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Não vai ter copa

Queridos filhos,

Na nossa casa não vai ter copa. Eu sei que vocês têm feito uma série de atividades na escola relacionadas à copa do mundo, mas não sei exatamente o quanto vocês entenderam sobre o assunto porque não falaram sobre isto em casa ainda. Não sei se tinham expectativa de assistir jogos com a mamãe. Mas nós não vamos acompanhar a copa do mundo, tá?

É que é assim ó, a mamãe não costuma acompanhar a copa. Minha primeira e última copa foi em 1994, durante as férias escolares, quando me reunia com os amigos do prédio para os jogos e – confesso – me diverti. Depois disso, não lembro mais de copas. Ou porque era de madrugada, ou porque eu estava trabalhando e sempre aproveitava os horários de jogo para me locomover pela cidade (gente, na boa, sair 1 hora antes do jogo e pegar o trânsitodosinfernos se eu podia sair no meio do jogo e chegar em casa tranquilamente?), ou porque eu tinha outras coisas mais legais para fazer.

Acontece que odeio futebol. Nem sempre foi assim, porque em algum momento da adolescência eu tentei me incluir no “socialmente aceitável”, tinha um time preferido, discutia os resultados de jogos e tal. Depois resolvi assumir que odeio.

Não é o esporte em si que eu odeio. Nada contra pessoas chutando uma bola para dentro do gol. Eu odeio: 1) brigas de torcidas, 2) movimentação exagerada de dinheiro em torno desse esporte, 3) gente que deixa de fazer qualquer outra coisa para assistir jogo, 4) gente que parece que só sabe falar sobre futebol, 5) multidões comemorando vitórias no meio da rua, 6) gente que sai na janela e xinga o vizinho no meio do jogo, 7) gente que chora quando o time perde a final do campeonato.

Desde que eu soube que a copa de 2014 seria no Brasil, fiquei me prometendo que tiraria férias e que passaria um mês fora do país. Mas com filhos e com um emprego novo, não organizei férias durante a copa e estou arrependida. Porque a copa será aqui e o clima não é de festa. Tem um clima de tensão no ar o tempo todo e fico feliz por vocês não entenderem essas coisas ainda. Tem greves (e elas podem piorar na copa), tem manifestações (e elas podem piorar na copa), tem amigos, colegas de trabalho, clientes e até motoristas de táxi reclamando que a economia vai parar durante a copa, que não vão conseguir trabalhar, que o país vai entrar em recessão. É um clima de depressão pré-copa. É um clima de medo. Não tá legal. E não aguento mais ouvir pessoas dizendo “imagina na copa”.

No dia seguinte aos jogos, vocês irão para a escola e vão estar por fora dos acontecimentos. Como a mamãe, tá? Nós vamos saber o resultado do jogo porque não somos tão alienados assim, mas não vamos saber as melhores jogadas, quem fez os gols, nomes de jogadores, esse tipo de detalhe. Nunca sofri bullying por não saber nada sobre futebol, então vocês também vão lidar bem com isso. Eu não sei o nome de nenhum jogador da seleção atual e não sei contra quem o Brasil vai jogar nos três jogos que estão na minha agenda do trabalho, e a gente vive bem sem essas informações, fiquem tranquilos.

Amo muito vocês dois.

Beijos

Mamãe Ruri

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TV?

Andei lendo muitos textos falando sobre os malefícios do excesso da televisão no desenvolvimento das crianças, sobre como reduzir o tempo de exposição das crianças à televisão, sobre dicas de atividades que os pais podem fazer para entreter seus pequenos enquanto a televisão fica desligada, e sobre o quão difícil esse processo de desconexão da televisão deve ser.

Gente.

Na nossa casa não tem televisão. Minto, vai. Tenho dois aparelhos de televisão. Um deles está no meu quarto e fora da tomada há meses, porque precisei do adaptador para outra coisa e nunca mais a liguei de volta. O outro está na sala enfeitando a estante e é usado uma vez por mês quando resolvo alugar um filme. Não vou negar que até gosto de algumas séries americanas, mas faz muito tempo que não vicio em nada. Então, hoje em dia, posso afirmar que na nossa casa não tem televisão.

É muito simples. É só não ligar. Meus filhos nem sabem quais são os canais infantis que temos no pacote de TV a cabo, que só mantenho porque era mais barato assinar um combo que assinar apenas a internet. Como não sabem o que existe e não conhecem a possibilidade de me pedir para ligar a televisão, eles nunca me pedem para ligar a televisão. Assistir televisão não é uma opção que eles conheçam. É claro que eles sabem o que é televisão, porque em geral ela está ligada na casa da vovó, do vovô, da bisavó. Ela só não é uma opção para passar o tempo enquanto estamos em casa.

