Nossa vida sem carro

Eu comemorei, tá? Quando me dei conta que estava há mais de um ano vivendo sem carro, comemorei.

Óbvio que ninguém que vive em São Paulo gosta de trânsito, eu nunca gostei de trânsito. Mas trânsito passou a ser um stress na minha vida depois que virei mãe. Antes disso, eu vivia nos meus horários “alternativos”, entrando no trabalho depois das 10h e saindo de lá depois das 23h e nunca-jamais-de-forma-alguma saía na rua às 18h. A maternidade traz horários e compromissos rígidos e intransferíveis e o trânsito paulistano passou a me enlouquecer. Quando digo enlouquecer, é no sentido literal.

Sem carro, eu passei a viver uma vida sem trânsito. Com isso, eliminei uma das coisas que mais me estressavam e passei a viver mais leve.

Há um tempo atrás, escrevi aqui no blog que o transporte público em São Paulo não funcionava e que eu invejava pessoas que moravam em cidades onde era possível se locomover de bicicleta. São Paulo, me perdoa. Você tem muitos problemas e há, sim, oportunidades de melhoria no transporte público e nas ciclovias, mas andar de ônibus, metrô e bike em São Paulo é mil vezes mais feliz que enfrentar o trânsito de carro. Experiência própria.

Em um ano, nem uma vezinha sequer eu lamentei não ter carro. Moro a duas estações de metrô de um shopping onde tem uma locadora de veículos. Aluguei carro algumas vezes para viajar e duas vezes para fazer coisas na cidade (compras grandes e transporte de coisas desajeitadas). Nos últimos meses, comecei a evitar ao máximo o taxi, por uma questão de $, que a coisa não tá fácil pra ninguém. Depois criei coragem para começar a usar a bicicleta na cidade. Eram dois medos: assaltos e atropelamentos. O medo de assaltos foi resolvido com um seguro e o medo de atropelamentos não foi resolvido, mas capricho nos acessórios de segurança e enfrento. Levo criança na garupa (uma de cada vez, pois só aguento uma cadeirinha na bike) para fazer coisas pelo bairro, porque fui presenteada com uma ciclovia a 150 metros de casa. Quando estou sozinha, vou mais longe e considero bicicleta uma alternativa ao metrô e ônibus.

E o que isso tem a ver com maternidade, já que tenho um blog para falar sobre maternidade? Não ter carro mudou muito nosso estilo de vida e acho que meus filhos amadureceram e aprenderam muito com esse nova vida sem carro.

Primeiro, eles entendem bem a cidade onde vivem. Sabem andar na rua e atravessar a rua com segurança. Conhecem as faixas destinadas aos ônibus, as ciclovias, a faixa de pedestre, as preferenciais. Sabem que os semáforos para pedestres fecham muito rápido e é preciso andar rápido e prestar atenção. Sabem que, mesmo com o semáforo fechado, alguns motoristas precisam tirar a mãe da forca e é preciso sempre olhar para os dois lados. Conhecem bem as estações de metrô e os pontos de ônibus e sabem o que precisam fazer para pagar, para pedir para descer do ônibus ou como esperar o metrô atrás da faixa amarela. Há pouco tempo eu estava de papo com um adulto que vive em São Paulo e que não sabia o que era o Bilhete Único. “Mas dá pra pagar em dinheiro se eu quiser?” – ele também não sabia que tinha cobrador no ônibus. Também não sabia como fazer para descobrir que linha pegar (nunca tinha visto as rotas via transporte público no Google Maps), nem o preço (só sabia que as pessoas reclamaram do aumento de R$ 0,20), nem nada. Isso não é uma crítica a quem nunca entrou num ônibus; meu sentimento foi só um super orgulho dos meus pequenos, que já poderiam explicar como se faz para pegar o metrô ou o ônibus para ele.

Em segundo lugar, eles não são telespectadores da cidade. Andando apenas de carro – porque quando a gente tinha carro era de carro que eles iam pra escola, pro parque, pra casa da vó etc. – eles viam o mundo através de uma janela com insulfilme. Hoje eles estão inseridos e fazem parte do mundo que rola do lado de fora dos carros. Passam a centímetros de distância de moradores de rua e vendedores ambulantes, olham de perto o movimento de carros, ônibus, bicicletas e pedestres, passam perto das vitrines das lojas de rua, cruzam com pessoas, sentem o cheiro, ouvem o barulho. Estão dentro de trens lotados no horário de pico, estão embaixo do guarda-chuva quando está chovendo, estão parados no ponto enquanto o ônibus demora.

Sem carro, eles dividem vagões com pessoas diferentes. E aprendem que as pessoas são diferentes umas das outras em diversos aspectos. Eles não conseguiam ver toda essa diversidade apenas nos lugares que estão na rotina deles. Porque é assim, ó: a escola tem um preço e a maioria das famílias tem uma renda parecida para estudar lá, além de morarem na mesma região. A gente freqüenta shoppings perto de casa ou onde estão as lojas que a gente gosta, como todas as outras pessoas que estão lá. O resort das férias também diz muito sobre a renda das famílias, assim como o clube e as atividades extracurriculares. Andar na rua fora da lata do carro é muito diferente.

E, dividindo o transporte com pessoas diferentes, eles aprendem a respeitar e conviver com estas pessoas, o que vai muito além de levar um brinquedo na escola toda sexta-feira para aprender a emprestar pro amiguinho. Eles aprenderam a dar licença, a pedir licença, a esperar as pessoas desembarcarem antes de entrar no metrô, a ceder o lugar para pessoas que precisam se sentar mais que eles, a recusar assento que nos oferecem quando vamos descer logo, a não empurrar e não chutar as outras pessoas (mesmo que isso seja sem querer), a se desculpar.

E, por fim, estão acostumados a bater perna. Acontece muito de precisarmos andar 1k de um lugar para outro e eles acompanham numa boa. E isso foi genial quando fomos acampar e fazer trilhas, porque eles subiram morros super bem.

Há pouco tempo li ou ouvi a história de uma mãe (não me lembro se foi um texto ou uma conversa de bar) que levou os filhos para algum lugar na Europa nas férias e que ficou incomodada com o comportamento das crianças no metrô e nos trens por lá. Ela dizia que seus filhos não conseguiam respeitar a faixa amarela, que ela precisava ficar segurando bem firme as mãozinhas para que eles não fugissem, que precisava chamar atenção deles o tempo todo, enquanto as crianças europeias estavam tranquilas respeitando a sinalização e seus pais, sem precisar de nenhum “Marie, fait-pas ça!!!”. O que acontece aí não é uma diferença entre nacionalidades, apenas. A diferença está no estilo de vida que as famílias levam e na forma como expõe seus filhos ou não ao mundo.

Então é isso. Menos carro, menos trânsito, menos stress, mais participação, mais diversidade, mais amor.

andré dahmer

Tirinha de André Dahmer, que copiei daqui ó

PS: não compro contra-argumentos dizendo que andar de carro é uma questão de segurança em São Paulo. Sequestros-relâmpagos, armas na janela e carros roubados com bebês na cadeirinha no banco de trás são violências bastante assustadoras para crianças e para os pais. Moro em uma cidade com problemas claros em relação à segurança e isso afeta tanto quem anda de carro quanto quem não anda de carro.

PS2: este post não é informe publicitário do Haddad e nem tenho a pretensão de iniciar uma discussão do tipo fla-flu sobre partidos. Então não vale dizer que ciclovia na subida é um absurdo e que bom mesmo é investir dinheiro na PM.

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