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Honestidade de pai

Frase de um amigo meu durante o jantar:

– Eu amo muito minha filha. Nunca tinha amado uma pessoa desse jeito. Amo mais que qualquer coisa. Mas é tão bom quando ela dorme!

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Incidente

Tirei carteira de motorista há 15 anos. De lá para cá, dirigi bastante, muitos carros diferentes (os meus, da minha mãe, do meu pai, dos namorados/ marido, de amigos, carros alugados, carros da empresa e por aí vai).

Nesses anos todos de ruas e estradas, nunca vi um pneu estourar. Já vi prego entrar em pneu e fazê-lo esvaziar aos poucos. Já encontrei meu carro com pneu vazio e tive que trocar, mas eu não estava dentro dele. Estourar, fazer o carro ficar torto e encostar a roda no chão de repente, isso eu nunca tinha visto.

Até a primeira vez que resolvi colocar meus dois filhos de três anos no banco de trás de um carro e sair completamente sozinha para uma semana de férias no interior de São Paulo.

Fim.

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Chocolate da discórdia

Meu filho voltou da escola esses dias e trouxe dois bombons na mochila. Pelo que entendi, um amiguinho deu de presente para comemorar o início das férias.

Apesar de ter melhorado muito, eu ainda sou mãe neurótica com alimentação saudável. Não costumo dar doces para eles de forma aleatória e, sendo bem justa, eu também não como doce e sobremesa em ocasiões não-especiais.

Quando eles eram menores, essas guloseimas que voltam na mochila iam para o lixo e eles nunca deram falta. Com mais de três anos, eles se lembram do que foi colocado na mochila e ele me perguntou dos chocolates quando chegou em casa.

– Filho, você não vai comer chocolate durante a semana. Vou deixar os dois bombons aqui em cima da mesa e te dou no sábado. Como são dois, você pode dar um para sua irmã, o que acha?

– Combinado.

Os dois bombons ficaram a semana toda na mesa, sem crise. Ele via todo dia, me perguntava se já era sábado, eu respondia que não e ficava tudo bem.

No sábado, tive que ser justa. Quando ele perguntou, respondi que já era sábado e que ele poderia comer depois que terminasse a fruta que estava comendo. Abri, dei na mão dele e pedi para tomar cuidado com a roupa.
Ele mordeu e me olhou com cara muito feia:

– Posso cuspir? Não gosto, mamãe.

Mamãe 1 x 0 chocolate.

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Felícia

Meu filho tem uma gargalhada gostosa demais, e ri com a boca aberta, e joga a cabeça para trás, e fica me olhando nos olhos enquanto faz gracinhas.

Eu me seguro para não esmagar. Tenho vontade de morder a bochecha dele, de apertar, de amassar. Toda vez que ele entra nesse modo “fofura ao extremo”, eu agarro e abraço e me concentro para não espremer muito. É muita gostosura. É muito bom ter tanta fofura em casa. Tenham filhos, gente, recomendo.

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Mãe, você não manja nada

Mamães e papais que trabalham usufruem de um serviço chamado “curso de férias” lá na escola. Não tem atividades pedagógicas e eles preparam atividades de recreação diferentes todos os dias. Aí a gente estava esperando o elevador hoje cedo, e eu falei tentando empolgar bebês sonolentos:

– Hoje vai ter aula de cozinhar lá na escola!

Minha filha me olhou com aquela clara expressão de “ai, meldels, que mulher desinformada”:

– É culinária, mamãe.

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Vida sem carro, definitivamente

Pra falar a verdade, eu já não tinha um carro próprio faz tempo. O carro que eu usava, aquele que estava batido aguardando o conserto, era da empresa. Benefício do cargo, essas coisas do mundo corporativo. Mas mudei de emprego, devolvi o carro e precisei pensar se queria ter um carro ou próprio ou não.

