Arquivo do autor:Ruri

Fica na sua, mãe

– Mamãe, você tem muito dinheiro ou pouco dinheiro?

Cada pergunta, viu?

– Por quê, Ruth? O que você quer saber? – eu achei que ela ia pedir um presente ou algo assim, mas ela também não soube explicar.

– Eu quero saber se você tem muito dinheiro ou pouco dinheiro.

Ela tem quatro anos e qualquer resposta ia me encrencar. Aí eu resolvi dizer que:

– Ruth, dinheiro é um assunto particular dos adultos e você é muito pequena, então não vou falar sobre dinheiro com você, tudo bem?

– Tudo bem. Boneca é assunto particular de criança e eu nunca mais vou falar sobre minhas bonecas com você, tudo bem?

Eu sei, eu tô f$#*$&#*&$#* quando essa doida chegar na adolescência.

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Meu amigo secreto homofóbico

– Mamãe, é verdade que homem só pode se casar com mulher?

Não, ele não tirou essa frase da cabeça dele. Se Isaac tivesse pensado sobre o assunto uns 30 segundos, ele teria concluído que homem pode se casar com homem, pois temos dois casais de amigos super próximos e super queridos – todos homens – que convivem bastante com meus filhos. Então alguém disse isso para ele, alguém deu essa frase pronta para ele.

Eu não sei quem você é, mas te desprezo. Desprezo sua homofobia e desprezo o fato de você ter espalhado sua homofobia para crianças. Sim, estou falando crianças no plural porque duvido que você tenha dito isto somente para meu filho. Temos tantas coisas boas para espalhar para as crianças, fulanx, tipo amor, respeito, carinho, tolerância, amizade, são tantas e tantas coisas que uma lista exaustiva seria imensa. Mas você usou o tempo em que esteve com meu filho para tentar colocar nele sua homofobia.

Amigx secretx, eu não sei quem você é porque não quero intimidar meu filho fazendo-o me dizer quem disse isso para ele. Então, se você estiver lendo este texto, saiba que não é uma indireta. Se eu soubesse quem você é, teria te ligado para te pedir para deixar seu preconceito longe do coração das crianças. Amigx secretx, te desprezo.

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Ensaio sobre o meu tempo

Eu não soube conciliar carreira e maternidade. Vou saber um dia, sei que vou, mas ainda não sei. Tenho muitos textos falando sobre essa dificuldade. Falam da dificuldade de ser mulher e mãe no ambiente corporativo, do quanto é duro equilibrar todas as demandas, da dificuldade de cumprir os horários, da cobrança por parecer não fazer nada direito.

Até que um dia eu cheguei no escritório e cantei:

Um belo dia resolvi mudar/ E fazer tudo o que eu queria fazer/ Me libertei daquela vida vulgar/ Que eu levava estando junto a você/ E em tudo que eu faço/ Existe um porquê/ Eu sei que eu nasci/ Eu sei que eu nasci pra saber/ E fui andando sem pensar em voltar/ E sem ligar pro que me aconteceu

Mentira. A bem verdade foi que eu cantei:

Não consegui conter, bem que eu tentei/ Não podem vir, não podem ver/ Sempre a boa menina deve ser/ Encobrir, não sentir/ Nunca saberão/ Mas agora vão/ Livre estou, livre estou/ Não posso mais segurar/ Livre estou, livre estou/ Eu saí pra não voltar/ Não me importa o que vão falar/ Tempestade vem/ O frio não vai mesmo me incomodar

Saí para um sabático. Conto mais sobre essa decisão em outro texto. Aqui vou contar sobre meu principal projeto no sabático: entender o meu tempo.

Que tempo?

Simplificando, “tempo” eram as horas do meu dia, da minha semana, da minha vida, que se embaralhavam, que sumiam, que nunca eram suficientes para nada. Meus dias úteis eram cronometrados. Chego até a cansar só de escrever.

