Arquivo da categoria: NossaHistoria

Chororô na porta da escola

Não é sempre que eles fazem birra de manhã antes de ir para a escola, mas às vezes acontece. Um dia desses deixei os dois na porta da sala de aula e meu filho começou um super escândalo.

– Aaaaaaaaaaaah, não qué!

– Filho, vai lá dar um abraço na tia.

– Aaaaaaaaaaaah, não qué!

– Filho, olha lá seu amiguinho com um brinquedo, vai até lá.

– Aaaaaaaaaaaah, não qué!

– Filho, mamãe já volta para buscar, tá?

– Aaaaaaaaaaaah, não qué!

– Filho, já já tem o lanche, vai ter pãozinho!

O choro parou na hora:

– Tchau, mamãe!

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Felizes para sempre

Depois que os bebês chegaram em casa, recebemos uma visita da assistente social logo nos primeiros dias e os levamos ao fórum para uma conversa com a psicóloga uns dois meses depois. Mais ou menos no meio do nosso estágio de convivência, em outubro de 2012, fomos ao fórum sem os dois para poder conversar com calma com a psicóloga sobre o processo de adaptação.

Só voltamos a ter contato com o fórum no final de janeiro de 2013, quando passamos pelas entrevistas finais do estágio de convivência com a assistente social e com a psicóloga. Na época, os bebês estavam passando por um novo período de adaptação (e muito cansaço), porque tinham começado a ir para escolinha há pouquíssimo tempo. Talvez por isso foi uma tarde estressante para os dois, que choraram e fizeram birra o tempo todo em que estivemos lá e mal conseguimos conversar.

Nos dias seguintes, o parecer da assistente social e da psicóloga recomendando a guarda definitiva foi encaminhado ao Ministério Público e depois à juíza. Entre as entrevistas finais e o recebimento da sentença de adoção, passaram-se cerca de dois meses, mas foram dois meses sem nenhuma ansiedade. No fundo, nós sabíamos que precisávamos apenas aguardar os trâmites legais, porque estávamos felizes, adaptados, resolvidos e não havia motivo nenhum para que o processo de adoção desse errado.

Hoje o papai foi buscar o mandado de inscrição de sentença de adoção e registro de nascimento, que levaremos ao cartório de registro civil para emissão das novas certidões de nascimento dos bebês, onde nossos nomes constarão como “pai” e “mãe”.

Quando nos casamos, nós não prometemos um para o outro que ficaríamos juntos para sempre porque é algo difícil de garantir para um marido ou uma esposa. Nós escolhemos viver algo na linha do “que seja eterno enquanto dure”, porque acreditamos que é assim que os casais devem viver. Com os filhos é diferente. Hoje nós assumimos com nossos filhos um compromisso irrevogável. Um compromisso que só terminará quando a morte nos separar. Um compromisso para sempre, para a vida toda!

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A Páscoa, o coelho e os chocolates

Veio na agenda da escolinha essa semana: “favor pagar a taxa de x reais até segunda-feira para a nossa comemoração da Páscoa”. É tanta coisa que começamos a ter que pensar depois que viramos papais, viu?

Eu não queria entrar na questão do dinheiro, porque não era um valor abusivo que não poderíamos pagar. Mas fui até a escolinha no dia seguinte perguntar se era uma taxa obrigatória e o que eles fariam com os filhos dos papais que não quisessem ou não pudessem pagar. “Os alunos que não participam ficam na sala de aula com uma professora, enquanto o evento acontece no pátio”, me respondeu uma das diretoras, com uma clara expressão de quem odeia essa situação – e eu concordo com ela.

Depois eu quis entender como eles lidam com diversidade nessas datas, porque a Páscoa é uma comemoração que não existe em todas as religiões. Tive uma dúvida parecida há duas semanas, quando recebi uma tarefa endereçada às mamães para a comemoração do dia internacional da mulher: o que acontece com os alunos que não têm mamãe? Entendo o lado da escola, que provavelmente seria criticada por não comemorar as datas mais tradicionais. Mas também achei um pouco difícil para as duas famílias judias que optaram por não levar os filhos à escola na quinta-feira anterior à sexta-feira santa, porque não querem que eles participem da comemoração da Páscoa e nem querem que as crianças fiquem trancadas sozinhas na sala de aula.

