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Amor incondicional

Nós não vamos ficar escrevendo o quanto amamos nossos bebês, o quanto eles são importantes para nós, nem nenhum clichê do gênero. Nesse post queremos dizer para todas as pessoas que nos parabenizam por termos coragem de adotar nossos filhos porque elas não conseguiriam fazer o mesmo e para as pessoas que nos perguntaram como é ter um filho tão diferente de nós (se referindo ao fato de nosso filho ser mulato) que elas não sabem o que é amor incondicional. Essas pessoas amam seus filhos com a condição de que sejam filhos biológicos e que sejam fisicamente parecidos com elas. Essas pessoas provavelmente valorizam mais os “laços de sangue” que os laços de amor e carinho.

Nos últimos dias começamos a pesquisar escolinhas para nossos filhos. Liguei para várias delas para pedir informações e para todas disse que tenho gêmeos de 1 ano e 5 meses. Todas as pessoas que me atenderam – sem exceção – fizeram comentários super positivos para os gêmeos, como “que legal!”, “que lindo!” ou “que sorte!”. Nós também achamos que ter gêmeos é muito legal, muito lindo e muita sorte. O engraçado é que ter gêmeos é legal, mas ter gêmeos adotivos é coragem (como contamos nesse outro post).

O que nos incomoda não é que nem todas as pessoas queiram adotar um filho. Nós não achamos que todas as pessoas deveriam adotar. No Cadastro Nacional de Adoção (CNA) há mais de 25 mil pretendentes e cerca de 5 mil crianças disponíveis para adoção, ou seja, não há exatamente necessidade de aumentar o número de papais que querem adotar. Também concordamos que ter um filho biológico deve ser incrível, e por isso ainda não desistimos completamente de talvez-quem-sabe-um-dia ter um filho biológico. Incomoda que pessoas, muitas delas sem nenhuma intimidade conosco, façam perguntas e comentários sem pensar no que vamos sentir ou se vão nos ofender.

Para terminar, hoje um conhecido escreveu no Facebook que, ao invés de publicar mensagens divulgando cães e gatos para adoção, as pessoas deveriam lançar mensagens com fotos de crianças carentes com um texto assim: “Fui jogada na lata de lixo, preciso me alimentar, preciso também de carinho e de medicamentos. E, claro, de escola, de cultura. Você não quer me dar um lar? Eu não pedi para nascer…“. Isto ofendeu bastante. Crianças não ficam expostas na vitrine, esperando que alguém tenha dó delas e queiram fazer a caridade e o favor de levá-las para casa. Adotar um filho não é caridade e não é salvar uma criança. Adotar uma criança é amor. Incondicional.

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“Que coragem!”

Nós não imaginávamos que seríamos chamados tantas vezes de “corajosos” porque adotamos dois bebês. Perdemos as contas de quantas vezes ouvimos isso e simplesmente não entendemos, porque não tivemos que “tomar coragem” ou nada parecido e porque ter dois filhos é uma das coisas mais comuns do mundo.

Nossa ideia original eram dois filhos – um adotivo e um biológico – e optamos por uma criança ou gêmeos quando definimos o perfil de nosso filho adotivo porque, como na gravidez biológica, nós queríamos tentar a sorte de ter gêmeos. Sempre torcemos por gêmeos e fomos presenteados com um casalzinho na adoção! E, de uma única vez, ganhamos os dois filhos que queríamos ter.

A mudança na nossa vida e o trabalho que temos com nossos bebês não seriam muito menores se eles fossem um só: com um ou mais filhos teríamos que acordar às 7h inclusive aos finais de semana, ter sempre comida caseira e frutas em casa, lavar roupinhas, trocar fraldas, guardar brinquedos etc. Sim, dá mais trabalho sair de casa sozinha com os dois, mas é mais divertido e sempre engraçado. Da mesma forma, deve dar trabalho ter um filho começando a ir para escola e um filho acordando a cada 3 horas para mamar, ou um filho estudando de manhã e um filho estudando à tarde, ou um filho que está na faculdade e quer o carro emprestado, enquanto os papais precisam levar o outro filho para o colégio.

Nós esperamos que ninguém esteja querendo dizer que somos corajosos porque temos dois filhos adotivos, como se fosse muito diferente ou muito mais difícil que ter dois filhos biológicos. Ser papais de um casal de gêmeos que foram adotados não é mais difícil, mais ousado ou mais corajoso que ser papais de quaisquer outros dois filhos. Temos certeza.

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Comentários sobre adoção

Depois do episódio com o Dr. Geraldo, médico da nossa família que teve uma reação bastante negativa quando contamos da adoção, nunca mais – ainda bem! – ouvimos comentários negativos sobre o assunto. Nas demais vezes, quando contamos que vamos ser mamãe e papai e que já estamos esperando nosso filho, recebemos parabéns, abraços e desejos de felicidades!

Apenas duas vezes, no ano passado, ouvi duas coisas sobre adoção que não gostei, mas não foram diretamente para mim, pois as pessoas não sabiam que estávamos pensando em adotar. Uma dessas pessoas me disse que não acreditava em adoção porque conhecia um caso de adoção que não deu certo. Na hora, pega de surpresa, respondi que eu conhecia muitas histórias lindas de adoção: uma prima que foi adotada, uma grande amiga da minha mãe que adotou uma menina, além de três amigas que também adotaram e são muito felizes. Depois conversei com meu marido e ficamos pensando que eu devia ter respondido que “adoção que não deu certo” é despreparo dos pretendentes, que provavelmente não tiveram amor e paciência para lidar com as reações e comportamento da criança e que não se prepararam antes de resolver adotar. E, além disso, também conhecemos várias histórias de casamentos que não deram certo e nem por isso deixamos de nos casar.

Às vezes os comentários não são maldosos, mas são errados. Por exemplo, não gostamos quando as pessoas nos dizem “que coragem!”. Coragem é enfrentar o perigo ou fazer alguma coisa ousada. Ser mamãe e papai não é perigoso e ser papai adotante não é mais ousado que ser papai biológico. Então não é coragem, é só amor. Também não estamos fazendo nada “nobre”, como se estivéssemos fazendo caridade ou salvando a criança. Vamos ser pais, só isso. Nós também não entendemos quando nos perguntam porque não queremos um filho biológico antes. Os dois serão nossos filhos, então a ordem de chegada não faz diferença.

Mas ficamos tristes quando ouvimos histórias de colegas dos grupos de apoio que já ouviram comentários maldosos ou preconceituosos, como “vocês não têm medo que a criança tenha a índole dos pais biológicos?” e “o que vocês farão se a criança quiser conhecer os pais de verdade?”. A criança será um reflexo de sua família e da educação, carinho e amor que receber, então não há motivos para temer que ela “puxe” a índole dos genitores. Sim, ela terá a carga genética deles, mas não podemos afirmar que é melhor ou pior que a nossa própria carga genética. E os “pais de verdade” seremos nós dois, assim como a “família de verdade” será a nossa. No entanto, não temos medo de que ele queira procurar a família biológica. Apoiaremos o direito de nosso filho de procurar os genitores quando for adulto, pois é um direito dele e não faz sentido termos ciúmes ou impedir isso.

Adotar é amar um filho, exatamente o mesmo conceito que todos conhecem quando pensam em filhos biológicos. Nosso filho vai viver um amor assim: imenso e incondicional. A partir de agora que recebemos a habilitação, mais pessoas saberão que estamos esperando nosso filho. E estamos torcendo para ouvirmos só comentários carinhosos.

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