Tá, já passamos por uma fase Galinha Pintadinha quando eles eram mais novos. Acho que ela já ficou ultrapassada, tadinha. Depois dela, nunca mais apareceram com ídolos em casa. Eu sei que eles conhecem os personagens dos desenhos, mas nunca mais tivemos programas de crianças na nossa televisão desde a aposentadoria da galinha em meados de 2013.

Tem suas desvantagens, né? Eu não consigo colocar um filme para eles e achar que eles vão ficar bem concentrados na sala me dando um pouco de paz. Não dura 5 minutos. Eu nunca arrisquei ir ao cinema, porque já consigo me imaginar passando vergonha.

Mas tem muito mais vantagens, vai? Quando estamos em casa, estamos sempre interagindo com alguma coisa: ou estamos brincando, ou estamos conversando, ou eles estão me ajudando (ou tentando me ajudar) com alguma coisa, ou eles estão brigando (o que não deixa de ser uma interação), ou eles estão entretidos com algum brinquedo de montar, de encaixar, de brincar de faz-de-conta. O que importa é que eles sempre sabem o que fazer para se distrair e se divertir.

E eles simplesmente não são impactados por nenhum tipo de publicidade infantil. Perto do aniversário de três anos, um colega me perguntou o que eles pediram de presente. Nada. Acho que eles nem sabem as opções que existem por aí.

E não é um super esforço. É só um hábito que temos. Somos assim, alienados mesmo.

Vida sem carro

No dia em que completei 18 anos, fiz o exame psicotécnico para tirar carta. Tinha ido na auto-escola uns dias antes para não perder tempo.

Disputava o carro com minha mãe e com minha irmã durante a faculdade.

Assim que me formei e passei a ter salário, comprei meu primeiro carro. Achava que seria impossível ter uma vida profissional sem carro. Também achava que seria impossível ir morar sozinha sem carro. Morar sozinha era meu maior sonho, mas a primeira coisa que providenciei na vida foi um carro.

Até ter filhos, fiquei casada por quatro anos e tínhamos dois carros. Uma casa, duas pessoas, dois carros.

Durante uns três anos, meu escritório ficava a uns dois quilômetros do escritório do marido. Mas eu ia com meu carro e o deixava parado na garagem o dia inteirinho.

Eu era do tipo que ia na padaria de carro. Achava impossível viver sem carro. Lembro de uma vez que uma colega de trabalho européia que estava chegando ao Brasil me perguntou se ela deveria pensar em comprar um carro e eu respondi que “claro que sim, né? Como é que alguém vive em São Paulo sem carro. Impossível.”

Deixar o carro uns dias na revisão era um sufoco. Achava que não dava para ir trabalhar, que ia morrer de fome sem conseguir comprar comida, que ia precisar ir correndo para o hospital e que não teria como chegar lá. Nos dias de rodízio, eu saía de casa para trabalhar às 10h e só voltava depois das 20h, porque meus horários precisavam se adequar aos horários do meu carro.

Soma-se a tudo isso uma pessoa que detesta dirigir. Quanta babaquice na vida, hein?

Aí bateram no meu carro no mês passado e eu me libertei.

Contratei a perua para os bebês. Comprei um bilhete único para mim. Troquei os saltos por sapatilhas, a mochila de rodinhas por uma mochila de colocar nas costas. Comecei a usar o e-commerce do supermercado e recomendo inclusive para aqueles que têm carro: nada mais lindo que sua lista de compras sair do computador diretamente para os armários de sua casa. Nesse meio tempo, minha filha me premiou com duas crises de dor de ouvido e tivemos que correr para o hospital. De taxi, tranquilamente, sem problema algum. Num outro dia, precisei fazer várias coisas em vários lugares com eles e aluguei um carro. No mais, andamos a pé ou de transporte público, e às vezes pegamos uma carona.

E descobri que sou mais feliz assim.

É mais saudável, porque ando muito durante o dia. É mais sustentável, porque não poluo o ar. É mais barato. É menos estressante, porque não pego trânsito e o tempo para chegar em casa é totalmente previsível. É mais livre. É bem melhor.

E meus bebês estão aprendendo um monte de coisas. Estão aprendendo a andar na rua, a atravessar a rua, a tomar cuidado com os carros. Estão aprendendo a esperar o ônibus certo no ponto e a ter paciência e esperar a nossa vez de entrar. Estão aprendendo que temos que pagar a passagem e que temos que segurar firme para não cair. Eles não estão mais trancados no ar condicionado do carro, mas estão vendo as pessoas, a rua e como as coisas funcionam. Estão conhecendo o mundo, sabe? Acho mais legal.

