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Como é grande o meu amor por vocês

Sábado à noite. Tínhamos passado o dia todo fora de casa e eles caíram duros na cama às 19h30. Às 20h30 eu estava sozinha no sofá, de pijama, com cobertorzinho e vinho, assistindo House no Netflix, um pouco deprê com o silêncio da casa. Senti fome. Avaliei as opções: 1) cozinhar só pra mim = não, 2) pedir pizza = ter que me vestir para ir até o térreo = não ou 3) comer as sobras do almoço.

Me arrastei até a cozinha me sentindo a pessoa mais coitada desse mundo e dei de cara com esse desenho em cima da mesa.

desenho da ruth

Não tinha visto ela fazendo um pouco antes de dormir. Abri o maior sorriso da semana toda. Me senti a pessoa mais feliz do mundo porque minha casa tem essas fofuras que aparecem assim do nada.

Me senti especial por ser tão importante para esses dois monstrinhos. Me senti feliz por eles estarem em casa, nanando, tranquilos. Senti que eu não estava lá abandonada em casa num sábado à noite, mas que estava cuidando deles, esperando alguém chamar para ir ao banheiro ou para cobrir de novo ou para simplesmente mais um beijinho para dormir. Senti que estava em casa no sábado à noite sendo mãe.

Fui até os quartos, embrulhei cada um em seu cobertor, mordi as bochechas e comi o arroz com ovo frito mais gostoso de todos os tempos.

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Tô contigo, Bela Gil

– Filho, tem sanduíche de frango, queijo e berinjela. Qual você quer?

– Berinjela.

Até umas duas semanas atrás, eu não sabia nada sobre Bela Gil, até que a foto da lancheira de sua filha pipocou na minha taimelaine, junto com mensagem de pessoas inconformadas com a crueldade da mãe, morrendo de dó da coitadinha da filha.

Coitadinha? Coitadinhas das crianças que vejo comendo salgadinho Fofura no metrô, isso, sim. Coitadinhas das crianças que não têm ninguém que se preocupe com a alimentação delas. Coitadinhas das crianças que tomam refrigerante, das que consomem balas, das que não comem verduras. Aí, sim, tenho dó.

“Me deprime adulto que acha esquisito criança que come verdura. Alguém lembra da propaganda com o menininho e a mãe no supermercado, pedindo para ela comprar brócolis e chicória? “Essa criança provavelmente não existe” dizia a propaganda e todo mundo achou graça, e ainda achou que bom mesmo era dar achocolatado com açúcar e vitaminas artificiais para as crianças.”, eu escrevi há uns dois anos lá no Rotulices. De lá pra cá, esses adultos continuam me deprimindo. No dia em que meu filho escolheu o sanduíche de berinjela, a moça do café me perguntou “mas ele vai conseguir comer sanduíche de berinjela?”. Por que, moça, tá muito estragado?

Garantir a educação alimentar dos filhos é papel da mãe. Você está certa, Bela Gil. Tô com você nessa briga diária para educar o paladar deles e ensiná-los a fazer as melhores escolhas. Tenho super orgulho do paladar dos meus filhos e aprendi a ignorar os olhares espantados das pessoas quando eles estão comendo salada, fruta ou qualquer outra coisa absolutamente NORMAL na alimentação de um ser humano.

Há pouco tempo comprei um leite com baixo teor de lactose sem nenhuma razão específica: só tinha esta opção da marca que costumo comprar quando fui ao supermercado e trouxe para experimentar. Minha filha amou e vive dizendo que quer o leite docinho. Na embalagem está escrito “para produzirmos leite integral de baixa lactose nada é retirado do nosso leite. A lactose é dividida em glicose e galactose, mediante a adição de lactase”. Essa glicose que aparece aí deixa o leite levemente, quase nada, mais doce e ela adora. Se sua criança está acostumada a tomar leite com achocolatado, nem adianta tentar. Minha filha só consegue ter esta sensibilidade porque toma leite puro desde bebê, sem nenhum açúcar.

