Palpites

Eu ia escrever que queremos educar nossos filhos com base no que acreditamos, que queremos fazer sempre o melhor, que queremos ensinar para eles todas as nossas preocupações com educação, respeito às outras pessoas, preconceitos, importância da família e dos amigos, sustentabilidade, cuidados com alimentação e outros blá-blá-blá, mas é mais sincero dizer que simplesmente queremos fazer as coisas do nosso jeito. Definir o “nosso jeito” não é fácil. Já tivemos e ainda vamos ter infinitas discussões, porque muitas vezes papai e mamãe têm opiniões diferentes. Também já mudamos de opinião, mesmo depois de termos decidido juntos fazer alguma coisa de um jeito.

E vou confessar (desculpa, pessoas queridas!) que me surpreendi e me incomodei com a quantidade de palpites que passei a receber depois que virei mamãe. Acho que não estava acostumada com tantos palpites, porque não me lembro, por exemplo, de ter recebido tantos conselhos e recomendações diversas quando estávamos organizando nosso casamento, comprando nosso apartamento ou decorando nossa casa.

Já me disseram para colocar nossos filhos para dormir mais tarde porque assim eles acordarão mais tarde, mas eu gosto que eles durmam às 20h para eu jantar tranquilamente com meu marido, mesmo que isso signifique acordar às 7h no dia seguinte – além de achar saudável dormir cedo e acordar cedo. Também prefiro curti-los no domingo de manhã, quando podemos tomar café na padaria, ir ao parque, visitar minha vó, ir no parquinho do prédio, do que ficar com eles no sábado à noite comendo pizza e vendo televisão.

Já me disseram que devo acostumá-los a dormir com barulho, o que para mim significa dormir com os barulhos que existem na minha casa (pessoas conversando na sala, televisão ligada, alguém tomando um banho) e não dormir em um show de rock. Não levo nossos filhos para a balada e, se um dia resolvesse levar, não tentaria fazê-los dormir na barulheira.

Já me disseram para acostumá-los a dormir no claro, mas eu passei a vida inteira (de novo, desculpa, amigos queridos!) odiando viajar com pessoas que precisam deixar uma luz acesa para dormir. Gosto de breu para dormir e acostumo nossos filhos assim também.

Já me disseram que é desnecessário escovar os dentes três vezes ao dia nessa idade porque os dentes vão cair, mas eu faço questão de escovar os dentes três vezes ao dia E passar fio dental neles uma vez ao dia também – mesmo que não fosse necessário (mas acho que é), acho que estou criando o hábito neles desde cedo.

Já me disseram para dar umas gotinhas de remédio quando nosso filho chora, mesmo antes de eu ter certeza se era um choro por dor ou doença ou se era outro tipo de incômodo. Já me disseram para nunca dar água depois de dar banana (?). Já me disseram que nunca é bom deixar andar descalço e também já me disseram para deixar só de fralda no calor – eu os deixo descalços em casa quase todos os dias e simplesmente não gosto de deixá-los só de fraldas. Já me disseram que o cabelo do nosso filho estava muito comprido (já cortei!), que não posso deixar de dar muita água no calor (juro que dou!), que eles estão pouco agasalhados (sou calorenta, demoro para perceber o frio!) e que nossa filha precisa usar brincos (concordo, mas prefiro esperar ter certeza que ela não precisará de mais nenhum exame no crânio).

Mas então, há pouco tempo, eu fiz uma coisas dessas. Uma mamãe me disse que dava suco de caixinha para seu filho e eu falei que ela não deveria dar suco industrializado por causa da quantidade de açúcar. Só percebi depois o que eu tinha acabado de fazer: eu dei palpite no “jeito dela” sem ela me perguntar o que eu achava. Tenho certeza que ela quer o bem do seu bebê e sabe o que está fazendo. Só depois que falei percebi que não fui legal e que ela também deve receber um monte de palpites sem pedir.

Recentemente estava conversando com uma das madrinhas dos bebês sobre a festa de dois anos. Ela tem uma filha de 4 anos e é adepta aos buffets infantis. Eu, por uma série de motivos pessoais, quero fazer a festa no salão de festas do prédio, escolher o cardápio e participar da decoração, mesmo que isso dê mais trabalho ou saia um pouco mais caro. E ela me escreveu que (conversa por whatsapp e e-mails): “Eu acho que você tem que sempre fazer o que o seu coração mandar quando o assunto é ser mãe! Pessoas diferentes têm valores diferentes, e obviamente criam seus filhos de maneira diferentes (…) Tenho certeza também que você vai continuar fazendo o que acha que é mais importante para eles, não importa o trabalho que isso for dar, ou o quanto for gastar. Acho que a festinha é um exemplo, entre tantos. (…) E acho que é nisso que a gente tem que se concentrar. Não importa o que os outros fazem. Importa o que a gente faz, e se a gente está com o coração tranquilo, sabendo que está tentando fazer o nosso melhor, então nada mais vai nos incomodar.”

Eu prometi para mim mesma nunca mais dar palpites, a não ser que a pessoa me pergunte alguma coisa. Também percebi os palpites são para ajudar, pois geralmente vêm de pessoas queridas que também querem o bem dos nossos filhos. Não consigo prometer que vou parar de achar chato (desculpa, pessoas queridas!), mas prometi que vou tentar não fazer cara feia para os palpites. Mas vamos continuar a fazer do nosso jeito, tá?

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