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Babá

Nós decidimos não ter babá, e foi uma decisão pouco racional e muito intuitiva. Nós não fizemos contas para ver se o salário de uma babá caberia no orçamento nem ficamos discutindo as vantagens e desvantagens desse serviço. Eu simplesmente não quis uma babá comigo o dia todo, já que iria tirar licença maternidade e teria tempo para cuidar dos nossos filhos sozinha. Fiquei com medo de perder minha privacidade, de ficar cansada por ter que conversar 8 horas por dia com uma pessoa até então desconhecida, de não concordar com alguma coisa que ela ensinasse para os bebês. E também nunca me fez falta.

Claro que algumas vezes eu não pude ir a alguns compromissos porque as vovós não puderam ficar com eles. Também aprendi que é muito difícil levar os dois sozinha nas consultas médicas e, ao mesmo tempo, não deixá-los destruir o consultório e prestar atenção no que o médico estava falando. Mas na grande maioria das vezes nós conseguimos nos virar bem. Não dá para fazer as compras do mês, mas sempre que preciso de meia dúzia de coisas levo os dois comigo ao supermercado. Eles me acompanham quando preciso levar o Fidel ao pet shop e já arriscamos alguns almoços fora com os amigos da mamãe durante a semana, enquanto papai trabalha.

Essa semana fui à clínica onde os brigadeirinhos farão fonoaudiologia e terapia ocupacional para uma conversa inicial. O objetivo era contar a história deles e principais etapas do desenvolvimento para as terapeutas, para que elas pudessem preparar as sessões dos dois. À noite o papai quis saber tudo sobre a conversa – sorte nossa que temos um papai super participativo que quer se envolver em tudo! E contei para ele que, além de tudo o que sabemos sobre a vida deles antes de chegar à nossa família, falei tudo o que aconteceu com nossos filhos depois que vieram para casa: como cada um deu os primeiros passinhos, as palavras que cada um já fala e quais fonemas são mais fáceis para eles, que tipo de alimento é mais difícil mastigar, o que gostam de comer, como se comunicam, os gestos que já aprenderam, que tipo de brincadeira gostam mais, como reagem às broncas e frustrações, como dormem, como acordam, o que já tentam fazer sozinhos, quando acho que estarão prontos para o desfralde etc. Meu marido me interrompeu com um “como você lembrou de tantos detalhes?”. E aí eu parei e fiquei muito feliz. Porque eu tirei licença maternidade para me dedicar em tempo integral a eles e fiquei satisfeita por ter realmente prestado atenção neles. Fiquei satisfeita por ter trocado fraldas, escovado os dentes, cortado as unhas, colocado para dormir, dado comida, dado banho, acompanhado as febrinhas e por ter ficado brincando e cantando com eles no chão da sala quase todos os dias. Não dá para saber o quanto disso tudo eu teria dividido com uma babá e talvez eu não tivesse perdido nenhum detalhe mesmo assim. Mas não ter ajuda constante me deixou muito próxima deles e tenho certeza que isso foi importante para nossa família.

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Escolinha

Depois de telefonar e visitar uma dúzia de escolas, escolhemos a escolinha onde os bebês vão estudar no ano que vem, quando mamãe voltará a trabalhar.

A primeira coisa que queríamos era um lugar pertinho de casa, porque eles não precisam conviver com o trânsito de São Paulo diariamente desde tão pequenos. Isso também facilita a logística, pois papai e mamãe vão se dividir para levá-los e buscá-los todos os dias (e, eventualmente, vamos pedir um socorro para uma das vovós).

Depois começamos a avaliar as instalações, alimentação, horários e valores das mensalidades. Eles vão estudar em horário integral (sairão de casa conosco de manhã e os pegaremos no final do dia, voltando do trabalho); de manhã ficarão na recreação e à tarde farão as atividades pedagógicas. Como sabemos que é bastante tempo, procuramos uma escola com vários ambientes (além da sala de aula, brinquedoteca, parquinho ao ar livre, biblioteca, refeitório, sala de vídeo etc.), para que eles não ficassem o dia todo no mesmo lugar. Também nos sentimos mais seguros sabendo que nossos bebês estarão em uma escola pequena, que atende apenas crianças até 5 anos.

