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Guerra das caminhas

Se tivéssemos tido mais tempo para pensar na chegada de nossos brigadeirinhos, eles ainda estariam dormindo em berços. Até agora, essa é a única coisa que teríamos feito diferente. Decidimos colocá-los em caminhas porque ouvimos de outros papais e mamães que as crianças costumam estranhar a transição do berço para a cama. Como eles já iriam passar por uma mudança grande ao vir morar conosco, achamos que poderíamos evitar outra mudança dali a alguns meses. O único “porém” que conhecíamos é que as crianças podem descer e andar sozinhas pela casa, o que é perigoso. Mas nossos bebês dormem com a porta do quarto fechada e esse problema nós não tivemos.

Nas primeiras noites, apesar das grades laterais (que não cobrem todo comprimento da cama), os dois caíram no chão. Não se machucaram e não sabemos se caíram dormindo ou tentando descer. Depois de uma semana, eles aprenderam a descer das caminhas, antes mesmo de aprender a andar. E nós aprendemos que eles são muito novinhos para ficarem andando pelo quarto. Primeiro porque eles fazem uma mega bagunça, abrem armários e gavetas e jogam tudo no chão. Segundo porque eles não dormem, ou decidem dormir no chão mesmo. E, por último, porque nós não conseguimos ficar tranquilos na sala enquanto ouvimos a bagunça, gritinhos e coisas sendo jogadas de um lado para o outro.

Nós mudamos o layout do quarto várias vezes para dificultar a descida da cama. Na última mudança, encostamos uma caminha na outra e usamos o trocador para fechar a passagem para o chão. Com as camas encostadas, eles passaram um tempo sem tentar descer porque aprenderam a se jogar de uma cama para a outra. E assim, mesmo que um bebê quisesse dormir, o outro pulava em cima dele e os dois ficavam acordados pulando de uma cama para a outra até serem vencidos pela exaustão.

Essa semana, entrei no quarto para ver como estavam e encontrei minha filha deitada em cima do trocador. Eu quase morri do coração de medo de ela cair e dei um grito muito alto. Nós três demoramos um tempão para nos recuperar: meu coração ficou acelerado por uma meia hora e eles choraram de susto durante uns vinte minutos. Nesse dia, meu marido comprou um monte de fitas hellerman e nós fizemos uma super-gambiarra-gigante nas camas. Praticamente fizemos berços de fitas hellerman. Não está nada bonito, mas há três dias eles dormem rapidamente e nós não ficamos preocupados porque sabemos que estão seguros no quarto. Quanto tempo será que eles levam para descobrir outro jeito de descer?

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Primeira entrevista com a psicóloga e bebês

No dia 17 de setembro fomos ao fórum para a primeira entrevista com a psicóloga depois da chegada dos nossos brigadeirinhos, a mesma que cuidou do nosso processo de habilitação. Nossos bebês nunca tinham ido ao fórum, então a equipe técnica e a equipe do cartório só os conheciam pelos nomes.

Fizemos a entrevista os quatros juntos em uma sala e foi bastante difícil concluir qualquer assunto com dois bagunceiros mexendo em tudo e andando de um lado para o outro. Falamos sobre diversas coisas – a chegada deles, a organização da casa e da rotina, as consultas médicas, a recepção da família – e todas foram interrompidas por um “não pode subir aí”, “cuidado com a cabeça” ou “vem brincar aqui”.

No dia seguinte, liguei para a psicóloga porque tínhamos nos esquecido de perguntar alguma coisa qualquer. Ao telefone, aproveitei para dizer para ela que meu marido tinha ficado chateado por não termos contado o quanto ele me ajuda com os bebês. Como estou de licença maternidade e ele não pôde tirar os cinco dias para ficar conosco, ficou com receio de parecer um papai ausente. O que não é verdade; além da dedicação aos finais de semana, o papai os acorda, dá o café da manhã e chega a tempo para dar banho e o leite da noite. Ela me respondeu que não ficou preocupada com isso, porque ela queria ver como os bebês estão, como nós quatro nos relacionamos, se eles parecem seguros e felizes. A maior parte da avaliação foi sobre o que ela observou e não sobre o que falamos. Achamos legal, porque seria fácil ir até lá com várias histórias bonitas sobre o que aconteceu nos 50 dias que eles estavam conosco. Mas não daria para combinar com os dois que eles tinham que nos pedir colo, sorrir para nós, nos obedecer e nos abraçar, para parecermos uma família feliz. Essa parte foi espontânea.

