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Escolinha

Depois de telefonar e visitar uma dúzia de escolas, escolhemos a escolinha onde os bebês vão estudar no ano que vem, quando mamãe voltará a trabalhar.

A primeira coisa que queríamos era um lugar pertinho de casa, porque eles não precisam conviver com o trânsito de São Paulo diariamente desde tão pequenos. Isso também facilita a logística, pois papai e mamãe vão se dividir para levá-los e buscá-los todos os dias (e, eventualmente, vamos pedir um socorro para uma das vovós).

Depois começamos a avaliar as instalações, alimentação, horários e valores das mensalidades. Eles vão estudar em horário integral (sairão de casa conosco de manhã e os pegaremos no final do dia, voltando do trabalho); de manhã ficarão na recreação e à tarde farão as atividades pedagógicas. Como sabemos que é bastante tempo, procuramos uma escola com vários ambientes (além da sala de aula, brinquedoteca, parquinho ao ar livre, biblioteca, refeitório, sala de vídeo etc.), para que eles não ficassem o dia todo no mesmo lugar. Também nos sentimos mais seguros sabendo que nossos bebês estarão em uma escola pequena, que atende apenas crianças até 5 anos.

De todas, alimentação foi nossa principal preocupação. Como vão passar o dia todo, farão todas as refeições lá durante a semana (café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar) e fomos bastante rigorosos com essa questão. Descartei as escolas que disseram que oferecem sucos ou outros itens industrializados para as crianças e li o cardápio mensal de todas elas, para ter certeza que oferecem refeições variadas com muitas verduras, legumes e frutas para os alunos. A escolinha onde nossos bebês estudarão também não permite que as crianças tragam lanches de casa, para garantir que ninguém consuma guloseimas na escola.

A escolinha oferece educação bilíngue, mas optamos por pensar sobre isso um pouco mais para frente e deixá-los aprender bem a língua materna antes. Ensinar inglês para bebês de menos de dois anos nos dá a sensação de já querer prepará-los para o mercado de trabalho, então decidimos que eles farão música no primeiro ano de escola e que depois poderão entrar no judô, ballet, artes e natação.

Nós também conversamos muito sobre como seria voltar a conviver com outras crianças, em um ambiente com menos atenção individualizada, e se eles já estavam preparados para isso, pois a experiência que nossos filhos tiveram é oposta à experiência de outras crianças: eles primeiro viveram em um ambiente “coletivo”, para depois conhecer a vida só com a família. Mas concluímos que são filhos de papais que trabalham e que faz parte da nossa vida em família ir para a escolinha o dia todo. Além disso, achamos entediante para eles passar o dia todo entre o apartamento e o parquinho do prédio com apenas um adulto, principalmente em uma idade em que precisam de muitos estímulos, e temos certeza que eles vão adorar a escola.

E ficamos mais tranquilos ainda quando soubemos que há outros alunos que foram adotados e que nenhum deles passou por um período de adaptação mais difícil que os alunos que vivem com a família biológica. Estávamos com medo que eles tivessem um sentimento de abandono nos primeiros dias de aula, como se fossem voltar a viver em um abrigo. Mas a diretora nos garantiu que eles rapidamente entenderão que papai ou mamãe voltarão no final de todos os dias para buscá-los e que não ficarão inseguros. Tomara! Porque confesso que já estou com dorzinha no coração por ter que ficar o dia todo longe dos dois.

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O exemplo e o consumismo

Como todos os papais – biológicos ou adotantes – nós temos uma porção de valores que queremos passar para nossos bebês e uma outra porção de coisas que queremos ensinar para eles. Coisas que dizem muito sobre quem somos e tal. Coisas comuns como alimentação, sono e educação.