Mas o meu principal incômodo com a comemoração da Páscoa não é a taxa, não é a tradição católica e nem a visita do coelho na escola. Eu simplesmente não quero que eles ofereçam infinitos ovinhos de chocolate para meus pequenos, mas também não quero que eles sejam os únicos que não podem comer chocolate durante a comemoração. Mamãe e papai optaram por não comprar ovos de Páscoa para eles porque eles ainda não comem chocolate, e também pedimos que os familiares e amigos fizessem o mesmo. E aí eu vou ter que pagar uma taxa para que a escola ofereça chocolates sem limites para eles? Ou eu vou ter que dizer para meu chefe que sou uma mãe louca que não deixa os filhos comerem doces e que, por isso, não vou poder trabalhar na quinta-feira à tarde para ficar com eles (calma, trancá-los na sala de aula enquanto o evento acontece no pátio não passou pela minha cabeça, eu juro)? E quando contei meu drama para a diretora, ela me olhou com uma expressão de não-tô-acreditando-que-você-não-vai-dar-ovo-de-páscoa-para-seus-filhos.

Toda vez que tenho alguma conversa na escolinha, saio de lá pensando como deve ser difícil administrar uma escola. Ter que cuidar de crianças pequenas, bagunceiras, dependentes, que não falam, que usam fraldas e que choram e, ainda por cima, ter que lidar com mamães e papais que fazem exigências malucas deve ser desesperador (e eu sei que sou uma delas).

Nós decidimos que eles vão participar da comemoração da Páscoa na escola. Vamos pagar a taxa e eles vão ver o tal do coelho que entrega ovos e vão comer chocolate. E eu vou tentar não ficar pensando nisso até lá, para que eu não desista de deixar!

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Difícil lição de casa

Hoje os bebês trouxeram a primeira lição de casa, que precisa ser entregue até segunda-feira. Eu imaginava que lição de casa para crianças com cerca de dois anos fosse alguma coisa na linha desenhar-pintar-recortar-colar, mas recebemos a missão de escrever uma redação com o tema “a história da escolha do meu nome” para cada um deles. Precisamos responder quem escolheu o nome deles e como foi feita esta escolha. Pô, escolinha. Por que complicar a vida dos papais adotantes? Podiam ter começado com “minhas férias”, né?

Nós não temos detalhes sobre a escolha do nome deles, que provavelmente foi feita pela genitora. São nomes bíblicos, mas não sabemos se foi uma escolha relacionada à religião da família biológica. Por coincidência, nossa filha tem o nome da minha avó e isso é tudo o que sabemos.

Antes mesmo de estarmos habilitados para adoção, nós já tínhamos decidido que manteríamos o primeiro nome do nosso filho quando ele chegasse, como contamos aqui. Nós achamos que é uma maneira de respeitar e não apagar a história que eles viveram antes de nos encontrarem. Além do mais, achamos que os bebês começam a reconhecer o próprio nome muito cedo e que, de alguma forma, perceberiam a mudança.

A professora deles vai ler histórias de nomes escolhidos pela mamãe, pelo papai ou pela vovó, histórias de nomes que homenageiam ídolos ou parentes queridos, histórias de bebês que só receberam seus nomes depois do nascimento porque os papais não chegaram a um consenso antes, histórias de mamães que sonharam com determinado nome desde crianças. E vão ler também a história que escrevemos, igual para os dois: a escolha do nome foi feita, provavelmente, pela genitora, mas desconhecemos as razões desta escolha. São os nomes que eles têm desde os primeiros dias de vida e nomes pelos quais serão chamados para sempre. 