De todas, alimentação foi nossa principal preocupação. Como vão passar o dia todo, farão todas as refeições lá durante a semana (café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar) e fomos bastante rigorosos com essa questão. Descartei as escolas que disseram que oferecem sucos ou outros itens industrializados para as crianças e li o cardápio mensal de todas elas, para ter certeza que oferecem refeições variadas com muitas verduras, legumes e frutas para os alunos. A escolinha onde nossos bebês estudarão também não permite que as crianças tragam lanches de casa, para garantir que ninguém consuma guloseimas na escola.

A escolinha oferece educação bilíngue, mas optamos por pensar sobre isso um pouco mais para frente e deixá-los aprender bem a língua materna antes. Ensinar inglês para bebês de menos de dois anos nos dá a sensação de já querer prepará-los para o mercado de trabalho, então decidimos que eles farão música no primeiro ano de escola e que depois poderão entrar no judô, ballet, artes e natação.

Nós também conversamos muito sobre como seria voltar a conviver com outras crianças, em um ambiente com menos atenção individualizada, e se eles já estavam preparados para isso, pois a experiência que nossos filhos tiveram é oposta à experiência de outras crianças: eles primeiro viveram em um ambiente “coletivo”, para depois conhecer a vida só com a família. Mas concluímos que são filhos de papais que trabalham e que faz parte da nossa vida em família ir para a escolinha o dia todo. Além disso, achamos entediante para eles passar o dia todo entre o apartamento e o parquinho do prédio com apenas um adulto, principalmente em uma idade em que precisam de muitos estímulos, e temos certeza que eles vão adorar a escola.

E ficamos mais tranquilos ainda quando soubemos que há outros alunos que foram adotados e que nenhum deles passou por um período de adaptação mais difícil que os alunos que vivem com a família biológica. Estávamos com medo que eles tivessem um sentimento de abandono nos primeiros dias de aula, como se fossem voltar a viver em um abrigo. Mas a diretora nos garantiu que eles rapidamente entenderão que papai ou mamãe voltarão no final de todos os dias para buscá-los e que não ficarão inseguros. Tomara! Porque confesso que já estou com dorzinha no coração por ter que ficar o dia todo longe dos dois.

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Chupeta

Nossos brigadeirinhos chupavam chupeta no abrigo, principalmente antes de dormir, quando estavam doentes ou manhosos. Nós dois não gostamos de chupeta, pois sempre concordamos que é um acessório que incentiva a preguiça que os adultos têm de fazer a criança parar de chorar. Também não entendíamos para que oferecer uma coisa que vicia e que depois é uma drama para tirar. Mas também concordamos que, como já estavam acostumados, não ficaríamos estressados com as chupetas e que eles poderiam trazê-las para casa.

Só que quando fomos buscá-los, saímos do abrigo com presentes, pasta de documentos, recomendações, dois bebês e muita alegria e euforia para chegar logo em casa e começar nossa vida como papais. Foram tantas coisas, que esquecemos completamente de pedir para levar as chupetas dos bebês e lembramos delas depois de uns três dias. Eles dormiram bem desde o primeiro dia e nunca pareceram precisar da chupeta para pegar no sono. Choravam bastante no começo por motivos diversos – fome, sono, birra etc. – mas nunca precisamos de chupeta para acalmá-los. Então decidimos não comprar chupetas novas.

No início evitávamos falar “chupeta” em voz alta, com medo que eles se lembrassem e começassem a chorar. Mas logo eles começaram a ver outras crianças com chupeta na boca quando iam brincar e nunca tentaram tirar delas. Simplesmente se esqueceram da chupeta. Achamos que papai e mamãe são suficientes quando estão com sono, doentes ou manhosos.