PS: não posso deixar de elogiar. Corredores e faixas de ônibus são a coisa mais linda desse mundo. Eu me delicio demais sentadinha no busão que anda a 150 km/h olhando os motoristas dos carros paradinhos no trânsito bem ao meu lado.

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Palmadas, não, pliz

Eu sou contra dar palmadas em crianças para educá-las. Apanhei quando era criança, tanto da minha mãe quanto do meu pai. Não tenho traumas, não tenho raiva disso, também não sei dizer o quanto isso foi bom ou ruim. Ser contra palmadas não tem nada a ver com a forma como fui educada. (mãe, pai, amo vocês, tá?)

Sou contra palmadas simplesmente porque acho que violência não educa ninguém. Violência é medo, opressão. Violência não gera compreensão, assimilação do certo ou errado, nem argumentação, nem nada. Chicotear escravos era legal? Polícia que espanca manifestantes é legal? Pessoas que lincham bandidos (ou pessoas que foram confundidas com bandidos) é legal? Bater na esposa/ namorada/ companheira é legal? Então por que é ok bater nos filhos?

Só é ok porque as pessoas entendem que os filhos são delas e elas podem fazer o que quiser com eles. Mas não vou discutir isso. Vou discutir duas coisas que me incomodam nas palmadas.

Coisa 1:

Com que moral uma mamãe ou um papai que bate em seu filho explica para ele que não pode bater nos amiguinhos/ professora/ irmão/ vizinho ou sei lá mais quem? Como faz para explicar que não pode resolver as coisas no tapa se o próprio pai ou a própria mãe não dá o exemplo?

Coisa 2: (a coisa que mais me incomoda)

Filhos são seres capazes de nos tirar do sério como ninguém. Eu sou mãe e sei bem o nervoso que dá uma criança que insiste em não obedecer. É irritante. Aí no meio desses ataques de raiva que dominam nossos corações, vem aquela vontade de dar um tapão na criança para ver se ela entende o quanto a gente está nervosa com a situação. Aí que mora o perigo: as pessoas batem porque querem aliviar a raiva, e não porque estão querendo educar.

Eu converso muito e penso muito sobre o comportamento dos meus filhos, porque quero encontrar a melhor forma de educar. Penso em quando é melhor ignorar, quando é melhor tirar alguma coisa que eles gostam, quando é melhor colocar no quarto de castigo, qual o melhor momento para ter uma conversa. Nunca passei por uma situação onde pensei: “ah, acho que agora é melhor bater neles porque assim vão aprender que isto é errado”. Duvido que alguém pense e planeje o melhor momento para uma palmada, gente. Palmadas acontecem sem planejamento, no meio da fúria. E no meio da fúria, as pessoas podem bater mais forte do que queriam e mais vezes do que queriam. Dói. Machuca. Ofende. E não educa. E outra coisa: queremos filhos que nos respeitam ou filhos que têm medo da gente?

Crianças precisam ter limites e precisamos ser firmes. Dá um trabalho do cão. Mas somos os adultos, as pessoas mais maduras da relação e precisamos ser equilibrados, coerentes, justos e humanos. Vamos pensar um pouquinho mais antes da palmada? Tem outras alternativas, te juro.

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Criança inteligente dá trabalho

Minha filha anda brigando com a tia da perua. Já contei que ela está impossível?

Aí eu falei para ela:

– Você sabe que a mamãe não tem mais carro. Você tem que voltar de perua e obedecer a tia da perua, senão não sei o que fazer.

– Se eu não voltar com a perua, você vai me buscar?

– Não, porque eu não tenho carro.

– Você tem que buscar, porque eu não posso ficar na escola.

– Pode, sim.

– Não posso, a escola fecha, você tem que ir me buscar.

– Eu não tenho como te buscar, filha.

– Pode a pé.

– Não, não vou a pé até lá.

– Mas eu não posso ficar sozinha porque eu sou pequena.

– Eu sei, por isso você tem que obedecer a tia da perua.

– Não. Você vai me buscar na escola. A escola fecha e eu não posso ficar lá.

Mano. Pô. Pára. De. Argumentar. Comigo.

É falta de televisão ou de tablet na vida dessa menina? Se eu começar a hipnotizar com desenhos animados, será que ela emburrece um pouco? Tá loco.

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Remédio para o choro

Criança chora muito. Choro enlouquece a mãe. Ponto.

