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Adolescência precoce

Quase todo dia é mais ou menos assim: na hora de entrar na escolinha, eles choram, pedem beijos, abraços, mais beijos, mais abraços, dizem que querem ficar mais com a mamãe, que não querem ficar lá e por aí vai. Aí a mamãe sai da escola se sentindo a pior criatura desse mundo. No final do dia, a mamãe chega feliz e contente na escola para buscá-los, achando que é hora de matar as saudades de um dia inteiro separados, mas aí eu sou chata. Eu interrompo a brincadeira ou a contação de histórias e eles sempre precisam brincar só mais um pouquinho antes de entrar no carro. Aí não querem beijo nem abraço e precisam desesperadamente escorregar mais uma vez no escorregador e correr pro fundo da escola para fazer mais alguma coisa importante.

Dureza.

Nesse dia, não foi diferente. Mas assim que liguei o carro, minha filha me falou bem séria:

– Não quero mamãe. Não gosto da mamãe. Você não é minha amiga. Não quero ir pra casa da mamãe. Quando chegar lá, não vou sair do carro.

Dois anos e dez meses. Há pouco tempo, eu tinha tido uma conversa com uma amiga que tem um filho de dez anos, que costuma gritar para ela um sonoro: “você arruinou a minha vida”. Falamos sobre adolescentes e eu fiquei feliz por ter ainda uns bons anos pela frente sem esse tipo de problema. Mas não. Onde foi que eu errei?

Eu respondi para minha filha que a amava muito, que sempre seria amiga dela, mas que achava tudo bem ela ficar dentro do carro se quisesse. Avisei que eu tinha que subir para o apartamento com o irmão dela e que poderia voltar mais tarde para buscá-la. Ela resolveu vir conosco. Com cara de brava, emburrada, como se sair da escola e voltar para casa fosse o maior absurdo de todos os tempos.

Um pouco mais tarde, quando eles já estavam de pijamas, eu perguntei se queriam ler um livro comigo. Meu filho disse que sim e minha filha disse que não. Que queria ir para o quarto dela. E foi. Fechou a porta e ficou lá dentro sozinha. Dois anos e dez meses e ela já precisa de espaço e privacidade.

Durou uns dois minutos. Até que voltou de mansinho para onde estávamos, me abraçou, disse que gostava de mim e que queria ouvir a história. Ficou abraçada comigo e depois foi dormir tranquilamente, toda carinhosa.

Cada uma. Não quero nem imaginar o que vai acontecer na adolescência de verdade.

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Colher

O brinquedo preferido do meu filho é um conjunto de colheres. Esse aqui ó, bem colorido, que ganhamos de um amigo meu. Elas foram usadas um bom tempo, até ficarem muito pequenas para as boquinhas. Então eles foram promovidos a crianças que usam colheres do jogo de talheres da mamãe e as colheres foram promovidas a brinquedos.

Mas foram promovidas a brinquedo preferido, literalmente. Meu filho frequentemente leva as colheres para a escola no dia de levar brinquedos para brincar com os amigos. Ele frequentemente me pede para dormir com as colheres, mas acho perigoso. Ele acorda todos os dias e a primeira coisa que faz é ir até a sala buscar as colheres na caixa de brinquedos. Ele toma leite com as colheres carinhosamente sentadas ao lado dele no cadeirão e toma banho com as colheres. Mesmo que ele não esteja brincando de panelinha, ele não larga as ditas-cujas. Por nada.

Aí eu não sou boba e, como são seis, deixei uma estrategicamente guardada no meu carro. Sabe aqueles momentos de pânico, quando está trânsito e a criança está chorando impaciente no banco de trás? Eu dou uma colher para ele e ele fica quietinho. Na última birra monstruosa de não-quero-ir-embora-da-escola-me-deixa-brincar-mais-um-pouquinho, eu voltei até o carro, peguei a colher, mostrei para ele e ele veio bonitinho até mim, sem chorar.

Pois é. Vai entender.

