Arquivo da categoria: Fofuras

Vergonha

A gente estava em uma loja cheia de outras pessoas, mas todas fizeram o favor de ficar em silêncio bem nessa hora que minha filha resolveu se manifestar:

– Mamãe?

– Oi.

– Eu tenho uma periquita pequenininha e você tem uma periquita bem grande.

Sem comentários.

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Frase elaborada

– Mamãe, quando o Isaac ficar grande, e quando eu ficar grande também, a gente vai tomar vinho com você.

Morri de orgulho. Não por causa do fator alcoólico da frase, tá? Morri de orgulho da frase enorme que ela construiu, com vírgulas, advérbios e conjunções.

Falta pouco pra gente poder conversar sobre a vida das mulheres na Arábia Saudita ou sobre essa história triste do Woody Allen, né?

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Ah, tá

– Ah, que bom, o horário de verão acaba neste final de semana e poderemos dormir uma hora a mais!

Claramente ela não tem filhos pequenos, que não estão nem um pouco preocupados em ter uma hora a mais para dormir.

🙂

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Trans

Minha filha de dois anos e dez meses, muito séria:

– Mamãe, eu tenho periquita, né?

– Isso.

– E o Isaac tem pipi, né?

– Isso.

Uns 15 segundos pensando, bem séria:

– Mamãe? Eu quero tirar minha periquita e trocar por um pipi.

G e n i a l.

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Ego

Enquanto eu tirava o pijama e punha o uniforme.

– Mamãe, dá beijo?

Dei beijo.

– Mamãe, dá abraço?

Dei abraço.

– Mamãe, você é princesa.

Dei mais beijo.

– Mamãe, você é linda e maravilhosa.

Esmaguei.

Ser mamãe faz muito bem pro ego, tá?

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Adolescência precoce

Quase todo dia é mais ou menos assim: na hora de entrar na escolinha, eles choram, pedem beijos, abraços, mais beijos, mais abraços, dizem que querem ficar mais com a mamãe, que não querem ficar lá e por aí vai. Aí a mamãe sai da escola se sentindo a pior criatura desse mundo. No final do dia, a mamãe chega feliz e contente na escola para buscá-los, achando que é hora de matar as saudades de um dia inteiro separados, mas aí eu sou chata. Eu interrompo a brincadeira ou a contação de histórias e eles sempre precisam brincar só mais um pouquinho antes de entrar no carro. Aí não querem beijo nem abraço e precisam desesperadamente escorregar mais uma vez no escorregador e correr pro fundo da escola para fazer mais alguma coisa importante.

Dureza.

Nesse dia, não foi diferente. Mas assim que liguei o carro, minha filha me falou bem séria:

– Não quero mamãe. Não gosto da mamãe. Você não é minha amiga. Não quero ir pra casa da mamãe. Quando chegar lá, não vou sair do carro.

Dois anos e dez meses. Há pouco tempo, eu tinha tido uma conversa com uma amiga que tem um filho de dez anos, que costuma gritar para ela um sonoro: “você arruinou a minha vida”. Falamos sobre adolescentes e eu fiquei feliz por ter ainda uns bons anos pela frente sem esse tipo de problema. Mas não. Onde foi que eu errei?

Eu respondi para minha filha que a amava muito, que sempre seria amiga dela, mas que achava tudo bem ela ficar dentro do carro se quisesse. Avisei que eu tinha que subir para o apartamento com o irmão dela e que poderia voltar mais tarde para buscá-la. Ela resolveu vir conosco. Com cara de brava, emburrada, como se sair da escola e voltar para casa fosse o maior absurdo de todos os tempos.

Um pouco mais tarde, quando eles já estavam de pijamas, eu perguntei se queriam ler um livro comigo. Meu filho disse que sim e minha filha disse que não. Que queria ir para o quarto dela. E foi. Fechou a porta e ficou lá dentro sozinha. Dois anos e dez meses e ela já precisa de espaço e privacidade.

Durou uns dois minutos. Até que voltou de mansinho para onde estávamos, me abraçou, disse que gostava de mim e que queria ouvir a história. Ficou abraçada comigo e depois foi dormir tranquilamente, toda carinhosa.

