Arquivo do autor:Ruri

Frase elaborada

– Mamãe, quando o Isaac ficar grande, e quando eu ficar grande também, a gente vai tomar vinho com você.

Morri de orgulho. Não por causa do fator alcoólico da frase, tá? Morri de orgulho da frase enorme que ela construiu, com vírgulas, advérbios e conjunções.

Falta pouco pra gente poder conversar sobre a vida das mulheres na Arábia Saudita ou sobre essa história triste do Woody Allen, né?

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Ah, tá

– Ah, que bom, o horário de verão acaba neste final de semana e poderemos dormir uma hora a mais!

Claramente ela não tem filhos pequenos, que não estão nem um pouco preocupados em ter uma hora a mais para dormir.

🙂

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Trans

Minha filha de dois anos e dez meses, muito séria:

– Mamãe, eu tenho periquita, né?

– Isso.

– E o Isaac tem pipi, né?

– Isso.

Uns 15 segundos pensando, bem séria:

– Mamãe? Eu quero tirar minha periquita e trocar por um pipi.

G e n i a l.

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Ego

Enquanto eu tirava o pijama e punha o uniforme.

– Mamãe, dá beijo?

Dei beijo.

– Mamãe, dá abraço?

Dei abraço.

– Mamãe, você é princesa.

Dei mais beijo.

– Mamãe, você é linda e maravilhosa.

Esmaguei.

Ser mamãe faz muito bem pro ego, tá?

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Branca de neve

“A madrasta da Branca de Neve se achava muito bonita e ficou brava quando o espelho disse que a Branca de Neve era muito mais bonita que ela. Aí a madrasta mandou um homem matar a Branca de Neve. A Branca de Neve fugiu e foi morar com os sete anões. Quando descobriu que a Branca de Neve estava viva, a madrasta tentou matá-la de novo com uma maça envenenada. Durante o velório, um príncipe apareceu e resolveu dar um beijinho na Branca de Neve morta. A Branca de Neve ressuscitou e eles se casaram. Fim.”

Censura: 16 anos.

Ou alguém consegue ler essa história para criancinhas?

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Adolescência precoce

Quase todo dia é mais ou menos assim: na hora de entrar na escolinha, eles choram, pedem beijos, abraços, mais beijos, mais abraços, dizem que querem ficar mais com a mamãe, que não querem ficar lá e por aí vai. Aí a mamãe sai da escola se sentindo a pior criatura desse mundo. No final do dia, a mamãe chega feliz e contente na escola para buscá-los, achando que é hora de matar as saudades de um dia inteiro separados, mas aí eu sou chata. Eu interrompo a brincadeira ou a contação de histórias e eles sempre precisam brincar só mais um pouquinho antes de entrar no carro. Aí não querem beijo nem abraço e precisam desesperadamente escorregar mais uma vez no escorregador e correr pro fundo da escola para fazer mais alguma coisa importante.

Dureza.

Nesse dia, não foi diferente. Mas assim que liguei o carro, minha filha me falou bem séria:

– Não quero mamãe. Não gosto da mamãe. Você não é minha amiga. Não quero ir pra casa da mamãe. Quando chegar lá, não vou sair do carro.

Dois anos e dez meses. Há pouco tempo, eu tinha tido uma conversa com uma amiga que tem um filho de dez anos, que costuma gritar para ela um sonoro: “você arruinou a minha vida”. Falamos sobre adolescentes e eu fiquei feliz por ter ainda uns bons anos pela frente sem esse tipo de problema. Mas não. Onde foi que eu errei?

Eu respondi para minha filha que a amava muito, que sempre seria amiga dela, mas que achava tudo bem ela ficar dentro do carro se quisesse. Avisei que eu tinha que subir para o apartamento com o irmão dela e que poderia voltar mais tarde para buscá-la. Ela resolveu vir conosco. Com cara de brava, emburrada, como se sair da escola e voltar para casa fosse o maior absurdo de todos os tempos.

Um pouco mais tarde, quando eles já estavam de pijamas, eu perguntei se queriam ler um livro comigo. Meu filho disse que sim e minha filha disse que não. Que queria ir para o quarto dela. E foi. Fechou a porta e ficou lá dentro sozinha. Dois anos e dez meses e ela já precisa de espaço e privacidade.

Durou uns dois minutos. Até que voltou de mansinho para onde estávamos, me abraçou, disse que gostava de mim e que queria ouvir a história. Ficou abraçada comigo e depois foi dormir tranquilamente, toda carinhosa.

Cada uma. Não quero nem imaginar o que vai acontecer na adolescência de verdade.

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Colher

O brinquedo preferido do meu filho é um conjunto de colheres. Esse aqui ó, bem colorido, que ganhamos de um amigo meu. Elas foram usadas um bom tempo, até ficarem muito pequenas para as boquinhas. Então eles foram promovidos a crianças que usam colheres do jogo de talheres da mamãe e as colheres foram promovidas a brinquedos.

Mas foram promovidas a brinquedo preferido, literalmente. Meu filho frequentemente leva as colheres para a escola no dia de levar brinquedos para brincar com os amigos. Ele frequentemente me pede para dormir com as colheres, mas acho perigoso. Ele acorda todos os dias e a primeira coisa que faz é ir até a sala buscar as colheres na caixa de brinquedos. Ele toma leite com as colheres carinhosamente sentadas ao lado dele no cadeirão e toma banho com as colheres. Mesmo que ele não esteja brincando de panelinha, ele não larga as ditas-cujas. Por nada.