  • Despertador tocava 5h40 (CINCO E QUARENTA, MANO). Aí começava o processo matinal com objetivo de não perder a perua escolar: eu fazia minha higiene, me vestia, acordava um, trocava, higiene, acordava outro, trocava, higiene, fazia café da manhã deles, fazia meu café da manhã (são diferentes, sim, porque eles iam pra escola e eu ia malhar), terminava de arrumá-los, terminava de me arrumar, pegava tudo (criançasmochilassacoladaacademiagarrafinhadeágua), punha tudo no elevador, colocava tudo na perua. Se alguma coisa diferente acontecesse – por exemplo, se algum deles quisesse fazer cocô – já dava tudo errado. Perder a perua significava andar 800 metros até a escola (difícil para eles) e perder a academia (difícil para mim). Essa confusão matinal jamais poderia ser chamada de café da manhã em família.
  • Eu gosto de academia. É um tempo só meu, faço musculação, corrida e spinning feliz da vida. Mas eu só tinha 40 minutos para malhar. Nunca dava tempo de fazer o treino todo, eu sempre fuzilava quem sentava no aparelho que eu queria usar.
  • Eu voltava correndo para casa e fazia tudo no esquema já-tô-atrasada-pra-sair: tomar banho, me trocar, dar uma arrumada na casa e comer alguma coisa.
  • Dali para frente, era a carreira. Deslocamento até o trabalho (45 minutos), reuniões, chefe, clientes, equipe, coisas pra entregar, lista de to-dos que não termina nunca, pedir almoço e comer na mesa, esquecer de escovar os dentes depois do almoço, esquecer de fazer xixi, esquecer de tomar água, tomar 5 cafés por dia, sair correndo no final do dia, mais 45 minutos para chegar em casa.
  • Chegava em casa no horário limite de a babá ir embora (sim, porque em determinado momento da minha vida eu percebi que nunca chegaria na escola no horário certo e contratei babá) e virava “mamãe”, com 100% do foco neles: era então hora de dar banho, brincar, dar comida, dar atenção, arrumar as coisas para escola e tal. Tudo bem rápido, claro, porque eu tinha chegado tarde e eles já estavam com muito sono.
  • Só depois que eles iam dormir que eu conseguia sentar no sofá e relaxar. Não relaxava antes de ter certeza que tinha sido uma mãe “presente e atenciosa”, nem relaxava antes de garantir que eles fossem pra cama em um horário adequado. E só depois disso tudo eu podia tomar um banho, fazer xixi, jantar, assistir House – isso se eu não tivesse trazido trabalho para casa. Ah, sim, muitas vezes eu trazia trabalho para casa. Pior: muitas vezes eu ainda tinha call para fazer com o chefe, então muitas vezes eu estava estressada com o horário do call enquanto cuidava das crianças. Eu pensava coisas do tipo “durmam logo que eu tenho um call começando em 15 minutos”.
  • Enfim, meu dia tinha começado às 5h40 e por volta das 21h (MAIS DE QUINZE HORAS DEPOIS) eu começava a tentar relaxar um pouquinho, se o trabalho não engolisse mais tempo. E, claro, o tempo do trabalho era cada vez maior e às vezes invadia meu tempo de malhar e diminuía meu tempo com as crianças. E nem gosto de dizer quanto tempo eu dedicava para meus filhos por dia. Era uma vergonha.

Enfim, eu passava o dia todo esperando a hora de meus filhos irem para cama para poder relaxar. E mais, mesmo que eu me esforçasse e fizesse questão de passar um tempo com eles todos os dias, eu jamais poderia chamar esse tempo de “tempo de qualidade”. Não era. Eu era uma pessoa cansada, estressada, meu celular tocava, mesmo que eu não atendesse o celular eu tinha raiva de quem me ligava aquele horário e muitas vezes o computador do trabalho estava na mochila esperando eu terminar mais uns slides. Sim, gente, é isso. What the fuck?

E quanto tempo afinal eu queria?

Quando tirei o sabático, eu tinha uma lista imensa de coisas para fazer, coisas para organizar, coisas para estudar, cursos para fazer, pessoas para encontrar, viagens, projetos, livros e coisa e tal. Mas a primeira coisa que fiz durante o sabático foi prestar atenção no meu tempo. Se fosse um projeto de pesquisa, eu estaria investigando as seguintes questões: quanto tempo quero ficar com meus filhos durante a semana? quanto tempo quero passar na academia? que horas quero acordar e ir dormir? quanto tempo tenho para trabalhar? quanto tempo preciso para relaxar (i.e., fazer nada, namorar, passear)?

Fui testando. Acordar mais tarde, dormir mais cedo, malhar em outros horários, mudar horários das crianças na escola, ficar sem babá, estudar de manhã, estudar à tarde, estudar de madrugada, bundar no meio do dia.