Cada uma. Não quero nem imaginar o que vai acontecer na adolescência de verdade.

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Colher

O brinquedo preferido do meu filho é um conjunto de colheres. Esse aqui ó, bem colorido, que ganhamos de um amigo meu. Elas foram usadas um bom tempo, até ficarem muito pequenas para as boquinhas. Então eles foram promovidos a crianças que usam colheres do jogo de talheres da mamãe e as colheres foram promovidas a brinquedos.

Mas foram promovidas a brinquedo preferido, literalmente. Meu filho frequentemente leva as colheres para a escola no dia de levar brinquedos para brincar com os amigos. Ele frequentemente me pede para dormir com as colheres, mas acho perigoso. Ele acorda todos os dias e a primeira coisa que faz é ir até a sala buscar as colheres na caixa de brinquedos. Ele toma leite com as colheres carinhosamente sentadas ao lado dele no cadeirão e toma banho com as colheres. Mesmo que ele não esteja brincando de panelinha, ele não larga as ditas-cujas. Por nada.

Aí eu não sou boba e, como são seis, deixei uma estrategicamente guardada no meu carro. Sabe aqueles momentos de pânico, quando está trânsito e a criança está chorando impaciente no banco de trás? Eu dou uma colher para ele e ele fica quietinho. Na última birra monstruosa de não-quero-ir-embora-da-escola-me-deixa-brincar-mais-um-pouquinho, eu voltei até o carro, peguei a colher, mostrei para ele e ele veio bonitinho até mim, sem chorar.

Pois é. Vai entender.

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Cega

Toda semana, quando corto as 40 unhas minúsculas em dedos pequeninos que não param de se mexer, me dou conta que a idade chegou e que está na hora de usar óculos.

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Desfraldamos, já que não tinha outro jeito

Eu fiquei orgulhosa de mim mesma quando liguei para a escola para dizer: “da próxima segunda não passa! o que tenho que fazer até lá?”. Tá calor, estão mocinhos, eu precisava perder a vergonha na cara e não tinha mais desculpas para fugir do desfralde. Respirei fundo, tirei o tapete da sala e lá fui eu fazer do rodo e do pano de chão meus melhores amigos.

Passamos pela fase do xixi na roupa, no chão e nos brinquedos. Passamos pela fase do choro desesperado porque não-quero-sentar-no-vasoooooooooooooooooo. Passamos pela fase de perguntar a cada três minutos se quer fazer xixi ou cocô (mentira, ainda estamos nela). Passamos pela fase de cocô na cueca e na calcinha. Pausa. Abre parênteses:

Eu tenho mania de sustentabilidade, consumo responsável, salvar a natureza. Reciclo o lixo, economizo água e nuncajamaisemhipótesealguma pego sacolinhas de supermercado. Quando os brigadeirinhos chegaram, pesquisei opções de fraldas de pano porque achava um absurdo esse coisa horrenda de usar fraldas descartáveis. Mas ser mãe de gêmeos toma tanto tempo que essa item está esquecido na lista de thudus há um ano e pouco. AINDA BEM! Depois de ter que lavar cueca e calcinha sujas de cocô, eu entendi a doidera que seria minha vida se eu tivesse que lavar fraldas sujas todosantodia. Porque roupa suja de cocô não é uma coisa que você joga na máquina e espalha cocô pra todo lado. Roupa suja de cocô tem que ser lavada no tanque, com nossas próprias mãos. Não é legal. Eu tava completamente louca, gente. Maternidade faz essas coisas com a gente. Fecha parênteses.

No último sábado eu saí de casa com a cara, a coragem, dois bebês sem fralda, um monte de trocas de roupas, tudo isso dentro do meu carro. E foi um sucesso. Eles foram, ficaram e voltaram da festinha sem NENHUM acidente.

Estão sem fraldas, comem sozinhos, vão se deitar sozinhos em suas caminhas, falam tudo. Dois mocinhos lindos. Só falta a mamãe conseguir parar de chamá-los de bebês.

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Delícia

– Filho, você é um gostoso!

– Não. Não sou gostoso. Eu sou feliz!

… e um gostosinho! Bebê fofo!

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