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Pés trocados

“Querido papai, comecei a andar há pouco tempo e ainda preciso treinar muito. Você me ajuda se colocar o pé direito do sapato no meu pé direito e o pé esquerdo do sapato no meu pé esquerdo. Por favor, pára de inverter. Um beijo carinhoso do seu filho.”

Adaptação dos bebês

Essa semana vamos comemorar dois meses com nossos bebês e estamos pensando muito sobre a adaptação deles na nossa família. Nós não temos dúvidas que eles se adaptaram rapidamente a viver conosco. É fácil se sentir bem e gostar de quem cuida com carinho, brinca, dá comidinha e deixa quentinho.

A parte mais difícil da adaptação foi uma coisa comum em qualquer outra família: sair da rotina. Institucionalizados desde o nascimento, eles saíam do abrigo apenas a cada um ou dois meses para ir ao pediatra. Os demais dias eram muito parecidos, sempre no abrigo, seguindo a rotina que contamos aqui. Quando viraram nossos filhos, nós começamos a fazer coisas que todos os papais fazem com seus bebês – andar de carro, passear, visitar pessoas, ir ao parque, ir ao shopping, comer em restaurantes – e eles ficavam bastante estressados cada vez que uma refeição ou horário de soninho atrasava ou acontecia fora de casa.

Eles não choraram no carro quando viemos do abrigo para casa, mas choraram muito no carro todas as vezes que saímos nas três primeiras semanas. Passamos a maior vergonha na primeira vez que os levamos ao supermercado, um dia que decidimos comprar meia dúzia de coisas pouco antes do horário de almoço deles. Logo que chegamos, nossa filha fez cocô e eu precisei trocá-la no banco do carro, o que a deixou super brava (não, não tem um lugar decente para trocar fralda no Pão de Açúcar). E, sim, o cocô sujou a calça dela e, não, eu não tinha levado outra calça, então ela teve que ficar só de fraldas no supermercado (e nesse dia aprendemos a sempre ter uma roupa limpa na bolsa para eles). Depois disso, como estava com fome, nosso filho abriu o maior berreiro do mundo. Não era simplesmente um choro alto. Dias antes eu tinha o levado para fazer exame de sangue e ele chorou bem alto enquanto as enfermeiras faziam a coleta. No supermercado, ele esgoelou como se não comesse há 60 dias e chegou a ficar roxo. Todo mundo ouviu, muitas pessoas vieram ver o que estava acontecendo e nós tivemos que sair correndo de lá, morrendo de vergonha, e ele só parou de berrar quando começou a comer em casa. Ficamos imaginando as pessoas pensando porque pais de crianças de mais de um ano ainda não tinham aprendido a levar troca de roupa ou a fazer o filho se acalmar.

Aos poucos eles foram ficando mais flexíveis e perceberam que, mesmo que demore, eles vão comer, dormir e voltar para casa. Parece que começaram a entender os dias de semana, quando papai vai trabalhar e eles seguem uma rotina com a mamãe, e os finais de semana, quando saímos todos juntos, fazemos coisas diferentes e os horários mudam um pouco. No último final de semana fizemos várias coisas com eles e ficamos super felizes que eles choramingaram pouco, não ficaram muito impacientes e se divertiram bastante: fomos comprar algumas roupinhas, passeamos no shopping, almoçamos e jantamos em restaurante no sábado, visitamos uma das vovós e jantamos na casa de uma das madrinhas no domingo. E há poucos dias conseguimos fazer uma outra coisa que qualquer outro papai faz facilmente: carregar nossos filhos dormindo do carro até em casa e colocá-los na cama. Agora eles já se acostumaram com o cheiro e com o toque e confiam em nós até dormindo!

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Amor incondicional

Nós não vamos ficar escrevendo o quanto amamos nossos bebês, o quanto eles são importantes para nós, nem nenhum clichê do gênero. Nesse post queremos dizer para todas as pessoas que nos parabenizam por termos coragem de adotar nossos filhos porque elas não conseguiriam fazer o mesmo e para as pessoas que nos perguntaram como é ter um filho tão diferente de nós (se referindo ao fato de nosso filho ser mulato) que elas não sabem o que é amor incondicional. Essas pessoas amam seus filhos com a condição de que sejam filhos biológicos e que sejam fisicamente parecidos com elas. Essas pessoas provavelmente valorizam mais os “laços de sangue” que os laços de amor e carinho.