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Segredo

– Ruth, eu não vou te contar que a mamãe me deu um remédio porque é um segredo só meu e dela.

Grrrrrr. Pô, Isaac.

Contexto: uns 30 minutos antes, eu tinha levado o menino sozinho pra cozinha para tomar um remédio, que a gripe dele tá braba.

– Isaac, por favor, não diz pra Ruth que você tomou remédio, que ela vai começar a chorar dizendo que quer também e eu não vou dar remédio pra ela à toa. Por favor.

Só preciso declarar: odeio esses remédios infantis com gosto de morango, que fazem as crianças acharem que estão ganhando um presente.

Grrrrrr.

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Amor

– Eu te amo, Ruth. 

– Obrigada, mamãe. 

“Obrigada”, mano?

De onde SAEM os bebês?

Isaac olha para uma moça grávida no metrô e começa a perguntar. 

– Tem um bebê na barriga dela?

– Tem. 

– Ele vai sair?

– Vai. 

– Vai explodir a barriga pra sair?

– Não, não vai. 

– Então como sai?

– Tem um buraco para sair. 

– Onde?

Me pegou desprevenida. Eu devia ter uma resposta adequada na ponta da língua, mas mandei:

– Na periquita. 

–  O BEBÊ VAI SAIR PELA PERIQUITA? COMO, MAMÃE??? – Ele gritou, espantado, bem alto. 

Alguém me indica um livro de respostas para perguntas complexas que crianças de 4 anos fazem, peloamordedeus?

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Brilha brilha estrelinha

Ela me chamou no meio da madrugada e lá fui eu com aquele mau humor padrão. Abri a porta do quarto e tudo brilhava muito.

Explico: ela estava usando um pijama que brilha no escuro e colocamos estrelas no teto que também brilham. Mas só brilham depois de ficarem um tempo expostos à luz, então eu saquei:

– Ruth, você estava com a luz acesa? Por que acendeu a luz?

– Mamãe, você não gosta que eu te chame para fazer coisas fáceis, então acendi a luz e arrumei o travesseiro, o Olaf e o cobertor sozinha. Mas agora quero fazer xixi e preciso de ajuda. Me leva no banheiro?

Ruth, você é genial. Queria ser madura assim como você é. Um dia vou te esmagar de verdade se você não parar de ser fofa.

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Presente de dia das mães

– O que você quer ganhar de dia das mães?

Ah, não vou mentir: apesar dessa vida simples e desapegada que tô perseguindo, eu ainda quero um monte de coisas. Não eletrodomésticos, please. Quero roupas novas, lingerie, um tênis, acessórios. Te faço uma lista com umas dez coisas bacanas que vão me arrancar um sorriso.

Mas um presente bacana mesmo seria não ter mais que me desculpar por ser mãe. Porque tenho percebido que, ao longo desses anos, eu me desculpo muito por ser mãe.

“Desculpa, mas ele(a) está doente na escola e vou ter que ir buscar”. “Desculpa, mas o médico só tinha consulta nesse horário e preciso levar”. “Desculpa, mas ele(a) fez uma birra hoje cedo pra acordar e atrasei”. “Desculpa, mas a reunião de pais/ apresentação de dia das mães é nesse dia e horário e vou ter que ir”. “Desculpa, mas hoje ele(a) teve uma excursão, perdeu o horário da perua e ficou lá na escola, preciso ir buscar”. “Desculpa, mas a babá faltou/ pediu demissão e não tenho com quem deixar”. “Desculpa, mas estou indo pra casa ficar com meus filhos”.

Perceber que eu estava me desculpando simplesmente porque sou mãe foi frustrante. Porque não é que eu quero ficar fazendo essas coisas todas só para meu próprio prazer. É um direito das crianças ter alguém que cuide delas e que faça as coisas que precisam ser feitas para elas. É um direito das crianças que elas tenham pelo menos um adulto que as tenha como prioridade e que não as deixe na mão. E, por trás dessas minhas desculpas todas, existem duas crianças que precisam de médico, de cuidados, de tempo e de mãe.