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O exemplo e o consumismo

Como todos os papais – biológicos ou adotantes – nós temos uma porção de valores que queremos passar para nossos bebês e uma outra porção de coisas que queremos ensinar para eles. Coisas que dizem muito sobre quem somos e tal. Coisas comuns como alimentação, sono e educação.

Alimentação foi o que mais tomou nosso tempo até agora. Primeiro gastamos um tempo tentando entender por que todas as pessoas do mundo – mesmo que tenham seus próprios filhos – têm um desejo incontrolável de dar porcaria para as crianças comerem. Nós sabemos que um dia nossos filhos vão provar e gostar de guloseimas e não vamos proibir totalmente. Mas hoje eles têm um ano e meio e podem viver sem refrigerante, batata frita, bala, bolacha recheada, salgadinho etc. Depois de muita irritação, entendemos que o dever de oferecer e ensinar a ter uma boa alimentação é dos papais e estamos nos esforçando para isso. Não tem papinha salgada industrializada em casa; o papai prepara o arroz, feijão, lentilha, legumes, carne, frango, sopa, macarrão e tudo mais para as refeições em casa e eles podem comer alguma coisa do cardápio quando vamos a restaurantes. Também não temos guloseimas e a papinha doce é servida só na rua; em casa comem quatro porções de fruta na sobremesa e nos lanches, todos os dias. E não são coitadinhos porque comem só fruta. A hora da fruta é quando mais nos divertimos na cozinha: canto para eles enquanto lavo, descasco e corto e muitas vezes os deixo comer as frutas sozinhos – o que é uma farra e uma sujeira! Recentemente, durante a pesquisa de escolinhas para o ano que vem, desistimos de uma que era ótima em vários quesitos (localização, instalações, parte pedagógica, preço) porque eles só oferecem suco em pó ou concentrado – e achei muita preguiça não fazer suco natural para as crianças.

Televisão foi outra preocupação. Nas primeiras três semanas, eles não assistiram televisão porque eu não costumo ligar a televisão se não for assistir alguma coisa específica. Depois ganharam DVDs da Galinha Pintadinha, Pequerruchos e alguns outros e me rendi: passei a colocar para eles um pouquinho por dia e gostei. Mas até hoje não ligo em televisão aberta ou fechada para que vejam desenhos. Não porque eu não reconheça que alguns programas são educativos e divertidos, mas porque a quantidade de anúncios sobre brinquedos e guloseimas me incomoda. É impressionante como a questão em torno da publicidade infantil vira relevante quando nos tornamos papais. Eu quero conhecer os produtos infantis e decidir se são bons para meus bebês, mas gostaria que os anunciantes falassem diretamente comigo, e não com meus filhos. Hoje mesmo passei por um canal infantil na televisão fechada e vi o anúncio de um cachorro que fala por apenas “x” reais. Sem discutir a utilidade de um cachorro de pelúcia que fala, desde quando as crianças precisam saber o preço do brinquedo ou conseguem entender se o preço “x” é razoável para seus pais?

E, com a publicidade, vem a discussão sobre os brinquedos. Nós não queremos ser radicais. Nossos bebês terão brinquedos e ganharão presentes no aniversário, no dia das crianças e no Natal. Mas não terão brinquedos exagerados ou caros. E não queremos que eles fiquem possessivos com seus brinquedos, então em casa não há “brinquedo da menina” e “brinquedo do menino”. Os brinquedos ficam juntos e os dois brincam com o que quiserem. Eles têm duas motocas e geralmente brincam ao mesmo tempo, mas nunca dissemos que ela tem que usar a rosa e ele tem que usar a azul – eles escolhem a que preferirem. Esses dias vi uma boneca em uma loja de brinquedos que me deixou arrepiada. De medo. Era uma boneca quase “real”, que come, fala, faz um monte de outras coisas e faz cocô. Ao lado da boneca, havia pacotes de papinhas e fraldas vendidos separadamente, para repor as fraldas que a boneca sujar. Quase caí para trás. Depois de longas discussões sobre o uso de fraldas descartáveis ou fraldas de pano em nossos bebês, porque estávamos preocupados com o impacto no meio ambiente, eu nunca poderia imaginar que um adulto pudesse achar que é legal desenvolver, fabricar, anunciar ou comprar fraldas descartáveis para uma boneca.