Nos últimos dias começamos a pesquisar escolinhas para nossos filhos. Liguei para várias delas para pedir informações e para todas disse que tenho gêmeos de 1 ano e 5 meses. Todas as pessoas que me atenderam – sem exceção – fizeram comentários super positivos para os gêmeos, como “que legal!”, “que lindo!” ou “que sorte!”. Nós também achamos que ter gêmeos é muito legal, muito lindo e muita sorte. O engraçado é que ter gêmeos é legal, mas ter gêmeos adotivos é coragem (como contamos nesse outro post).

O que nos incomoda não é que nem todas as pessoas queiram adotar um filho. Nós não achamos que todas as pessoas deveriam adotar. No Cadastro Nacional de Adoção (CNA) há mais de 25 mil pretendentes e cerca de 5 mil crianças disponíveis para adoção, ou seja, não há exatamente necessidade de aumentar o número de papais que querem adotar. Também concordamos que ter um filho biológico deve ser incrível, e por isso ainda não desistimos completamente de talvez-quem-sabe-um-dia ter um filho biológico. Incomoda que pessoas, muitas delas sem nenhuma intimidade conosco, façam perguntas e comentários sem pensar no que vamos sentir ou se vão nos ofender.

Para terminar, hoje um conhecido escreveu no Facebook que, ao invés de publicar mensagens divulgando cães e gatos para adoção, as pessoas deveriam lançar mensagens com fotos de crianças carentes com um texto assim: “Fui jogada na lata de lixo, preciso me alimentar, preciso também de carinho e de medicamentos. E, claro, de escola, de cultura. Você não quer me dar um lar? Eu não pedi para nascer…“. Isto ofendeu bastante. Crianças não ficam expostas na vitrine, esperando que alguém tenha dó delas e queiram fazer a caridade e o favor de levá-las para casa. Adotar um filho não é caridade e não é salvar uma criança. Adotar uma criança é amor. Incondicional.

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Chá com bebês

Três semanas depois que os brigadeirinhos chegaram em casa, nós fizemos um “chá com bebês” para eles. Como todos os amigos e familiares queriam conhecê-los o mais rápido possível, nós reservamos o salão de festas e oferecemos um lanche de domingo para todos no dia 26 de agosto. De quebra, os bebês ganharam roupas e fraldas que ajudaram bastante a completar o enxoval!

Mas o principal objetivo da festinha não foi ganhar presentes ou receber visitas; foi deixar para nossos filhos um registro da chegada deles em nossa família. Não temos fotos do primeiro dia das crianças, do primeiro Natal e do primeiro aniversário, mas queríamos que eles tivessem fotos e lembranças desse dia e de todo o carinho que receberam. E a verdade é que nós dois também nos sentimos muito queridos, muito mais do que pensávamos ser.

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Adoção de irmãos

Algumas pessoas nos perguntam se nossos bebês são gêmeos mesmo. Hoje uma delas foi ainda mais específica: “era mesmo pai e mesma mãe?”. Sim, eles são gêmeos mesmo, da mesma gestação, nascidos no mesmo dia. Porque se não fosse assim, não os chamaríamos de gêmeos, certo? Algumas vezes, a pergunta que vem a seguir é: “vocês tiveram a opção de escolher só um deles?”. E essa opção não existe, não só porque eles são gêmeos, mas porque são irmãos e havia vínculo afetivo entre eles.

Na adoção, a separação de irmãos só é permitida em último caso, quando todas as tentativas de encontrar uma única família adotiva para eles tiverem sido esgotadas. Geralmente isso ocorre com grupos de irmãos muito grandes (quatro, cinco, seis…) ou com crianças mais velhas, pois é mais difícil encontrar pretendentes para esses perfis. Como essas situações são muito delicadas, a forma como as crianças são separadas é feita de acordo com a afinidade que elas têm entre elas, e não como desejam os pretendentes. E as famílias adotivas precisam assumir o compromisso de manter o vínculo entre irmãos, através de telefonemas e visitas, porque, se já é difícil lidar com a dor da perda da família de origem, romper o vínculo já construído com os irmãos seria uma segunda agressão para as crianças.

Antes de adotar, nós achávamos que a adoção de mais de uma criança seria complicado por ser mais difícil fazer aproximação e criar vínculos com crianças que sentem e reagem de forma diferente. Tínhamos medo de gostar menos de um do que do outro, por exemplo. Isso era uma grande bobagem! Cada um de nossos filhos tem a sua personalidade, seus gostos, suas manias e seu jeito de sentir e gostamos dos dois da mesma maneira. Cada vez que pensamos em como seria nossa vida com apenas um deles, percebemos que sem o outro não teria tanta graça!

