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Brigas verbais

Primeiro vieram as brigas físicas. Tapas, arranhões, beliscões, mordidas, brinquedadas na cabeça um do outro. Eles vivem se pegando no tapa, em casa e na escola. Perdi as contas de quantos recadinhos na agenda vieram com um “mamãe, bebê x mordeu/ beliscou/ arranhou/ bateu no bebê y”. Então, a vida por aqui é assim: além de evitar o suicídio infantil e gerenciar criança que não pára quieta, nós temos que ficar de olho para um não machucar o outro.

Até aí, eu sempre achei normal. Posso estar louca, mas acho normal briga entre irmãos. Briguei com minha irmã do meio a vida inteira e só não brigo com a mais nova porque temos 21 anos de diferença (e me sinto um pouco mais adulta que ela para isso). Eu achava que era parte do desenvolvimento, sei lá. Apesar de brigarem muito, não era nada que me irritasse.

Até que eles começaram a falar. E a conversar entre si. Eles conversam, pedem favores um para o outro, chamam um ao outro para brincar, era tudo só fofura. Até que as brigas verbais apareceram e isso, sim, é irritante.

Começa com qualquer coisa. É um dizer “mamãe, quero tomar leite”, pro outro responder “não, você não vai tomar leite”. Assim, como se tivesse total autonomia para decidir se a(o) irmã(o) vai ou não tomar leite. E o primeiro responde “vou, sim”, e o outro responde “vai, não”, e depois um “vou, SIM” (bem alto), seguido de “vai, NÃÃÃÃÃOOOO” (mais alto ainda), e assim seguem gritando um com o outro cada vez mais alto até que eu tenha vontade de gritar muito mais alto pedindo SILÊNCIO. Mas não grito nunca, porque sou adulta e tenho que dar o exemplo. Mentira.

Brigas físicas eram mais fáceis de evitar. Era só manter um meio longe do outro nos momentos de confusão por causa de um brinquedo ou algo parecido. As brigas verbais vão rolando ao longo do dia todo. Qualquer coisa vira motivo de provocação e eu ainda não descobri como fazer pra parar. Criança devia vir com manual de instrução, viu?

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É. Difícil.

Gente, tô de mau humor hoje, juntando uma TPM, um carro sem combustível na chuva, uma agenda de reuniões no trabalho difícil de coordenar e um calor que dá vontade de andar pelada por aí. Então vou ser um pouco amarga, ok?

Eu lembro bem quando saí da casa da minha mãe para morar sozinha e achei a vida de adulto muito difícil. De repente, além de trabalhar e estudar (eu fazia mestrado na época), eu tinha que cuidar de um apartamento (incluindo problemas no encanamento e chuveiros que quebram no meio de uma semana caótica), de contas para pagar (incluindo lembrar de pagá-las, além de ter o dinheiro), de coisas para resolver (incluindo agendar e levar o carro na revisão, já que minha mãe não estava mais por perto para pedir favores aleatórios do dia a dia), tudo sozinha. Aí eu resolvi virar mamãe e somei a tudo isso o piémôu do projeto “conduzir dois bebês da infância até a vida adulta”.

Mano, não é mole, tá? Eu não tinha noção do quanto é difícil ser mamãe até virar uma mamãe. Hoje eu tenho admiração e compaixão por todas as mamães do mundo. Sério mesmo. Hoje sei que nenhuma escolha relacionada à maternidade é simples e admiro todas elas.

Eu escolhi conciliar trabalho e maternidade. Fazem parte dessa escolha argumentos como: 1) eu gosto de trabalhar, 2) eu não suporto ficar muito tempo em casa, 3) eu não nasci rica, 4) eu não me casei com um papai rico, 5) eu não ganhei na loteria até agora. Mas esses argumentos não vêm ao caso. O caso é que estou aqui tentando conciliar dois papéis e até agora não encontrei a fórmula mágica para estar totalmente feliz, satisfeita e realizada com a minha escolha.