Hoje passei por essa imagem do MILC e vi que é isso que eu quero. Não quero flores nem presentes, quero poder dar prioridade para meus filhos sem pedir desculpas. E como isto não vem em uma caixa de presente e só depende de mim, nesse dia das mães eu mesma vou me dar o meu presente.

Isaac e Ruth, a mamãe nunca mais vai pedir desculpas por ser mãe.

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Levanta

– Mamãe, não senta aí, não, é pros velhinhos.

Ruth me fazendo levantar de uma cadeira não-preferencial no metrô e me fazendo viajar em pé. ❤

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Desfralde noturno

Confesso: enrolei muito. Minha filha já estava madura para o desfralde noturno há um tempo (eu acho, não dá pra ter certeza), mas eu esperei o inverno acabar, esperei o verão chegar de vez, esperei as férias, esperei mais umas semanas, respirei fundo e tiramos a fralda da noite.

Foi simples e ela se saiu bem. Alguns escapes, nada de outro mundo. Mas essa história de levar criança pra ir ao banheiro meio dormindo é dose. Desfralde noturno acaba com a paz. A criança tá lá bem linda dormindo a noite toda e você inventa um intervalo, um “levanta da cama e vamos ao banheiro” e fica rezando pra ela não inventar de acordar de vez no meio da madrugada (nunca aconteceu). Nas primeiras semanas, eu colocava despertador no meio da madrugada pra checar se ela estava seca, uma crueldade pra quem acorda religiosamente todo dia às 6h. Não gosto nem de lembrar.

Agora estamos bem acertadas. Ela dorme cedo e eu a levo no colo para um xixi antes de eu deitar. Ainda não estou 100% confiante que ela aguenta 10-12 horas seguidas e prefiro fazer a voltinha ao banheiro enquanto ainda não dormi, para não interromper meu sono. Ela dificilmente me chama depois disso e tá tudo lindo.

Mas eu tenho gêmeos. Falta o outro. Meu filho não tá tão pronto, porque ainda deixa escapar xixis na calça com frequência durante o dia. Então eu pretendia esperar o tempo dele, com calma, talvez no verão que vem. Mas ele cresceu e não há fralda que aguente a noite toda. Molha pijama, molha cama, mesmo com fralda. Não temos água em São Paulo, não dá pra ficar lavando lençol todo dia. Eu poderia trocar a fralda dele no meio da noite, mas já basta a hora extra de fraldas noturnas para impactar o meio ambiente. Então, lá fui de novo, mas desta vez fiz diferente: nós combinamos que a fralda tem que acordar seca. Que não pode molhar a fralda. Que tem que me chamar pra fazer xixi. E ele topou o desafio. E cá estou eu sendo chamada de madrugada para xixis, saindo do quarto feito zumbi.

Não gosto de acordar no meio da noite. Ninguém gosta, né? Eu não consigo esconder meu mau humor. Só não vou reclamar porque estou sofrendo com isto só depois de quase três anos de maternidade. Para todas as mamães cujos bebês demoraram para começar a dormir a noite toda, meu abraço apertado e carinhoso. Vocês merecem.

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Adotado?

Eu tava lá numa consulta com uma nova médica para meu filho, contando todas as queixas e todo o histórico médico dele, tudo fora de ordem cronológica. Lá pelas tantas, eu cheguei no começo: “ele foi adotado com 1 ano e 3 meses e, antes disso…”. Aí ela me olhou, olhou de novo pra ele, olhou de volta pra mim:

– Oi? Você o adotou?

– Sim.

– Maijura? Tava aqui jurando que esse menino era mestiço também. Ele é a sua cara!

Ele é mestiço como eu, mas são outras misturas. Mas somos assim, um a cara do outro. Eu acredito mesmo que o amor deixa as pessoas parecidas. Sempre vejo um pouco de mim quando vejo as fotos deles. ❤