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Primeiro diálogo

Bebês comendo banana sozinhos e mamãe arrumando algumas coisas na cozinha.

– Mamãe!

– Oi, filho!

– Cabô! – E mostra o prato vazio.

– Quer mais?

– Maixxx banana!

– Tá bom, me dá o prato para colocar mais?

– Bigadu!

Não aguento tanta fofura, quase esmaguei o bebê.

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Recadinho na agenda

Mamãe, hoje a princesa tomou banho na escola porque fez cocô, colocou a mão dentro da fralda e espalhou pelo corpo todo.

Mamãe e papai entraram em pânico e tiveram uma conversa séria com a “princesa”:

– Filha, isso é muito feio, não pode fazer isso. Mas melhor na escola que em casa, tá? Por favor, promete nunca fazer isso na nossa casa?

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Infertilidade e adoção

No ano passado li muitos blogs de mamães tentando engravidar, porque é muito comum que elas falem em algum momento sobre adoção. Li histórias de casais lidando com infertilidade, fazendo tratamentos e passando por muita tristeza e angústia. Também conheci muitos casais que contaram histórias assim nos grupos de apoio que frequentamos.

Hoje passei por um blog que falava sobre a “decisão de amar um bebê de um estranho”. Decisão. Amar. Bebê. Estranho. Colocar essas quatro palavras na mesma frase me pareceu estranho. Então resolvi separar.

Nós tomamos a decisão de sermos mamãe e papai por adoção. Diferente da gravidez, que poderia ter acontecido por acidente, a adoção foi pensada e decidida, e tivemos que preencher formulários e entregar documentos. Mas, acima de tudo, tomamos a decisão de ter um filho. E o que queríamos era ter uma criança em casa que iria nos chamar de mamãe e papai.

E nós começamos a amar essa criança quando entregamos os documentos para iniciar o processo de habilitação. E esse amor começou a existir da mesma forma que acredito que o amor exista na gravidez: papais grávidos começam a amar seus bebês sem saber o sexo, sem saber se eles terão cabelos ao nascer, se nascerão com mais de 3Kg e 50 cm, se terão os olhos do papai ou da mamãe. Para nós foi a mesma coisa: nós não sabíamos o tom da pele, a idade exata, o sexo, a altura ou o peso, mas estávamos guardando um amor para nosso filho e esperando ele chegar.

E esse bebê (no nosso caso, bebês) são simplesmente nossos filhos. Temos certeza que são nossos filhos. Temos saudades deles quando ficamos longe. Queremos cuidar deles do nosso jeito, porque realmente sabemos que o nosso jeito é o melhor para eles. E, apesar de terem muitos cachinhos (mamãe e papai têm cabelos lisos), eles têm o nosso olhar e o nosso jeito de rir. Na última consulta médica que levei os dois, assim que entrei no consultório o médico comentou: “nossa, como eles são parecidos com você!”. Para quem não me conhece, sou mestiça, tenho olhos puxados. Meu filho é mulato. Minha filha tem cachinhos e olhos bem redondinhos. E se parecem comigo porque são meus filhos.

E não tem nada de estranho na história deles. Como na maioria dos casos de adoção, a família biológica passou por uma situação triste que os impediu de cuidar de suas crianças. Nós não os conhecemos, mas não são estranhos. São pessoas que fizeram parte da história dos nossos filhos. Também não é estranho que nossos filhos tenham vivido uma história longe da nossa família. Nós quatro fomos escolhidos uns para os outros em um determinado momento de nossas vidas, mas a história deles nunca será estranha.

Consigo entender que a adoção não seja uma decisão tão simples para quem vive a infertilidade, principalmente porque ela não resolve todas as frustrações, como não poder engravidar, não poder parir, não ter um recém-nascido em casa com o nariz do papai. Mas a adoção nos fez virar papai e mamãe e ter dois filhos, que era o que queríamos. Prefiro dizer que foi uma decisão de amar um filho. Nunca vou achar que temos “bebês de um estranho” em casa.