Aí eu não sou boba e, como são seis, deixei uma estrategicamente guardada no meu carro. Sabe aqueles momentos de pânico, quando está trânsito e a criança está chorando impaciente no banco de trás? Eu dou uma colher para ele e ele fica quietinho. Na última birra monstruosa de não-quero-ir-embora-da-escola-me-deixa-brincar-mais-um-pouquinho, eu voltei até o carro, peguei a colher, mostrei para ele e ele veio bonitinho até mim, sem chorar.

Pois é. Vai entender.

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Re-adaptação

Dessa vez, o erro foi meu. Eu sempre fui muito cuidadosa com a adaptação dos bebês a coisas diversas. Quando chegaram em casa, tomei cuidado com o número de visitas nos primeiros dias para não assustá-los. Tomei cuidado em manter a rotina deles bem parecida com a que tinham no abrigo, para que não sentissem tanto a mudança de casa. Só os deixei dormir na casa da vovó pela primeira vez uns quatro meses depois da chegada dos dois. Fiz a adaptação na escolinha em quase duas semanas, para que não sentissem muito a separação da mamãe, depois de cinco meses muito juntos comigo.

Mas, dessa vez, esqueci que eles são crianças. Acho que eu tava tão deprimida com o fim das férias e preocupada com o tanto de coisas que eu tinha que fazer no trabalho já na primeira semana, que simplesmente virei a chavinha de uma hora para outra: fomos dormir no ritmo de férias no domingo e eu acordei os dois às 6h na segunda no maior ritmo de trabalho e de vida normal do mundo, naquela super empolgação de começar um ano novo e tal.

Não façam isso.

Há três dias, meu filho chora do momento em que abre os olhos até entrar na escola. E ele chora, mesmo. De verdade. Alto. Não pára. Chora porque acorda e quer brinquedos, porque não quer fazer xixi, porque não quer tomar o leite, porque quer levar todos os brinquedos para a escola e não pode. Chora, treme os lábios, soluça. Um drama.

Há três dias, minha filha não quer sair da cama por nada. “Nanar é gostoso, só mais um pouquinho?” – diz ela, e não levanta. Quando finalmente desgruda dos lençóis, ela choraminga durante o processo todo um “aaaaaiii, mamãe”, como se tirar o pijama, colocar roupa, escovar os dentes, tudo doesse. Fica com um beicinho de dar pena, com cara de “não faça essa tortura comigo”.

Um filho fazendo birra é ruim, dois é demais.

Ser mamãe é exercitar a paciência e compreensão, com muito carinho, eu sei. Tô tentando consertar e resolver com muita calma. Mas se não melhorar em uma semana, vou levantar chorando também e vou chorar até chegar no trabalho.

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Soninho da tarde

Sei que vão me chamar de malvada, mas se tem um hábito de bebê que eu gostaria de manter por anos ainda é o soninho da tarde. Gente, como é legal pra caramba o soninho da tarde.

Eu não sei como é ter um filho só. Mas cuidar de gêmeos aos sábados e domingos é muito mais difícil que passar horas no escritório durante a semana. Depois do almoço, ou seja, depois de preparar café da manhã para dois, brincar de um monte de coisas – porque eles perdem o interesse por qualquer coisa em dez minutos, levar ao banheiro 300 vezes, chamar atenção outras 300 vezes, separar brigas, aguentar choros, birras e afins, dar dois almoços e limpar dois sujismundos, ouvir duas coisinhas fofas que não param de falar um minuto sequer, eu simplesmente preciso do soninho da tarde. E eles precisam dormir para eu conseguir aguentar a segunda parte do dia. Raramente durmo, mas acho soninho da tarde uma das maiores maravilhas do mundo (depois de noites bem dormidas, claro). Principalmente porque, por estarem muito acostumados a dormir todo dia após o almoço, é muito difícil de aguentar os dois quando por algum motivo pulamos esse momento.

Será que consigo manter o hábito até eles terem pelo menos uns 12 anos?

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Eu não saio do banheiro

Desfraldar não foi tão traumático assim e é melhor levar criança no banheiro que trocar fraldas. Tô feliz por estar há semanas sem ver um cocô na fralda, daqueles amassados e espalhados por todo lado, que nos fazem ter vontade de embrulhar a criança junto com a fralda suja e jogar fora.

Logo que soube que eu seria mamãe de menina, uma amiga que também ocupa esse posto me disse assim: “toma muito cuidado para não deixar nenhum cocô encostar na periquita, porque pode virar uma infecção”. Como se eu tivesse opção de não deixar o cocô encostar lá e como se a própria fralda não se encarregasse disso.

Enfim.

Acontece agora que passo boa parte do meu tempo no banheiro. Acho que entro no banheiro, em média, a cada três minutos. Porque funciona assim: eles me pedem várias vezes para ir ao banheiro, mas quando sentam no vaso, desistem. Quando um pede, o outro pede também. Eles fazem cocô a prestações; cada vontade de fazer cocô significa umas três idas ao banheiro, porque ninguém tem paciência de esperar fazer tudo de uma vez. Vezes dois, né? E ninguém aprendeu a deixar a bexiga encher antes de esvaziar, então por aqui tem uma infinidade imensa de mini-xixis durante o dia.

E o mais bizarro é que, com gêmeos de dois anos e tralalá ocupando toda minha atenção, eu mesma não tenho tempo de fazer tanto xixi ou cocô como eu gostaria. Dureza, viu?

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