Arquivo do autor:Ruri

Agora minha mãe tem whatsapp e 3G, uma evolução na vida de minha pessoa. Falamos muito, ilimitadamente, mandamos fotos, emoticons, uma modernidade. Me lembro com saudade do dia em que ela ganhou um computador com internet no trabalho e começou a nos mandar e-mails – até aprendeu a usar reply all para falar comigo e com minha irmã ao mesmo tempo. Parece que foi ontem. Hoje ela tem whatsapp!

Aí ela me manda mensagem fofa de mãe às dez da noite para saber se eu tô bem e como foi meu dia:

– Tô bem! Voltei para a academia!

– Mas academia é de manhã, né?

– Mas hoje eu fui à noite.

– E quem ficou com a Ruth e Isaac?

– Ninguém. Eles nunca acordam mesmo.

Aí eu vejo aquele typing infinito e mensagem que não chega nunca. Certeza que o coração parou.

– Mas que medo de acontecer alguma coisa! Você não tem medo?

– ESTOU BRINCANDO, MÃE.

– Ah bom, que susto. Você não seria tão louca, né?

– MÃE!

Nada como confiar em nossos filhos, né, mãe?

Etiquetado

Ruim com eles, muito pior sem eles

Uma das coisas mais difíceis para mim na maternidade foi perder a liberdade. De uma hora para outra você se prende aos horários de suas crianças e precisa respeitar. Eles que mandam. Eles que definem a semana. Não, não pode mais fazer o que quer a hora que quer.

Aí acontecem as “férias com o pai” na vida de uma mãe solteira e você acha que vai curtir a vida loucamente. Faz planos mil. Oba. Só gandaia. E, na prática, descobre que: 1) as pessoas sem filhos também não topam mil jantares durante a semana porque estão entregando projetos no trabalho, 2) as pessoas com filhos estão cuidando das crias e não têm com quem deixá-los, 3) não tem tanta coisa que eu queira ver no cinema, 4) não tenho tanta coisa para comprar no shopping, 5) não tenho pique pra balada e quero ir cedo pra academia, 6) academia à noite é um inferno, 7) ficar até escurecer no escritório não faz sentido algum e 8) chove no final da tarde e dá vontade de voltar pra casinha.

Aí chego em casa e está tudo no lugar. Tudo como deixei. Escuro. Silêncio. Quando morava sozinha, achava esse encontro com a casa vazia-silenciosa-comodeixei um dos maiores prazeres da vida. Hoje me sinto um ET aqui.

Tô com saudade. Não vejo a hora de sair correndo todo dia para ver vocês. Não vejo a hora da bagunça, da agitação e até da irritação porque vocês aprontam uma coisa por dia. Tá chato, viu?

Etiquetado , ,

Dois!?!??!???

– O quêêê??? Você já tem DOIS filhos????

Ok. Confesso. Eu faço de propósito. Sempre dou um jeito de falar das crianças para as pessoas que acabei de conhecer, para clientes, para amigos de amigos. Adoro contar para as pessoas que tenho dois filhos, porque invariavelmente a reação é esta, seguida de comentários como “mas você é tão novinha!”. Faz bem pro ego, juro.

Xingamentos

– Você é feio, horroroso, mal educado e eu vou te matar!

Ô. Ô. Ô. Podem parar. Entendo que brigam, ficam com raiva e querem xingar, mas dizer que vai matar não pode não. Tomam bronca, ficam de castigo.

– Gente, falar que vai matar é feio, não pode. Ninguém quer que o irmão morra. Quando a pessoa morre, ela some, desaparece, nunca mais volta, acabou pra sempre. Entenderam? Achem outro xingamento.

– Entendemos, mamãe.

Dali uns 15, eu ouço:

– Você é feio, horroroso, mal educado e eu vou trancar você em uma jaula!

:-/

Etiquetado ,

Barata

Tô na rede, curtindo um ventinho, e o clubinho passa por perto cantando:

“Ninguém me ama
Ninguém me quer
Por isso eu vou comer barata

Barata frita
Barata assada
Sopa de barata

Pega a baratinha
Tira a cabecinha
Chupa a melequinha
E joga o resto fora”

Adoro monitores de hotel.

Etiquetado , , , ,

And you think you have to want more than you need

Para gente cantar juntos na noite de revéillon, bebês.

