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Minha (única) crônica de Carnaval

Esses dias meus filhos me ouviram dizendo que odeio Carnaval e ficaram decepcionados, abalados. Depois de dias e dias e dias ansiosos com o baile de Carnaval na escola, ouvir que a mamãe odeia aquilo tudo foi esquisito. E foi difícil de explicar, né? Porque eu acho bem fofinho criança fantasiada, jogando confete e serpentina, com sorrisos lindos no rosto. Só não consigo fazer a transferência para o mundo dos adultos e continuar achando fofinho. Gosto não.

Carnaval é uma combinação de elementos que, mesmo sozinhos, não me atraem. Axé, samba enredo, bloquinho, muvuca, pegação, calor. Calor, principalmente. Qualquer coisa piora no calor. Axé piora no calor, samba enredo piora no calor e prefiro pegação em ambientes fresquinhos. Pegação suada, gosto não. Quando vejo fotos de Carnaval em Salvador, com aquela multidão gigante de gente vestida tudo igual ouvindo axé debaixo do sol escaldante, eu só posso achar que aquilo é a representação do inferno. Gêzuiz-me-salva-pliz.

Eu já flertei com Carnaval em vidas passadas. Já fui em baile de clube, já fui até num show da Ivete uma vez. Mas gosto não. E decidi que definitivamente não fui feita para o Carnaval no evento que foi descrever neste post. Pequenos, um dia mamãe vai contar esta história para vocês, só não contei essa semana porque vocês não iam entender nada.

Uma vez eu resolvi desfilar em uma escola de samba. Eu decidi, ninguém me obrigou, eu quis. Fui lá, paguei o negócio em umas quatro prestações uns meses antes e me agendei para um desfile de escola de samba em São Paulo. Na época, eu nem sabia o que era o recuo da bateria, mas achei que deveria experimentar.

Quando foi chegando perto, foi batendo um arrependimento. Primeiro porque não deu para viajar, já que eu tinha que desfilar. Segundo porque fui buscar a fantasia e mano-do-céu. Eu não lembro se eu era um pássaro, um índio ou uma árvore, mas o fato é que eu tinha uma fantasia verde cheia de penas, com um costado imenso verde cheio de penas, com um chapéu maior ainda verde cheio de penas, com várias penas verdes penduradas no corpo. Imaginou uma coisa sexy? Não. Queria muito ter uma foto para colocar aqui. Nada sexy, uma coisa imensa, pesada, verde, cheia de penas, apenas imagine isso.

Aí saiu a escala de desfiles e eu ia desfilar às 4h da manhã. Quatro. Da. Manhã. A única coisa que topo fazer quatro da manhã é dormir ou viajar, nada mais. Isso significava sair de casa uma da manhã, e aos 20 anos eu já achava que isso era horário de voltar para casa e não de sair de casa. E, para piorar, eu ainda tive a brilhante ideia de tirar uma soneca antes de sair, já que eu ia passar a noite claro. Acordei num mau humor do cão e comecei tudo errado.

Aí pega carro, pega trânsito, estaciona carro, chega lá no Anhembi debaixo daquele monte de luz forte e eu achei que ia tentar me divertir a partir daquele momento. Eu não sei sambar, então meu plano era desfilar como se eu tivesse em uma rave, pulando como eu quisesse, depois de tomar algumas doses de cachaça para animar. Eu nem lembro se tinha bebida por lá. Eu lembro que não tinha muito banheiro e eu nunca achei que beber muito em locais onde não há muito banheiro fosse uma boa ideia. Talvez até houvesse banheiros químicos, mas, de qualquer forma, minha fantasia não cabia dentro de um banheiro químico, então eu não bebi. Resolvi só dançar para divertir e entrei na avenida sóbria.

Então. Existe uma função na escola de samba que se chama Chefe de Ala ou algo assim. É uma pessoa que acompanha a ala botando ordem pra ficar tudo bonito de se ver. Uma pessoa que fica gritando: MAIS RÁPIDO, MAIS DEVAGAR, FECHA O BURACO QUE ABRIU ALI, NÃO DANÇA ASSIM, DANÇA ASSADO, VEM MAIS PRA CÁ, MAIS DEVAGAR, MAIS RÁPIDO, ENCOSTA MAIS UM NO OUTRO, TÃO MUITO GRUDADOS, AGORA AFASTA, ISSO, BONITO, MAIS RÁPIDO, NÃO, DEVAGAR, VAMOS, TÁ BONITO. Não consegui dançar do jeito que eu queria, só fiquei ali tentando não estragar o visual da ala.