Nesses doze anos desde que comecei a fazer meu primeiro estágio, nunca tive um ano tão confuso no trabalho. Trabalhar sempre foi o cargo principal exercido durante a semana e, apesar de nunca ter sido apaixonada por trabalhar aos finais de semana, virar madrugadas ou ter que viajar, eu nunca tinha tido tremedeiras ao pensar nessas coisas. Sempre trabalhei com coisas que eu gostava, sempre fui do tipo que abraçava mais coisas que cabiam nas 8 horas diárias, sempre fui dedicada, comprometida, disponível e feliz com tudo isso. Só que de uma hora para hora, eu não tinha mais que 8 horas por dia para ficar no escritório, não conseguia mais abraçar tudo o que eu queria, mas continuo gostando do que faço, continuo tentando ser feliz com tudo isso e passei a sofrer por não me achar mais tão dedicada, comprometida e disponível como eu era antes.

Quem fica escrevendo por aí que as mamães ficam mais produtivas depois da maternidade só deve ter conhecido mamães de sorte cujas rotinas nunca saem do previsto. Eu tento, tá? Juro. Mas a escola me liga no meio do dia para falar sobre os mais variados assuntos, fazendo meu coração pular cada vez que acho que aconteceu alguma coisa grave com eles. Eles ficam doentes e me fazem agendar consultas, exames, passar na farmácia, trabalhar de casa, tudo no horário que eu queria estar bem produtiva no escritório. A empregada pede demissão e me faz agendar entrevistas e mais entrevistas para encontrar uma nova pessoa para me ajudar com os dois no final do dia. E por aí vai.

Tá. Tô exagerando. Essas coisas não acontecem toda semana, mas acontecem de vez em quando e, quando acontecem, deixam a mamãe louca. É óbvio que meus filhos são prioridade, então é óbvio que paro o que estiver fazendo para resolver qualquer problema deles. Quando estou com eles, estou só para eles. Não atendo o celular, não checo e-mails, não respondo mensagens e só volto a ficar conectada para o mundo depois que eles vão para a cama. Chegar tarde para vê-los dói, como contei aqui. E, por serem prioridade e as coisinhas mais importantes da minha vida, eu tive que colocar alguns limites no trabalho por causa dos dois.

Colocar limites parece fácil, né? Eu não consigo chegar cedo demais em uma reunião porque não consigo adiantar o horário que a escola abre e também não acho tão legal ficar acordando os dois de madrugada para sair cedo de casa. Eu não consigo trabalhar até mais tarde porque eu não quero ser a mamãe que chega em casa e as crianças já estão dormindo. Eu não consigo viajar a trabalho porque dormir longe dos dois me destrói. Eu não consigo trabalhar aos finais de semana porque é meu tempo com eles, só para eles e nós precisamos desse tempo juntos. Fácil falar, né? Mas se eu não consigo fazer nada que extrapole minhas 8 horas diárias mas também não consigo ser 100% produtiva durante as tais 8 horas, que catso estou fazendo para merecer o salário no final do mês?

Ah, o salário. Eu gosto do salário e não posso ficar sem o salário. Claro, eu acho que eu devia e precisaria ganhar um pouco mais, porque o salário nunca dá para tudo o que quero fazer no mês (e sei que esse não é um problema só meu no mundo). Eu também olho pro orçamento e não sei onde reduzir para fazer caber em um salário menor, então gostaria que meu salário ficasse no mínimo onde ele está hoje. Mas para merecer, eu preciso trabalhar direito. Aí alguém me explica cadê o jeito de conciliar direito esse negócio de trabalho e maternidade? Como eu me livro dessa sensação diária de que não sou boa nem em uma coisa nem em outra?

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Cansar e dormir

Meus filhos não param quietos um minuto. Minha filha até seria uma criança mais quietinha, princesinha, calminha, se não tivesse um irmão-catalisador da bagunça. Meu filho é um furacão. Eu ainda tenho dúvidas se ele tá melhor ou pior que o Luke, nosso labrador, que há uns anos me fez achar que o dono do Marley estava exagerando e que o Marley nem era tão mal assim. Isaac simplesmente não pára de mexer o corpo, não fica no mesmo ambiente mais que 3 minutos, não anda – só corre e pula. Acho meio exagero ficar rotulando de coisas tipo hiperativo, mas haja energia para acompanhar.

Eles foram visitar o vovô nesse final de semana e, assim que entrei no apartamento para buscá-los, presenciei meu filho caindo no chão junto com a cadeira, a mesa da cozinha e a cesta de frutas (acho que ele estava atrás de uma banana). Depois daqueles cinco minutos de gestão de caos – criança berrando, coisas espalhadas pelo chão – meu pai se senta com cara de quem correu uma meia maratona e me fala:

– Minha nossa senhora, cada vez que ele vem aqui ele está mais levado. Sobe em tudo, mexe em tudo, dá vontade de colocar um GPS nele para saber em que ambiente da casa ele está. Ele não pára nunca?

