porque eu já estava lá em Salvador) comprar uma marmita e levar até a escola para que meu pai pegasse crianças e marmitas e ficasse com elas até eu voltar de viagem. Deu tudo certo também, com um pouco mais de emoção.

Agora vou passar dois diazinhos em Belorizonte, pertinho. Não consegui usar os dias em que eles estarão com o pai, então comecei a organizar. Primeiro, avisei o cliente que não daria para pegar o voo das 6h30, porque a escola abre às 7h, então não é compatível, vou ter que ir às 8h. Aí resolvi que pela primeira vez na vida vou contratar uma babá de forma mais radical. Já tive babás no passado, mas não com tantas atividades envolvidas de uma vez só: a babá vai buscar na escola, trazer para minha casa, dar jantar, dar o banho, dormir com eles aqui e levar para a escola no dia seguinte. Eu nunca deixei os dois sozinhos em casa com outra pessoa por tanto tempo, com tantas coisas envolvidas e estou apreensiva. Mas preciso testar para saber como é que é. No dia seguinte, minha mãe os pegará na escola, virá para minha casa e eu chego do aeroporto para liberá-la. Aí vou precisar deixar pronta toda a comida para todos esses dias porque não quero que a babá e minha mãe ainda tenham que cozinhar para eles. E resolvi também levar o cachorro para a doghero porque não quero que elas tenham que limpar xixi e cocô de cachorro e alimentá-lo além de tudo. E vou ficar acompanhando o percurso escola-casa e casa-escola porque se precisar vou chamar um taxi para elas. Aí eu estava comentando com minha irmã o tanto de gente que tive que envolver para poder dormir uma noite fora de casa a trabalho e ela me respondeu:

– E pensa que você faz tudo isso sozinha todos os dias e ainda trabalha fora.

Aí eu percebi que não sou uma excelente gerente de logística. Eu sou Magaiver. Essa transformação toda pela qual eu passei foi de pessoa comum para um super-herói e acho que é por isso que não dá para se arrepender de ter tido filhos ou ficar imaginando como seria sem eles. Como é que eu vou querer deixar de ser Jessica Jones e perder meus super poderes? Não dá.

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Diálogos improváveis

Ruth:

– Mãe, faz couve no jantar?

– Ixi, Ruth, não tem couve.

– Como não tem couve?!? Tem que ter couve todo dia! Vamos comprar mais couve!

 

– Amanhã você me acorda mais cedo?

– Por que você quer acordar mais cedo?

– Quero ir mais cedo para a escola, hoje você me levou muito tarde.

 

– Mãe, eu não quero que você morra.

– Estou tentando não morrer agora para morrer só quando eu for velhinha.

– Então você tem que comer sempre saudável. Eu sempre vou comer saudável também para poder cuidar de você.

 

Isaac:

– Mãe, amanhã nós vamos ficar em casa?

– Vamos.

– Então, depois do café da manhã, você pode jogar duas partidas de xadrez comigo?

Dia de cão (ou dia de mãe)

Hoje eu acordei às 5h da manhã. Eu tinha um compromisso cedo, mas não tão cedo assim, mas esse é o horário que me deixa tranquila para sair de casa tendo completado todos os processos. Eu não precisaria acordar tão cedo, mas a partir das 6h sempre corro o risco de cruzar com a Ruth no corredor, e uma criança acordada faz qualquer coisa que a gente queira fazer demorar mais. E, sempre que alguma coisa demora mais de manhã, quem se ferra sou, porque em geral quando temos que nos apressar eu fico sem café da manhã. E aí saio na rua e não consigo comer nada até o almoço, porque em qualquer lanchonete qualquer coisa que sirva de café da manhã tem ovos, leite ou presunto e eu não como nada disso. Então eu acordei às 5h para conseguir tomar banho, me arrumar e tomar café da manhã sozinha, em silêncio e tranquilamente antes de qualquer criança aparecer na sala.

Aí eu saí cedão na rua com duas crianças, levei a pé até a escola, entrei no metrô e segui para um seminário. Passei a manhã no auditório, almocei com os colegas, dei uma fugida para apresentar uma proposta de trabalho para um cliente, voltei para o seminário. Quase no finalzinho, os culegas começaram a combinar um jantar de confraternização. Hoje. Eu nem sei o quanto eu queria ir neste jantar, mas eu não lido bem com a renúncia. Eu não lido bem com esse relacionamento desigual, onde os filhos podem ficar doentes sem planejamento e ferrar toda minha agenda, mas eu não posso decidir assim de última hora jantar com um pessoal e desmarcar meu compromisso de ir buscar na escola. Essa falta de liberdade é um perrengue muito grande na maternidade, sempre achei.

