Para o amor que chegou

Se eu tivesse feito um anúncio do tipo “procura-se namorado”, eu teria pedido alguém que gostasse de pedal e de forró. Pedal e forró são as coisas que mais gosto de fazer e nunca tive boas companhias para isso. Meus amigos do coração são ótimos, mas não gostam de pedalar no mato nem de dançar forró comigo. Eu queria alguém pra acordar cedinho no domingo, enfiar bicicletas num carro e se sujar de barro comigo, pra depois voltar pra casa me aguentando com calor e com fome. E eu queria alguém que me tirasse para dançar na sala de casa mesmo, desviando do cachorro, me ensinando passos e me dando beijinhos entre os rodopios.

Mas eu não anunciei porque eu não estava fazendo uma busca ativa. Eu não usava aplicativos de dates porque eu queria acreditar que o lugar de conhecer pessoas era na vida real. Eu estava esperando conhecer alguém espontaneamente no bar, na fila do cinema, nos eventos dos amigos ou na sala de aula da faculdade. Eu queria algo old school, retrô mesmo, queria esse negócio de conhecer alguém pessoalmente e olhar nos olhos antes de mandar uma mensagem para ele. Eu queria escolher alguém pelo jeito de falar, de andar, pelo cheiro, não por fotos. E eu queria ser escolhida assim também. Eu não queria homem hétero analisando fotos minhas em aplicativo para decidir se sou gostosa o suficiente para querer sair comigo, porque, né, não sou obrigada.

Eu também não anunciei porque não estava buscando um namorado. Eu estava vivendo a fase mais feliz da minha vida inteira e não me faltava nada, e eu teria continuado a viver muito feliz sem namorado. Mas aparecer alguém com vontade de namorar sempre é legal. Quando aparece alguém que se interessa, que gosta, que trata bem, que quer ficar junto, mano do céu, é bom demais.

É bom demais quando você conhece alguém que não faz joguinho. Preguiça daquela competição pra ver quem consegue ficar mais tempo sem mandar mensagem. Sabe o que é legal mesmo? Dar “bom dia” e “boa noite”, perguntar como foi o dia, contar do próprio dia, responder as mensagens, iniciar as conversas, não sumir. É educado, é gentil, é fofo, e ninguém precisa tentar ser mais gostoso ou mais ocupado e ficar dando gelo no outro. Legal mesmo é querer se encontrar muitas vezes na semana, ficar tentando conciliar as agendas, mesmo que isso seja às 23h30 na quarta-feira.

Mas eu queria ficar junto de alguém que me desse espaço. Principalmente espaço para ser mãe solo, para cuidar dos meus pequenos, para me envolver 100% com eles no tempo em que estou com eles e não ter que pensar em mais nada. Queria alguém que entendesse que não quero apresentar outro namorado para meus filhos tão cedo e que isso significa que não tenho todos os finais de semana para namorar. E que, mesmo quando não estou com meus filhos, quero ver meus amigos, minha família e ficar sozinha em casa. E, para ser lindo, queria alguém que fosse fazer outras coisas legais por aí quando não nos encontramos. Porque eu não queria mais ciúmes, nem um pouco de ciúmes. Eu quero ser livre, quero alguém livre, e quero respeito, cuidado e carinho. Queria alguém que me deixasse segura e que se sentisse seguro comigo, sem controle, sem cobranças, sem acusações.

Eu tinha uma preguicinha do momento de contar tudo o que eu vivi para pessoas, confesso. Foi muita coisa nessa minha vida. Eu sempre conto que sou mãe, mas tenho preguiça de contar sobre dois casamentos e um câncer, entre outras coisas. Não devia, mas no fundo eu tinha medinho que isso afastasse as pessoas de mim. E foi incrível que alguém que já existia na minha vida há muito tempo e que acompanhou muitas dessas coisas tenha se aproximado cada vez mais, e não se afastado.

Eu queria uma química incrível e muito sexo nesta vida, sempre quis, todo mundo quer, não dá pra abrir mão disso. Mas fica ainda melhor quando é com alguém que te diz que a coisa que mais gosta é seu sorriso e que vai sempre te fazer sorrir mais. Fica mais legal ainda quando você encontra alguém que sempre te lembra que você não é só sexo e que vai estar ali no dia seguinte pra te ajudar a consertar o aspirador e o videogame das crianças. Melhor ainda quando a pessoa com quem você transa é a mesma pessoa que te faz cafuné quando você chora porque se emocionou com algo.

Pois bem, eu não posso me gabar de um super sucesso profissional nessa vida, porque isso eu não tive e nem sei se vou ter ainda, mas eu posso dizer que minhas escolhas profissionais guiaram toda a minha vida amorosa. Conheci meu melhor amigo no primeiro estágio, meu primeiro marido no primeiro emprego, meu segundo marido em uma mudança de carreira importante que fiz. Aí eu larguei tudo, pedi demissão, tirei um sabático, voltei para a universidade para fazer doutorado e encontrei alguém que veio me trazer amor, companheirismo e prazer (e bikes sujas de lama e muito xote). Encontrei alguém que se encaixa perfeitamente em tudo que estou vivendo, que melhora minha vida, mas não tenta mudar nada do que eu vivo, nem tenta mudar nada em mim, e que me respeita o tempo todo, que me trata com carinho e que cuida de mim. Que desde que chegou está sempre por perto e agora não quero mais que vá embora.

Não vá embora. Fica mais. Tô gostando muito. ❤

 

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2 pensamentos sobre “Para o amor que chegou

  1. Blanca disse:

    Coisa linda de se ler! Feliz por vc!
    Último post que havia lido seu era o que vc contava da decisão da guarda compartilhada. Hoje voltei pra ver quevc está numa fase ótima! Que coisa boa. É uma delícia ler seus textos. ❤

  2. Rosângela disse:

    Que bom, Ruri! Fiquei feliz aqui: descobrir-se enamorada é uma delícia! Eu sou um “projeto” de mãe solo (estou na fila dá maternidade adotiva) e gosto muito dos seus textos. Felicidades pra vocês!

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