Oh, it’s a mystery to me
We have a greed with which we have agreed
And you think you have to want more than you need
Until you have it all you won’t be free

Society, you’re a crazy breed
Hope you’re not lonely without me…

When you want more than you have
You think you need…
And when you think more than you want
Your thoughts begin to bleed
I think I need to find a bigger place
Because when you have more than you think
You need more space

Society, you’re a crazy breed
Hope you’re not lonely without me…
Society, crazy indeed
Hope you’re not lonely without me…

There’s those thinking, more-or-less, less is more
But if less is more, how you keeping score?
Means for every point you make, your level drops
Kinda like you’re starting from the top
You can’t do that…

Society, you’re a crazy breed
Hope you’re not lonely without me…
Society, crazy indeed
Hope you’re not lonely without me…

Society, have mercy on me
Hope you’re not angry if I disagree…
Society, crazy indeed
Hope you’re not lonely without me…

Colo

Mamãe sentada numa poltrona na casa da minha vó, cochilando, tipo velhinha depois do almoço, sabe?

– Mamãe, você tá com sono? Quer nanar no meu colo?

– !

Alguém recusa uma oferta dessas? Ele sentou no sofá, acomodou os brinquedos e deixou as perninhas livres. Deitei e dormi. Com cafuné. Meia hora. Até sonhei. Quem conhece meu filho sabe bem que foi a primeira e única vez que ele ficou sentado meia hora. Só saí de lá porque ganhei um beijo na boca do meu labrador.

E agora eu só penso em voltar pra casa todo dia e dormir no colo dele de novo.

Etiquetado , , ,

Tem um bebê na barriga da mamãe

Era meio da semana, tipo terça ou quarta-feira. Eles foram pra escola e eu fui pra uma reunião em um cliente. Celular tinha ficado na bolsa e, assim que saí, vi a ligação perdida da escola.

Ligação da escola no meio do dia sempre é problema e retornei imediatamente:

– Alô? Isaac e Ruth estão bem?

– Estão sim, mamãe! A gente só ligou para te dar os parabéns e perguntar se podemos oficializar para os coleguinhas e tias!

– Hein?

– Soubemos hoje da gravidez!

– GRAVIDEZ DE QUEM, MANO?!?!?!? Eu não estou grávida!

Silêncio constrangedor do outro lado da linha.

– Não?

– Não!

– Mas Isaac e Ruth contaram para as tias que tinha um bebê na barriga da mamãe. Que eles iram ganhar um irmãozinho.

– Tá doida?

– Foi, sim. Cada um contou para a sua professora, em momentos diferentes, e eles não estavam juntos. – Isaac e Ruth ficam em salas separadas na escola.

– Como assim?

– Sim. Isaac me disse que foi a mamãe que contou isto para eles em casa.

– Tia, não, não tô grávida. Se eu estivesse, não ia querer parabéns. Eu estaria correndo pelada por aí gritando “nãããooooo, eu não dou conta de trêêêêssss!!!!! socorroooooooo, vai que são gêmeos de novooooooooo!!!!!!!”.

Pedidos de desculpas aceitos, ela ficou de conversar com eles, explicar e tal. Me contaram que nenhum amiguinho tinha contado recentemente que a mãe estava grávida. Perguntei para a tia da perua e ela também não tinha ouvido sobre outra mamãe grávida na perua. Eu sou sonâmbula, eu sei, mas acho difícil que eu tenha levantado de madrugada e dito uma coisa dessas para os dois, cada um no seu quarto.

Quando chegaram em casa à noite, eu perguntei o que tinha acontecido na escola durante o dia. Eles desconversaram, fingiram que não era com eles e seguiram a vida. Não falamos mais sobre o assunto até hoje. Crianças doidas, meu.

Etiquetado ,

Carta para minha filha

Querida filha,

Eu sei que você também sofre com todas as birras e descontrole, que não terminaram nos terrible two e já estão quase chegando aos four. Eu sei que é difícil ficar brava com o mundo, berrar até a garganta doer e se jogar no chão e bater a cabeça. Eu sei que eu sou a pessoa adulta nesse relacionamento e que é meu papel ter calma e paciência. Eu sei também que não sou um ser imaculado que tem calma e paciência 100% do tempo.

Mas você está me ensinando a ser paciente e tolerante. Você é a primeira pessoa neste mundo que nunca irá sair da minha vida mesmo que me irrite, que me teste ou que não faça as coisas que quero. Nós vamos ficar juntas e vamos tentar nos entender, para sempre.

