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No metrô

Um senhor puxando assunto:

– Seus filhos são lindos!

– Obrigada.

– São gêmeos?

– São sim.

– Eu também sou gêmeo.

– Que legal.

– Qual o nome deles?

– Isaac e Ruth.

– Eu sou Adão e minha irmã é a Eva.

– Ok, moço, o senhor venceu.

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Ser (só) mãe

Hoje eu fiz tudo diferente: dispensei a perua de manhã e levei as crianças até a escola a pé, porque o dia estava bonito e eu queria ficar um pouco mais com eles antes da corrida matinal. No final da tarde saí cedo de uma reunião, dispensei a perua de novo e pedi para o taxi me deixar na porta da escola, um pouco antes das 18h. Meu filho quase morreu do coração quando me viu na porta da sala – eu amo essas manifestações intensas e energizantes de carinho.

Voltamos andando, conversando e cantando e paramos na padaria para um leite gelado com pão de queijo. Dispensei a babá e chegamos em casa super cedo, antes do horário que eles costumam chegar com a perua. Eles foram brincar no quarto, ainda era dia, tinha sol entrando pela varanda e a brincadeira rolou um bom tempo enquanto eu arrumava algumas coisas em casa, até chegar a hora do banho. Depois do banho dos três, brincamos juntos de jogo da memória e eles foram deitar. Deitei junto com minha filha e ficamos abraçadinhas um tempão até ela ficar bem sonolenta. Às 20h10 eles estavam desmaiados e eu percebi que fazia tempo que não me sentia tão feliz.

Ser mamãe e ser diretora de empresa juntos ao mesmo tempo é desafio demais. Tem que ter estrutura de apoio (a perua, a babá, a escola) e tem que gerenciar esta estrutura toda. Tem a culpa, tem a saudade, tem o cansaço. Tem cabeça em um lugar e coração no outro. Eu não nasci para ser mãe em tempo integral, mas hoje fiquei me perguntando seriamente se não estou errando totalmente neste modelo que escolhi.

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Bola

Eles foram dormir no sábado e eu fui fazer um bolo de cenoura com cobertura de brigadeiro. Na verdade, eu fui fazer esláides, e achei que merecia uma gordice.

No domingo, contei toda feliz que tínhamos bolo de cenoura pro café da manhã. Aí meu filho olha torto:

– Não é de cenoura. Parece chocolate.

– É cobertura de chocolate, mas o bolo é de cenoura.

– Eu não gosto de cobertura.

Comeu só o bolo, nem tocou no brigadeiro. Quando me devolveu o prato, anunciou:

– Eu não quero virar um bolota.

Tomem essa, tá?

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Conversa franca

Eu gosto de ballet e gosto de judô. Mas tenho um menino e uma menina e me incomodava esse negócio de “ballet para as meninas” e “judô para os meninos”. Não os coloquei para fazer ballet ou judô até que eles mesmo me pedissem para fazer uma coisa ou outra. E aconteceu essa semana:

– Mamãe, só eu não vou no ballet. Eu queria fazer ballet. Posso?

– Hmmm.

Poder, pode. Não posso dizer que é caro, nem posso dizer que é difícil de levar ou buscar, porque é dentro da escola. É legal. Ela vai ficar feliz. É fofinho. Eu adorava as aulas de ballet que fiz durante muitos anos. Qual o problema?

– O problema, filha, é que hoje você já convive com umas dez tias diferentes e todas chamam a mamãe frequentemente para conversar sobre o seu (mau) comportamento. A babá, a tia da perua, a professora, as tias da recreação, a coordenadora da escola, a diretora da escola, todas elas me trazem as queixas e eu preciso lidar e resolver. Por que eu entraria numa fria de ter mais uma tia nesta lista toda, me diz?

– Eu preciso me comportar melhor e obedecer mais?

– Seria bom. Ou você acha que eu vou ficar feliz quando a tia do ballet me chamar para dizer que você não coloca a roupa, não faz os passos, não fica em fila como ela pediu?