Não, nunca.

Minha mãe costuma me dizer.

– Você está só pagando seus pecados. Você era igualzinha. Na verdade, você era pior. Agradece que pelo menos esse menino dorme, porque nem isso você fazia para me dar um pouco de paz!

Ah, tem isso. Não posso reclamar. Se durante o dia meu filho contribui para que eu queime calorias e compense os dias que não consigo ir malhar, pelo menos ele apaga como uma pedra a noite todinha. Não acorda nem quando eu o reviro na cama para trocar fralda.

Na quarta-feira passada tivemos feriado e ficamos em casa. Acordamos 8h30 e eles quase me levaram a um esgotamento físico até o almoço. Depois dormiram das 13h00 às 17h00. QUATRO horas de sono, de paz, de silêncio. Acham que isso atrapalha o sono da noite? Nada. Depois de seguirem destruindo tudo o que viam pela frente, deitaram às 20h30 e dormiram até 7h30 no dia seguinte. Lindo, vai?

Tem gente que me fala que criança que come bem é uma benção. Tem quem acha que criança com saúde é uma benção. Outros vão dizer que criança inteligente é tudo de bom. Não, gente: benção é criança que dorme.

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Buscando a babá número 2

Na verdade, não é de uma babá cheia de qualificações específicas para cuidar de crianças que eu preciso. Preciso de alguém que olhe os dois e não os deixe cometer suicídio durante 1 hora por dia, no período entre chegar da escola com a perua e esperar a mamãe chegar em casa. O tempo é curto e o trabalho é simples, então a primeira pessoa que procurei foi a moça que já trabalhava em casa há um tempão e que cuida da limpeza e da arrumação. Ela é ótima pessoa, de confiança e já conhecia os brigadeirinhos há bastante tempo, então topou quando eu propus mudar os horários e ganhar um aumento no final do mês.

Em apenas um mês ela desistiu e veio me falar isso em uma conversa sincera. Não por causa do trabalho em si que duas crianças dão para um único adulto, porque ela nem teve tanto trabalho braçal assim. Nesse mês todo só pedi para ela dar banho nos dois uma única vez, porque eu estava presa em um congestionamento infernal. O grande problema é que eles não a obedeciam e cuidar de duas crianças desobedientes enlouquece qualquer um. Eu nunca tinha visto os dois serem mal educados com ninguém. São levados e bagunceiros, mas respeitam todo mundo. Sempre me orgulhei por ter dois filhos sociáveis, que vão com todo mundo, que estão sempre sorridentes e que em geral são muito educados. Perceber que meus filhos estavam realmente tratando mal alguém me deixou triste, mas eu não consegui resolver a situação, nem ela, e então ela me avisou que não queria mais continuar cuidando dos dois no final da tarde.

Meus bebês estão passando por uma fase em que buscam limites e testam as pessoas o tempo todo. Sabem que não podem mexer em alguma coisa, mas vire e mexe colocam os dedinhos lá para checar se algum adulto vai realmente repetir que não pode mexer. Insistem na bagunça que estão fazendo até tomar uma bronca maior ou ficar de castigo. Ficam nervosos e fazem coisas que sabem que não pode fazer de propósito. Fazem birras, tentam dar ordens, experimentam não obedecer, choram. É duro. É difícil de saber o que fazer nessas horas. É irritante. Às vezes, é desesperador.

Para mim, o x da questão na hora de colocar limites e mostrar o que pode e o que não pode fazer é coerência. Não invisto em gritos ou chiliques com os dois, mas tento sempre conversar, explicar e ser coerente. Se defino que não pode entrar na cozinha sem um adulto, explico que não pode e não tem exceção, nunca pode entrar na cozinha sozinho – não existe um “só hoje” ou “deixa entrar para parar de chorar”. Se aviso que vão ficar de castigo ou vão ter que guardar um brinquedo porque estão insistindo em fazer alguma coisa que já pedi para parar de fazer, eu cumpro. Existem coisas que são negociáveis e coisas que não aceito negociar: tem que tomar banho, escovar os dentes e ir para cama na hora certa e pronto. Sei que vão chorar, espernear, gritar e se jogar no chão, mas não volto atrás, respiro fundo, enfrento a birra, mantenho minha palavra. Cansa, mas é o meu jeito de mostrar para eles os limites que eles precisam respeitar.