Quando aquilo estava terminando, quando eu estava vendo a luz no fim do túnel, eu já não aguentava mais aqueles dois versinhos sendo repetidos a cada dois minutos e já não aguentava mais estar vestida de árvore, índio ou pássaro. Quando saí da avenida, avistei uma caçamba e corri até lá. Comecei a tirar tudo – costado, chapéu, penas verdes – e a colocar tudo lá dentro, porque o carro tinha ficado do outro lado do sambódromo e eu não queria atravessar aquilo tudo de volta vestida com aquele peso todo. Aí veio alguém atrás de mim e me disse:

– Não! Não jogue sua fantasia agora! Se a escola ficar entre as cinco primeiras você pode desfilar de novo no Desfile das Campeãs.

AHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHA.

HAHAHAHAHAHHAHAHHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAH.

AHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHA.

Qual a chance de eu desfilar de novo no Desfile das Campeãs? Socorro. Não. Deixei tudo lá e espero ter feito alguém feliz no sábado (ou não, na verdade, não lembro se a escola ficou entre as cinco primeiras).

Fim.

Bom Carnaval, gente!

Beijo!

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Na saúde e na doença

Vou dividir nosso Carnaval 2014 em dois momentos bem distintos: o sucesso e a tragédia. Para contextualizar: Carnaval é o maior recesso da escolinha dos bebês depois das férias de final de ano, quando eles ficam QUATRO DIAS E MEIO sem aulas. Quatro. Dias. E. Meio.

A primeira metade do nosso feriado foi um Sucesso. S maiúsculo. Nós fomos brincar, fomos no parque, fizemos trilha, fomos ao teatro, almoçamos fora, fomos a uma exposição de arte (porque mamãe também tem suas vontades), foi tudo muito legal. Muito divertido. Crianças felizes, mamãe feliz, dias de sol, nenhuma birra, quase nenhum choro, tudo indo muito bem para ser verdade.

Aí o tempo fechou, literalmente. Choveu. Ficou mais frio. Minha filha acordou com uma febrinha, depois meu filho teve febre no almoço, depois eu fui pega pela gripe no começo da tarde e no final da tarde nós éramos três incubadores de vírus, que tossiam, espirravam, soltavam catarros pelo nariz e tinham febre. Montes de dores de garganta, dores pelo corpo, mau humor, vontade de não fazer nada, crianças chorando por causa de qualquer coisa, mãe com vontade de chorar junto. Gente, que pesadelo.

Cuidar de uma criança doente é difícil. Cuidar de duas crianças doentes ao mesmo tempo é mais difícil ainda. Cuidar de crianças – doentes ou não – quando se está doente é insuportável. Sabe quando você acorda mal, com dores, sem forças, e liga pro chefe avisando que não vai dar para trabalhar? Foi o que eu tive vontade de fazer naquele dia. Passei horas me perguntando para quem eu tinha que ligar para avisar que não ia poder ser mãe naquele dia. Fiquei horas encarando o celular, esperando a ligação de alguma alma caridosa com uma voz animada do outro lado da linha: “alô, Ruri? Quer que eu fique com as crianças hoje para você poder tomar chá de gengibre à vontade espalhada na cama?”. Fiquei mentalizando um ser qualquer entrando pela porta da sala trazendo uma panela de sopa quente para nós três. Fiquei olhando para meus filhos esperando que eles me dissessem: “mamãe, é pegadinha. Nós não estamos doentes. Fica aí deitada no sofá descansando que a gente promete que vai ficar brincando em silêncio até o fim do dia”. Mas nada disso aconteceu, né? E lá fomos nós para a parte Tragédia do nosso feriado. Tragédia inclui inaladores, termômetros, analgésicos, antitérmicos, ligações para a pediatra no feriado e muita indisposição.

Ser mãe é isso aí, gente: um compromisso válido na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de nossas vidas. E não pode pedir para sair. Não aguenta? Toma um leite, joga própolis na garganta e continua.

Já é quinta-feira à noite, já voltamos para a escola e para o trabalho, mas ainda não estamos 100%. Alguém indica uma benzedeira?

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