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Mamãe, precisamos falar com você de novo

Ontem papai levou o menininho na escola e mamãe levou a menininha para fazer um exame médico cedinho. Lá pelas tantas, papai me manda uma mensagem: “quando você chegar na escola, a tia vai querer conversar com você”. Por que comigo, hein? Primeiro olhei para nossa filha e me perguntei se eu poderia deixá-la na esquina, mas não dava. Fiquei imaginando que iria tomar uma bronca porque chegamos atrasados para buscá-los três vezes nos últimos dias – e já fui me preparando para colocar a culpa no verão e suas chuvas. Mas cheguei lá e ouvi:

– Mamãe, seu filho mordeu outra amiguinha.

De novo, filho? Pô!  Você quer matar a mamãe de vergonha? Como assim eu não sei ensinar que morder machuca e que não pode? Como eu vou convencer meu cliente que eu posso facilitar um workshop para definir opções estratégicas para o crescimento do negócio no Brasil nos próximos anos se eu não consigo explicar para meu filho que é feio morder? Cadê o manual de instruções desse bebê, gente?

No dia seguinte, quase joguei o celular longe quando vi o número da escolinha me chamando no meio do dia. Receber telefonema da escola enquanto os filhos estão lá sempre faz o coração disparar. E hoje a tia me disse assim:

– Mamãe, desculpe por ter que contar uma coisa delicada assim. A gente não sabe como isso aconteceu e prometemos que vamos evitar que aconteça de novo. Mas não se preocupe que está tudo bem agora. Sua filha está ótima, não se preocupe mesmo. Mas percebemos que ela foi mordida, tem uma marca bem feia na perninha dela e não sabemos quem foi!

Ah! Como eu queria ter passado pro outro lado da história! Quis ficar bem brava e gritar bem alto: COMO-ASSIM-VOCÊS-DEIXARAM-MINHA-FILHA-SER-MORDIDA? VOCÊS-NÃO FICAM-DE-OLHO-NAS-CRIANÇAS? QUEM-É-O-MONSTRINHO-QUE-FEZ-ISSO-QUE-EU-QUERO-FALAR-COM-OS-PAIS-DELE? ESPERO-QUE-ISSO-NUNCA-MAIS-ACONTEÇA!!!!! Mas me segurei e respondi bem baixinho:

– Ah, eu sei, foi o meu filho que fez isso ontem à noite em casa. Não anotei na agenda porque…. não sei.

Alguém me abraça?

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Falando em independência

Dois dias depois que nossos brigadeirinhos resolveram acordar, sair das caminhas, abrir a porta do quarto e sassaricar pela casa sem nem tentar acordar papai e mamãe, recebemos um recadinho assustador na agenda da escola: vai ter uma excursão em março.

Eu já me convenci que sou uma mamãe moderna e liberal, que acha absolutamente normal deixar seus dois bebês entrarem em um ônibus com seus coleguinhas e tias e passarem um dia inteiro longe da escolinha e de casa. Mentira. Eu nem consegui chamá-los ainda de “crianças”, porque para mim eles ainda são bebês.

O próximo passo é pedir a chave do meu carro para ir para a balada?

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Fujões

Durante a semana, papai e mamãe acordam bem cedo. Cada um tem a sua vez de ir para a academia às 6h, enquanto o outro fica vigiando a casa e dorme mais um pouco. Costumamos acordar os bebês só depois de estarmos prontos para ir trabalhar, de banho tomado, penteados, maquiados e vestidos, umas 7h e pouco.

Aos sábados e domingos, nós não colocamos despertador e esperamos ouvir um gritinho ou uma risadinha para levantar da cama. Hoje acordei às 8h40 e achei a casa silenciosa demais. Quando abri a porta do nosso quarto, os dois monstrinhos vieram da sala correndo na minha direção. Eles acordaram, desceram da caminha, abriram a porta do quarto e foram tranquilamente até a sala. Sem fazer nenhum barulho.

Não sei como lidar com tanta independência.

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