Mau humor encarnado na mãe

A gente estava saindo pra jantar. Não bastasse eu ter que arrumar duas crianças e me arrumar, eu tenho um cão que complica todo o processo, porque ele tem que passear, tem que ter brinquedos interativos à disposição para não morrer de tédio e destruir a casa, tem que estar calmo para não uivar e matar os vizinhos do coração. Então​ eu tinha pedido para Isaac e Ruth me esperarem no térreo enquanto eu organizava a vida do Ernesto, que não ia junto. Quando chego no térreo, uma moça tinha dado uma bexiga de gás hélio para cada um deles. Socorro.

Moça, você tentou ser legal e não te culpo. Mas eu já estava acumulando um mau humor no dia, porque eu também tinha cochilado no sofá à tarde e acordado toda torta. Eu detestei aquelas bexigas. Entrei no táxi com uma criança de cada lado segurando uma bexiga voadora, e aquelas porcarias de bexiga ficaram batendo na minha cabeça e passando na frente dos meus olhos, e eu odiei profundamente a ideia de dar bexiga pro filho dos outros sem consultar os pais.

Aí eu me lembrei de uma outra vez que dei de louca. Eles tinham acabado de chegar na família, nem andavam ainda, e levei os dois sozinha em um médico. Nessa época, um ia no carrinho, o outro ia no meu colo apoiado em um braço, enquanto eu segurava a mochila e empurrava o carrinho com outro braço (não, carrinho de gêmeos é um trambolho maior ainda, eu usava um só carrinho mesmo). Quando estava saindo da consulta, a médica deu uma bexiga pra cada.

PQP.

Deu as bexigas, mas não deu uma cordinha pra amarrar as bexigas no braço. Eles tinham um ano e derrubavam ou jogavam a bexiga a cada meio segundo. E choravam. E eu lá, criança num braço, mochila no outro, outra criança no carrinho que eu empurrava com o joelho, e os infernos das bexigas que eu ainda tinha que pegar e devolver pra criança chorando. Teve uma hora que, já vendo que o choro era inevitável, eu deixei a fúria tomar conta de mim, estourei as duas bexigas e aguentei os berros – mas pelo menos não tive que correr atrás de mais nenhuma bexiga.

Não fiz isso hoje, mas tive vontade. Juro que só não fiz pois não queria que o motorista me avaliasse mal no aplicativo. #blackmirror

Agora pouco cruzei no feicebuqui com o desabafo de uma mãe que dizia que odeia brincar de boneca e que se sente muito cobrada e culpada por isso. Moça, sinta-se abraçada, e muito. Não só não gosto de boneca, como também odeio massinha, canetinha e areia (além de detestar bexigas as you know). A gente não é menos mãe por isso não. A gente é muito mãe, dá amor, educa, cuida, até faz umas coisas legais, mas não vejo essa necessidade de gostar de tudo só porque sou mãe. Eu escondo canetinha em casa, libero massinha uma vez por ano e olho desesperada para eles brincando na areia pensando que saco vai ser lavar crianças empanadas depois.

E estouro bexigas quando não tem ninguém me avaliando.

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