Durante esse mês, vi acontecer em casa algumas cenas que me deixaram na dúvida sobre quem estava no controle por aqui. Ela os colocava nos cadeirões para tomar leite e, enquanto preparava os copinhos, deixava cada um com um brinquedo na mão. E eles jogavam o brinquedo no chão de propósito, ela pegava e dizia para não jogar de novo porque da próxima vez não iria pegar. Mas eles jogavam de novo, e ela ameaçava não pegar, eles choravam, aí ela pegava para parar de chorar e avisava que era a última vez que iria pegar. Mas sempre pegava de novo na próxima vez, e na outra também. Não tem como uma criança de dois anos entender o que está acontecendo se um adulto não é coerente no que fala.

Eu a orientei para ser firme com os dois, sem nenhuma agressividade, claro. Falei que não adiantava ameaçar e não cumprir, porque apenas a ameaça de “olha, que assim não vai mais brincar” não adiantava nada. Mas eles a venciam no choro e ela fazia exatamente o contrário do que tinha combinado ou avisado para eles. Faziam o que quisessem quando estavam com ela, e eu entendo que é muito difícil de aguentar os dois quando eles estão desembestados a fazer o que bem entendem. Um dia cheguei em casa e ouvi meu filho dizendo para a babá que ela estava de castigo e que ele não iria mais falar com ela, e foi frustante. Eu não estava gostando nem um pouco do comportamento deles com ela e percebi que não consigo ficar tranquila sabendo que eles estão completamente sem limites. Toda a situação me chateou demais.

Tentei conversar com eles várias vezes, para falar sobre respeitar, obedecer, tratar bem, colaborar. Não resolveu. Chamei a atenção dos dois várias vezes quando a tratavam mal na minha frente, mas depois percebi que chamar atenção por desrespeitar a babá era muito parecido com chamar a atenção quando eles brigam um com o outro: eles param, mas é só eu virar para o outro lado que recomeçam. Em pouco tempo, comecei a ouvir a babá dizer para eles “se não parar, vou chamar sua mãe para dar uma bronca” e me dei conta que ela nunca colocaria ordem nos pequenos. No fim, achei legal que ela também percebeu.

Babá número 2, aí vamos nós.

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Outro olhar para as coisas

Eu sempre odiei o início do horário de verão. Não só porque eu não gosto de calor, sol e praia. Pra mim, início do horário de verão era aquela semana em que todos os esforços de um ano inteiro para acordar às 5h45 e ir para a academia às 6h iam por água abaixo quando alguém me obrigava a sair da cama na escuridão da madrugada. Acordar no escuro e andar na rua no escuro para malhar é muito chato, meu. E a vantagem de escurecer mais tarde e aproveitar mais o dia não vale nada para quem estava acostumada a trabalhar até depois das 21h todos os dias. Não, eu não gostava mesmo de horário de verão.

Aí virei mamãe. Virei mamãe de dois bebês que acordam assim que o sol aparece no céu. Ou seja, eu vinha acordando entre 5h30 e 6h com risadinhas e pulinhos todos os dias, incluindo sábados e domingos, há um bom tempo. Mas não adianta nada sair da cama às 5h30 se eu não posso ir para academia, né? Pô. Aí eu queria dormir um pouco mais. E sábado e domingo, que são os dias universais de enrolar até mais tarde na cama, como é que fica?

Aí chegou o tal do horário de verão para me salvar. Achei lindo ver meus bebês nanando no escurinho até às 7h. Coisa mais legal, gente. Também achei ótimo saber que eles vão sair da escola com o dia ainda claro e ver a noite chegar dentro de casa. É mais aconchegante.

Na primeira segunda-feira após início do horário de verão, fui acordar meu filho para ir para escola, e ele me disse assim:

– Não, mamãe. Vou nanar. Tá escuro, tá de noite.

Gostei demais de você esse ano, horário de verão.