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Re-adaptação

Dessa vez, o erro foi meu. Eu sempre fui muito cuidadosa com a adaptação dos bebês a coisas diversas. Quando chegaram em casa, tomei cuidado com o número de visitas nos primeiros dias para não assustá-los. Tomei cuidado em manter a rotina deles bem parecida com a que tinham no abrigo, para que não sentissem tanto a mudança de casa. Só os deixei dormir na casa da vovó pela primeira vez uns quatro meses depois da chegada dos dois. Fiz a adaptação na escolinha em quase duas semanas, para que não sentissem muito a separação da mamãe, depois de cinco meses muito juntos comigo.

Mas, dessa vez, esqueci que eles são crianças. Acho que eu tava tão deprimida com o fim das férias e preocupada com o tanto de coisas que eu tinha que fazer no trabalho já na primeira semana, que simplesmente virei a chavinha de uma hora para outra: fomos dormir no ritmo de férias no domingo e eu acordei os dois às 6h na segunda no maior ritmo de trabalho e de vida normal do mundo, naquela super empolgação de começar um ano novo e tal.

Não façam isso.

Há três dias, meu filho chora do momento em que abre os olhos até entrar na escola. E ele chora, mesmo. De verdade. Alto. Não pára. Chora porque acorda e quer brinquedos, porque não quer fazer xixi, porque não quer tomar o leite, porque quer levar todos os brinquedos para a escola e não pode. Chora, treme os lábios, soluça. Um drama.

Há três dias, minha filha não quer sair da cama por nada. “Nanar é gostoso, só mais um pouquinho?” – diz ela, e não levanta. Quando finalmente desgruda dos lençóis, ela choraminga durante o processo todo um “aaaaaiii, mamãe”, como se tirar o pijama, colocar roupa, escovar os dentes, tudo doesse. Fica com um beicinho de dar pena, com cara de “não faça essa tortura comigo”.

Um filho fazendo birra é ruim, dois é demais.

Ser mamãe é exercitar a paciência e compreensão, com muito carinho, eu sei. Tô tentando consertar e resolver com muita calma. Mas se não melhorar em uma semana, vou levantar chorando também e vou chorar até chegar no trabalho.

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O amor e a adoção

“Infelizmente a opinião em não aceitar a adoção consensual e seguir apenas o CNA esbarra em 2 problemas. Primeiro, diz que a mãe biológica arrependo-se, pode pedir a criança de volta. Sim é verdade, da mesma forma que acontece se seguir o CNA. Ou seja é a mesma coisa, se não fosse assim, não haveria o grupo “Fica Duda” onde uma criança estava em processo de adoção pelo CNA e está sendo devolvida aos pais biológicos.

O segundo problema e mais grave de todos. Quando se adota uma criança, ela não vem com um papel em branco. Ou sofreu maus tratos, ou abusos, ou sua mãe é usuária de drogas ou de álcool. Enfim, quando se faz uma adoção consensual tem-se a chance de saber mais dessa criança, o seu passado e o da mãe. Nada pior que do que depois de anos, saber que a criança adotada tem um problema psiquiátrico ou mental, ou ainda distúrbios que não sabemos como lidar, adquirido ainda na forma fetal. Isso costuma ser comum em crianças de mães viciadas em crack.

Enfim, prefiro a consensual ao CNA por esses motivos.”

Recebi esse comentário de um leitor no post sobre adoção consensual e quis comentar o segundo ponto, mas a resposta ficou tão grande que acabou virando outro post. Vamos lá, então.

A adoção é justamente uma alternativa para as crianças que, infelizmente, não puderam ser acolhidas pela família biológica. E, sim, em geral os genitores tinham problemas com álcool, drogas, violência, negligência, maus tratos e uma série de coisas muito tristes, que os impediram de exercer plenamente o papel de papai ou mamãe. Então, sim, quando se adota uma criança, ela não vem com um papel em branco. Ela vem com uma história de vida que se iniciou antes de conhecer a família adotante. E isto faz parte da adoção.