Alimentação foi o que mais tomou nosso tempo até agora. Primeiro gastamos um tempo tentando entender por que todas as pessoas do mundo – mesmo que tenham seus próprios filhos – têm um desejo incontrolável de dar porcaria para as crianças comerem. Nós sabemos que um dia nossos filhos vão provar e gostar de guloseimas e não vamos proibir totalmente. Mas hoje eles têm um ano e meio e podem viver sem refrigerante, batata frita, bala, bolacha recheada, salgadinho etc. Depois de muita irritação, entendemos que o dever de oferecer e ensinar a ter uma boa alimentação é dos papais e estamos nos esforçando para isso. Não tem papinha salgada industrializada em casa; o papai prepara o arroz, feijão, lentilha, legumes, carne, frango, sopa, macarrão e tudo mais para as refeições em casa e eles podem comer alguma coisa do cardápio quando vamos a restaurantes. Também não temos guloseimas e a papinha doce é servida só na rua; em casa comem quatro porções de fruta na sobremesa e nos lanches, todos os dias. E não são coitadinhos porque comem só fruta. A hora da fruta é quando mais nos divertimos na cozinha: canto para eles enquanto lavo, descasco e corto e muitas vezes os deixo comer as frutas sozinhos – o que é uma farra e uma sujeira! Recentemente, durante a pesquisa de escolinhas para o ano que vem, desistimos de uma que era ótima em vários quesitos (localização, instalações, parte pedagógica, preço) porque eles só oferecem suco em pó ou concentrado – e achei muita preguiça não fazer suco natural para as crianças.

Televisão foi outra preocupação. Nas primeiras três semanas, eles não assistiram televisão porque eu não costumo ligar a televisão se não for assistir alguma coisa específica. Depois ganharam DVDs da Galinha Pintadinha, Pequerruchos e alguns outros e me rendi: passei a colocar para eles um pouquinho por dia e gostei. Mas até hoje não ligo em televisão aberta ou fechada para que vejam desenhos. Não porque eu não reconheça que alguns programas são educativos e divertidos, mas porque a quantidade de anúncios sobre brinquedos e guloseimas me incomoda. É impressionante como a questão em torno da publicidade infantil vira relevante quando nos tornamos papais. Eu quero conhecer os produtos infantis e decidir se são bons para meus bebês, mas gostaria que os anunciantes falassem diretamente comigo, e não com meus filhos. Hoje mesmo passei por um canal infantil na televisão fechada e vi o anúncio de um cachorro que fala por apenas “x” reais. Sem discutir a utilidade de um cachorro de pelúcia que fala, desde quando as crianças precisam saber o preço do brinquedo ou conseguem entender se o preço “x” é razoável para seus pais?

E, com a publicidade, vem a discussão sobre os brinquedos. Nós não queremos ser radicais. Nossos bebês terão brinquedos e ganharão presentes no aniversário, no dia das crianças e no Natal. Mas não terão brinquedos exagerados ou caros. E não queremos que eles fiquem possessivos com seus brinquedos, então em casa não há “brinquedo da menina” e “brinquedo do menino”. Os brinquedos ficam juntos e os dois brincam com o que quiserem. Eles têm duas motocas e geralmente brincam ao mesmo tempo, mas nunca dissemos que ela tem que usar a rosa e ele tem que usar a azul – eles escolhem a que preferirem. Esses dias vi uma boneca em uma loja de brinquedos que me deixou arrepiada. De medo. Era uma boneca quase “real”, que come, fala, faz um monte de outras coisas e faz cocô. Ao lado da boneca, havia pacotes de papinhas e fraldas vendidos separadamente, para repor as fraldas que a boneca sujar. Quase caí para trás. Depois de longas discussões sobre o uso de fraldas descartáveis ou fraldas de pano em nossos bebês, porque estávamos preocupados com o impacto no meio ambiente, eu nunca poderia imaginar que um adulto pudesse achar que é legal desenvolver, fabricar, anunciar ou comprar fraldas descartáveis para uma boneca.

Nós não queremos que eles cresçam achando que podem ter ou comprar coisas sem nenhum limite. Ou achando que serão melhores se tiverem tal roupa ou tal objeto. E para ensinar isto a eles, nós damos o exemplo: quando compramos nosso apartamento, não saímos comprando todos os móveis e objetos de decoração sem antes decidir se realmente precisávamos ou queríamos aquilo. Da mesma forma, não saímos comprando um enxoval novinho em folha para os dois, sem nem saber exatamente do que eles precisariam. Ao invés disso, nós recebemos doações de amigos queridos e depois entendemos as necessidades dos nossos filhos. Uma delas foi a mamadeira, que eles largaram quando vieram para cá, e teria sido um desperdício comprar todos os cacarecos que a acompanham (esterilizador, esponja para lavar, bolsa térmica para carregar etc.).