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Banheiros públicos

Parece nome de filme brasileiro, né? Mas é só a cabeça louca de uma mamãe aqui pensando comuéquifáis depois do desfralde. Eu já sei que desfralde é aquele período em que terei que perguntar 200 milhões de vezes para cada um se tá com vontade de fazer xixi e/ ou cocô, que vou ter que lidar com xixi no chão e cocô na cueca/ calcinha e que vou passar horas sentadas segurando bebê sentado no vaso sanitário para fazer xixi e/ ou cocô. Já sei, já tô preparada, vemnimim desfralde!

Mas, e depois, gente? Me conta? Me explica qual é o processo detalhado, para eu já comprar todo os apetrechos necessários para a operação Banheiros Públicos?

Tô pensando em ter um borrifador de álcool (desinfetante talvez?) na bolsa para limpar o vaso sanitário de restaurantes e shoppings, posso? Será que compro perfex e escovinha também? Cabe tudo isso na bolsa? Aí tô também pensando em comprar aqueles protetores de papel para vaso sanitário, será que vende? Existe algum produto que desinfete a criança após contato com banheiros públicos? Alguém já teve a experiência de colocar vários pedacinhos de papel higiênico, organizadamente lado a lado para forrar toda a tampa do vaso, e quando foi colocar a criança sentada derrubou tudo? Eu tenho sobrinha e irmã mais nova e já fiz isso várias vezes. É falta de experiência? Será que agora que sou mãe vai me aparecer um instinto sobrenaturalmaterno de conseguir sentar a criança no vaso em cima de pedaços de papel higiênico sem derrubar tudo? Como garante que elas não mexam em nada? Que não apoiem as mãos na tampa do vaso para não caírem lá dentro, principalmente? Ponho luvas descartáveis neles? Como eu faço, gente?

E a pergunta mais importante, especialmente para as mamães com mais de um filho: como é que eu faço para me concentrar em toda essa operação de guerra que deve ser levar um filho para fazer xixi e/ ou cocô em banheiro público se tenho que ficar de olho na outra criança? A outra criança consegue não mexer em nada? Pode amarrar na torneira da pia para não fugir de mim enquanto eu lido com papéis que não param no lugar?

Alguém me dá o passo-a-passo, por favor?

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Separação dos bebês

Acho que o grande problema em irmãos gêmeos é que eles acabam virando sombra um do outro. Por mais que sejam crianças diferentes, com gostos diferentes, personalidades diferentes, a gente acaba fazendo tudo exatamente igual com os dois. Eles dormem no mesmo horário, acordam no mesmo horário, vestem o mesmo tipo de roupa, comem a mesma coisa no café da manhã com o mesmo tipo de utensílios, vão para a escola juntos, estudam na mesma sala com a mesmíssima rotina e os mesmos amigos e terminam o dia com banho no mesmo horário e cama no mesmo horário. No final de semana, mesma coisa: mesmos passeios, mesmos horários, sempre a mesma pessoinha colada no outro o dia todo, pra todo canto. Com exceção dos compromissos médicos, a vida dos dois é muito igual.

É claro que para os papais este aspecto é um ganho de escala e facilita a vida. Deve ser muito mais difícil gerenciar duas crianças com logísticas diferentes. Mas esse grude todo acabou nos trazendo duas questões para pensar e resolver.

A primeira delas foi na escola. Meu filho é bagunceiro. Bagunceiro, levado, arteiro, é só olhar para a cara dele que dá pra perceber. Segundo as professoras, é ele que tem ideias mirabolantes de subir em cima da mesa do refeitório, levantar da roda quando a tia está contando histórias, tirar os sapatos e ficar correndo descalço. Mas se ainda fosse um só… O problema é que quando ele pensa em uma travessura, imediatamente convoca a irmã, que imediatamente segue o mocinho, e todas as bagunças já começam com dois envolvidos. Antes dessa conversa com a coordenação da escola, nós já vínhamos pensando que seria interessante para os dois ter os próprios amigos, a própria professora, uma vidinha independente durante o dia e reencontrar o irmão no final da tarde para matar as saudades. Só não sabíamos o momento ideal. Mas com toda essa questão da bagunça, decidimos: no ano que vem eles estudarão em classes diferentes.