Geralmente, nos processos de destituição de poder familiar, estão anexadas todas as informações sobre o passado dos genitores e da família biológica, as condições da gravidez e documentos médicos. É direito do adotante conhecer o passado de seu(sua) filho(a). Eu mesma pedi ao fórum que solicitasse ao hospital onde meus bebês nasceram todos os documentos referentes ao pré-natal, parto e cuidados dos dois após o nascimento, incluindo exames e medicamentos tomados, e fui atendida em poucos dias.

A adoção consensual não garante que a gravidez tenha sido livre de drogas, álcool ou mesmo maus tratos. A genitora que abre mão de seu filho e deseja o entregar a outra família também pode mentir. E o simples fato de ter sido entregue a outra família, independente das condições da gravidez, também pode gerar traumas futuros para a criança adotada. Não dá para prever. Também faz parte da adoção.

Eu ia dizer que, para estar totalmente livre desse tipo de “problema grave”, o melhor caminho seria uma gravidez, onde papai e mamãe podem acompanhar de perto todo o desenvolvimento da criança ainda na barriga e cuidar de tudo de pertinho. Mas conheço um mocinho de sete anos, filho biológico de seus pais, recentemente diagnosticado com um problema mental. Também conheço um rapaz que levou a esposa para um parto de emergência e o filho do casal nasceu com apenas seis meses de gestação, e é difícil prever o impacto disso no desenvolvimento da criança. Só estou trazendo esses exemplos para mostrar que nós nunca vamos conseguir garantir 100% que nossos filhos não terão problemas com os quais não sabemos lidar. Acontece. Faz parte do papel de mamãe e papai ser forte, erguer a cabeça, amar muito e enfrentar.

Pra falar a verdade, o que mais aprendi com a maternidade é que, independente da adoção ou gravidez, a gente passa a viver enfrentando situações com as quais não sabemos lidar. Todo dia, o tempo todo. Eu não sei lidar com birras, com desfralde, com filho que morde os amiguinhos, com criança doente, com a sensação de fracasso que tive quando assumi para mim mesma que precisava de ajuda com os bebês. Eu não sei se meus filhos terão alguma dificuldade de aprendizado no futuro, algum trauma ou algum tipo de problema que necessite de cuidados especiais. Eu não sei e minha melhor amiga, que tem uma filha biológica, também não tem como saber. E esperar esse futuro desconhecido faz parte do papel de mamãe e papai.

Adoção é amor, porque ter filhos é amor. A gente só tem certeza do amor. Nenhuma mamãe e nenhum papai consegue ter certeza de que os filhos não terão problemas, traumas ou distúrbios e todos torcem para que isto não aconteça. Mas ter filhos significa aprender, enfrentar, aceitar, criar e fazer de tudo para que eles tenham a melhor vida que podemos oferecer para eles. Não. Importa. O. Que. Aconteça. Com. Eles.

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Buscando a babá número 2

Na verdade, não é de uma babá cheia de qualificações específicas para cuidar de crianças que eu preciso. Preciso de alguém que olhe os dois e não os deixe cometer suicídio durante 1 hora por dia, no período entre chegar da escola com a perua e esperar a mamãe chegar em casa. O tempo é curto e o trabalho é simples, então a primeira pessoa que procurei foi a moça que já trabalhava em casa há um tempão e que cuida da limpeza e da arrumação. Ela é ótima pessoa, de confiança e já conhecia os brigadeirinhos há bastante tempo, então topou quando eu propus mudar os horários e ganhar um aumento no final do mês.

Em apenas um mês ela desistiu e veio me falar isso em uma conversa sincera. Não por causa do trabalho em si que duas crianças dão para um único adulto, porque ela nem teve tanto trabalho braçal assim. Nesse mês todo só pedi para ela dar banho nos dois uma única vez, porque eu estava presa em um congestionamento infernal. O grande problema é que eles não a obedeciam e cuidar de duas crianças desobedientes enlouquece qualquer um. Eu nunca tinha visto os dois serem mal educados com ninguém. São levados e bagunceiros, mas respeitam todo mundo. Sempre me orgulhei por ter dois filhos sociáveis, que vão com todo mundo, que estão sempre sorridentes e que em geral são muito educados. Perceber que meus filhos estavam realmente tratando mal alguém me deixou triste, mas eu não consegui resolver a situação, nem ela, e então ela me avisou que não queria mais continuar cuidando dos dois no final da tarde.

