Ninguém é mãe de pet

Eu já tinha rascunhado um texto sobre o assunto há um tempo, mas achei que estava fazendo uma comparação infeliz entre crianças e cachorros. Mas o dia das mães está chegando e tenho lido outras mães/ mulheres falando sobre a não-maternidade de cachorros/ gatos/ periquitos e afins. Então queria dizer para vocês: ninguém é mãe (ou pai) de pet. Você ama e cuida, mas não isso não caracteriza uma maternidade/ paternidade. Você não está treinando para um dia ter um filho porque tem/ ama/ cuida de um pet, porque isso não treina ninguém para nada.

Então, para ser clara, vou comparar o que é ser mãe e o que é ter um cachorrinho (Ernesto, nosso cachorro, foi adotado há uns seis meses).

  • Eu me preocupei em ensinar *apenas* duas coisas para o Ernesto: fazer xixi/ cocô no tapete higiênico e não latir enlouquecidamente quando fica sozinho em casa. Ele aprendeu essas duas coisas super bem em apenas algumas semanas na família e coloquei um ponto final na minha missão de ensinar algo para ele. Ah, sim, depois ensinamos a sentar, deitar, dar a pata e buscar a bolinha, mas são “acessórios”, sabe? Não vou ficar estressada se não tivesse aprendido mais nada. Nem vou ficar me cobrando se eu não ensinar mais nada na vida para ele, ponto final. Enquanto isso, estou lá diariamente ensinando duas crianças a andar, falar, comer sozinho, usar o banheiro, escovar os dentes sozinho, tomar banho sozinho, letras, cores, formas geométricas, jogos, amarrar o sapato, respeito, regras, brincadeiras, explicando filmes. Daí virá o Ensino Fundamental, as lições de casa, as provas, as amizades, os esportes, os cursos de língua, a convivência, o vestibular, a bicicleta sem rodinhas, as frustrações. Não tem ponto final, não termina.
  • Ernesto aprendeu a não latir enlouquecidamente quando fica sozinho em casa porque, veja bem, ele fica sozinho em casa desde o dia UM por aqui. Enquanto eu ainda não posso nem descer para pegar a pizza na portaria e deixar meus filhos sozinhos no apartamento, deixo meu cachorro por horas sozinho. E ele não morre. E não sou presa. E não me sinto abandonando ninguém. Ele fica sozinho durante o dia se saio para trabalhar ou durante a noite se vamos passear sem nenhum stress. Deixo água, comida, caminha e brinquedo e ele sempre está vivo quando volto para casa.
  • E, mais: se vou viajar, entro na Internet e posso escolher qualquer pessoa para ficar com Ernesto. É claro que já elegi uma cuidadora preferida pelo DogHero e sempre deixo Ernesto com ela, mas se um dia ela não puder e eu precisar viajar, Ernesto vai conhecer alguém de uma hora para outra sem muito stress. E vai ficar bem, vai ficar feliz e ninguém vai me julgar. Só quem é mãe sabe o-que-que-é deixar os filhos com alguém, seja amigo, parente ou babá, para sair por algumas horas ou viajar sem eles. Não, não tem aplicativo para isto.
  • Ernesto come todo dia a mesma coisa em todas as refeições e acho que só troca de ração quando ficar velhinho, né? Vem pronta, é só por no prato, nem precisa esquentar, ele vai lá sozinho e come. Ele só toma água. Sim, compro uns petiscos de vez em quando e dou uns pedacinhos de legumes e frutas às vezes, mas ele viveria bem só de ração e água. Nem preciso dizer o quão trabalhoso é gerenciar a alimentação de uma criança.
  • Faço home office alguns dias na semana e fico em casa com Ernesto. Mas estou trabalhando e não dou atenção para ele. Não tenho que dar atenção, não me cobro por não dar atenção e não me sinto mal. Ele fica quieto no canto dele e eu fico no computador, aí de vez em quando trocamos um carinho e a hora de brincar/ passear fica pra depois.
  • Ernesto parou de crescer em poucos meses, então a roupinha que comprei pra ele ontem por causa da frente fria vai durar pra sempre. E ele provavelmente só vai ter essa roupinha, porque quando eu precisar lavar ele não vai se importar de ficar pelado algumas horas.
  • Quando chega a hora de dormir, não tem processo nenhum, sabe? Eu só faço os meus processos (banho, escovar dentes, pijama etc.), deito, apago e luz e pronto. Ele encontra a caminha dele e fica lá até o dia seguinte. Ele não acorda durante a noite. Se acordar, ele faz o que quer fazer acordado e dorme de novo.
  • Sim, cachorro dá despesa. Mas não se compara. Não tem escola, plano de saúde, despesas médicas que o plano não cobre, roupas, sapatos, fraldas, refeições, brinquedos, material escolar, produtos de higiene de uso diário, Internet, festinha de amigo, cinema, aula de natação, curso de inglês, mesada, dinheiro do lanche, excursão da escola, livros.