A segunda questão foi o quarto dos dois. Eu sempre achei que dividir quarto com o irmão, independente de sexo e idade diferentes, trouxesse um monte de coisas positivas para as crianças, por causa da convivência, divisão do espaço comum e coisas assim. Até meu filho trazer para casa a mesma forma de tocar-o-terror quando estão sozinhos dentro do quarto. Na hora de dormir, ele desenvolveu uma mania extremamente irritante de bater a cabeça na cama antes de dormir, enquanto canta alto. Ele bate a cabeça na grade que o protege para não cair no chão, que é molinha, então não machuca. O problema é a cama balança, anda, faz barulho, encosta no armário ou na parede e faz os vizinhos acharem que estamos martelando alguma coisa em horário proibido. Difícil deixar a irmã dormir nessa confusão toda, principalmente porque a mamãe precisava entrar no quarto 357 vezes para pedir para ele parar com aquilo. Geralmente ele caía no sono em uns 20 minutos de tortura materna, então se fosse só isso estava bom.

Mas não. Ele resolveu começar a acordar às 5h da manhã. CINCO. DA. MANHÃ. E o que você faz quando acorda às 5h da manhã? Pula na cama da irmã, claro. Pula na cama da irmã, garante que ela acorde bem acordadinha, aí você decide se brincam, se cantam alto, se pulam descontroladamente em cima da cama ou se brigam, gerando choros, mordidas, tapas e puxões de cabelo. Em qualquer uma das alternativas, você obriga sua mãe a sair da cama dela e colocar ordem no ambiente, e faz com que a família toda inicie o dia nesse horário cruel, porque ninguém volta a dormir depois de tanta agitação. Podem me achar malvada, sem paciência, mas não dá para viver assim não.

Eles tiveram que ganhar quartos separados, para garantir a sanidade mental da mamãe. Toda minha teoria sobre deixá-los dividindo quarto até uns 10 anos foi por água abaixo quando eu percebi que estava pirando com tanta bagunça na minha vida. Numguentei, levantei a bandeira branca, desisti, e mudei a cama do meu filho para o quarto do lado.

Nos primeiros dias, minha filha achou que o irmão não merecia o privilégio de ganhar um quarto novo por ser tão bagunceiro e resolveu bater fortemente a cabeça na cama antes de dormir, numa tentativa desesperada de ganhar um quarto novo também. Ah, filha, desculpa, mas só temos esses três quartos aí e não posso te dar um quarto novo. O único motivo para eu ter mudado meu filho e não a minha filha é que não temos armário no novo quarto dele. Eu queria evitar de deixá-lo sozinho em um quarto com armário, porque sei que mais cedo ou mais tarde ele iria resolver tirar todas as roupas das gavetas e jogar no chão, na falta de uma irmã para atormentar. Eu sei que ele é capaz disso. Eu já o vi fazer isso em um dia que – não lembro por que – a irmã não estava com ele no quarto quando acordou. Acho que ela me entendeu e parou de bater a cabeça na cama. Ele continua chacoalhando a cama antes de dormir, mas pelo menos não incomoda mais a irmã.

A coisa linda mesmo aconteceu na parte da manhã. Quando ele acorda e se vê sozinho no quarto, ele resolve simplesmente VOLTAR A DORMIR. Sério. Nenhum drama, nenhum choro, nenhuma reclamação. Ele simplesmente dorme melhor. Desde o primeiro dia que meu filho foi dormir sozinho no quarto, ele dorme até eu acordá-lo para ir para a escola. No primeiro final de semana após a mudança de quartos, nós dormimos até às 9h no sábado E no domingo. Juro. Desde que eles chegaram em casa eu não dormia tanto assim em dois dias no mesmo final de semana. Lembro de ter acordado às 7h e pensado “oba, posso dormir mais”. Depois às 8h: “uau, que silêncio gostoso”. Depois às 9h me veio um “gente, não aguento mais ficar deitada, mas é bom demais para ser verdade e não quero estragar”. Adorei.

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Direito de ser avulsa

Recebi um e-mail super carinhoso de uma leitora que, entre outras coisas, disse que admirava a forma como eu mantenho meus interesses pessoais mesmo depois de virar mamãe. Obrigada, querida, de todo meu coração, por essas palavras. Fiquei feliz por saber que no mundo não existem somente as pessoas que criticam as mamães que não dedicam absolutamente todo o tempo delas para seus filhos, chamando-as de péssimas mamães.