Mas sem outra alternativa, fiz todo o caminho de volta para pegá-los na escola. Super tarde, não deu tempo de passar na farmácia sozinha antes de a escola fechar, então eu peguei os dois na escola e fui com eles na farmácia. Era para ser cinco minutinhos, mas o sistema travou, o remédio é controlado e precisava do visto do farmacêutico, tudo começou a dar errado e ficamos trinta minutos dentro da farmácia. Sim, tinha que ser hoje, porque já não tinha mais nenhum comprimido para amanhã. Trinta minutos em uma farmácia com duas crianças e eles encontraram um amiguinho da escola lá dentro. Eu só queria que eles ficassem parados e quietos ao meu lado enquanto eu esperava o remédio desenroscar, mas não. Claro que não. Rolou pega-pega, esconde-esconde, polícia e ladrão, várias gritarias e corridinhas dentro da loja.

Eu teria ficado irritada se as crianças não fossem minhas. Como eram minhas, eu fiquei duas vezes mais irritada, porque também me senti uma incompetente por não conseguir fazê-las parar de gritar e de correr.

Aí entrei em casa e mano, tô pensando em mudar para um hotel. Porque tinha xixi e cocô de cachorro, tinha que dar comida pro cachorro, tinha que fazer jantar, tinha que fazer criança entrar no banho, depois fazer criança sair do banho (duas vezes), fazer criança escovar os dentes, colocar na cama, arrumar roupa, mochila, louça, caraio.

E a cereja do bolo foi Isaac querendo me surpreender achando que eu estava sobrecarregada e ir arrumar o quarto dele sozinho. Arrumação, I mean, ARRUMAÇÃO. Ele tirou todas os livros da prateleira para rearrumar seguindo uma classificação nova em plena segunda-feira à noite. Em plena segunda-feira à noite 800 livros na cama do menino, e eu quase o coloquei para dormir no chão mesmo.

Que dia, minhadeusadocél. que dia.

 

Verdades e mentiras

Eles tinham chegado da escola e foram lavar as mãos. Quando entrei no banheiro para dar aquela conferida, encontrei o sabonete meio despedaçado. Ele já estava rachando um pouco e alguém tinha enfiado os dedinhos e arrancado vários pedacinhos. Não era grave, não era bronca, sermão, nem nada. Eu só perguntei quem tinha feito aquilo.

Mas não tinha sido nenhum deles, né? Eu ouvi de tudo. “Será que não estava assim antes?”, “Foi o Ernesto!”, “Não fui eu”, “Foi ele!”. O Isaac chorava ofendido e alegava que só porque ele é bagunceiro de vez em quando eu já o acusava de qualquer coisa; a Ruth me dizia que ela jamais faria uma coisa dessas, imagina, ela, princesa do bom comportamento na escola que só arranca suspiros da professora.

Eu me senti uma palhaça. Porque alguém estava mentindo para mim, eu não queria ficar acusando ninguém, porque realmente poderia ter sido qualquer um deles, mas me senti uma palhaça por estar ali na frente de um mentiroso cara-de-pau. E o sabonete em si nem era um problema, eu tava cagando para o sabonete. Eu estava inconformada porque uma criança estava mentindo para mim na cara dura e eu não sabia dizer qual criança era a mentirosa.

Aí uma hora eu parti pro drama e pra chantagem emocional, porque eu não tinha outras armas. Eu falei para eles que estava muito abalada por ter um filho mentiroso, que mentia tão bem que eu nem conseguia desconfiar dele. E que isso era um problema muito grave para mim, porque isso significava que eu não poderia confiar em nenhum dos meus dois filhos, porque qualquer um deles poderia me enganar. Que eu ia ter que perder a confiança e virar uma mãe desconfiada de tudo, e que isso ia ser muito ruim para mim, que eu ia viver triste, e que nossa família ia ser uma família sem confiança.

Isso, esse drama mesmo.

Aí mandei cada um para o quarto para pensar na vida e encontro a Ruth chorando no quarto dela. Bingo! “Ai mamãe desculpa eu fiquei com medo de tomar bronca mas eu não devia ter te enganado eu nunca mais vou te enganar porque eu te amo e quero que você confie em mim”. Nos abraçamos e nos beijamos e vivemos felizes para sempre, numa relação de muita confiança e verdades.

Até o dia seguinte, quando entrei no banheiro e vi que alguém tinha feito cocô e esquecido de dar a descarga e perguntei quem tinha sido. E eles gritaram ao mesmo tempo:

– FUI EU, FUI EU, MAMÃE!