Seja alimentação, consumismo ou qualquer coisa que os papais queiram ensinar, o mais importante é dar o exemplo. Nós acreditamos que nossos bebês vão sempre comer bem porque nós mesmos sempre colocamos verduras, legumes e frutas em nossos pratos. E também acreditamos que não adianta voltar carregado de roupas e eletrônicos dos Estados Unidos, trocar o carro e o celular todo ano e querer que os filhos tenham uma infância livre de consumismo. De novo, não queremos ser radicais e sei que tenho mais sapatos do que preciso – só achamos que as crianças precisam ver coerência no que ensinamos para elas.

Depois que os brigadeirinhos chegaram, mudamos um pouco o foco de nossas leituras do “como se preparar para a adoção” para “os cuidados com o bebê” e encontramos o movimento Infância Livre de Consumismo. E decidimos apoiar. Apoiamos uma infância feliz, com carinho, brincadeiras, músicas, passeios e gargalhadas. Sem consumismo.

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Arroz

Diálogo com nossa faxineira:

‎- Jeane, não tem arroz pro almoço dos bebês. Você pode fazer, por favor?
– Não. Esses bebês não podem ter mãe que não faz nem um arroz. Você faz e eu fico aqui te ensinando.

Hoje bebês tiveram que comer arroz da mamãe. ♥

E o resultado: meu filho comeu tudo, porque é um esfomeado e come qualquer coisa. Minha filha não almoçou muito bem hoje…

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Primeira visita da assistente social

Hoje à tarde recebemos a visita da assistente social em casa. Ela ligou para agendar há uns 3 dias e pediu para todos estarem aqui no horário combinado. Durou uns 20 minutos. Perguntou sobre a rotina deles aqui em casa, o que estão comendo e como está a saúde dos dois. Pediu para ver o quartinho dos dois, o banheiro e notou as pequenas alterações que fizemos em casa (colocamos telas de proteção nas janelas e um portão para que eles não entrem na cozinha sozinhos). Perguntou também se estamos de licença maternidade/ paternidade, se tenho ajuda durante o dia para cuidar dos dois e como estamos organizando a nova vida.

Eu tirei a licença maternidade para cuidar da adaptação dos dois e infelizmente meu marido não pôde fazer o mesmo. Mas como optamos por fazer tudo sozinhos e olhar de perto tudo o que está acontecendo em nossa casa, não temos babá e não está nos nossos planos contratar uma. Nossa faxineira vem duas vezes por semana e pedimos para ela tentar vir um dia a mais. Além disso, combinamos com uma das vovós que os bebês passarão um dia por semana na casa dela, para mamãe poder fazer coisas sozinha. Tirando essas 5 horas que ficam sozinhos com a vovó, estou com eles o tempo todo, muitas vezes sozinha até o papai chegar do trabalho.

Virar papais de uma hora para outra não nos deu tempo para pensar em um monte de detalhes que fazem a casa “funcionar”. Nós não tínhamos ideia que bebês sujavam tanta roupa – são duas ou três roupinhas por dia, porque além de engatinharem para-lá-e-para-cá, às vezes derramam comida ou deixam escapar um xixi ou cocô. Se antes lavávamos roupas uma vez por semana, agora usamos a máquina umas três ou quatro vezes na semana, e geralmente temos mais roupa para lavar do que a capacidade dos nossos varais. Também ainda não acertamos a quantidade de compras de supermercado, porque temos que ter comida todos os dias, para nós quatro. Sempre falta alguma coisa e temos que sair correndo para buscar. No primeiro final de semana, meu marido cozinhou um monte de papinha e sopinha e não tínhamos potinhos suficientes para congelar tudo. E como não deu tempo de providenciar toda a “lista completa de enxoval para bebês”, todos os dias percebemos que eles precisam de algo, tipo termômetro para crianças (o convencional é uma tortura), alicate para cortar unhas e meias anti-derrapantes.