Como boa engenheira (de sangue – mãe e pais são engenheiros – e de formação), pus tudo no papel:

Vida com carro (gastos anuais):

R$ 4.000 de depreciação (considerando um carro de R$ 40.000, que deprecia 10% ao ano)

R$ 2.000 de seguro

R$ 1.700 de IPVA (4% do valor do carro + taxas)

R$ 3.600 de combustível (uns R$ 300 por mês)

R$ 2.600 de estacionamento (dois estacionamentos semanais de R$ 25 cada um)

R$ 1.500 de manutenção (considera revisões, lavagens e consertos)

Total –> R$ 15.400 por ano

Vida sem carro (gastos anuais):

R$ 3.400 de transporte público (considerando que eu pegue ônibus e metrô para ir e voltar de algum lugar nos 365 dias no ano – mas atualmente só uso o metrô para trabalhar)

R$ 3.600 de perua escolar (se você não tem filhos, uhuu, tem mais uma economia)

R$ 5.200 de taxi (considerei dois taxis semanais, R$ 50 cada corrida – lembrando que, mesmo com carro, a gente deveria sair de taxi quando vamos consumir bebidas alcoólicas, que é o que eu já fazia faz tempo)

Total –> R$ 12.200 por ano

Fora o valor do carro, né? Se eu tiver R$ 40.000 e deixar esse dinheiro aplicado a 0,06% ao mês, isso vai me render R$ 3.000 por ano, o que diminui minha vida sem carro para R$ 9.200 anuais. Se eu não tiver R$ 40.000 e precisar financiar um carro, devo somar parcelas mensais na conta da vida com carro e o valor vai pelo menos dobrar. Quanto mais caro o carro, maior essa diferença toda, óbvio.

Como boa consultora, vou incluir uma análise qualitativa:

  • Fazer caminhadas dirárias é saudável
  • Ler no metrô é muito legal, bem melhor que ficar com as mãos no volante e os olhos no carro da frente
  • Risco de assaltos é muito parecido. Mas prefiro ter alguém furtando algo de dentro da bolsa no metrô lotado que uma arma na minha cabeça em um cruzamento, quando estou com aquela cara de “claro que tenho um smartphone e um notebook aqui nesse carro”
  • Não corro o risco de bater no carro de ninguém, nem de encostar em um motoqueiro mucholoco
  • Não vou tomar multas de trânsito
  • Calor deve ser bem chato dentro do metrô. Chuvas fortes no final da tarde incomodam qualquer um, então dá na mesma

Por que a gente tem carro, hein, gente?

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Aqui não tá tendo copa

Eu juro que não me tornei uma pessoa amargurada nesse mês só porque odeio futebol. Tô indo bem até. Não vi nenhum jogo, mas sei que está tudo bem com o Brasil, sei que Itália, Espanha e Japão já foram eliminados. Não tô torcendo contra, juro. Coloquei até camisa do Brasil nos dois bebês nos dias de jogo, para irem para escola em clima de copa. Tô mó legal.

Na última segunda, teve jogo no meio do dia. Isso eu não gosto. Nada que faça com que a escola feche mais cedo, especialmente antes do jantar, me fazendo cozinhar em plena segunda-feira, pode ser legal. Mas não tive escolha, tive que fazer o jantar. Então a cidade estava em festa, muitos fogos de artifício, gritos e buzinas por aí, e nós três estávamos comendo tranquilamente na cozinha às seis da tarde (jantei junto, não resisti). Durante um dos gols, minha filha me falou:

– Mamãe, você não gosta de barulho, né?

“Não gostar de barulho” é usado aqui em casa em vários contextos: quando eles gritam, quando eles jogam coisas no chão, quando eles pulam ou pisam forte no chão (principalmente quando estão de sapatos), quando batem nas coisas (especialmente usando objetos), quando fazem muito escândalo. Eu vivo dizendo que não gosto de barulho.

– Não, não gosto de barulho, filha.

– Tá, mas, por favor, não chora. Não precisa chorar. Já já o barulho vai acabar, tá? Espera um pouquinho que já passa, tá?

