Ensaio sobre o meu tempo

Eu não soube conciliar carreira e maternidade. Vou saber um dia, sei que vou, mas ainda não sei. Tenho muitos textos falando sobre essa dificuldade. Falam da dificuldade de ser mulher e mãe no ambiente corporativo, do quanto é duro equilibrar todas as demandas, da dificuldade de cumprir os horários, da cobrança por parecer não fazer nada direito.

Até que um dia eu cheguei no escritório e cantei:

Um belo dia resolvi mudar/ E fazer tudo o que eu queria fazer/ Me libertei daquela vida vulgar/ Que eu levava estando junto a você/ E em tudo que eu faço/ Existe um porquê/ Eu sei que eu nasci/ Eu sei que eu nasci pra saber/ E fui andando sem pensar em voltar/ E sem ligar pro que me aconteceu

Mentira. A bem verdade foi que eu cantei:

Não consegui conter, bem que eu tentei/ Não podem vir, não podem ver/ Sempre a boa menina deve ser/ Encobrir, não sentir/ Nunca saberão/ Mas agora vão/ Livre estou, livre estou/ Não posso mais segurar/ Livre estou, livre estou/ Eu saí pra não voltar/ Não me importa o que vão falar/ Tempestade vem/ O frio não vai mesmo me incomodar

Saí para um sabático. Conto mais sobre essa decisão em outro texto. Aqui vou contar sobre meu principal projeto no sabático: entender o meu tempo.

Que tempo?

Simplificando, “tempo” eram as horas do meu dia, da minha semana, da minha vida, que se embaralhavam, que sumiam, que nunca eram suficientes para nada. Meus dias úteis eram cronometrados. Chego até a cansar só de escrever.

  • Despertador tocava 5h40 (CINCO E QUARENTA, MANO). Aí começava o processo matinal com objetivo de não perder a perua escolar: eu fazia minha higiene, me vestia, acordava um, trocava, higiene, acordava outro, trocava, higiene, fazia café da manhã deles, fazia meu café da manhã (são diferentes, sim, porque eles iam pra escola e eu ia malhar), terminava de arrumá-los, terminava de me arrumar, pegava tudo (criançasmochilassacoladaacademiagarrafinhadeágua), punha tudo no elevador, colocava tudo na perua. Se alguma coisa diferente acontecesse – por exemplo, se algum deles quisesse fazer cocô – já dava tudo errado. Perder a perua significava andar 800 metros até a escola (difícil para eles) e perder a academia (difícil para mim). Essa confusão matinal jamais poderia ser chamada de café da manhã em família.
  • Eu gosto de academia. É um tempo só meu, faço musculação, corrida e spinning feliz da vida. Mas eu só tinha 40 minutos para malhar. Nunca dava tempo de fazer o treino todo, eu sempre fuzilava quem sentava no aparelho que eu queria usar.
  • Eu voltava correndo para casa e fazia tudo no esquema já-tô-atrasada-pra-sair: tomar banho, me trocar, dar uma arrumada na casa e comer alguma coisa.
  • Dali para frente, era a carreira. Deslocamento até o trabalho (45 minutos), reuniões, chefe, clientes, equipe, coisas pra entregar, lista de to-dos que não termina nunca, pedir almoço e comer na mesa, esquecer de escovar os dentes depois do almoço, esquecer de fazer xixi, esquecer de tomar água, tomar 5 cafés por dia, sair correndo no final do dia, mais 45 minutos para chegar em casa.
  • Chegava em casa no horário limite de a babá ir embora (sim, porque em determinado momento da minha vida eu percebi que nunca chegaria na escola no horário certo e contratei babá) e virava “mamãe”, com 100% do foco neles: era então hora de dar banho, brincar, dar comida, dar atenção, arrumar as coisas para escola e tal. Tudo bem rápido, claro, porque eu tinha chegado tarde e eles já estavam com muito sono.
  • Só depois que eles iam dormir que eu conseguia sentar no sofá e relaxar. Não relaxava antes de ter certeza que tinha sido uma mãe “presente e atenciosa”, nem relaxava antes de garantir que eles fossem pra cama em um horário adequado. E só depois disso tudo eu podia tomar um banho, fazer xixi, jantar, assistir House – isso se eu não tivesse trazido trabalho para casa. Ah, sim, muitas vezes eu trazia trabalho para casa. Pior: muitas vezes eu ainda tinha call para fazer com o chefe, então muitas vezes eu estava estressada com o horário do call enquanto cuidava das crianças. Eu pensava coisas do tipo “durmam logo que eu tenho um call começando em 15 minutos”.
  • Enfim, meu dia tinha começado às 5h40 e por volta das 21h (MAIS DE QUINZE HORAS DEPOIS) eu começava a tentar relaxar um pouquinho, se o trabalho não engolisse mais tempo. E, claro, o tempo do trabalho era cada vez maior e às vezes invadia meu tempo de malhar e diminuía meu tempo com as crianças. E nem gosto de dizer quanto tempo eu dedicava para meus filhos por dia. Era uma vergonha.

Enfim, eu passava o dia todo esperando a hora de meus filhos irem para cama para poder relaxar. E mais, mesmo que eu me esforçasse e fizesse questão de passar um tempo com eles todos os dias, eu jamais poderia chamar esse tempo de “tempo de qualidade”. Não era. Eu era uma pessoa cansada, estressada, meu celular tocava, mesmo que eu não atendesse o celular eu tinha raiva de quem me ligava aquele horário e muitas vezes o computador do trabalho estava na mochila esperando eu terminar mais uns slides. Sim, gente, é isso. What the fuck?