Amo o Ernesto e acho o máximo ter cachorro. Amo muito e cuido muito, não tô dizendo que não dá trabalho. Ainda que seja tudo mais simples, ele faz sujeira, come, toma banho, precisa brincar e passear, fica doente e vai no médico. Faço com o maior prazer do mundo, dou e recebo muito amor dele, mas nada disso me faz mãe. O que me faz mãe são dois espuletas de cabelos encaracolados, eles, sim, me fazem mãe.

E, no papel de mãe, me sinto culpada, sou julgada, sou oprimida, sofri assédio moral no trabalho, tenho medo de errar, tenho muitas dúvidas sobre o que fazer, me sinto sozinha, me arrependo de coisas, mudei minha carreira, tenho menos liberdade, tenho uma responsabilidade maior que qualquer outra coisa que já tive na vida e sofro. Ser mãe tem seu lado bastante difícil, já falei várias vezes, e isso tudo faz parte da maternidade e nada disso existe quando você cuida de um cachorro. Por isso, afirmo: ninguém é mãe (ou pai) de pet.

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4 pensamentos sobre “Ninguém é mãe de pet

  1. Vanesa Colle disse:

    ADOREI! Você se expressou de forma clara e conclusiva sobre essa questão, já que não deve haver a comparação entre crianças (filhos) e animais de estimação, não que estes não mereçam cuidados. Obrigada, pois já estou cansada de ouvir esse tipo de comentário.

  2. Po, finalmente um pouco de sobriedade em relacao a esse assunto. Obrigada, linda!^^

  3. gabrielagrossi disse:

    Exato!!!

  4. beatriz disse:

    Ruri!
    Como vai?

    Já acompanho seus textos faz um tempo e admiro muito de sua postura no crescimento de seus bebes.

    Porém, nao concordo com essa visão de maternidade/paternidade exposta aqui nesse texto, e gostaria de explicar o porque.

    Ainda nao tenho filhos humanos.. apenas felinos. E posso garantir que existem maes (ou pais) de pet sim.

    Primeiramente, porque ser mae é um sentimento, um estado de espírito. Não se resume a questões biológicas, menos ainda a um conjunto de ações.

    Não é preciso gerar um filho para amá-lo como tal, e o fato da gestação, por si so, também não garante que haverá amor. Sendo assim, com a questão biológica afastada, porque nao posso amar como igualmente um animal de outra espécie?

    A natureza, inclusive e diariamente, nos dá exemplo disso. Nao é raro vermos mamães cachorrinhas adontando gatinhos, mamae gatinhas adotando patinhos… etc.

    Inclusive, basta pesquisar para ver que, por exemplo, os gatos nos tem como se fossemos de fato sua família. (Aliás, indo até mais adiante… Romulo e Remo foram amamentados por uma loba, Mogli também criado em familia não humana…) Nada mais NATURAL que as pessoas se sintam nessa relação de mãe/pai e filho com os animaizinhos.

    Então, se assim é, porque desqualificar um sentimento de amor e cuidado tão grande por quem quer seja? Só é mãe quem é mãe de ser humano porque dá mais trabalho?

    A capacidade cognitiva e as necessidades que temos sao realmente muito mais complexas que as dos demais animais. Mas vc sabe disso, eles não. Por isso que é muito mais fácil voce ensinar “apenas” duas coisas a seu cachorro, enquanto que ensinar coisas a seus filhos parece um trabalho sem fim. Seus filhos precisam, de fato, aprender mais que seu cachorro, mas isso nao significa que te façam mais mãe por isso.

    “Pets” tambem ficam doentes, tambem correm e choram de madrugada, tambem sao abandonados, tambem precisam ser alimentados, ensinados, higienizados, tambem tem problemas psicologicos e, principalmente, também amam e precisam de amor. Tanto quanto nós.

    Certa vez, uma amiga minha resgatou um gatinho ainda na placenta, acordava a noite toda para alimenta-lo, criou uma incubadora para mante-lo vivo, teve que dar a ele todos os estímulos necessários para o crescimento e desenvolvimento, cuidou e amou desde o primeiro momento. Acha que isso nao é, de fato, ser mãe? Só porque o trabalho que ela teve nesse pocesso durou menos tempo que de uma mãe de um ser humano?

    Além disso, todas as razões que voce descreveu para, vamos dizer assim, qualificar a maternidade, sao coisas que, com o tempo, vão deixar de existir. Claro que virão outras preocupações mas seus filhos vao crescer e essas situações deixarão de existir. Mas voce nao se tornará menos mae por isso.

    Aliás, geralmente quando os filhos crescem e vao morar fora de casa e quem continua ao lado das mães/pais é justamente o bichinho.

    Enfim, Ruri, nao quero minimizar as diferenças entre uma coisa e outra. Como disse, é obvio que elas existem, mas é por uma questão tão óbvia quanto – de estarmos tratando de seres absolutamente diferentes.

    Podemos ser mães e pais ao mesmo tempo. Podemos ser maes e pais de nenes pessoas e nenes bichinhos ao mesmo tempo.

    O que nao pode jamais é desqualificar esse amor e estado de espírito materno (paterno), porque no fim é isso o que realmente importa quando voce é mãe/pai.

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