Sei que já contei aqui que minha filha é muito difícil. Ela me dá muito trabalho, tem gênio forte e não aceita todos os limites. E quem acha que, porque eu trabalho o dia todo, estou terceirizando a educação dos filhos não sabe que não tem nada disso. É tudo responsabilidade minha. Eu até gostaria de terceirar algumas coisas, tá? Eu queria poder fazer cara de paisagem, como se o problema não fosse comigo, quando a tia da perua me conta que ela jogou alguma coisa pela janela. Mas não funciona assim. Qualquer coisa referente a meus filhos é encaminhado de volta para mim e sou eu que tenho que resolver. E tá certo, né, porque eu sou a mãe. Mas aí eu acho justo poder escolher não ter mais uma tia na minha vida.

– Se eu obedecer bastante, você deixa eu fazer ballet?

Deal.

Ok, filha, temos um acordo. Você cumpre sua parte e eu cumpro a minha. Mas juro que cancelo o contrato na primeira sapatilha que voar na cabeça da amiguinha.

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Não tem carro

– Mamãe, por que você não tem mais carro?

Impressionante, né? O Espírito Paulistano tá no sangue. A criaturinha não fez nem 4 anos e estranha o fato de a mãe não ter um carro. Vira e mexe um deles vem me perguntar por que não temos carro ou se vou comprar outro carro.

Filhos, não, não vou comprar outro carro. Não ter carro era uma coisa aspiracional, um desejo distante, que eu achava ser possível de realizar. Principalmente em São Paulo. Principalmente com duas crianças pequenas. Principalmente solteira. Mas eu consegui. Nós conseguimos! Uhu!

Morro de orgulho de mim mesma porque estou há 5 meses completinhos sem carro, vivendo sem carro, não desejando um carro, detestando a ideia de voltar a ter carro, feliz da vida porque eu sei viver sem carro.

Sabem o que acontece? Vamos lá:

  • Sabem o preço do combustível? Pois é, nem eu.
  • Sabem aquele motorista folgado que embicou o carro na vaga de estacionamento na sua frente enquanto você aguardava pacientemente? Nem eu.
  • Sabem aquele juquinha que te fechou e ainda xingou todas as suas gerações? Também não sei.
  • Sabem aquele trânsito infernal em dias/ horários totalmente improváveis? Eu desci do taxi ou do busão e andei livremente a pé.
  • Sabem aquele medo de alagamentos que a gente tinha na época em que ainda chovia nesta cidade? Tô longe disso.
  • Sabem IPVA, renovação do seguro do carro, revisão anual, inspeção veicular (ainda existe isso?), licenciamento, multas, manutenções? Credo.
  • Sabem frentista querendo trocar alguma coisa quando pede para “olhar a frente”? Como é que abre a frente do carro mesmo?
  • Sabem aquele vizinho que todo dia abre a porta na vaga ao lado e dá uma arranhadinha na sua porta? Passado.
  • Sabem o que é pagar R$ 50 para o manobrista ou para o estacionamento? Ha ha ha.
  • Sabem o que é chegar em um lugar no horário certo, não encontrar vaga para estacionar e se atrasar? Oi?

Toda vez que alguém me conta uma história envolvendo seu próprio carro (tipo essas aí em cima), eu fico muito aliviada. A vida é muito mais leve sem carro. Usamos metrô, ônibus, perua escolar, taxi e até já alugamos carro para viajar e tudo isso custa menos do que manter um carro. Dá menos dor de cabeça também. É tudo mais simples.

Filha, hoje você me perguntou se a mamãe não tem dinheiro para ter um carro. Não é por causa do dinheiro. Mamãe fez uma escolha, que foi usar nosso dinheiro para coisas que realmente nos deixam felizes. E carros não nos deixam felizes.

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Não tem que trabalhar

Chegou sexta final de tarde e eu estava com a apresentação de segunda pela metade. Era o momento de decidir: faço uma força para terminar tudo no escritório e deixo os dois esperando em casa com a babá ou saio no horário e termino durante o fim de semana? O clima na firrrrma já era de distração e resolvi sair. Tinha pela frente 48 horas para trabalhar umas 2 horinhas e eu também já não estava rendendo mais.

Sexta à noite, após bebês na cama, eu tentei uns slides, mas não rolou. Muito cansaço. No sábado, entrei de cabeça no esquema duascrianças + casanova + festainfantil e só parei meia noite. No domingo, não tinha mais jeito: eu tinha que trabalhar.

