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Menos controle, mais tempo, mais amor

Quando me separei do pai dos meus filhos, nós fizemos um acordo que era muito comum, igual ao de muitos amigos e conhecidos nossos: a guarda das crianças ficou comigo, o que significa que elas moravam comigo e ficavam comigo a maior parte do tempo, e o pai as visitava aos finais de semana e uma noite por semana.

A gente entendeu que era melhor para as crianças dessa forma e realmente foi bom para elas. Eu morei mais um ano e meio no apartamento em que vivíamos os quatros juntos, então eles praticamente não mudaram a rotina neste período. Eu também achava que era bom ter a mãe por perto na maior parte do tempo. Na verdade, inconscientemente, eu também achava que eles eram meus filhos, então só eu saberia cuidar deles e tudo deveria estar sob meu controle. Então encarei a vida de mãe solo e assumi tudo o que viesse pela frente, a.k.a. toda a responsabilidade e todo o stress. Muito stress. Mas eu achava que era um super-herói e pronto. O pai sempre foi presente, mas eu sempre achei que daria conta de absolutamente tudo sozinha se precisasse porque eu era boa demais, claro.

Aí o câncer fez minha vida virar de ponta-cabeça, não sem antes dar quatro mortais e cair de costas no chão algumas vezes e quebrar vários ossos. A primeira pessoa para quem eu liguei após receber meu diagnóstico foi o pai dos meus filhos (sorry, mãe, sorry, pai, sorry, Manu). Não foi uma ligação de AI MEU DEUS VOU MORRER VOLTE PARA OS MEUS BRAÇOS QUE NÃO SEI VIVER SEM VOCÊ. Na verdade, a primeira coisa que me veio à cabeça quando soube que tinha câncer foi um GZUIZ COMO EU VOU SER UMA MÃE COM CANCÊR? e eu liguei para ele para contar. E a partir deste dia ele ficou cada vez mais presente em nossas vidas, na nossa casa e realmente me ajudou e me apoiou muito nesta coisa chata que é ter câncer. E não foi só por ele ter realmente se preocupado, ter perguntando exatamente o que estava acontecendo e por ter aparecido em casa no dia seguinte para dizer que queria me ajudar. Ele pegou a parte mais importante desta coisa toda, que era deixar Isaac e Ruth bem para eu poder me cuidar.

Eu me surpreendi muito porque meus filhos viveram tranquilamente durante quatro semanas enquanto eu pirei. Eu realmente não me envolvi em nada do que acontecia no dia-a-dia deles neste período e tudo correu bem. Eu, no fundo, achava que ia dar tudo muito errado, porque eu sou extremamente necessária em tudo o que diz respeito a meus filhos.Eu achava que o pai ia aparecer chorando aqui em casa com os dois mergulhado em desespero. Não, Ruri. Primeiro veio aquele balde de água fria de “não, não é só você que sabe fazer as coisas direito”. Depois percebi que muitas coisas estavam melhores que antes. Por fim me peguei pensando nesta dinâmica toda que temos na nossa família.

Sim, ser amiga de ex é missão impossível que só aquelas almas evoluídas e livres de raiva-culpa-saudade-vontade-de-matar-inveja-ciúmes-loucura-desprezo sabem fazer. Mas não era apenas uma questão de ser ou não ser amiga do ex: o pai dos meus filhos deveria ser o meu melhor amigo, porque estamos juntos na missão mais importante de nossas vidas, que é criar nossos filhos. Então ele deveria ser não apenas um amigo, mas um grande amigo, um mega amigo.

Mano do céu, como eu me surpreendi com tanta clareza e maturidade. Obrigada, câncer.

Depois de muitas conversas, nós partimos agora para uma guarda compartilhada das crianças. Eu, ex-pessoa controladora, achava que guarda compartilhada era coisa de gente tentando roubar meus filhos de mim e tentando meter o bedelho no que eu estava fazendo, e eu era orgulhosa demais para permitir isso, afinal de contas ninguém poderia ser tão bom quanto eu. Era tanta vontade de controlar que eu nunca tinha parado para pensar em como é bom que meus filhos convivam mais tempo com o pai.

Metade da semana com cada um, é assim que vai ser daqui para frente. Para o pai, um tempo maior para curtir os filhos. Para as crianças, o pai bem mais presente no dia-a-dia. Para mim, um parceiro para compartilhar as dores e as delícias dessa história toda, um tiquinho menos de stress porque não acho mais que tenho que carregar tudo isso sozinha e mais tempo para mim. Tempo, gente, tudo o que eu mais gosto nessa vida. Ou seja, uma família bem mais feliz.

PS: só para esclarecer, quando eu digo “obrigada, câncer” nunca-jamais-de-forma-alguma estou agradecendo por ter tido câncer. Eu preferia não ter tido câncer e seguir vivendo na minha imaturidade e na minha mania de controle. Mas, como não pude escolher ter ou não ter câncer e o dito-cujo entrou na minha vida sem ser convidado, eu escolhi aprender com ele.

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Papai

Não tenho babá para me ajudar a cuidar dos brigadeirinhos, como contei aqui, e nossa faxineira vem somente duas vezes por semana. E quando comentam como deve ser difícil e trabalhoso cuidar de dois bebês sozinha, respondo que não estou sozinha: nossos filhos têm o papai.

Papai é o cozinheiro dos bebês (e da mamãe). A cada dez ou quinze dias, ele passa horas na cozinha preparando uma infinidade de potinhos de feijão, lentinha, carne, frango, sopa e legumes, que são congelados em porções pequenas para que todos os dias nossos filhos tenham comida fresquinha. Se dependesse só de mim, não sei o que eu teria feito. Como não dou comida industrializada de jeito nenhum para eles e já fracassei em diversas tentativas de aprender a cozinhar, acho que eu teria que contratar uma cozinheira.

Além disso, meu marido também “dá conta” de dois bebês sozinho. Conheço mamães que não podem deixar o bebê sozinho com os papais por muito tempo, porque eles não saberiam o que fazer. Em casa, o papai também troca fralda, dá comida, dá banho, troca de roupa, escova os dentes, brinca e põe para dormir. Já precisei sair cedinho de casa enquanto os três ainda estavam dormindo, já saí para jantar e deixei o papai sozinho para arrumá-los para dormir, já passei a tarde no shopping enquanto os três estavam sozinhos em casa e tudo sempre correu bem. E se tanto a mamãe quanto o papai conseguem cuidar de tudo sozinhos, é muito, muito fácil quando estamos os quatro juntos.

No final de janeiro volto a trabalhar e não vou estar mais disponível em tempo integral para nossos filhos. Vou precisar conciliar os compromissos do trabalho com a agenda dos bebês, que inclui consultas médicas, a escolinha que fecha às 19h todos os dias e probleminhas de última hora (como ficar doente), e sei que o papai vai assumir metade dessas coisas. Também sei que eles estarão bem cuidados quando eu precisar trabalhar até mais tarde e não conseguir chegar a tempo de colocá-los para dormir. E, mais que bem cuidados, sei que estarão felizes com o papai quando eu não estiver. Porque sei que eles sentem o carinho e o amor que o papai tem por eles e porque tenho certeza que eles ganharam o melhor papai do mundo.

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