Apesar de estarmos achando tudo muito confuso, eles estão super bem. Estão sorridentes e brincando muito. Já conhecem bem os papais e a casa e entendem muitas coisas que falamos para eles: por exemplo, vêm sozinhos até a porta da cozinha quando chamamos para comer e sabem quando tomaram bronca por mexer em alguma coisa que não é de criança. Os dois estão dormindo super bem – das 20h às 7h e das 12h às 15h – e acordam de bom humor (sim, é quase ganhar na megasena). E, fora umas duas ou três birras para comer que nossa filha fez, estão se alimentando bem, comendo tudo que oferecemos e muito!

Além da visita da assistente social, teremos entrevista com a psicóloga em setembro e a avaliação final do estágio de convivência será feita em janeiro, para então recebermos a guarda definitiva dos nossos filhos!

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Nova rotina

Para que eles se sentissem seguros (e também porque gostamos dos horários deles), mantivemos a mesma rotina que eles tinham enquanto moraram no abrigo: antes das 7h, os papais tomam banho e ficam prontos para acordar os bebês (alguns dias eles resolveram acordar antes das 7h e ficou um pouquinho atrapalhado). Quando acordam, trocamos as fraldas, tiramos o pijama e eles vão tomar café da manhã. Papai então sai para trabalhar e mamãe vai brincar na sala (vida boa!). Às 9h30 eles comem fruta, depois brincam mais um pouco. Às 11h30 almoçam e vão para o quarto para o soninho, que dura até umas 14h30. Depois acordam e tomam lanche da tarde. O jantar é às 17h30, depois banho, pijama, última mamadeira, escovar dentes e cama às 20h. Acontecem algumas trocas de fraldas durante todo esse processo.

Alguns costumes do abrigo vamos manter em casa, porque achamos ótimo. Eles não são “ninados” antes de dormir. Nós os colocamos nas caminhas, fazemos um pouco de carinho, deixamos a luz bem fraquinha, damos beijinho de boa noite e fechamos a porta. Às vezes eles ficam resmungando no quarto uns 5 minutos, mas logo dormem. Os horários de dormir também são muito bons: às 20h vamos jantar juntos, conversar e temos um “tempo de adulto”; depois temos uma noite inteira de sono até o dia seguinte. Também comem super bem e de tudo: muita fruta, muitos legumes, chá, suco, leite. E já chegaram treinados em várias coisinhas: deixam escovar os dentes e limpar o nariz e ajudam a vestir as roupinhas.

Em outras coisas, ainda estamos apanhando: nosso filho não gosta muito de banho. Está melhorando, mas nos primeiros dias berrou durante o banho todo e só parou quando tiramos de lá. Nossa filha faz o contrário: se diverte no banho e começa a berrar quando tem que sair. Ela deixa pingar as vitaminas na boquinha, com ele é uma pequena batalha para dar certo. Também têm ciúmes um do outro e brigam bastante, com direito a alguns tapas e mordidas.

E algumas coisas queremos mudar, aos pouquinhos. Eles estavam acostumados a comer muito rápido, porque muitas crianças almoçam e jantam ao mesmo tempo no abrigo e são poucas educadoras, então mal terminam de engolir e já gritam pela próxima colherada. Estamos ensinando a comer mais devagar. Também estavam acostumados a descer do cadeirão assim que terminavam, pois outras crianças seriam alimentadas logo em seguida. Em casa, eles ficam sentados um pouquinho mais antes de voltar para a sala. Estamos fazendo assim porque queremos começar a sair para almoçar fora com eles e eles terão que ter paciência para ficar sentadinhos no cadeirão enquanto os papais comem. Além disso, eles brincavam todos os dias em um lugar onde só ficavam coisas de crianças e podiam mexer em tudo. Aqui em casa, temos plantas, vasos, livros que ficam na mesa de centro, quatro luminárias de piso e outras coisas que não são de criança, e não queríamos mexer na decoração da casa toda. E estamos pacientes tentando ensiná-los tudo isso.

Como eles dormem bem, nós também conseguimos descansar e não estamos parecendo zumbis. Mas todo o tempo pensamos neles: fizeram cocô? o que vão vestir? o que vão comer na próxima refeição? estão felizes?

… Sim, acho que estão felizes!

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