No ano passado li muitos blogs de mamães tentando engravidar, porque é muito comum que elas falem em algum momento sobre adoção. Li histórias de casais lidando com infertilidade, fazendo tratamentos e passando por muita tristeza e angústia. Também conheci muitos casais que contaram histórias assim nos grupos de apoio que frequentamos.
Hoje passei por um blog que falava sobre a “decisão de amar um bebê de um estranho”. Decisão. Amar. Bebê. Estranho. Colocar essas quatro palavras na mesma frase me pareceu estranho. Então resolvi separar.
Nós tomamos a decisão de sermos mamãe e papai por adoção. Diferente da gravidez, que poderia ter acontecido por acidente, a adoção foi pensada e decidida, e tivemos que preencher formulários e entregar documentos. Mas, acima de tudo, tomamos a decisão de ter um filho. E o que queríamos era ter uma criança em casa que iria nos chamar de mamãe e papai.
E nós começamos a amar essa criança quando entregamos os documentos para iniciar o processo de habilitação. E esse amor começou a existir da mesma forma que acredito que o amor exista na gravidez: papais grávidos começam a amar seus bebês sem saber o sexo, sem saber se eles terão cabelos ao nascer, se nascerão com mais de 3Kg e 50 cm, se terão os olhos do papai ou da mamãe. Para nós foi a mesma coisa: nós não sabíamos o tom da pele, a idade exata, o sexo, a altura ou o peso, mas estávamos guardando um amor para nosso filho e esperando ele chegar.
E esse bebê (no nosso caso, bebês) são simplesmente nossos filhos. Temos certeza que são nossos filhos. Temos saudades deles quando ficamos longe. Queremos cuidar deles do nosso jeito, porque realmente sabemos que o nosso jeito é o melhor para eles. E, apesar de terem muitos cachinhos (mamãe e papai têm cabelos lisos), eles têm o nosso olhar e o nosso jeito de rir. Na última consulta médica que levei os dois, assim que entrei no consultório o médico comentou: “nossa, como eles são parecidos com você!”. Para quem não me conhece, sou mestiça, tenho olhos puxados. Meu filho é mulato. Minha filha tem cachinhos e olhos bem redondinhos. E se parecem comigo porque são meus filhos.
E não tem nada de estranho na história deles. Como na maioria dos casos de adoção, a família biológica passou por uma situação triste que os impediu de cuidar de suas crianças. Nós não os conhecemos, mas não são estranhos. São pessoas que fizeram parte da história dos nossos filhos. Também não é estranho que nossos filhos tenham vivido uma história longe da nossa família. Nós quatro fomos escolhidos uns para os outros em um determinado momento de nossas vidas, mas a história deles nunca será estranha.
Consigo entender que a adoção não seja uma decisão tão simples para quem vive a infertilidade, principalmente porque ela não resolve todas as frustrações, como não poder engravidar, não poder parir, não ter um recém-nascido em casa com o nariz do papai. Mas a adoção nos fez virar papai e mamãe e ter dois filhos, que era o que queríamos. Prefiro dizer que foi uma decisão de amar um filho. Nunca vou achar que temos “bebês de um estranho” em casa.