E quanto tempo afinal eu queria?

Quando tirei o sabático, eu tinha uma lista imensa de coisas para fazer, coisas para organizar, coisas para estudar, cursos para fazer, pessoas para encontrar, viagens, projetos, livros e coisa e tal. Mas a primeira coisa que fiz durante o sabático foi prestar atenção no meu tempo. Se fosse um projeto de pesquisa, eu estaria investigando as seguintes questões: quanto tempo quero ficar com meus filhos durante a semana? quanto tempo quero passar na academia? que horas quero acordar e ir dormir? quanto tempo tenho para trabalhar? quanto tempo preciso para relaxar (i.e., fazer nada, namorar, passear)?

Fui testando. Acordar mais tarde, dormir mais cedo, malhar em outros horários, mudar horários das crianças na escola, ficar sem babá, estudar de manhã, estudar à tarde, estudar de madrugada, bundar no meio do dia.

E hoje, seis meses depois, me descobri assim:

  • Eu gosto de acordar cedo. O despertador continua tocando às 5h40. Sou assim. Não sei se meus filhos gostam de acordar tão cedo, mas eles têm mãe louca, que posso fazer? Acontece que eu só tenho pique se entrar na academia cedão e malhar bem cedo. Gosto que meu dia comece cedo, então continuei tirando a galera toda da cama cedo mesmo depois de parar de trabalhar.
  • Quarenta minutos era pouco, mas uma hora de academia por dia tá bom pra mim. Uma vez por semana fico lá 1h30, porque tem aula de spinning e abdominal na sequencia e gosto das duas. Eu achava que iria malhar umas duas ou três horas por dia no sabático, mas, não. Vinte minutos a mais, tudo o que eu queria!
  • Meu dia começa às 8h30. Às 8h30 eu já estou sentada em casa para estudar ou já estou pronta para sair.
  • Gosto que meus filhos voltem da escola às 16h. Ainda é um horário integral, mas é bem menos puxado para eles, ainda é dia quando eles chegam. E eu já tive seis horas produtivas mais uma horinha para almoçar. Quando eles chegam da escola, a mamãe está em casa, não a babá. Ficamos juntos. Às vezes nem brincamos juntos: eles brincam sozinhos, mas se sentem bem porque a mãe está por perto em casa fazendo outras coisas. Fico com eles enquanto eles jantam. E o horário de ir para cama mudou de 20h30 para 19h ou 19h30. Depois que começaram a dormir mais cedo, todas as indisposições deles na escola melhoraram, porque estão mais descansados.
  • Gente, às 19h eles estão dormindo. E estão dormindo bem e tranquilos, porque sabem que a mamãe está em casa se precisarem de alguma coisa. Às 19h eles estão dormindo e eu tenho mais CINCO horas até meia-noite. CINCO. 5. CINCO HORAS. 1 + 1 + 1 + 1 + 1 = 5. C-I-N-C-O. E nem preciso fazer jantar, porque preparo o jantar deles e como a mesma coisa um pouco mais tarde. CINCO HORAS. Hoje estou escrevendo, ontem fiquei lendo, antes de ontem estudei um pouco, num outro dia fui ver um filme. Em um dia fiquei até uma da manhã no computador porque queria terminar um projeto até o dia seguinte. CINCO HORAS.

E aí eu aprendi que eu posso trabalhar oito horas por dia se quiser. Posso trabalhar mais de oito horas se precisar. Que o problema não são as oito horas diárias. O problema são as oito horas no tal do horário comercial das 9h às 18h, o problema são os deslocamentos, o problema é a falta de flexibilidade da coisa toda.

Tem diversos textos que dizem que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a acolher a maternidade, alguns meus e de outras mulheres (este, este e este). Minha descoberta mais importante durante o sabático é que não sou uma folgada tentando fazer corpo mole e tentando trabalhar pouco. Pelo contrário. Estou disponível para trabalhar. Mães estão disponíveis para trabalhar. Falta o mercado de trabalho entender que flexibilidade é vida. Que talvez resultado seja mais importante que facetime. Que oito horas angustiada dentro do escritório são bem menos produtivas que menos horas bem trabalhadas. Que está na hora de encontrarmos formas mais humanas de acolher as mães no mercado de trabalho.

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3 pensamentos sobre “Ensaio sobre o meu tempo

  1. Cristina disse:

    E o pior de tudo é você sentir-se culpada por “ter que levar seu filho ao médico” e sentir que os colegas vão pensar que você está inventando essa história para trabalhar menos e outras culpas que a sociedade incute na sua cabeça. É difícil sair da roda enquanto ela gira. É difícil rever um processo já sedimentado. É mais fácil fingir que você é uma exceção.

  2. […] no GMAT e no TOEFL e não havia nenhuma chance de encaixar a preparação para os exames naquela vida vulgar que eu levava, então eu comecei a cogitar uma parada de alguns meses na vida executiva para […]

  3. […] de stress porque não acho mais que tenho que carregar tudo isso sozinha e mais tempo para mim. Tempo, gente, tudo o que eu mais gosto nessa vida. Ou seja, uma família bem mais […]

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