Mãe que viaja

Estou dentro do meu 44o voo em 2018 e resolvi fazer uma homenagem neste post às viagens a trabalho. Mesmo estando cansadona, porque um projeto fora de São Paulo mais três férias só esse ano (porque, né, fiz uma cirurgia gigantesca ano passado e estou recuperando um tempo perdido) e mais alguns finais de semana fugindo de São Paulo não me deixaram dormir uma semana seguida na minha cama há muitos meses, vou reconhecer que estou feliz. Mesmo que eu tenha começado o dia de hoje do jeito que vou contar no próximo parágrafo, estou feliz.

Hoje eu acordei e achei o quarto claro demais, e olhei as horas. SEIS E TRINTA E OITO. Em geral, às 6h38 eu já estou no térreo esperando o taxi para deixar as crianças na escola e ir pro aeroporto, mas eu estava descabelada, de pijama, tentando entender se o despertador não tocou às 5h ou se eu tinha desligado sem querer e pensando como faz quando perde a hora do voo. Abri o aplicativo, não consegui resolver, liguei na LATAM. Aí a moça disse que eu poderia pegar um próximo voo em até três horas sem custo adicional e por um segundo eu relaxei e pensei que dane-se eu ia voar às 10h. Mas no segundo seguinte eu resolvi que ia tentar e fiz a maior proeza da vida: estava às 7h40 na frente do portão de embarque. Em 1h02 eu: tomei uma ducha gelada pra lavar o rosto e disfarçar o cabelo (nem deu tempo de esquentar), vesti a roupa e escovei os dentes, enfiei a maquiagem dentro da mochila para cuidar disso no aeroporto, acordei minhas crianças e enfiei os dois num taxi sem nem fazer xixi ou tomar café da manhã, tadinhos, enfrentei um mega trânsito de segunda, desci na passarela do outro lado da avenida e corri para o embarque e deu tempo. Isaac e Ruth foram muito legais e espero que estejam super lindos me esperando em casa com a babá daqui a pouco. Mas eu passei o dia ainda em pânico, pensando se não tinha esquecido nada pra trás e se os dois ficariam bem o dia inteiro na escola depois de terem sido literalmente jogados lá. Vou saber logo mais.

Antes de ter filhos, viajar a trabalho era uma coisa simples e banal, porque eu ia e voltava para onde eu queria na hora em que queria e só avisava a família, super fácil. Fiz projeto na África do Sul, passei meses morando em Campinas durante a semana, passei vários dias e semanas em eventos fora, e tudo bem. Depois que eu virei mamãe, e principalmente depois que virei mamãe solteira, o bicho começou a pegar. Eu mal conseguia conciliar um trabalho full-time em um escritório dentro de São Paulo, que dirá os projetos em Alphaville, Campinas, Rio, Vitória ou Brasília. Na época, eu tinha uma babá mensalista que trabalhava em casa até 20h. Mas em geral a gente sai de São Paulo e não consegue voltar para casa antes das 20h. E meus filhos vão dormir às 20h e eu sempre achei que o colocar para dormir era coisa minha, que eu queria fazer todos os dias. Então eu vivia estressada quando tinha que sair de São Paulo, muitas vezes deixei de ir porque não consegui uma folguista ou as horas extras da babá, e isso pegava mal e cheguei a sair de um emprego porque eu não dava conta de viajar. E também porque eu queria estar em casa todos os dias para ficar com meus pequenos antes de eles irem dormir e isso era prioridade para mim. E foi assim durante os três anos seguintes, quando repensei carreira, trabalho e a vida e estive bem disponível para eles todos o tempo que eles precisaram.

Há seis meses atrás eu quis fazer um projeto em Belo Horizonte. Comecei com um “bico”, uma participação pontual, depois tive oportunidade de continuar de uma forma mais fixa e eu quis. Até então tinha feito umas três ou quatro viagens a trabalho como freelancer, bem espaçadas, e há uns seis meses viajo semanalmente para BH. Duas coisas me deixam feliz: uma é o projeto em si, porque gosto do desafio, gosto do meu time, gosto do cliente, gosto do que estou fazendo, a outra é a felicidade que é poder viajar a trabalho sem pânicos ou questões existenciais.

Isaac e Ruth dormem na casa do pai todas as quartas e quintas-feiras há quase dois anos e esses são os dias da semana em que sou consultora, que não tenho hora para sair do trabalho e que posso viajar a trabalho sem me preocupar em estar em dívida com as crianças. Tirando o dia de hoje que deu tudo errado, em geral eu voo depois de deixa-los na escola alimentados, limpos e bem vestidos e volto para São Paulo quinta à noite, quando eles ainda estão com o pai. Acontece, também como hoje, de eventualmente eu precisar ir em uma segunda-feira, que é um dia em que eu teria que pegar os dois na escola e eu tenho babá folguista para estas ocasiões. Meu sentimento hoje é que é muito diferente deixar dois bebês com uma babá que duas crianças de 7 anos. Eles conseguem entender o que está acontecendo, consigo combinar com eles tudo o que iremos fazer e não me sinto culpada se vez ou outra volto mais tarde para casa. Mesmo que eles já estejam dormindo, não me sinto mais culpada. É muito diferente e me sinto MEGA feliz por agora conciliar um projeto fora de São Paulo com a maternidade.

É claro que ficar em São Paulo é mais legal. Porque não é só a maternidade, abro mão de muita coisa para viajar a trabalho toda semana. São dois dias que a academia fica atrapalhada, que não vejo meu namorado e meus amigos em dias que eu poderia jantar fora, que faço e desfaço mala e que tenho que deixar o cachorro com a cuidadora (e pagar por isso). Mas pensar que há quatro anos isso parecia ser impossível na vida me faz sentir bem de estar rolando agora. E por isso essa homenagem.

(Vou postar esse texto sem revisão porque está na hora do pouso e minha meta era escrever algo em 50 minutos rs)

 

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