A vida muda, e depois melhora

Há pouco tempo estava conversando com uma amiga e ela me disse que achava incrível como a natureza prepara as mulheres para virarem mães. Que no início da gravidez ela sentia muito sono e cansaço e ficou mais caseira, como se o corpo estivesse se preparando para a pausa nas baladas. E que no final da gravidez ela não conseguia mais dormir direito por causa da barriga enorme, como se o corpo estivesse se preparando para as mamadas noturnas e tudo mais.

Quando a gente adota não acontece nada disso, tá?

Eu tava lá trabalhando 14-16 horas por dia e saindo para jantar depois e acordando cedo para malhar e viajando aos finais de semana e meu corpo não mudou nada e eu estava fazendo o que desse na telha. Daí eles chegaram.

Não vou mentir. A vida muda muito com a chegada dos filhos. Tem que mudar. Nenhuma vida sem filhos pode ser igual a uma vida com filhos, as coisas mudam. Os horários, as preocupações, as tarefas domésticas, o sono, as prioridades, tudo muda.

Eu senti muito essa mudança toda. Não só porque adotei e não tive nove meses de preparação física, mas porque minha vida era bem diferente. Coisas que foram chocantes para mim:

  • Rotina. Durante a licença maternidade, ficávamos em casa todos os dias. E todos os dias, incluindo finais de semana e feriados, era aquela mesma coisa: eles acordavam cedo (gente, 6h no sábado, gente), eles tinham que fazer mil refeições todos os dias (não tem essa de almoçar amendoim e depois inventar um almojanta, sabe?), se dormissem tarde ou pulassem o sono da tarde ficavam irritados, e mais uma porção de coisas diárias que eu tinha que seguir. Eu estava acostumada a acordar cada dia em um horário, a voltar para casa cada dia em um horário, a almoçar quando desse fome e por aí vai.
  • Sair do trabalho às 18h. No início, era o máximo que eu podia ficar no escritório para chegar na escola no horário certo e já contei aqui, aqui e aqui como esse processo todo me estressava.
  • Ficar em casa todas as noites. Eu gostava de jantar fora, gostava de ir ao cinema à noite, trabalhava até tarde sem reclamar. Ter que voltar para casa e depois ter que ficar em casa até o dia seguinte foi algo bem difícil.
  • Ter preguiça de sair de casa. Porque eu tinha que levar uma mala com tudo que poderia precisar para cuidar deles, porque eu tinha que levar duas crianças e porque eu não podia relaxar e tirar o olho deles um único minuto. Dava muita preguiça.
  • Ser tirada do trabalho no meio do dia. Não sei por que eu tive a doce ilusão que crianças iam para escola e que mães iam trabalhar normalmente. Em meus sonhos, nenhuma escola me ligaria para nada e eu nunca teria que sair correndo para socorrê-los.
  • Mudar totalmente o lazer: comer fora era diferente, viajar era mais difícil, cinema exigia um planejamento muito maior que comprar ingresso e ir (com quem vão ficar? que horas dá para ir? preciso fazer mala para deixar na vó?), ir a uma festa de casamento parecia impossível.
  • Ter que fazer (aka responsabilidade): parece básico, mas funciona assim: se não der banho, eles não tomam banho. Se não escovar os dentes, eles não escovam sozinhos. Se não trocar a fralda, vaza tudo na roupa. Se não levar no médico, perde o timing das vacinas. Se não fizer comida, morrem de fome. Se não compra roupa nova, eles saem por aí com calças curtas e camisetas baby look. Cara, é muito processo. É muita coisa para fazer.

Mas aí tudo melhorou. Não sei se foi a idade (love you, 4 anos), não sei se foram todas as mudanças que fiz na minha vida para me entender com todas as mudanças que meus filhos trouxeram, não sei se simplesmente entrei no esquema.

Em pouco tempo, estar em casa no final do dia não era uma obrigação, mas, sim, o maior prazer do meu dia e comecei a querer chegar cada vez mais cedo. Eles dormem e eu fico em casa sem nenhuma ansiedade. Durante um tempo eu tinha uma folguista para poder sair no sábado à noite enquanto eles dormiam, mas tem uns seis meses que não a chamo. Simplesmente gosto de estar na minha casa e de ir até o quarto deles caso precisem de alguma coisa. E gosto de passear com eles e de levá-los junto comigo. Escolho filmes e peças infantis e me divirto muito, planejo viagens, levo em festas, frequentamos restaurantes e até levei os dois em eventos da empresa do namorado. Eles fazem parte de mim e damos um jeito de adaptar o programa para crianças. Hoje eu já não sinto mais o “não posso”, “não vai dar”, “vai ser muito difícil”. Pelo contrário, eu acho que posso fazer o que eu quiser de novo.

Minha vida é muito melhor que há 3 anos e meio atrás. A sensação que tenho em relação à minha vida pré-filhos é a mesma que tenho com relação aos meus anos de colégio: morro de saudades de só estudar, dos amigos da época e dos papos que eu tinha na época, das preocupações com as provas e ficantes, das tardes livres, mas não me vejo jamais experimentando essa vida novamente.

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