Meus bebês estão passando por uma fase em que buscam limites e testam as pessoas o tempo todo. Sabem que não podem mexer em alguma coisa, mas vire e mexe colocam os dedinhos lá para checar se algum adulto vai realmente repetir que não pode mexer. Insistem na bagunça que estão fazendo até tomar uma bronca maior ou ficar de castigo. Ficam nervosos e fazem coisas que sabem que não pode fazer de propósito. Fazem birras, tentam dar ordens, experimentam não obedecer, choram. É duro. É difícil de saber o que fazer nessas horas. É irritante. Às vezes, é desesperador.

Para mim, o x da questão na hora de colocar limites e mostrar o que pode e o que não pode fazer é coerência. Não invisto em gritos ou chiliques com os dois, mas tento sempre conversar, explicar e ser coerente. Se defino que não pode entrar na cozinha sem um adulto, explico que não pode e não tem exceção, nunca pode entrar na cozinha sozinho – não existe um “só hoje” ou “deixa entrar para parar de chorar”. Se aviso que vão ficar de castigo ou vão ter que guardar um brinquedo porque estão insistindo em fazer alguma coisa que já pedi para parar de fazer, eu cumpro. Existem coisas que são negociáveis e coisas que não aceito negociar: tem que tomar banho, escovar os dentes e ir para cama na hora certa e pronto. Sei que vão chorar, espernear, gritar e se jogar no chão, mas não volto atrás, respiro fundo, enfrento a birra, mantenho minha palavra. Cansa, mas é o meu jeito de mostrar para eles os limites que eles precisam respeitar.

Durante esse mês, vi acontecer em casa algumas cenas que me deixaram na dúvida sobre quem estava no controle por aqui. Ela os colocava nos cadeirões para tomar leite e, enquanto preparava os copinhos, deixava cada um com um brinquedo na mão. E eles jogavam o brinquedo no chão de propósito, ela pegava e dizia para não jogar de novo porque da próxima vez não iria pegar. Mas eles jogavam de novo, e ela ameaçava não pegar, eles choravam, aí ela pegava para parar de chorar e avisava que era a última vez que iria pegar. Mas sempre pegava de novo na próxima vez, e na outra também. Não tem como uma criança de dois anos entender o que está acontecendo se um adulto não é coerente no que fala.

Eu a orientei para ser firme com os dois, sem nenhuma agressividade, claro. Falei que não adiantava ameaçar e não cumprir, porque apenas a ameaça de “olha, que assim não vai mais brincar” não adiantava nada. Mas eles a venciam no choro e ela fazia exatamente o contrário do que tinha combinado ou avisado para eles. Faziam o que quisessem quando estavam com ela, e eu entendo que é muito difícil de aguentar os dois quando eles estão desembestados a fazer o que bem entendem. Um dia cheguei em casa e ouvi meu filho dizendo para a babá que ela estava de castigo e que ele não iria mais falar com ela, e foi frustante. Eu não estava gostando nem um pouco do comportamento deles com ela e percebi que não consigo ficar tranquila sabendo que eles estão completamente sem limites. Toda a situação me chateou demais.

Tentei conversar com eles várias vezes, para falar sobre respeitar, obedecer, tratar bem, colaborar. Não resolveu. Chamei a atenção dos dois várias vezes quando a tratavam mal na minha frente, mas depois percebi que chamar atenção por desrespeitar a babá era muito parecido com chamar a atenção quando eles brigam um com o outro: eles param, mas é só eu virar para o outro lado que recomeçam. Em pouco tempo, comecei a ouvir a babá dizer para eles “se não parar, vou chamar sua mãe para dar uma bronca” e me dei conta que ela nunca colocaria ordem nos pequenos. No fim, achei legal que ela também percebeu.

Babá número 2, aí vamos nós.

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