O trampo, o amor e a gestão da p$*%&# toda

Essa semana um amigo me perguntou se alguma vez eu tinha me arrependido de ser mãe, se eu pensava em como seria minha vida sem Isaac e Ruth.

Não dá para pensar nisso.

Filhx não é só o trabalho envolvido, a grana, a gestão de logística, as irritações com bagunças e aquele 1 quilo de feijão que você cozinha achando que vai durar o mês e acaba em quatro dias.

Filhx muda a gente. Transforma. Eu morri e renasci no dia em que eles chegaram, quando eu me tornei mãe. A maternidade muda a essência, os valores, a forma de encarar problemas e todas as prioridades. Não é questão de ser mais feliz como mãe, não é questão de encontrar “o real sentido da vida”, se é que isso existe. É a transformação. Eu me lembro como eu era, eu lembro da minha vida aos 31, quando trouxe os dois monstros para casa, mas não consigo projetar aquela vida hoje, cinco anos depois. É diferente de pensar em dar undo na adoção do cachorro. Amo o Ernesto, vou cuidar dele até o fim da melhor forma possível, mas ele não mudou nada em mim. Consigo imaginar direitinho como seria a vida sem ele. Mas não dá para pensar em como eu seria hoje sem Isaac e Ruth, porque eu não faço a mínima ideia.

A única ideia que faço é que a vida seria mais fácil, provavelmente. Menos boletos, menos feijão, menos preocupações talvez.

Recentemente dois fatos me causaram uma pontinha de inveja da minha melhor amiga: 1) ela foi avisada sobre um treinamento que faria em Londres umas duas semanas antes e teve duas únicas preocupações, que foram arrumar a mala e vender o ingresso para o show do Bon Jovi que já tínhamos comprado, 2) ela fez um treinamento corporativo de terça a quinta das 18h às 22h. Eu teria que envolver um time gigante para conseguir estes cinco dias em Londres e três dias em treinamentos noturnos.

Quando mudei toda minha carreira, uma das questões era justamente essa coordenação de logística, porque trabalhar com logística não era uma ambição na minha vida, mas fui me tornando uma gerente de logística exemplar. Era tanta coisa para gerenciar, minha gente, tanta coisa. Tinha perua, babá, escola, terapia, natação, supermercado, boletos, médicos, roupas, uniforme, lição de casa, horário de dormir e de acordar, muito mais coisa que eu gostaria de ter que cuidar. Aí eu mudei tudo.

Mas sou freelancer e os boletos insistem em chegar todos os meses, então – embora eu esteja bem mais feliz – não é que consegui uma vida mais fácil, não. Estou indo para a quarta viagem a trabalho este ano e vou contar como foi.

Na primeira, consegui organizar a agenda e ir para o Nordeste nos dias em que as crianças já iriam ficar com o pai e foi tudo lindo. Na segunda, para o interior de São Paulo, pedi uma ajuda para minha madrinha, que os pegou na escola, dormiu com eles na casa dela e devolveu na escola no dia seguinte. Na terceira, já tive mais tilt, porque só consegui um voo que descia em São Paulo umas 22h e a escola fecha às 19h, então eu tinha um problema. Pedi para meu pai, achando que ele teria suporte da minha madrasta para me cobrir essas três horas. Mas minha madrasta tinha um outro compromisso, meu pai topou pegar na escola e levar para a casa dele, mas me pediu ajuda com a comida deles, porque ele não fazia menor ideia do que dar, de como dar, de onde comprar alguma coisa para crianças jantarem. E aí eu pedi para minha mãe (porque eu já estava lá em Salvador) comprar uma marmita e levar até a escola para que meu pai pegasse crianças e marmitas e ficasse com elas até eu voltar de viagem. Deu tudo certo também, com um pouco mais de emoção.

Agora vou passar dois diazinhos em Belorizonte, pertinho. Não consegui usar os dias em que eles estarão com o pai, então comecei a organizar. Primeiro, avisei o cliente que não daria para pegar o voo das 6h30, porque a escola abre às 7h, então não é compatível, vou ter que ir às 8h. Aí resolvi que pela primeira vez na vida vou contratar uma babá de forma mais radical. Já tive babás no passado, mas não com tantas atividades envolvidas de uma vez só: a babá vai buscar na escola, trazer para minha casa, dar jantar, dar o banho, dormir com eles aqui e levar para a escola no dia seguinte. Eu nunca deixei os dois sozinhos em casa com outra pessoa por tanto tempo, com tantas coisas envolvidas e estou apreensiva. Mas preciso testar para saber como é que é. No dia seguinte, minha mãe os pegará na escola, virá para minha casa e eu chego do aeroporto para liberá-la. Aí vou precisar deixar pronta toda a comida para todos esses dias porque não quero que a babá e minha mãe ainda tenham que cozinhar para eles. E resolvi também levar o cachorro para a doghero porque não quero que elas tenham que limpar xixi e cocô de cachorro e alimentá-lo além de tudo. E vou ficar acompanhando o percurso escola-casa e casa-escola porque se precisar vou chamar um taxi para elas. Aí eu estava comentando com minha irmã o tanto de gente que tive que envolver para poder dormir uma noite fora de casa a trabalho e ela me respondeu:

– E pensa que você faz tudo isso sozinha todos os dias e ainda trabalha fora.

Aí eu percebi que não sou uma excelente gerente de logística. Eu sou Magaiver. Essa transformação toda pela qual eu passei foi de pessoa comum para um super-herói e acho que é por isso que não dá para se arrepender de ter tido filhos ou ficar imaginando como seria sem eles. Como é que eu vou querer deixar de ser Jessica Jones e perder meus super poderes? Não dá.

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