Adoro esses surtos de maturidade que crianças de três anos às vezes têm.

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Namorar e casar

Antes de dormir:

– Mamãe, eu quero ser seu namorado.

Agarrei, amassei, apertei. Amo esse menino carinhoso que escolhe as coisas mais fofas para dizer para a mamãe. Aí eu respondi:

– Casa comigo, então?

– Ah, casar não posso.

– Por que não pode? (aquela cara de “tomei um fora”)

– Porque eu tô de pijama, mamãe. Só posso casar com roupa de festa. Boa noite, vou nanar.

Fugindo de compromisso sério desde cedo, filho?

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Sejamos claros

Achei um rascunho que estava guardado há exatamente um mês. Para comemorar, resolvi publicar, sem tirar nem colocar nenhuma palavra. Aí vai.

Meu filho deu um escândalo comigo outro dia na porta da escola. Ele queria alguma coisa, não deixei e ele liberou toda a raiva de seu coraçãozinho, com frases lindas de morrer:

– Você é muito feia! Eu não gosto de você! Eu não sou mais seu amigo! Tô muito bravo com você! Vai embora!

Bem alto, pro bairro inteiro ouvir. Morri de raiva, confesso. Mas não dava para ter uma conversa naquele momento com ele naquele estado de fúria e fui embora. Fui embora aliviada porque ia conviver com pessoas adultas e esquecer aquele episódio imaturo do início do dia. Porque o mundo das pessoas adultas é maduro, ponderado e equilibrado, certo?

Não.

Curiosamente nesse mesmo dia uma série de episódios me deixou mais brava ainda que a cena na porta da escola. Em resumo: gente falando mal de outras pessoas pelas costas e gente com dificuldade de dar feedbacks claros e diretos para os outros. Esse é o mundo dos adultos, na verdade.

Voltei para casa com saudades deles e com vontade de agradecer a sinceridade dos dois. Fiquei com vontade de elogiar e reconhecer a capacidade de dizer o que pensam na minha cara, olhando nos meus olhos. Fiquei me perguntando em que momento da vida a gente desaprende que falar o que pensa faz bem para os relacionamentos (filho, obviamente você poderia escolher melhor as palavras) e que não adianta nada ficar falando mal de alguém para os outros.

Nossa relação em casa é um belo exemplo de avaliações 360º. Eu direciono, deixo claro o que espero deles, avalio os dois e dou feedbacks constantemente. Eles me devolvem feedbacks dizendo o que devo melhorar e quando estou exagerando. E se avaliam entre si também e deixam muito claro quando não gostam de alguma coisa que o irmão fez. É um processo muito transparente e todo mundo se expressa e é ouvido.

Dá para a gente aprender com as crianças, povo?

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Tchau, tchau, baba

É baba mesmo, não babá.

Desde pequeno, meu filho tinha dificuldade para deglutição da saliva. Até quase dois anos, usava uns três ou quatro babadores por dia, que ficavam rapidamente ensopados, como se ele tivesse derrubado um copo de água no peito. O queixo dele vivia molhado. Há um tempo deixou de usar babador o dia inteiro, mas as camisetas viviam molhadas.

Isso provavelmente acontecia por uma “imaturidade” dos músculos da boca, que não haviam aprendido o movimento involuntário de engolir saliva.

Só que há três dias ele simplesmente aprendeu a engolir e parou totalmente de babar.

Foi nossa primeira grande vitória juntos, mamãe e filho. Vitória suada. Sessões semanais de fonoaudiologia há mais de um ano e meio. Mil consultas com otorrino e dentista. Exercícios em casa, exercícios que mamãe enviava para fazer na escola, remédios, pomadas, bandagens para estimular a boca. Muita conversa, muita paciência, muita dedicação.

Parabéns, gatinho! Tô super orgulhosa por nós dois. Tô aqui curtindo um feriadão sem desgrudar os olhos da boca dele, comemorando que não deixou escorrer nenhuma gotinha de saliva!

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