Arquivo da tag: desapego

Simplifica

Há mais de um ano eu só penso em trabalhar menos. Eu gosto de trabalhar, não nasci pra ficar em casa e cuidar dos filhos em tempo integral, mas justamente por causa deles eu quero trabalhar menos. Não sei quão menos, mas certamente bem longe do modelo CLT de 40 horas semanais. Oito horas por dia de segunda a sexta é tempo demais. Isaac e Ruth merecem mais de mim.

E o primeiro passo desse plano foi reconhecer que trabalhar menos significa ganhar menos. Pra ser justo, né? A não ser que eu ganhe na loteria, mas para isso eu precisaria jogar na loteria, e nunca jogo. Então a alternativa é ganhar menos. E, para ganhar menos e continuar a nos divertir, eu fiz um plano de simplificação da vida. Um plano de desapego.

Primeiro foi o carro. Eu tinha carro da empresa, mas os custos de combustível, estacionamento, multas e algumas manutenções eram meus. O stress do trânsito também era meu. Quando mudei para uma empresa que não tinha esse benefício, desapeguei. Deleite da minha planilha de controle de despesas as linhas: combustível, estacionamento, lavagem, multas, IPVA, seguro, manutenção.

Falta de carro me levou a desapegar dos sapatos de salto. Sapatilha custa um pouco menos que scarpin, mas o ponto aqui não é o custo. É a agilidade e a não preguiça. Quando a distância é curta, eu ando.

Depois foi a TV a cabo. Aquela que estava instalada na sala e no quarto e que nunca era acessada. Foi embora, coitada. Fiquei só com a Internet, o iTunes e a Netflix. TV em casa é só on demand, e o custo é menor.

Aí veio a mudança de casa, onde desapeguei de duas coisas em uma única tacada: a casa própria e o espaço extra. Vendemos nosso apartamento e fui morar com as crianças em um apartamento alugado que é 30% menor. Tem o espaço que precisamos e nada mais. Perdendo espaço, deixamos para trás as tralhas. Vendi e doei muita coisa. Não temos mais jogos imensos de pratos, talheres e taças, não tem eletrodoméstico encostado, não tem roupa que não usamos mais, não tenho mais 80 pares de sapatos, vendi grande parte dos livros, porque não cabe. Para comprar mais coisas, penso no que vou doar para caber. Tô mais leve.

O aluguel também me livrou de uma parcela do financiamento lotada de juros, de despesas extraordinárias do condomínio (sabem aquela reforma na academia que aprovam na reunião e que custa XXX reais por mês a mais no condomínio? eu não tenho nada a ver com isso), de alguns custos de manutenção que são responsabilidade do proprietário (infiltrações, por exemplo). Também nos deixou mais flexíveis para mudar de casa se precisarmos. Demorei um ano para vender o apartamento e fiquei um pouco traumatizada. Se para simplificar ainda mais eu quiser morar mais perto do trabalho um dia, é só agendar a mudança.

O desapego mais recente foi da empregada doméstica mensalista que vinha todos os dias. Trabalhando fora e com duas crianças, eu achei que não dava para viver sem. Achava ele iria me matar sem uma dessas. Mas não. Hoje temos só a babá e ajuda esporádica: sem nenhuma frequência definida (às vezes 7 dias, às vezes 10) eu chamo uma empresa de limpeza e pago por hora a limpeza pesada e passar roupas. O resto eu faço: arrumo as camas, mantenho a cozinha limpa, coloco as roupas para lavar, rego plantas. Eu, não, nós. Nessa história, as crianças ganharam responsabilidades de habitantes da casa: esticam o edredon de manhã e arrumam os bichinhos de pelúcia, levam a roupa suja no cesto, recolhem comida que cair no chão, ajudam com a roupa na máquina, guardam suas roupas e sapatos no lugar. Agora eles mesmos me falam: “a gente não tem mais ajuda e temos que deixar nossa casa limpa, né, mamãe?”. Isso. Eu também estou reaprendendo que, se deixar o tênis da academia na sala, ele vai estar lá quando eu voltar do trabalho. E também estou feliz por estar ensinando dois pimpolhos a serem bons roommates no futuro.

Anúncios
Etiquetado , , , ,

Faqueiro

O problema de morar com duas crianças de 3 anos e ninguém mais é eles irem dormir às 20h e eu ficar falando sozinha até a hora de deitar. De qualquer forma, eu queria falar com eles sobre assuntos que eles não iriam entender, acho.

Tipo, qualéquié os faqueiros de casamento?

Minha mãe também tinha um. Caixa imensa, cheia de coisa bonita, que a gente guarda bem guardadinho pra impressionar as visitas.

Eu casei e ganhei. Até talher pra comer peixe tem. Alguém usa garfo pra comer peixe, aliás? E tava guardado tão bem guardado que nem visitas tinham a honra. Eu nem conseguia alcançar lá na última prateleira. E pior, depois de usar, tinha que limpar e guardar tudo nos nichos certinhos pra conseguir fechar as gavetinhas, então o melhor mesmo era não usar.

E assim muitas famílias guardam lindos faqueiros no armário e usam garfos amassados no dia a dia.

Aqui em casa não vai ter isso, não, filhos. Na mudança, mamãe deixou pra trás os talheres de todo dia e amanhã vocês vão comer banana com aveia e canela com garfo chique, que depois de lavado vai ser guardado na gaveta mesmo. Porque vocês são muito mais importantes que qualquer visita e merecem. Se cair no chão e amassar, sipreocupem não, que ainda por cima temos doze peças de cada coisa. Dá e sobra!

Etiquetado , , ,

Desapega desses brinquedos

Foi num sábado, final do dia, depois de um dia de bagunça tirando absolutamente todos os brinquedos do armário e espalhando pela casa: eu quase fiquei louca quando percebi a quantidade de tralha em forma de brinquedos que dois seres humanos conseguem acumular. Eram peças de origem desconhecidas, jogos que já estavam ultrapassados para eles, coisas quebradas, coisas nunca utilizadas.

No domingo, logo após o café-da-manhã, coloquei uma caixa grande de papelão no quarto e expliquei:

– Acho que vocês têm brinquedos demais. Algumas crianças irão ficar felizes se ganharem estes brinquedos. Vamos separar algumas coisas e doar?

Foram SEIS caixas grandes. SEIS. Levamos juntos até a farmácia que estava fazendo campanha de dia das crianças e eles ficaram super felizes porque me ajudaram a entregar tudo para a atendente. Até hoje, meu filho fala às vezes:

– Mamãe, lembra do dia que a gente levou os brinquedos para as crianças que não têm brinquedos lá na farmácia, lembra?

O que achei mais legal foi o desapego deles. Doamos muita coisa mesmo e eles não reclamaram, não sentiram falta, não resmungaram. Simplesmente desapegaram e estão satisfeitos com os brinquedos que ainda têm.

– Tinha muito brinquedo em casa, né, mamãe?

É, filho, seu lindo.

Etiquetado , ,