Essa é a hora que eu invejo quem crê em deus e tem para quem rezar e pedir forças para suportar este desafio. Taqueopariu.

Saco de pancada

O menino acordou atacado. Quando fui chamá-lo, ele não deu “bom dia”. Primeiro deu uma resmungada sobre querer dormir mais, depois pulou da cama na direção da estante de livros porque queria levar um livro para a escola.

Sim, esse interesse por livros é fofinho. Sim, a escola permite que eles levem livros e revistas para que as tias leiam para eles nos horários de recreação. Mas nós temos regras em casa: 1) não pode levar livros muito novos (porque eventualmente o livro volta destruído), 2) não pode levar livros de estimação (tenho meus livros infantis guardados há mais de 30 anos e eles não saem daqui nem a pau, 3) não pode ser muito grande (porque não cabe na mochila) e 4) nem muito pesado (porque vamos e voltamos da escola a pé). Dito isso, eu selecionei algumas opções que se enquadram nas regras e deixei ele escolher.

Mas ele queria brigar.

Ele queria aquele velho mas pesado, aquele grande mas levinho, aquele outro novo mas que ele ia cuidar bem. Isaac, eu já tinha te dado as opções e você ia ter que escolher entre aquelas.

“Especialistas” em comportamento infantil vão dizer “você devia ter dito que não ia levar nenhum e pronto” ou “você devia ter deixado ele levar qualquer um”. Mas a criança tava a fim de brigar, ia sair treta de qualquer jeito. Ele achou ruim as opções que eu dei, teria achado tão ruim quanto não levar nada, e teria demorado séculos para escolher alguma coisa se eu deixasse livre (Isaac não é lá muito decidido e geralmente tem treta porque ele demora pra escolher, não aceita sugestões e depois fica trocando o brinquedo antes de sair de casa e é um saco).

Enfim, era dia de tetra no matter what. Quando ele percebeu que não ia ganhar e que teria que escolher entre as opções que eu dei, ele partiu pra agressão.

Mano, como dá raiva ver a sua criança te xingando e falando palavrões. “PUTAQUEOPARIU VOCÊ É UMA IDIOTA” e “EU NÃO VOU TOMAR A PORRA DO CAFÉ DA MANHÔ foram algumas dessas agressões. Dele, só pra deixar claro.

O que mais odeio na maternidade é sentir raiva. Todo o resto é gerenciável (as contas pra pagar, o trabalho, as preocupações, a privação de liberdade). Mas sentir raiva de criança é enlouquecedor. Porque é assim ó: 1) dá raiva mesmo e 2) eu me sinto muito imatura já que sou o adulto da relação e deveria me controlar e nem sempre consigo e o sentimento que vem é raiva.

Não tô falando de irritação ou cansaço por coisas do dia a dia, tô falando daquela raiva que dá e que te faz pensar se existe uma forma legal de jogar fora e nunca mais ter que ver a criatura.

Mas a gente tem que ser madura.

Se fosse um namorado fazendo o que Isaac fez ontem, eu teria terminado ali mesmo para nunca mais voltar, mas é meu filho e não tenho essa opção (infelizmente).

Tudo isso às 6h30 da manhã, mano.

Aí vem a pior parte: ele tinha que ir para a escola. Não só ir para escola, ele tinha que passar o dia lá e ficar bem na escola. Porque se ele segue o nervosismo, a irritação e as agressões na escola, a coordenadora iria me ligar e estragar ainda mais meu dia – isso se não me pedissem para buscar a criatura que eu já não queria mais ver naquela hora. Eu ia me ferrar mais ainda. Tudo o que eu queria era jogar a criança portão adentro da escola e correr dali. Queria aquelas horas longe do ser para curar minha raiva e meus pensamentos de como sair daquela relação. Eu sinceramente não queria desculpá-lo, eu não queria lidar com aquilo, queria só que ele sumisse.

Mas eu tive que passar por cima de tudo o que eu estava sentindo e, quando ele acalmou e pediu desculpas, eu tive que fingir que tava tudo bem, que eu entendia e que desculpava, apenas para que o ser entrasse na escola minimamente recomposto e me deixasse em paz.

Eu sei bem que ele tem 6 e eu tenho 36, e que é difícil para ele controlar emoções e frustrações, mas ontem eu me senti o mais puro saco de pancadas. E precisar desculpar forçadamente apenas para conseguir ficar longe dele foi muito difícil, porque fez a minha frustração com a situação aumentar.

Nossa, mano, como é difícil sentir raiva.