Agora, não bastasse eu ter dois filhos que choram muito multiplicado por dois, minha filha agora deu para brincar de acalmar o choro da boneca. Funciona assim: ela pega a boneca no colo e fica balançando o brinquedo pela casa como se estivesse tentando niná-la, imitando o choro da boneca (“unhééééé, unhéééééé”). A boneca chora mais que ela e ela nunca consegue fazer a boneca parar. Então nós temos dois cenários: ou ela está chorando pessoalmente por alguma coisa que tenha acontecido (caiu, irmão bateu, irmão pegou o brinquedo, mamãe deu bronca) ou ela está dublando a boneca que chora sem parar.

Não dá.

Na última vez, depois de uns 15 minutos, eu não segurei:

– Ruth, peloamordedeus, acalma essa boneca ou vou guardá-la no armário.

Silêncio e a aquela carinha engraçada de interrogação.

– Mamãe, você vai me guardar no armário quando eu chorar?

Filha, não me dá ideia.

 

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A missão de educar

Teve uma época em que eles tinham dificuldade ou demoravam para assimilar o que era certo ou errado, o que podia ou não podia fazer, e eu tinha que falar 492 vezes a mesma coisa. Hoje eles já sabem. Hoje eles conhecem a maioria das regras, sabem o que esperam deles nas situações cotidianas. Tô falando das coisas simples, claro: não fazer xixi/ cocô na roupa, não falar com a boca cheia, não cuspir, não bater/ morder/ empurrar os amigos, não gritar, não pular no apartamento porque temos vizinhos no andar de baixo que gostam de descansar etc. Eu sei que eles já aprenderam todas essas coisas.

Entramos, então, na fase do vamos-fazer-coisa-errada-de-propósito. Para irritar, para provocar, para chamar atenção, para testar os limites ou a paciência alheia, não sei. Mas entramos nessa fase em que eles sabem que o comportamento não é legal, sabem que vão tomar uma bronca e ficar de castigo, mas fazem assim mesmo. Fazem e avisam que fizeram, rindo, só para testar mais um pouquinho.

Parênteses: deixa eu ser justa com meu filho. A protagonista desse post é minha filha. Mano-do-céu, como minha filha está difícil.

Não fosse só a irritação e o trabalho que dá limpar/ arrumar/ dar bronca/ conversar/ ouvir berros, tem também o medo de estar fazendo tudo errado. Por que olha, é difícil saber exatamente o que fazer. Nunca sei direito o balanço. Quando sou firme, dou castigo ou consigo ignorar a confusão, fico com medo de ter sido dura demais e de ter dado a impressão de que não gosto deles. Quando invisto em uma conversa carinhosa e procuro entender o que está acontecendo, fico com medo de ter sido mole demais e não ter mostrado autoridade. E minha filha vem inventando confusões novas para chamar a atenção, e na hora nunca consigo pensar direito na melhor forma de educar.

Eu sei que é neura. Mas acho que preciso fazer um curso de “como lidar com crianças desobedientes”, módulos básico, intermediário e avançado.

PS: Só para constar: sou contra palmadas, porque tenho certeza que violência não educa. Não gosto de gritar, porque eles me imitam demais – ou seja, aprendem a gritar com os outros quando estão bravos. Se esses itens estiverem no conteúdo programático, o curso não serve.

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Pra tudo tem um jeito

– Como você consegue cuidar de dois bebês de um ano sozinha o dia todo (durante a licença maternidade)?

– Como você consegue conciliar o trabalho em consultoria e dois bebês pequenos em casa?

– Como você consegue assumir um cargo novo em uma empresa nova com dois bebês pequenos?

– Como você consegue ser mãe solteira, trabalhar fora e ter dois filhos pequenos?

– E agora, como você tá conseguindo fazer tudo isso sem carro?

Gente, vou contar quando comecei a achar todos os problemas da vida muito simples: quando fui ao fórum e passei por diversas entrevistas para dizer que eu tava pronta para adotar uma criança. Uma criança só, mas eu aceitaria dois se fossem gêmeos. Gêmeos é mó legal, vai? Casal, então, nem se fala. Aí me ligaram e me perguntaram se eu gostaria de conhecer um casal de gêmeos de um ano e disse que sim. E os trouxe para casa uma semana depois sem mal ter tido tempo de fazer os enxovais direito.

A gente vira mãe e precisa zelar pela saúde, pela educação e pelo desenvolvimento emocional dos filhos. Isso é difícil. Qualquer outra coisa é muito fácil. Trabalhar fora, não ter carro, não ter dinheiro no final do mês, manter a geladeira abastecida, qualquer outra coisa é fichinha.