E hoje, seis meses depois, me descobri assim:

  • Eu gosto de acordar cedo. O despertador continua tocando às 5h40. Sou assim. Não sei se meus filhos gostam de acordar tão cedo, mas eles têm mãe louca, que posso fazer? Acontece que eu só tenho pique se entrar na academia cedão e malhar bem cedo. Gosto que meu dia comece cedo, então continuei tirando a galera toda da cama cedo mesmo depois de parar de trabalhar.
  • Quarenta minutos era pouco, mas uma hora de academia por dia tá bom pra mim. Uma vez por semana fico lá 1h30, porque tem aula de spinning e abdominal na sequencia e gosto das duas. Eu achava que iria malhar umas duas ou três horas por dia no sabático, mas, não. Vinte minutos a mais, tudo o que eu queria!
  • Meu dia começa às 8h30. Às 8h30 eu já estou sentada em casa para estudar ou já estou pronta para sair.
  • Gosto que meus filhos voltem da escola às 16h. Ainda é um horário integral, mas é bem menos puxado para eles, ainda é dia quando eles chegam. E eu já tive seis horas produtivas mais uma horinha para almoçar. Quando eles chegam da escola, a mamãe está em casa, não a babá. Ficamos juntos. Às vezes nem brincamos juntos: eles brincam sozinhos, mas se sentem bem porque a mãe está por perto em casa fazendo outras coisas. Fico com eles enquanto eles jantam. E o horário de ir para cama mudou de 20h30 para 19h ou 19h30. Depois que começaram a dormir mais cedo, todas as indisposições deles na escola melhoraram, porque estão mais descansados.
  • Gente, às 19h eles estão dormindo. E estão dormindo bem e tranquilos, porque sabem que a mamãe está em casa se precisarem de alguma coisa. Às 19h eles estão dormindo e eu tenho mais CINCO horas até meia-noite. CINCO. 5. CINCO HORAS. 1 + 1 + 1 + 1 + 1 = 5. C-I-N-C-O. E nem preciso fazer jantar, porque preparo o jantar deles e como a mesma coisa um pouco mais tarde. CINCO HORAS. Hoje estou escrevendo, ontem fiquei lendo, antes de ontem estudei um pouco, num outro dia fui ver um filme. Em um dia fiquei até uma da manhã no computador porque queria terminar um projeto até o dia seguinte. CINCO HORAS.

E aí eu aprendi que eu posso trabalhar oito horas por dia se quiser. Posso trabalhar mais de oito horas se precisar. Que o problema não são as oito horas diárias. O problema são as oito horas no tal do horário comercial das 9h às 18h, o problema são os deslocamentos, o problema é a falta de flexibilidade da coisa toda.

Tem diversos textos que dizem que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a acolher a maternidade, alguns meus e de outras mulheres (este, este e este). Minha descoberta mais importante durante o sabático é que não sou uma folgada tentando fazer corpo mole e tentando trabalhar pouco. Pelo contrário. Estou disponível para trabalhar. Mães estão disponíveis para trabalhar. Falta o mercado de trabalho entender que flexibilidade é vida. Que talvez resultado seja mais importante que facetime. Que oito horas angustiada dentro do escritório são bem menos produtivas que menos horas bem trabalhadas. Que está na hora de encontrarmos formas mais humanas de acolher as mães no mercado de trabalho.

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Viva a corrupção!

“A gente também tem direiro! Político rouba, por que a gente não pode? Direitos iguais!

Imposto é roubo, o governo está sendo ladrão em nos roubar. Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, então eu roubo mesmo. Não pago imposto. Não dou nota, tenho caixa dois. Acho o cúmulo dar dinheiro pro governo. Até porque não uso nada público: tenho plano de saúde, escola particular e odeio transporte público. Por que vou pagar imposto se não vou usar nada em troca?

Também não pago TV a cabo. P%¨%& roubo. Nem fico em casa o dia inteiro, por que tenho que pagar assinatura 24 horas? P(*&@#*& roubo. Eu roubo o sinal do vizinho, que é trouxa e paga TV a cabo. E, por favor, parem de pagar entrada inteira no cinema! Apenas parem! P&¨&*¨S&* roubo, tá super caro. É tão simples fazer carteirinha de estudante e pagar meia!

Corram atrás dos seus direitos! Contem comigo. Conheço médicos que dividem recibo, revendo CDs pirata, ajudo a lavar a mão de fiscal na empresa de vocês. É direito nosso ter uma vida melhor! Contem comigo.”