Pensamentos sobre a morte

Eu achava que eu não tinha medo de morrer.

Na verdade, ainda acho.

Morrer é natural, é um fato, é o destino de todo mundo, certo?

Só que a morte fica mais real quando a gente tem câncer duas vezes. Eu me sentia um pouco imortal, eu sentia que devia me preocupar com previdência para pagar minhas contas na velhice, mas de repente vem algo que sussurra no meu ouvido “talvez você morra antes de ficar velhinha”.

E eu achava que não ligava para a morte, porque ela é um fato e porque eu tive uma vida boa até agora. Fiz muita coisa, vivi muita coisa, fui muito feliz, então tinha uma ilusão que já poderia morrer satisfeita.

Mas não.

Tem duas coisas coisas que me matam um pouquinho cada vez que penso sobre a morte.

A primeira delas é que catso de mãe sou eu que pode morrer antes de ficar velhinha e que pode não estar aqui para o Isaac e para a Ruth. Gente, como me sinto incompetente por isso. Eu me sinto na obrigação de estar aqui inteira para finalizar este projeto que é estar ao lado deles até o começo da vida adulta, e aí ficam aparecendo coisas que podem me tirar do projeto antes da hora. Not fair, nem comigo, nem com eles.

E a segunda, que pode até ser egoísta, é a dor que eu sinto só de pensar na possibilidade de não vê-los crescer.  Eu não consigo pensar em perder a vida deles. Meus filhos são crianças tão bacanas, e sei que serão adolescentes ótimos e adultos do bem, e eu quero estar aqui para conhecê-los em todas essas fases.

Eu não estou morrendo, pelo contrário, tô bem viva. E tô muito bem. O assunto pode parecer mórbido, mas não é assim que me sinto depois da semana linda que tive. Foi só esse pensamento que me veio que se tem uma coisa pela qual eu quero viver é a minha maternidade. Existe uma única coisa que me faz pensar que não estou pronta para morrer e esta coisa é minha maternidade. Então, Sr. Tumores, parem de me fazer pensar sobre a morte, por favor. Ainda não terminei o que estou fazendo nessa vida.

 

 

 

Docinho (mas não)

Meus filhos estavam com o pai há vários dias e liguei para falar com eles. Falei com a Ruth, depois com Isaac e desliguei. Aí vem mensagem do pai:

– Ué, você não vai falar com o Isaac?

– Eu não falei com o Isaac?

A Ruth engoliu o capeta quando nasceu, não é possível. Quando terminamos a conversa, ela disse “beijo mamãe tô com saudades vou passar pro Isaac” e voltou com “oi mamãe é o Isaac você tá bem eu tô bonzinho na escola”. E repetimos a conversa toda. E ela devolveu o telefone para o pai dizendo “papai, enganei a mamãe”.

Affe.

(e, não, não dá para reconhecer as vozes dos dois ao telefone ainda. ou eu não tenho esse skill ainda de reconhecer a voz dos meus próprios filhos)

Formulários

Eu estava me preparando para um exame desses de mulher, preenchendo aqueles formulários com data da última menstruação, doenças anteriores etc. e aí chego nas perguntas: “Tem filhos?” Quantos?”.

Perguntinha mal formulada, né? Tenho aqui Isaac e Ruth que não me deixam esquecer que tenho filhos, DOIS FILHOS, então eu tenho obrigação de responder “sim, 2”. Mas isso não responde nem um pouco o que o laboratório precisa saber, e teria sido bem melhor perguntar o número de gestações, de partos, de abortos. Algo mais específico.

Porque não são só as mães adotantes. Tem também as mulheres que entregaram os filhos para a adoção, que não têm o filho, mas que precisariam falar da gravidez e parto antes de um exame. E tem as mães cujos filhos faleceram, que não sei se responderiam que têm ou que não têm.

De qualquer forma, a pergunta estava ruim e coloquei uma observação ao lado: “adotivos”.

Aí, juro:

– Moça, por favor, esses filhos adotivos são humanos ou cachorros?

Taqueopariu.

Ernesto, desculpa não ter pego o formulário de volta, riscado o 2 e colocado um 3. Porque se são humanos, cachorros ou chinchilas, pouco importa para quem devia ter me perguntado sobre gestações, abortos e partos. Taqueopariu, viu?

 

Manuel

– Ruri, chama o Manu também!