Acordei os dois, dei o café e expliquei (bem mal explicado):

– Hoje não vamos sair. Vamos ficar em casa. Vocês vão ficar brincando e a mamãe vai ter que trabalhar um pouco.

Meu filho começou um choro sentido de cortar o coração. Com lágrimas, com dor. Demorou para ele conseguir explicar. Mas tinha lógica.

– Hoje é dia de ficar com a mamãe. A escola tá fechada, a gente não vai pra escola hoje. A gente não quer ficar sozinho. Você não precisa trabalhar hoje. Você não tem que trabalhar hoje, trabalha quando a gente for pra escola.

Meu, não me mata de remorso. Fiquei repensando os almoços longos, os cafés mais demorados, aquele tempo perdido na internet. Eu trabalhei, não teve jeito, sentada no sofá com os dois ao meu lado assistindo Frozen. Mas não vou fazer mais isso. Mães precisam ser mais produtivas no escritório. Ou trabalhar de madrugada. Eu preciso organizar isso melhor.

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Decoração

– Mamãe, compra uma mesa cinza com cadeiras coloridas para nossa casa nova?

Desculpaí, mas meu filho tem um bom gosto que só vendo. Quando ele começou a falar sobre a falta de mesa na casa nova, jurei que ele ia sugerir uma mesa da Frozen com cadeiras do Homem Aranha.

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Faqueiro

O problema de morar com duas crianças de 3 anos e ninguém mais é eles irem dormir às 20h e eu ficar falando sozinha até a hora de deitar. De qualquer forma, eu queria falar com eles sobre assuntos que eles não iriam entender, acho.

Tipo, qualéquié os faqueiros de casamento?

Minha mãe também tinha um. Caixa imensa, cheia de coisa bonita, que a gente guarda bem guardadinho pra impressionar as visitas.

Eu casei e ganhei. Até talher pra comer peixe tem. Alguém usa garfo pra comer peixe, aliás? E tava guardado tão bem guardado que nem visitas tinham a honra. Eu nem conseguia alcançar lá na última prateleira. E pior, depois de usar, tinha que limpar e guardar tudo nos nichos certinhos pra conseguir fechar as gavetinhas, então o melhor mesmo era não usar.

E assim muitas famílias guardam lindos faqueiros no armário e usam garfos amassados no dia a dia.

Aqui em casa não vai ter isso, não, filhos. Na mudança, mamãe deixou pra trás os talheres de todo dia e amanhã vocês vão comer banana com aveia e canela com garfo chique, que depois de lavado vai ser guardado na gaveta mesmo. Porque vocês são muito mais importantes que qualquer visita e merecem. Se cair no chão e amassar, sipreocupem não, que ainda por cima temos doze peças de cada coisa. Dá e sobra!

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Morri

– Mamãe, você conhece a Sandy?

– Quem é a Sandy?

– Aquele que canta com o “Julio”.

– Conheço, filha. Torci anos para ela virar a Britney Spears mas isso não aconteceu. Mas não gosto das músicas dela, não.

– E você gosta das poderosas?

(Eu jurei que eram as Super Poderosas, aquelas três menininhas da época em que minha irmã caçula tinha a idade deles).

– Como é a música das poderosas?

– Assim ó: “prepara, que agora é a hora”. Da Anitta, mamãe!

Busquei a letra completa da música no Google e quase me matei. Tá, criar filhos em uma bolha onde só podem entrar as músicas que eu gosto não pode. Proibir também não pode. Dar bronca também não, até porque eles não têm culpa nenhuma, nem entenderam nada. Chorar pode? Tô chorando muito.

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Diet

Entramos no taxi.

– Mamãe, esse moço é grande, né?

– Ele é adulto, filho.

– Esse moço adulto é muito grande, mamãe.

– … (como faz?)

– Mamãe, ele deve comer muito, né?

– … (até onde ele vai?)

– Mamãe, ele não gosta se fazer ginástica?

Filhos são um reflexo dos pais. Fiquei pensando o dia todo nas coisas que falo para eles. Coisas do tipo “mamãe vai fazer ginástica para não engordar” ou “não quero comer muito para não engordar”. Foi falha minha.

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