Nós não queremos que eles cresçam achando que podem ter ou comprar coisas sem nenhum limite. Ou achando que serão melhores se tiverem tal roupa ou tal objeto. E para ensinar isto a eles, nós damos o exemplo: quando compramos nosso apartamento, não saímos comprando todos os móveis e objetos de decoração sem antes decidir se realmente precisávamos ou queríamos aquilo. Da mesma forma, não saímos comprando um enxoval novinho em folha para os dois, sem nem saber exatamente do que eles precisariam. Ao invés disso, nós recebemos doações de amigos queridos e depois entendemos as necessidades dos nossos filhos. Uma delas foi a mamadeira, que eles largaram quando vieram para cá, e teria sido um desperdício comprar todos os cacarecos que a acompanham (esterilizador, esponja para lavar, bolsa térmica para carregar etc.).

Seja alimentação, consumismo ou qualquer coisa que os papais queiram ensinar, o mais importante é dar o exemplo. Nós acreditamos que nossos bebês vão sempre comer bem porque nós mesmos sempre colocamos verduras, legumes e frutas em nossos pratos. E também acreditamos que não adianta voltar carregado de roupas e eletrônicos dos Estados Unidos, trocar o carro e o celular todo ano e querer que os filhos tenham uma infância livre de consumismo. De novo, não queremos ser radicais e sei que tenho mais sapatos do que preciso – só achamos que as crianças precisam ver coerência no que ensinamos para elas.

Depois que os brigadeirinhos chegaram, mudamos um pouco o foco de nossas leituras do “como se preparar para a adoção” para “os cuidados com o bebê” e encontramos o movimento Infância Livre de Consumismo. E decidimos apoiar. Apoiamos uma infância feliz, com carinho, brincadeiras, músicas, passeios e gargalhadas. Sem consumismo.

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Esclarecimento sobre a licença maternidade na adoção

Depois de pouco mais de dois meses que nossos bebês chegaram em casa, recebi um e-mail do RH da empresa onde eu trabalho dizendo que haviam recebido a informação da empresa de contabilidade e do sindicato que minha licença maternidade era de apenas 60 dias. Tomei um super susto. Não porque não quero voltar a trabalhar, mas porque havia me programado para curtir meus bebês durante 120 dias. Também porque eu tinha certeza que tinha direito a 120 dias.

Conversei com um promotor de justiça do fórum onde estamos habilitados e com duas advogadas para ter certeza sobre o que eu já havia lido e pesquisado. Uma delas, super amigona (obrigada, amiga!), me ajudou a compilar um texto com todas as mudanças na lei que podem ter causado a confusão, que copio abaixo.

Espero que esse post seja útil para outras mamães adotantes. Espero que este post ajude a garantir o direito das crianças que são adotadas a terem seus 120 dias junto com suas mamães. Espero também que em breve papais que adotem sozinhos ou com seus companheiros também conquistem o direito à licença paternidade de 120 dias. E espero que os 120 dias sejam utilizados para que as crianças conheçam a nova família, se adaptem, se acostumem à nova rotina e a outros hábitos, se sintam amadas, respeitadas e seguras de que têm um lar para sempre.