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“Que coragem!”

Nós não imaginávamos que seríamos chamados tantas vezes de “corajosos” porque adotamos dois bebês. Perdemos as contas de quantas vezes ouvimos isso e simplesmente não entendemos, porque não tivemos que “tomar coragem” ou nada parecido e porque ter dois filhos é uma das coisas mais comuns do mundo.

Nossa ideia original eram dois filhos – um adotivo e um biológico – e optamos por uma criança ou gêmeos quando definimos o perfil de nosso filho adotivo porque, como na gravidez biológica, nós queríamos tentar a sorte de ter gêmeos. Sempre torcemos por gêmeos e fomos presenteados com um casalzinho na adoção! E, de uma única vez, ganhamos os dois filhos que queríamos ter.

A mudança na nossa vida e o trabalho que temos com nossos bebês não seriam muito menores se eles fossem um só: com um ou mais filhos teríamos que acordar às 7h inclusive aos finais de semana, ter sempre comida caseira e frutas em casa, lavar roupinhas, trocar fraldas, guardar brinquedos etc. Sim, dá mais trabalho sair de casa sozinha com os dois, mas é mais divertido e sempre engraçado. Da mesma forma, deve dar trabalho ter um filho começando a ir para escola e um filho acordando a cada 3 horas para mamar, ou um filho estudando de manhã e um filho estudando à tarde, ou um filho que está na faculdade e quer o carro emprestado, enquanto os papais precisam levar o outro filho para o colégio.

Nós esperamos que ninguém esteja querendo dizer que somos corajosos porque temos dois filhos adotivos, como se fosse muito diferente ou muito mais difícil que ter dois filhos biológicos. Ser papais de um casal de gêmeos que foram adotados não é mais difícil, mais ousado ou mais corajoso que ser papais de quaisquer outros dois filhos. Temos certeza.

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Um mês

Há um mês viramos papais de um menino sapeca e uma menina meiga. E olhando para nossa vida hoje, parece que faz muito mais tempo. Estamos craques em trocar fraldas, dar banhos, fazer comidinha, sair com dois bebês para passear e colocar para dormir. A casa já está adaptada e, na medida do possível, arrumada, porque não queremos que pareça ser caótico ter dois bebês. Nossos brigadeirinhos estão felizes, brincalhões e cheios de sorrisos. E de vez em quando fazem birra ou alguma coisa errada e tomam bronca.

Na última semana passamos por dois “imprevistos”. O primeiro foi com nosso filho, que acordou chorando muito um dia, depois de pouco mais de 1 hora que tinha ido dormir. Esperamos uns minutinhos para ver se ele voltava a dormir sozinho e nada. Entramos no quarto e tentamos acalmá-lo ainda na caminha e nada. Pegamos no colo no quarto para acalmá-lo e nada. Com medo de acordar nossa filha, e aí sim ter uma grande choradeira em casa, o levamos para sala e ali ficamos durante 1h tentando acalmá-lo, acordá-lo, cantando, ninando, fazendo carinho, massagem, falando com ele e nada. Por fim, imaginamos que poderia ser uma cólica, demos umas gotinhas de analgésico infantil e ele logo dormiu de novo. Acordou de novo às 7h sorridente e não sabemos direito o que aconteceu com ele. O segundo imprevisto é que nossa filhinha está doente. Há uns dias não quer comer direito, tem febre, muita tosse e está tratando uma pneumonia. Além de super preocupados, temos mais um monte de tarefas: horário de remédios, quatro inalações por dia, idas ao médico e à farmácia.

Nas duas situações, nós demos muito carinho. Nós ainda não sabemos o que fazer direito quando os filhos choram ou ficam doentes, mas estamos aqui para cuidar deles. E queremos que eles saibam que papai e mamãe aparecerão para dar colo e tentar resolver o problema sempre que chorarem ou ficarem doentes.

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Arroz

Diálogo com nossa faxineira:

‎- Jeane, não tem arroz pro almoço dos bebês. Você pode fazer, por favor?
– Não. Esses bebês não podem ter mãe que não faz nem um arroz. Você faz e eu fico aqui te ensinando.

Hoje bebês tiveram que comer arroz da mamãe. ♥

E o resultado: meu filho comeu tudo, porque é um esfomeado e come qualquer coisa. Minha filha não almoçou muito bem hoje…

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