Eu sei que você sofre de saudades. Eu sei que é difícil para você sair da escola com a perua e ser recebida em casa pela babá. Eu sei que você queria me ver antes. Sei também que no final do dia estou cansada, porque eu enfrento clientes atuais que precisam de atenção, novos clientes que entregam minhas metas de receita, chefe, equipe e colegas de trabalho que precisam de reuniões, materiais, definições e entregas. Você não tem nada a ver com isso e eu me esforço todos os dias para abstrair tudo isso enquanto estou no metrô para chegar bem humorada em casa.

Eu sei que todos os dias, sem exceção, você faz alguma bagunça feia na escola ou com a babá. O que você não sabe é que eu pedi para a escola e para a babá tentarem não me contar todas essas coisas em detalhes e hoje elas resumem, contam menos vezes, filtram um pouco mais. Fiz isso porque eu não quero chegar em casa todos os dias e ter conversas sérias e pesadas com você. Quero chegar em casa e te abraçar, ouvir suas histórias, contar sobre o meu dia. Quero te dar banho, brincar e te colocar para dormir. Quero te deixar feliz, quero te mostrar que não vou ficar brava e te dar broncas todos os dias.

Outra coisa que você não sabe é que eu entro no seu quarto todos os dias depois que você dorme para te cobrir e te abraçar. Você dorme pesado e nunca acorda. Você também não sabe que eu queria não ter perua e babá e te buscar na escola todos os dias, junto com seu irmão. Que eu questiono esse “esquema” todos os dias, mas que não sei qual outra alternativa funcionaria bem pra gente. Eu sei que você gosta de dormir cedo, porque isso te faz bem, então sei que não adianta chegar tarde e te deixar dormir uma hora mais tarde, porque você vai estar cansada demais para curtir esse tempo com a mamãe. Eu só não sei o que tenho que fazer para chegar em casa mais cedo todos os dias, sem que isso afete nossa renda e o meu equilíbrio.

Eu quero te ver feliz. Quero ver você tranquila, quero que se sinta linda, que seja querida pelo outros e que pare de roer suas unhas. Por favor, me ajuda a entender o que tenho que fazer para você parar de roer unha. Quero curtir você. Quero ficar mais tempo com você, sem essa de “tempo de qualidade”. Quero mais tempo mesmo. Queria levar você para trabalhar comigo amanhã.

Eu te amo muito, pequenina. Dorme bem, tá?

um beijo e um quentinho

Mamãe Ruri

Etiquetado , , , , , ,

Trollando os amigos da mamãe

Situação 1: o amigo que veio bancar a babá

Tinha o show do Paul e nenhuma vó ou vô ou babá disponível para ficar com eles. Apelei pro amigão que adora os dois, que veio aqui fazer o papel de mamãe até eu voltar pra casa. Quando chego, ele me conta:

– Na hora de dormir, a Ruth disse que só ia dormir com o cobertor das princesas (aquele que ela não quer usar há meses).

– E você achou o cobertor?

– Ela me disse que estava no seu quarto. Revirei todos os armários e gavetas e não achei.

– Porque não estava lá…

– Pois é. Quando voltei para o corredor, vi o roupeiro, abri e achei o dito-cujo. Olhei pra ela e perguntei: “você sabia que estava aqui?”. E ela respondeu que sim. (com aquela risada de canto de boca que conheço bem)

Boa, Ruth.

Situação 2: o amigo que veio pra almoçar

Depois do almoço, Isaac disse para ele que iria se vestir de Elsa. Aí rolou um papo meio assim:

– Por que você quer ser a Elsa? Por que você não se veste de príncipe? Você poderia tentar ser o príncipe, que tal?

Ele não respondeu, foi pro quarto e o assunto morreu por uns cinco minutos. Daí ele volta com uma fronha azul:

– Mamãe, faz uma capa da Elsa pra mim?

Rolou aquela troca de olhares na sala, e eu terceirizei:

– Faz uma coisa, pede praquele tio.

– Tá. Ô, tio, faz uma capa pra mim do… SUPER-HOMEM?

O tio sorriu achando que tinha vencido, a fronha foi devidamente amarrada na camiseta, fazendo a tal da capa. Menino ficou super feliz. Agradeceu, virou as costas e saiu correndo pelo corredor com as mãos para o alto:

– Livre estou, livreeeee estoooooouuuuu….

Toma essa, tio. Pensa que sou bobo?

Etiquetado ,