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Preciso de ajuda (ou como eu virei uma mãe com duas babás)

Trombei umas duas ou três vezes com esse texto nas redes sociais e vou copiar um pedaço.

“Nasce um bebê no Xingu. Todas as mulheres da oca se mobilizam. A mãe está cercada de cuidados e apoio. Nasce um bebê no sertão das Minas Gerais. A avó, a bisavó, as tias, a prima cercam a mãe de cuidados. Nasce um bebê numa aldeia africana. Numa tribo em Maui. Numa cidadezinha no interior da Tailândia ou da Polônia ou da Inglaterra – a cena se repete. Na favela da Zona Norte, as vizinhas e a tia que mora na laje de cima se encarregam de ajudar. E nas mansões dos jardins? Não são mais a avó e as vizinhas, mas as duas babás, a enfermeira, a faxineira, o motorista e o segurança.

Nasce um bebê em Copacabana, no apartamento 1104. A avó está trabalhando em tempo integral. O pai só tem cinco dias de licença. A vizinha do 1103 não só não ajuda, como sequer conhece, e ainda reclama do choro noturno. E a empregada diz que só ganha pra cuidar da casa. Ajudar à noite, nem pensar.

E aí temos esse fascinante fenômeno social: a única mulher do planeta que é deixada pra cuidar de um bebê sem nenhuma ajuda é a da classe media, urbana, ocidental. Pior: ela achava que ia conseguir…”

É, pois é. Não moro em mansão nos jardins nem em Copacabana, mas a cena é esta por aqui. Minha mãe trabalha em tempo integral, e eu me orgulho disso. Meu pai e minha madrasta também trabalham em tempo integral – também motivo de orgulho – e têm uma filha de 12 anos que demanda cuidados que, como mãe, conheço bem. Minha irmã uma vez me disse que não é obrigação dela cuidar dos filhos dos outros – o que até entendo, não é mesmo. A madrinha deles tem uma filha de 6 anos, que também demanda bastante. Minha vó tem 94 anos, não dá conta de duas crianças pequenas. E por aí vai. E, para ser justa, eu também não sei o quanto estava a fim de ver alguém da minha família frequentemente dentro da minha casa.

E eu achei que eu ia dar conta. Eu, a escola e nada mais, porque qualquer outra coisa seria sinônimo de fracasso. Eu nunca lamentei porque não tenho ajuda frequente de nenhum familiar, pelo contrário. Eu também acreditava no “quis ter filho? agora assume!”.

Durante minha licença maternidade, eu escolhi não ter uma babá. Na época, eu mal tinha ajuda em casa, apenas uma moça que ia duas vezes por semana. Ou seja, além de cuidar dos dois o dia inteirinho, eu ainda tinha roupas e louças para lavar e coisas para arrumar, porque ela não dava conta de cuidar de uma casa com quatro pessoas – sendo que três delas ficavam ali o dia todo – em apenas dois dias. Depois voltei a trabalhar, eles foram para a escola, a casa não ficava mais em estado de calamidade pública durante a semana e eu achei que tudo na vida estava resolvido. Me enganei. Eu precisei procurar uma pessoa para me ajudar com eles todos os dias, porque buscar na escola todo dia às 19h era humanamente impossível para mim. Essa parte da história já contei por aqui. A verdade é que eu resisti muito. Eu achava que qualquer pessoa que tinha uma babá na vida era uma incompetente ou uma folgada. Eu achava que as mães tinham a obrigação de dar conta do recado – senão eram incompetentes – e a querer dar conta do recado – senão eram folgadas. Eu demorei para reconhecer que eu precisava de ajuda e que eu seria muito mais feliz assim.

Sim, eu sou mais feliz com essa escolha. Em 80% dos dias, chego em casa às 19h, dispenso a babá e cuido dos meus filhos como sempre quis fazer. Mas tem os dias do trânsito, do vôo atrasado, da reunião que demorou um pouco mais, e ela está lá em casa com eles me esperando. Eu nunca mais voltei para casa chorando porque estava atrasada.

Aí um belo dia eu marquei uma consulta em um médico para os dois e pedi que ela fosse comigo. Era no horário de trabalho dela e achei que pudesse ser bom. Não foi só bom. Foi simplesmente a coisa mais sensacional desse mundo, gente. Imagina como era minha vida antes disso, vamos lá: durante a licença maternidade, não tinha escola onde deixar. Ou seja, cada vez que um tinha médico, eu tinha que levar os dois. Alguém presta atenção em alguma outra coisa quando se está encarregada de manter dois bebês vivos? Alguém? Me ensinem como, por favor. Mesmo depois que eles foram para a escola e eu comecei a levar um de cada vez no médico, eu não conseguia prestar atenção. Eles correm, mexem em tudo, querem participar da conversa, querem falar sobre outra coisa, querem brincar com as coisas que estão em cima da mesa. A cena mais comum na minha vida até então era: um médico sentado tentando me explicar a consulta, uma criança correndo e mexendo em tudo e eu em pé no meio do consultório me revezando entre prestar atenção (10% do tempo) e ver o que a criança está fazendo (90%). Nesse dia, eu descobri a maravilha que é sentar na cadeira em frente ao médico e ouvir o que ele está perguntando. Responder o que ele está perguntando. Entender o que ele está explicando. Fazer perguntas sobre o que ele me explicou. Chegar em casa sabendo exatamente o que tenho que fazer com meus filhos. Fazer jus a todos os centavos que pago pelas consultas médicas, basicamente. É lindo.