Esclarecimento sobre licença e salário-maternidade na adoção

Em 2002, a lei nº 10.421 de 15 de abril estendeu à mãe adotiva o direito à licença-maternidade e ao salário-maternidade, alterando a Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1º de maio de 1943, e a Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, conforme abaixo:

Art. 2o A Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, passa a vigorar acrescida do seguinte dispositivo:

Art. 392-A. À empregada que adotar ou obtiver guarda judicial para fins de adoção de criança será concedida licença-maternidade nos termos do art. 392, observado o disposto no seu § 5o.

§ 1o No caso de adoção ou guarda judicial de criança até 1 (um) ano de idade, o período de licença será de 120 (cento e vinte) dias.

§ 2o No caso de adoção ou guarda judicial de criança a partir de 1 (um) ano até 4 (quatro) anos de idade, o período de licença será de 60 (sessenta) dias.

§ 3o No caso de adoção ou guarda judicial de criança a partir de 4 (quatro) anos até 8 (oito) anos de idade, o período de licença será de 30 (trinta) dias.

§ 4o A licença-maternidade só será concedida mediante apresentação do termo judicial de guarda à adotante ou guardiã.

Art. 3o A Lei no 8.213, de 24 de julho de 1991, passa a vigorar acrescida do seguinte dispositivo:

Art. 71-A. À segurada da Previdência Social que adotar ou obtiver guarda judicial para fins de adoção de criança é devido salário-maternidade pelo período de 120 (cento e vinte) dias, se a criança tiver até 1 (um) ano de idade, de 60 (sessenta) dias, se a criança tiver entre 1 (um) e 4 (quatro) anos de idade, e de 30 (trinta) dias, se a criança tiver de 4 (quatro) a 8 (oito) anos de idade.

Art. 4o No caso das seguradas da previdência social adotantes, a alíquota para o custeio das despesas decorrentes desta Lei será a mesma que custeia as seguradas gestantes, disposta no inciso I do art. 22 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991.

Ou seja, a partir de 2002, a licença e salário maternidade para a mãe adotante passou a variar de acordo com a idade da criança. O texto da lei (antigo) está aqui.

Em 2003, a Lei nº 10.710 inseriu parágrafo único no art. 71-A da Lei nº 8.213/91, com a seguinte redação:

Parágrafo único. O salário-maternidade de que trata este artigo será pago diretamente pela Previdência Social.

Em 2010, a lei nº 12.010, de 3 de agosto, que dispõe sobre adoção, alterou as Leis nº 8.069, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente, 8.560, de 29 de dezembro de 1992; e revogou dispositivos da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 – Código Civil, e da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. Com isso, o artigo 392-A da CLT passou a ser:

Art. 392-A. À empregada que adotar ou obtiver guarda judicial para fins de adoção de criança será concedida licença-maternidade nos termos do art. 392, observado o disposto no seu § 5º.

(Nota: O § 5º mencionado no artigo acima foi vetado)

Ou seja, em 2010, a licença maternidade da mãe adotante passou a ser igual à da mãe biológica segundo o artigo 392 da Consolidação das Leis do Trabalho. O texto revogado está aqui e o texto compilado da CLT está aqui.

No entanto, mesmo com as alterações vigentes desde 2010, a Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, da Previdência Social, não foi revogada, e seu artigo 71-A continua a tratar o salário-maternidade variando de acordo com a idade da criança. O texto está aqui.

Há, então, uma discrepância entre as duas leis, pois, se por um lado a mãe adotante tem direito à licença maternidade de 120 dias independente da idade da criança sem prejuízo do emprego e do salário, por outro lado, caberia a ela receber salário-maternidade por período proporcional à idade da criança.