Essa é uma parte legal demais da maternidade: a gente perde o medo da vida. A gente simplesmente vai lá, resolve as coisas e fica tudo bem.

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De mãos dadas

Estamos sem carro e fui para a festinha de dia das mães na escola de metrô. Na volta, resolvi vir a pé com eles de volta para casa. A noite estava gostosa e é pertinho, pouco mais de 1 km. Sim, tem uma super subida no caminho e tínhamos três mochilas pesadas. Levamos uma meia hora no ritmo deles.

Viemos devagar, um de cada lado de mim, uma mãozinha na minha e a outra puxando a mochila da escola. Conversamos sobre a festa, sobre a lua, sobre os restaurantes e lojas do caminho e sobre os ônibus que passavam ao nosso lado. Fizemos planos para o final de semana. Andamos em silêncio quando eles se sentiram cansados e perceberam o peso das mochilas nos bracinhos, mas não me deixaram ajudar.

Aí eu tô sensível e cheguei em casa com lágrimas nos olhos. Porque é bom demais ter duas mãozinhas segurando minhas mãos e andando ao meu lado. Porque é bom demais ter dois companheirões, que toparam numa boa a caminhada, sem reclamar que não temos carro ou que a mochila estava pesada. Porque é bom demais ser especial na vida deles e ver que eles acham legal demais estar comigo e fazer qualquer coisa comigo.

Ser mãe é o papel mais importante que tenho na vida. Isaac e Ruth, vocês são a minha vida. Obrigada por todos os dias das mães que vocês me dão todos os dias.

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Mamãe frustrada

Meus queridos,

Estou tentando ter essa conversa com vocês quase todos os dias, mas sei que vocês ainda não conseguem entender tudo o que estou falando. Só que eu vou continuar insistindo. Vou falar sobre isso um pouquinho por dia, todos os dias, até vocês conseguirem me entender.

Fato é que está muito difícil fazer qualquer coisa com vocês dois.

Pronto. Falei. Não tá dando.

Tá. Muito. Difícil.

Tô cansada de crianças que choram por qualquer coisinha, de crianças que correm para longe de mim e me obrigam a segurar firme as mãozinhas o tempo todo (só tenho duas mãos, lembram?), de crianças que fazem birra, de crianças que mexem em tudo que está pela frente sem perguntar se pode antes, de crianças que – do nada – resolvem fazer alguma coisa chata só para me irritar (exemplos: ficar em pé na cadeira para comer em pé, assoar o nariz sem papel e vir me mostrar melecas escorrendo por cima da boca, jogar coisas no chão). É chato, tô cansada, tá?

Eu programo um monte de coisas para fazermos juntos no finais de semana porque quero que vocês se divirtam e porque quero levá-los para ver o mundo! Invento um monte de coisas legais para levar vocês dois. E pretendo continuar levando. Mas, filhos, por favor, colaborem com a mamãe? Não tá dando para ficar fazendo um monte de programas que não são legais para mim, não. Eu volto para casa cansada, irritada e arrependida por ter saído com vocês, porque vocês não me obedecem. É muito chato. Tá quase valendo mais a pena passar os dias trancados em casa para não ouvir gritarias e para não ter que correr longas distâncias atrás de seres que não conseguem ficar parados ao meu lado.

O que eu espero de vocês dois, de todo o meu coração:

  • Que eu não tenha que chegar no restaurante e pedir para o garçom tirar todas as coisas de cima da mesa para que vocês não comam sal direto do saleiro, que não amassem todos os guardanapos, que não joguem azeite no cabelo da(o) irmã(o), que não batam o prato de porcelana na mesa. Que eu não tenha que pedir para não falar alto, para não bater talheres na mesa, para não jogar coisas no chão. Basicamente, que vocês não façam com que as pessoas das mesas vizinhas me olhem com cara de “restaurantes não são para crianças”, porque eu detesto fast-food.
  • Que eu consiga soltar a mão de vocês para fazer coisas necessárias, tais como: pegar minha carteira para pagar uma conta, amarrar meu tênis, cumprimentar uma pessoa.
  • Que vocês não chorem/ não façam escândalo na hora de ir embora. Melhor: que não chorem em ocasião alguma que não seja doenças ou machucados.
  • Que vocês não ponham a mão em NADA que não seja de vocês.
  • Que vocês fiquem sentados ao meu lado quando estivermos esperando alguma coisa (de consultas médicas a peças de teatro).

Me ajudem, por favor? Vamos começar a entender que os passeios precisam ser legais para nós três? Vamos começar a entender que eu tô tentando ser legal com vocês dois e tô esperando que vocês sejam legais comigo também? Por favor?

muitos beijos

Mamãe Ruri

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