Quando algum outro amigo sugere incluí-lo em qualquer programa, eu sei que está querendo essa companhia fora do comum que ele é. Ele é sorridente, bem humorado, bom de papo. Não tem como não gostar dele. Acho que nunca nesta vida alguém não gostou dele ou falou mal dele. Não tem como não gostar de alguém que está sempre com um sorriso de orelha a orelha, que puxa papo com as velhinhas na fila do cinema, que transita bem em qualquer tipo de conversa, de política a receitas de torta.

E ele ainda é um partidão pra sair por aí, porque tudo o que ele gosta também é legal. Ele tem o dom como poucos de descobrir exposições, eventos e restaurantes pela cidade, então sair com ele é sempre diversão na certa. Eu já cheguei a comprar ingresso sem nem ler sobre o que eu ia assistir porque já sabia que ia ser bom. E, também, se não fosse bom, eu ia curtir meu barbudo preferido e já ia valer o programa.

Mas o que eu quero contar é que não é o bom humor, os papos ou os passeios que fazem dele o melhor amigo que já tive nessa vida. É muito bom ter alguém com estas características por perto, mas sorte mesmo eu tenho por causa de tudo o que ele faz por mim.

Ele está por perto o tempo todo, todo dia, e nunca fica sem tempo pra mim. E sente também quando estou quieta mas está tudo bem, ou quando estou quieta mas preciso receber um telefonema. Ele já cuidou dos meus dois filhos quando eles tinham dois anos durante um dia inteirinho, para que eu pudesse curtir o dia de noiva de uma amiga nossa de quem fui madrinha. Ele foi a pessoa que mais agitou a pista de dança na minha festa de casamento. Ele já traduziu abstract de artigo científico pro espanhol num prazo de trinta minutos, já montou meu criado-mudo, já me ajudou com muito trabalho. Ele saiu comigo toda sexta, sábado e domingo durante semanas quando me separei, porque sabia que estava difícil me acostumar a estar sozinha (e haja cinema, teatro, drinks e jantares, hein?). Ele usou os dois dias de férias que ele tinha tirado para as olimpíadas para ficar comigo no hospital, para deixar minha mãe dormir na casa dela, e transformou uma recuperação de cirurgia na melhor balada. Ele simplesmente está em tudo, mesmo quando me diz que acha uma bobagem eu ficar correndo tantos km por aí, fazendo spinning e machucando os joelhos de tanto cair da bicicleta. 

Eu já casei duas vezes e considero casar outras vezes mais, mas sei que o “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença” é com ele. Não vai existir marido no mundo que faça isso melhor que ele. Não consigo pensar em nada que tenha me acontecido nos últimos 15 anos de muito bom ou de muito ruim e que ele não estava lá. Ele me conhece melhor do que ninguém e sabe da minha vida melhor que eu mesma. E se importa com todos os meus dramas, dos mais sérios (tem muitos) aos mais banais (tem bem mais).

Por isso eu preciso dele e não tem ninguém nessa vida que eu queira nesse tanto. Preciso que ele fique sempre bem, feliz, saudável, realizado, por muitos anos. Muitos anos, I mean, preciso que ele viva bem mais que eu. Não consigo nem imaginar como seria sobreviver a esta vida sem ele. Então, chuchu, quando você me perguntou no final da minha festa de aniversário “nossa quem será que vai morrer antes?”, só tenho uma coisa a te dizer: POR FAVOR ME DEIXA IR ANTES.

Adulto que mora com a mãe

Aqui em casa sempre rola um assunto que não sei de onde eles tiraram que é “mamãe, eu vou poder continuar morando com você quando eu for adulto?”. E eu acho cedo pra dizer que meu sonho de consumo é que eles entrem em uma faculdade acabando o colegial e se mudem para uma república, e nao é falta de amor, é um querer bem, que eles tenham o próprio canto, privacidade, responsabilidade, cuidem de uma casa, convivam com roommates etc. Mas é cedo e eu respondo:

– Claro que podem. Mas precisam continuar cuidando da nossa casa junto comigo, e cada vez que crescerem mais um pouquinho vão ganhar novas tarefas aqui, e quando ficarem adultos vamos dividir inclusive o aluguel – porque, né, aí já aproveito para falar sobre essa coisa de divisão de tarefas do lar.

Então as conversas são mais ou menos assim:

– Mamãe, eu vou ficar adulto e continuar morando com você e vou te dar meu dinheiro para você pagar as contas.

– Mamãe, quando eu for adulto e ainda morar com você eu vou cozinhar seu jantar e lavar sua roupa.

Só fofura. 

Mas aí vem ela, a própria:

– Mamãe, quando eu for adulta vou poder morar com você, né?

– Claro, amor.

– E se eu ficar grávida?

PUTAQUEOPARIU, RUTH!