Aí aconteceu mais uma coisa: o Carnaval 2014. Já contei também: mãe sozinha, duas crianças sem escola durante 5 dias. Eu tinha que preparar todas as refeições deles e a cozinha virava o caos; eles dormiam e eu ia limpar tudo, para ter louças limpas para o dia seguinte. Implorei para meu pai ficar um pouco com eles, mas minha madrasta ficou super doente naqueles dias. Implorei para minha mãe ficar um pouco com eles, nós fomos passear juntos, mas não foi suficiente para meu cansaço físico se resolver. Eu não dei conta. Ponto. No final de semana seguinte, eles foram para a casa do pai e eu fiquei 48 horas deitada, me recuperando de uma gripe gigantesca, repetindo para mim mesma: “não tem problema não dar conta, não tem problema não dar conta, você não é obrigada a dar conta”.

No final de semana em que ficariam comigo novamente, eu chamei a moça que trabalhou em casa durante o ano de 2013 para me dar uma força. Perguntei se ela toparia fazer um bico e ela veio, porque fiquei em pânico de ficar sozinha de novo e surtar, confesso. Queria um apoio moral e alguém que olhasse os dois para eu poder fazer xixi. Desde então, ela vem quase todo sábado e me ajuda muito. Porque sábado à noite era momento de pensamentos suicidas, tá? Eles iam para cama cedo e eu encarava uma cozinha de deusmelivre para termos espaço para o café da manhã no dia seguinte. Eles dormiam tranquilamente em seus quartos e eu jantava sozinha, porque não podia sair e deixar os dois sozinhos no apartamento. A folguista vem no sábado no final do dia e me ajuda nessas duas coisas: ela dá um tapa na cozinha para mim depois que eles jantam e fica aqui no apartamento para eu poder jantar fora depois que coloco os dois para dormir.

Há pouco tempo atrás, se eu lesse esse meu depoimento acima, eu ia julgar essa mãe, ia achar que ela é incompetente, folgada e dondoca (tinha essa também, babá era coisa de dondoca). Eu ia mandar um “onde já se viu levar a babá no médico?” ou um “onde já se viu babá no sábado?”. Hoje essa mãe sou eu: que realmente nem sempre dá conta do recado sozinha, que reconheceu que precisa de ajuda e que teve que apertar o orçamento do lar para ter ajuda.

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O que pode acontecer depois da chegada

Em uma das reuniões do GAASP (Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo) que participamos, o palestrante disse algo assim: “imagina que um dia você tentou atravessar um abismo por uma ponte e esta ponte cedeu. Na próxima vez que você precisar atravessar o abismo por uma ponte parecida, antes de iniciar o trajeto você certamente vai testar bem a ponte: vai balançar muito e dar pisadas fortes, antes de ter certeza que ela é segura e que você pode atravessar tranquilamente. A mesma coisa acontece com as crianças que foram separadas de suas famílias de origem”.

Uma das principais coisas que aprendemos com os grupos de apoio, em reuniões do GAASP e do GEAA-SBC (Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de São Bernardo do Campo) foram as reações e comportamentos que podemos esperar (e nos preparar) de nosso filho. É claro que cada criança sente e reage de um jeito e eles não nos disseram que necessariamente vamos passar por essas situações. Mas nos ensinaram que são reações normais e esperadas e que devem ser tratadas com carinho e paciência.

Teste: testar os pais é uma reação parecida com a história da ponte que já cedeu uma vez. A criança estava abrigada e sabia que era uma situação provisória; depois passa a viver com uma nova família, que conhece há pouco tempo. Ela pode se lembrar da separação da família biológica ou já ter passado pela dor de uma devolução. Ou pode ter acompanhado a dor de colegas de abrigo que foram separados de suas famílias biológicas ou que foram devolvidos por famílias adotivas. Essas experiências podem gerar insegurança e medo de uma nova rejeição e o “teste” pode ser uma forma inconsciente de pedir uma prova de amor, para ter certeza que pode se apegar sem medo de ser machucada novamente. Por outro lado, para os papais, os testes serão exercício de paciência, dedicação e sabedoria, para enfrentar birras, bagunças e desobediência mostrando amor e impondo limites.

Regressão: muitas crianças passam a ter comportamentos incompatíveis com a idade quando são adotadas, como por exemplo, voltar a fazer xixi na cama, pedir mamadeira ou falar como bebês. Eles podem ser causados por ansiedade ou também como uma forma de preencher uma parte da história delas que foi rompida, como se a criança quisesse passar com os papais adotantes por fases anteriores à chegada na nova família. Faz parte da construção de vínculos e a criança nunca deverá ser humilhada ou repreendida por tais comportamentos. E faz parte do papel de papais adotantes saber suprir essas necessidades, também com limites, claro.

Grude: não queremos dizer que os cuidadores do abrigo não cuidam bem das crianças. Mas por mais que as crianças abrigadas estejam alimentadas, limpas, quentinhas e recebendo atendimento individual, elas entendem que a situação é provisória e que estão longe de uma família. Ou seja, são carentes. E vão precisar de atenção, pedir colo, querer carinho dos papais adotantes. Pode parecer óbvio, mas já ouvimos duas histórias absurdas de pais adotivos que devolveram crianças que eram muito “grudentas”.

Mas, no fim… não tem receita de bolo para resolver. Precisa de amor e paciência. Precisa também saber procurar ajuda, caso os papais adotantes percebam que não sabem lidar com os problemas sozinhos. E, depois, mais uma grande dose de amor e paciência.

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