Para dirimir o conflito, em maio de 2012 foi proferida decisão em Ação Civil Pública (nº 5019632-23.2011.404.7200/SC) movida pelo Ministério Público Federal contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), determinando, em âmbito nacional, que:

a) seja suspensa a aplicação do disposto no artigo 71-A da Lei 8.213/91 para considerar a licença-maternidade à mãe adotiva como período de 120 (cento e vinte) dias independentemente da idade do adotado;

b) à ré, sob pena de multa de R$ 10.000,00 (dez mil reais) ao dia, que conceda salário-maternidade de 120 (cento e vinte) dias às seguradas que adotaram ou que obtiveram a guarda judicial para fins de adoção de criança ou adolescente independentemente da idade do menor, devendo o cumprimento da decisão ser comprovado nos autos no prazo de dez dias;

c) à ré, sob pena de multa de R$ 10.000,00 (dez mil reais) ao dia, que prorrogue o benefício do salário-maternidade, até que atinja o período de 120 dias, das seguradas que adotaram ou que obtiveram a guarda judicial para fins de adoção e que se encontram em gozo do referido benefício, independentemente da idade da criança ou adolescente adotado, devendo a comprovação do cumprimento desta decisão ser comprovado nos autos dentro de dez dias;

d) fixo a multa de R$ 10.000,00 (dez mil reais) para cada caso comprovado de descumprimento da determinação judicial em desfavor do INSS;

e) seja a ré compelida a promover ampla divulgação desta decisão, ao menos duas vezes em jornal de ampla circulação nacional e estadual, bem como no seu sítio na internet por tempo mínimo de 90 (noventa) dias, tudo a ser comprovado nos autos no prazo de dez dias, sob pena de aplicação de multa diária de R$ 10.000,00 (dez mil reais).

Na mesma sentença, o artigo 71-A da lei 8.213/91 foi declarado inconstitucional. Foi apresentado recurso pelo INSS, ainda pendente de julgamento, mas, na sentença, foram antecipados os efeitos da tutela, o que significa dizer que a decisão tem aplicação imediata desde sua prolação.

A decisão está disponível no site do INSS, conforme determinado na sentença da Ação Civil Pública, neste link e neste aqui (clicar em “Veja determinação judicial relativa ao período de salário-maternidade devido às seguradas adotantes”).

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Cocô

“Ter uma tag chamada ‘cocô’ no seu blog me desanima muito” foi o que me disse hoje um amigo casado, sem filhos, que possivelmente está ensaiando para ter um bebê. Foram apenas dois posts sobre cocô até agora, mas não pude deixar de ficar pensando sobre isso.

Lidar com cocô não é legal. E as amigas mamães já me avisaram que isso vai nos acompanhar por muitos anos, até que as crianças aprendam a se limpar sozinhas. E, logo depois das fraldas, virá a fase do cocô no penico e sofro por pensar que lavaremos penicos sujos em dobro.

E também não vou mentir. O cocô é a única coisa ruim na adoção de crianças que não chegam na família recém-nascidas. As mamães que têm filhos recém-nascidos dizem que o cocô não tinha cheiro forte na época em que as crianças só tomavam leite, depois elas foram introduzindo papinhas aos poucos na alimentação de seus filhos, foram se acostumando aos poucos com o novo cheiro do cocô e isso nunca foi um problema. Nós não podemos dizer o mesmo. Nunca tínhamos trocado fraldas na vida e receber crianças que já comem de tudo (por exemplo: feijão, repolho, carne) de uma hora para outra foi muito difícil. Algumas vezes precisei amarrar um pano no nariz antes de trocar uma fralda. Mas a boa notícia é que acostumamos em poucos dias. Hoje não é nada sofrido e nem achamos o cheiro tão forte assim.

Então, amigo querido, não se desanime. Muitas coisas vão dar mais trabalho e muitas outras coisas vão te deixar tão feliz que você nem vai se lembrar do cocô.

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Guerra das caminhas

Se tivéssemos tido mais tempo para pensar na chegada de nossos brigadeirinhos, eles ainda estariam dormindo em berços. Até agora, essa é a única coisa que teríamos feito diferente. Decidimos colocá-los em caminhas porque ouvimos de outros papais e mamães que as crianças costumam estranhar a transição do berço para a cama. Como eles já iriam passar por uma mudança grande ao vir morar conosco, achamos que poderíamos evitar outra mudança dali a alguns meses. O único “porém” que conhecíamos é que as crianças podem descer e andar sozinhas pela casa, o que é perigoso. Mas nossos bebês dormem com a porta do quarto fechada e esse problema nós não tivemos.

