A individualidade, a escola e o adestramento

Nas férias de julho, a ex-babá dos dois, com quem ainda mantenho contato e tenho super carinho, os convidou para passar dois dias na casa dela no meio da semana. Eu estava trabalhando como doida e não estava dando nenhuma atenção direito para eles e topei. Levei os porqueiras numa terça de manhã e fui buscar no dia seguinte final da tarde e eles adoraram.

Eu estava toda atrapalhada de trabalhos, mas terça à noite sem filhos na vida de uma mãe solteira é raridade e eu resolvi sair. É obrigação de toda mãe ir pra balada quando os filhos dormem fora, não importa se é terça ou se você está toda cheia de coisas para fazer.

Eu disse balada.

Vocês me imaginaram dançando em cima de um balcão com um salto imenso até amanhecer.

Mas na verdade eu estava sentada em um bar tomando drinks e comendo frituras e voltei dormindo no Uber à meia-noite para casa.

Quando cheguei no prédio, já tomei uma bronca do porteiro porque meu cachorro estava latindo e uivando ininterruptamente pelas últimas cinco horas e ele já tinha recebido oitocentas e quarenta e sete reclamações dos vizinhos. No dia seguinte, mais uma bronca do síndico, seguida de uma multa bem salgada. E mais o aviso de que cada multa recebida pelo mesmo motivo viria com o dobro do valor e assim  sucessivamente, então se o Ernesto continuasse a latir eu rapidamente iria gastar mais dinheiro em multas que no aluguel.

Conversei, pedi desculpas pelo comportamento dele e avisei que eu iria contratar um adestrador com urgência. Contratei um adestrador, eu fui adestrada duas vezes por semana para conseguir sair de casa e deixar o cachorro calmo e tranquilo, Ernesto passou a ter o comportamento esperado pelos vizinhos e não tive mais problemas.

Fim.

Por que estou contando essa história?

Porque as escolas tratam as crianças como cachorros.

– Nossa, que horror!

Mas é.

Cansei de ser chamada na escola para ter conversas sobre como o comportamento dos meus filhos estava inadequado e cansei de ouvir recomendações para procurar “ajuda profissional”. Psicóloga, no caso. Porque a escola acha que a gente adestra os filhos levando em uma psicóloga, que é um profissional capaz de moldar o comportamento da criança. A escola entende que, uma vez que a criança não tem o comportamento que ela espera, ela vira um problema a ser resolvido por um profissional especializado em comportamento em massa.

Não estou criticando o trabalho de psicólogos, pelo contrário, meus filhos fazem terapia há bastante tempo e acho ótimo. Estou relatando que aprendi no último ano que, tão importante quanto linha pedagógica, sistema de ensino, espaço físico, localização, preço, alimentação saudável e todos aqueles itens do check list que levamos quando visitamos uma escola, é a postura da escola diante das questões individuais de cada criança.

Em suma: fujam de escolas que busquem massificar as crianças, que não respeitem o indivíduo e que as tratem como cachorros que precisam de adestramento. É difícil de acreditar, mas passamos por uma escola assim este ano e foi uma experiência horrorosa. Cada criança é uma criança, com suas vontades, limitações, timing, emoções, frustrações, e escola bacana é aquela que sabe respeitar a individualidade.

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