Conversa franca

Eu gosto de ballet e gosto de judô. Mas tenho um menino e uma menina e me incomodava esse negócio de “ballet para as meninas” e “judô para os meninos”. Não os coloquei para fazer ballet ou judô até que eles mesmo me pedissem para fazer uma coisa ou outra. E aconteceu essa semana:

– Mamãe, só eu não vou no ballet. Eu queria fazer ballet. Posso?

– Hmmm.

Poder, pode. Não posso dizer que é caro, nem posso dizer que é difícil de levar ou buscar, porque é dentro da escola. É legal. Ela vai ficar feliz. É fofinho. Eu adorava as aulas de ballet que fiz durante muitos anos. Qual o problema?

– O problema, filha, é que hoje você já convive com umas dez tias diferentes e todas chamam a mamãe frequentemente para conversar sobre o seu (mau) comportamento. A babá, a tia da perua, a professora, as tias da recreação, a coordenadora da escola, a diretora da escola, todas elas me trazem as queixas e eu preciso lidar e resolver. Por que eu entraria numa fria de ter mais uma tia nesta lista toda, me diz?

– Eu preciso me comportar melhor e obedecer mais?

– Seria bom. Ou você acha que eu vou ficar feliz quando a tia do ballet me chamar para dizer que você não coloca a roupa, não faz os passos, não fica em fila como ela pediu?

Sei que já contei aqui que minha filha é muito difícil. Ela me dá muito trabalho, tem gênio forte e não aceita todos os limites. E quem acha que, porque eu trabalho o dia todo, estou terceirizando a educação dos filhos não sabe que não tem nada disso. É tudo responsabilidade minha. Eu até gostaria de terceirar algumas coisas, tá? Eu queria poder fazer cara de paisagem, como se o problema não fosse comigo, quando a tia da perua me conta que ela jogou alguma coisa pela janela. Mas não funciona assim. Qualquer coisa referente a meus filhos é encaminhado de volta para mim e sou eu que tenho que resolver. E tá certo, né, porque eu sou a mãe. Mas aí eu acho justo poder escolher não ter mais uma tia na minha vida.

– Se eu obedecer bastante, você deixa eu fazer ballet?

Deal.

Ok, filha, temos um acordo. Você cumpre sua parte e eu cumpro a minha. Mas juro que cancelo o contrato na primeira sapatilha que voar na cabeça da amiguinha.

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