Nas primeiras noites, apesar das grades laterais (que não cobrem todo comprimento da cama), os dois caíram no chão. Não se machucaram e não sabemos se caíram dormindo ou tentando descer. Depois de uma semana, eles aprenderam a descer das caminhas, antes mesmo de aprender a andar. E nós aprendemos que eles são muito novinhos para ficarem andando pelo quarto. Primeiro porque eles fazem uma mega bagunça, abrem armários e gavetas e jogam tudo no chão. Segundo porque eles não dormem, ou decidem dormir no chão mesmo. E, por último, porque nós não conseguimos ficar tranquilos na sala enquanto ouvimos a bagunça, gritinhos e coisas sendo jogadas de um lado para o outro.

Nós mudamos o layout do quarto várias vezes para dificultar a descida da cama. Na última mudança, encostamos uma caminha na outra e usamos o trocador para fechar a passagem para o chão. Com as camas encostadas, eles passaram um tempo sem tentar descer porque aprenderam a se jogar de uma cama para a outra. E assim, mesmo que um bebê quisesse dormir, o outro pulava em cima dele e os dois ficavam acordados pulando de uma cama para a outra até serem vencidos pela exaustão.

Essa semana, entrei no quarto para ver como estavam e encontrei minha filha deitada em cima do trocador. Eu quase morri do coração de medo de ela cair e dei um grito muito alto. Nós três demoramos um tempão para nos recuperar: meu coração ficou acelerado por uma meia hora e eles choraram de susto durante uns vinte minutos. Nesse dia, meu marido comprou um monte de fitas hellerman e nós fizemos uma super-gambiarra-gigante nas camas. Praticamente fizemos berços de fitas hellerman. Não está nada bonito, mas há três dias eles dormem rapidamente e nós não ficamos preocupados porque sabemos que estão seguros no quarto. Quanto tempo será que eles levam para descobrir outro jeito de descer?

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Primeira entrevista com a psicóloga e bebês

No dia 17 de setembro fomos ao fórum para a primeira entrevista com a psicóloga depois da chegada dos nossos brigadeirinhos, a mesma que cuidou do nosso processo de habilitação. Nossos bebês nunca tinham ido ao fórum, então a equipe técnica e a equipe do cartório só os conheciam pelos nomes.

Fizemos a entrevista os quatros juntos em uma sala e foi bastante difícil concluir qualquer assunto com dois bagunceiros mexendo em tudo e andando de um lado para o outro. Falamos sobre diversas coisas – a chegada deles, a organização da casa e da rotina, as consultas médicas, a recepção da família – e todas foram interrompidas por um “não pode subir aí”, “cuidado com a cabeça” ou “vem brincar aqui”.

No dia seguinte, liguei para a psicóloga porque tínhamos nos esquecido de perguntar alguma coisa qualquer. Ao telefone, aproveitei para dizer para ela que meu marido tinha ficado chateado por não termos contado o quanto ele me ajuda com os bebês. Como estou de licença maternidade e ele não pôde tirar os cinco dias para ficar conosco, ficou com receio de parecer um papai ausente. O que não é verdade; além da dedicação aos finais de semana, o papai os acorda, dá o café da manhã e chega a tempo para dar banho e o leite da noite. Ela me respondeu que não ficou preocupada com isso, porque ela queria ver como os bebês estão, como nós quatro nos relacionamos, se eles parecem seguros e felizes. A maior parte da avaliação foi sobre o que ela observou e não sobre o que falamos. Achamos legal, porque seria fácil ir até lá com várias histórias bonitas sobre o que aconteceu nos 50 dias que eles estavam conosco. Mas não daria para combinar com os dois que eles tinham que nos pedir colo, sorrir para nós, nos obedecer e nos abraçar, para parecermos uma família feliz. Essa parte foi espontânea.

