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Mamãe frustrada

Meus queridos,

Estou tentando ter essa conversa com vocês quase todos os dias, mas sei que vocês ainda não conseguem entender tudo o que estou falando. Só que eu vou continuar insistindo. Vou falar sobre isso um pouquinho por dia, todos os dias, até vocês conseguirem me entender.

Fato é que está muito difícil fazer qualquer coisa com vocês dois.

Pronto. Falei. Não tá dando.

Tá. Muito. Difícil.

Tô cansada de crianças que choram por qualquer coisinha, de crianças que correm para longe de mim e me obrigam a segurar firme as mãozinhas o tempo todo (só tenho duas mãos, lembram?), de crianças que fazem birra, de crianças que mexem em tudo que está pela frente sem perguntar se pode antes, de crianças que – do nada – resolvem fazer alguma coisa chata só para me irritar (exemplos: ficar em pé na cadeira para comer em pé, assoar o nariz sem papel e vir me mostrar melecas escorrendo por cima da boca, jogar coisas no chão). É chato, tô cansada, tá?

Eu programo um monte de coisas para fazermos juntos no finais de semana porque quero que vocês se divirtam e porque quero levá-los para ver o mundo! Invento um monte de coisas legais para levar vocês dois. E pretendo continuar levando. Mas, filhos, por favor, colaborem com a mamãe? Não tá dando para ficar fazendo um monte de programas que não são legais para mim, não. Eu volto para casa cansada, irritada e arrependida por ter saído com vocês, porque vocês não me obedecem. É muito chato. Tá quase valendo mais a pena passar os dias trancados em casa para não ouvir gritarias e para não ter que correr longas distâncias atrás de seres que não conseguem ficar parados ao meu lado.

O que eu espero de vocês dois, de todo o meu coração:

  • Que eu não tenha que chegar no restaurante e pedir para o garçom tirar todas as coisas de cima da mesa para que vocês não comam sal direto do saleiro, que não amassem todos os guardanapos, que não joguem azeite no cabelo da(o) irmã(o), que não batam o prato de porcelana na mesa. Que eu não tenha que pedir para não falar alto, para não bater talheres na mesa, para não jogar coisas no chão. Basicamente, que vocês não façam com que as pessoas das mesas vizinhas me olhem com cara de “restaurantes não são para crianças”, porque eu detesto fast-food.
  • Que eu consiga soltar a mão de vocês para fazer coisas necessárias, tais como: pegar minha carteira para pagar uma conta, amarrar meu tênis, cumprimentar uma pessoa.
  • Que vocês não chorem/ não façam escândalo na hora de ir embora. Melhor: que não chorem em ocasião alguma que não seja doenças ou machucados.
  • Que vocês não ponham a mão em NADA que não seja de vocês.
  • Que vocês fiquem sentados ao meu lado quando estivermos esperando alguma coisa (de consultas médicas a peças de teatro).

Me ajudem, por favor? Vamos começar a entender que os passeios precisam ser legais para nós três? Vamos começar a entender que eu tô tentando ser legal com vocês dois e tô esperando que vocês sejam legais comigo também? Por favor?

muitos beijos

Mamãe Ruri

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Carteirinha de estudante

Filho e filha,

Mamãe já vai fazer 33 anos e não estuda mais há muitos anos. A essa altura da vida, também convivo com pouquíssimas pessoas que ainda estudam. Mas, curiosamente, ainda convivo com muitas pessoas que usam carteirinha de estudante. Estranho, né? Também acho. 

Funciona assim, meus queridos: os estudantes têm direito a pagar meia entrada no cinema, no teatro, em shows e outros eventos. Por isso paguei apenas metade do valor do ingresso do teatro para cada um de vocês quando fomos assistir o Mágico de Oz. Será assim durante muitos anos, porque vocês ainda estudarão durante muitos anos. Mas aí vocês terminarão os estudos e esse direito também terminará, ok?

Algumas pessoas não estudam mais, mas resolvem falsificar a carteirinha de estudante para continuar usufruindo de um direito que não é mais delas. Isso é muito feio. Algumas dessas pessoas comemoraram muito a recente prisão de políticos corruptos, sem conseguir enxergar que elas também enganam e roubam. Não roubam tanto dinheiro, mas os conceitos de “enganar” e “roubar” são os mesmos, tá?

“Ah, mas as coisas são tão caras” – elas vão argumentar. “Não dá para pagar R$ 600 em um show”. Concordo. As coisas são caras e nem sempre temos dinheiro para fazer tudo o que queremos. Mas eu quero ensinar para vocês que quando acho alguma coisa cara, eu escolho não comprar e nunca escolho roubar. Nós não devemos roubar essa coisa porque não pretendemos pagar por ela. Quando acho que um par de sapatos está muito caro, eu não pago por apenas um e roubo o outro da loja. Eu não compro. Ponto.

Então, meus lindos, por favor, prometam para a mamãe que nunca na vida irão falsificar carteirinha de estudante, tá? Isso vai me deixar muito triste.

um beijo

Mamãe Ruri

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