Isaac e Ruth, se vocês já aprenderam a ler e estão lendo este texto, isto se chama sarcasmo. Apesar de haver pessoas que pensam assim, mamãe estava sendo sarcástica.

Texto escrito durante oficina de escrita criativa de Clara Averbuck, por Ruri Giannini

Sincero

– Mamãe, guarda esse creme que eu sempre mexo sem querer escondido de você.

Tudo bem que eu tenho um potinho de anti-rugas para região dos olhos apenas para enfeitar o criado-mudo, porque nunca uso. Hoje ele veio me avisar que estava quase acabando, mesmo sem eu nunca usar. E veio me avisar que “sem querer” os cabelos das bonecas estão super hidratados e cheirosos.

E eu dizendo por aí que acho o máximo quando criança faz quatro anos, porque pára de mexer onde não deve. Bobinha.

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Minha opinião sobre corrente de livros

Além de ser pirâmide. Além de ser furada. Além de divulgar o endereço das nossas crianças para desconhecidos.

Gente, por que vocês querem 36 livros? Por quê? São necessárias 36 noites para isso se vocês lerem todos os dias. E criança gosta de ler e reler os livros preferidos. Não há necessidade de ganhar 36 livros.

Gente, e a qualidade desses livros todos? Cansei de ganhar livros de presente que precisei doar. Não é maldade (nem minha nem das pessoas que presenteiam), às vezes os livros simplesmente não batem com os valores de nossas famílias. Eu, por exemplo, sou ateia e não leio histórias religiosas, sou vegana e não leio livro sobre zoológicos, sou chata e não gosto de histórias com violência de nenhum jeito (tipo um personagem matar o outro). Cada família tem seus valores e nem todos os livros são bons para todas as famílias. Eu te juro que vocês vão receber uma boa parte desses 36 livros em coisas que não vão querer ler para seus filhos.

Incentivar a leitura é essencial. Mas vamos buscar meios mais inteligentes: ler todos os dias em casa, ler os livros antes de oferecer para as crianças para saber sobre o que você vai ler, emprestar para os amigos, fazer feiras de trocas, levar os pequenos em bibliotecas e livrarias, sei lá.

Tô fora dessas correntes.

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As delicadezas da minha menina

História 1: a moça na cadeira de rodas

A gente estava na sala de espera e tinha uma moça em uma cadeira de rodas. Ruth começou a me fazer perguntas do tipo: “ela não anda?” e “por que ela tem cadeira de rodas?”. Eu achei natural que ela ficasse curiosa, e achei que seria natural falar sobre isso também. Mas não queria ficar falando sobre a moça, porque a gente está aprendendo a não ficar falando dos outros. E eu também não sabia explicar por quê a moça estava na cadeira de rodas.

– Ruth, por que não vai lá conversar com ela?

– Porque eu não a conheço, não posso. – ah, sim, também estamos aprendendo a não falar com estranhos, porque meus filhos exageram na socialização por aí.

– Eu a conheço, ela é psicóloga aqui. Pode ir lá.

E lá foi ela. Fiquei pensando se ela ia chegar bombardeando a moça de perguntas, mas não falei nada, deixei ela ir. Que nada. Até fiquei emocionada com ela, que chegou, mostrou as fotos da nossa família que ela estava olhando comigo, disse o nome dela, falou sobre o irmão, falou sobre outras coisas e só depois começou a perguntar sobre a cadeira de rodas. Ela mesma sentiu que precisava se apresentar e ter um assunto para quebrar o gelo antes de invadir a moça com perguntas. E depois conversaram sobre a cadeira de rodas com a maior naturalidade do mundo e, quando ela voltou, não me contou nada, falou sobre outro assunto.

História 2: Isaac aos prantos

Ele escolheu um bichinho de pelúcia para dormir e sujou o bichinho minutos antes de ir para a cama. Ele chorava, chorava, chorava, e eu não conseguia falar com ele. Eu estava tentando explicar que não dava para lavar o bichinho a tempo de ir dormir e ele chorava e me pedia desculpas, achando que eu não ia devolver o bichinho como um castigo. Eu tentava explicar que não estava brava, que não tinha problema ter sujado, só que lavar um bichinho de pelúcia não era um processo rápido assim, e ele chorava mais ainda que queria o bichinho. Cada vez que eu tentava explicar alguma coisa, ele chorava mais e mais e mais. A gente estava num looping infinito. Aí aparece a Ruth, com um bichinho dela nos braços como se fosse o bebê. Entregou o bichinho para ele, deu um abraço, deu um beijo nele e saiu. Não disse uma palavra. E ele parou de chorar, deitou e dormiu. Fim.

