A mãe no trem

Eu acordei quase chegando na estação, completamente zonza de sono, e vi que nas poltronas ao lado estavam uma mãe e duas crianças pequenas, menores que os meus. Sei lá de onde surgiu esse meu radar de mãe solteira e não tirei os olhos dela até achar algum parente ou amigo que fosse ajudá-la a descer na estação, mas ela realmente estava sozinha.

Eu pus meu casaco e a mochila nas costas e comecei a entrar num pânico pelo tanto de coisa que ela ainda tinha que fazer: colocar o casaco dela e das duas crianças, colocar a criança menor no sling, pegar duas malas que estavam acima da poltrona, pegas algumas sacolas que ela tava carregando e descer com tudo isso naqueles três minutos em que o trem fica na estação.

Mano do céu, desculpa, moça, mas eu não conseguia tirar os olhos de você. Era muita coisa para uma mãe ter que fazer sozinha e a gente realmente estava chegando na estação e teria só três minutos pra sair de lá de dentro.

Aí eu fui até lá e me ofereci para prender o sling. Me ofereci falando inglês porque meu espanhol é horroroso e a moça respondeu em espanhol que tava tudo bem, mas eu sei que não estava não. Porque quando eu prendi o sling nas costas e o bebê ficou na frente dela, ela não conseguiu mais ajudar a outra criança a colocar o casaco, e a criança não conseguia vestir um casacão de inverno sozinha – às vezes nem eu consigo – e eu fui colocar o casaco nela. E aí me deu um medo de esta criança correr, ou ficar pra trás, ou sei lá, e eu disse pra moça levar as crianças que eu ia carregar todas as coisas dela pra fora do trem. E eu só sosseguei quando deixei os três e todas as coisas lá fora e vi que ela conseguiria seguir sozinha.

Não sei se fiz isso por ela ou por mim, que tantas vezes me vi sobrecarregada sozinha com duas crianças pequenas. Foi como se eu me visse ali e pensasse que seria muito bom ter alguém pra me ajudar.

Olha, moça, eu sei que você não entendeu muito bem meu pânico e eu não estava te achando incapaz de fazer tudo sozinha. Eu sei que você faria. Mas eu estava com minhas duas mãos livres sem os meus filhos e precisava dividi-las com você. Porque nós somos mães e tamo juntas. Feliz ano para vocês três!

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