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Pés trocados

“Querido papai, comecei a andar há pouco tempo e ainda preciso treinar muito. Você me ajuda se colocar o pé direito do sapato no meu pé direito e o pé esquerdo do sapato no meu pé esquerdo. Por favor, pára de inverter. Um beijo carinhoso do seu filho.”

Adaptação dos bebês

Essa semana vamos comemorar dois meses com nossos bebês e estamos pensando muito sobre a adaptação deles na nossa família. Nós não temos dúvidas que eles se adaptaram rapidamente a viver conosco. É fácil se sentir bem e gostar de quem cuida com carinho, brinca, dá comidinha e deixa quentinho.

A parte mais difícil da adaptação foi uma coisa comum em qualquer outra família: sair da rotina. Institucionalizados desde o nascimento, eles saíam do abrigo apenas a cada um ou dois meses para ir ao pediatra. Os demais dias eram muito parecidos, sempre no abrigo, seguindo a rotina que contamos aqui. Quando viraram nossos filhos, nós começamos a fazer coisas que todos os papais fazem com seus bebês – andar de carro, passear, visitar pessoas, ir ao parque, ir ao shopping, comer em restaurantes – e eles ficavam bastante estressados cada vez que uma refeição ou horário de soninho atrasava ou acontecia fora de casa.

Eles não choraram no carro quando viemos do abrigo para casa, mas choraram muito no carro todas as vezes que saímos nas três primeiras semanas. Passamos a maior vergonha na primeira vez que os levamos ao supermercado, um dia que decidimos comprar meia dúzia de coisas pouco antes do horário de almoço deles. Logo que chegamos, nossa filha fez cocô e eu precisei trocá-la no banco do carro, o que a deixou super brava (não, não tem um lugar decente para trocar fralda no Pão de Açúcar). E, sim, o cocô sujou a calça dela e, não, eu não tinha levado outra calça, então ela teve que ficar só de fraldas no supermercado (e nesse dia aprendemos a sempre ter uma roupa limpa na bolsa para eles). Depois disso, como estava com fome, nosso filho abriu o maior berreiro do mundo. Não era simplesmente um choro alto. Dias antes eu tinha o levado para fazer exame de sangue e ele chorou bem alto enquanto as enfermeiras faziam a coleta. No supermercado, ele esgoelou como se não comesse há 60 dias e chegou a ficar roxo. Todo mundo ouviu, muitas pessoas vieram ver o que estava acontecendo e nós tivemos que sair correndo de lá, morrendo de vergonha, e ele só parou de berrar quando começou a comer em casa. Ficamos imaginando as pessoas pensando porque pais de crianças de mais de um ano ainda não tinham aprendido a levar troca de roupa ou a fazer o filho se acalmar.

Aos poucos eles foram ficando mais flexíveis e perceberam que, mesmo que demore, eles vão comer, dormir e voltar para casa. Parece que começaram a entender os dias de semana, quando papai vai trabalhar e eles seguem uma rotina com a mamãe, e os finais de semana, quando saímos todos juntos, fazemos coisas diferentes e os horários mudam um pouco. No último final de semana fizemos várias coisas com eles e ficamos super felizes que eles choramingaram pouco, não ficaram muito impacientes e se divertiram bastante: fomos comprar algumas roupinhas, passeamos no shopping, almoçamos e jantamos em restaurante no sábado, visitamos uma das vovós e jantamos na casa de uma das madrinhas no domingo. E há poucos dias conseguimos fazer uma outra coisa que qualquer outro papai faz facilmente: carregar nossos filhos dormindo do carro até em casa e colocá-los na cama. Agora eles já se acostumaram com o cheiro e com o toque e confiam em nós até dormindo!

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