Ruth, a vida é bem melhor com você. Ainda bem que tenho você.

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Dois tá bom

A moça se aproximou da mesa com a conta e a maquininha do cartão e paramos de falar. Como o silêncio ficou constrangedor, resolvi dividir o assunto com ela:

– Não consigo convencê-lo a ter o terceiro filho!

Aí eu vi duas pessoas com olhos arregalados. Ele, com uma expressão de “não acredito que você disse isso”. Ela, que perguntou:

– Você já tem DOIS?

– Já!

– Pára, meu! Concordo com ele!

Hahaha. Ok, gente, dois tá bom.

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Um elefante incomoda muita gente

UM ELEFANTE INCOMODA MUITA GENTE. NÃO COMER CARNE INCOMODA MUITO MAIS. (João Valio)

Encontrei essa frase no Facebook desse moço e estou apenas citando a fonte. Não o conheço. Aliás, não tenho muitos amigos vegetarianos ou veganos. Há muito pouco tempo fiz esse levantamento e só encontrei alguns ex-colegas de trabalho, a nutricionista e meu marido. Ninguém na família, nenhum amigo bem próximo. Não que isso seja um problema, isso só me mostra que somos minoria.

Aí é batata: você entra em um restaurante/ lanchonete/ café com alguém, faz perguntas sobre os ingredientes do prato para o garçom (tem leite aqui, moço? vai ovos?) e a pessoa que está com você imediatamente faz uma cara de espanto como se você tivesse pedido para incluir larvas vivas no prato e começa a discursar sobre os malefícios de não comer carne e sobre o quão normais são os processos de criação e abate de animais.

Gente, só deixem os vegetarianos e veganos comerem o que quiserem. Apenas deixem.

Em geral, eu nunca tento enumerar as razões pelas quais me tornei vegetariana e depois vegana porque são análises muito complexas para a cabeça do cidadão comum que não está aberto a pensar. Passam por saúde, meio ambiente e sofrimento animal. Mas não acho errado comer carne, acho uma escolha. Simples assim.

Pessoas lindas, aceitem a diversidade. É só isso que precisa ser feito. Aceitem a diversidade. Aceitem que existem pessoas felizes e esclarecidas que não consomem produtos de origem animal, que não acreditam em deus, que namoram com pessoas do mesmo sexo, que escolheram andar de bicicleta em São Paulo, que não consomem TV aberta ou fechada, que escolheram a adoção em vez da gravidez, que se separaram do pai/ mãe de seus filhos, que não querem fazer depilação. Aceitem a diversidade, só isso. Você também é feliz e esclarecido em suas escolhas, deixe o resto ser também.

Por um acaso (ou não por acaso), estou fazendo uma oficina de escrita criativa com seis mulheres e somos três veganas e uma se tornando vegetariana. Ai, quanto amor poder almoçar sem ninguém julgando meu prato de comida, gente! Coisa linda examinar o cardápio, fazer perguntas pro garçom, fazer um pedido com algumas substituições e comer conversando sobre outros assuntos que não o meu prato, a minha falta de proteína e se morro de vontade de comer brigadeiro em festa infantil.

Só pra ficar claro:

Aceitem a diversidade.

Aceitem a diversidade.

Aceitem a diversidade.

O mundo vai ser bem mais legal quando todo mundo aceitar a diversidade!

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Breve nota sobre machismo

Estou num sabático. Planejado e decidido por mim. Adorando, feliz da vida, todo mundo inveja. E na maioria das vezes em que falo sobre isso, ouço: “bacana esse marido que você arrumou” ou “ainda bem que tem pensão do ex-marido”.

Gente, parem de assumir que existem homens que me sustentam. Não existe nenhum. Eu trabalhei e juntei dinheiro e estou usando este dinheiro para viver durante o sabático.

Quem recebe pensão são meus filhos e ela equivale à metade dos gastos deles. A outra metade é paga por mim. Divido com meu atual marido outros gastos que temos em nosso casamento. Poderia ser diferente, tanto faz. O ponto não é quem sustenta quem. O ponto é: parem de achar que eu não teria um sabático sem esses dois homens me sustentando ou me dando autorização para estar em um sabático. Ninguém deixou, ninguém sustenta. Parem de achar que não sou capaz! Simplesmente parem!

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