Deixa explicar melhor: eu ouvi críticas porque fui a um casamento (em junho) e a um aniversário (em setembro) sem meus filhos. Absurdo, né? Que raio de mãe fica longe de seus bebês para estar ao lado do melhor amigo do dia do casamento dele? E ainda toma um copo de bebida alcoólica, vai dormir de madrugada e acorda tarde no dia seguinte? Que horror, gente! Se revolveu ter filhos, deveria saber que sua vida estaria dedicada a exercer o papel de mãe, exclusivamente mãe, e é obrigatório abrir mão de toda e qualquer coisa que não incluam bebês e crianças. Como assim uma mãe vai a uma festa de aniversário? Não pode, não. Tem que explicar ao aniversariante que ela é mãe, que tem filhos, e que sábado à noite é dia de ficar em casa com os filhos, até que eles entrem na adolescência e comecem a ir para as próprias baladas. Como assim os bebês foram dormir na casa do vovô? Que mãe desnaturada tem coragem de deixar os filhos dormirem na casa de seu próprio pai e de sua madrasta, ao lado de sua irmã mais nova? Bebês precisam dormir na casa da mamãe e do papai durante os primeiros 15 anos de vida, porque só assim serão felizes e realizados. É óbvio, pô. É só explicar para todos os amigos que mãe não é mais um ser avulso, individual. Mãe é um ser grudado em seus filhos. Ou a mãe leva os filhos para cima e para baixo ou fica em casa com eles. Juntos, bem perto, o tempo todo. Sim, ouvi esse tipo de coisa. Não importa se no mesmo período nós fomos ao zoológico, ao circo, ao parque, à praia, a um hotel fazenda, se fomos jantar ou almoçar na casa das minhas avós e de amigos, se fizemos pão juntos em casa, se trabalhei de casa quando minha filha ficou dodói, se estávamos juntos todos os dias no café da manhã, no caminho para a escola e antes de dormir, se levantei da minha cama todas as madrugadas para checar se as fraldas estavam muito molhadas, nada disso importa. Importa a minha falta de sensibilidade por ter ido a um casamento e a uma festa de aniversário sem meus filhos.

Gente, vamos lá. Manter os interesses pessoais não é fácil, não. O(s) bebê(s) chega(m) e a gente mergulha em uma infinidade de assuntos nunca-jamais-antes-vistos, dos mais complexos (como eu explico para meu filho que não vou fazer uma chuquinha nele sem ser sexista?) aos mais bobos (qual a melhor marca de lenços umedecidos?). Bebês e crianças ocupam facilmente todo o tempo que passam com os papais: querem brincar, precisam de atenção, querem falar, fazem bagunça, precisam se alimentar, se trocar, precisam de cuidados. Fazem coisas que nos deixam felizes, coisas que nos deixam bravos, fazem coisas fofas que nos fazem sair contando para todo mundo. Quando não estamos com nossos filhos, porque estão dormindo ou estão na escola, passamos boa parte do nosso tempo pensando neles: nas consultas médicas que precisamos agendar (lembrete: marcar dentista para os bebês), nos materiais que a escola nos pediu para enviar, no que vamos fazer no final de semana com eles, nas roupas que ficaram pequenas e que precisam ser substituídas. É um passo muito pequeno para nos tornamos mamãe 24 x 7 e esquecer de todo o resto.

Mas o fato é que eu gosto de muitas coisas de adulto. Cometo esse pecado e não tenho vergonha de assumir. Gosto de ler e conversar sobre assuntos que não vou conseguir dividir com meus filhos durante os próximos dez anos: a polêmica dos beagles, a espionagem do Obama, a Dilma cancelando viagem para os isteites, os drones, os desfiles do SPFW, os médicos cubanos, o despreparo da polícia, os animais em extinção, a capa da Economist, o dono da empresa de macarrão que disse que os homossexuais devem consumir outras marcas, os hormônios do frango. Com meus filhos, tudo o que eu conseguiria como resposta seria um “eu quero comer macarrão (não importa a marca)” e um “cachorrinhos e golfinhos são fofos”. Eu gosto de ir ao cinema para ver filme de adulto. Gosto de teatro, de museu, de exposições de arte, de música ao vivo, de comer em restaurante sem estar cercada por feijões jogados no chão e talheres batendo nos pratos espirrando molho de macarrão. Gosto de ir na academia (na verdade, nem tanto assim, mas me obrigo a ir). Gosto de correr no parque, de andar de bicicleta, de ler em silêncio e sem interrupções, de tomar cerveja, de fazer uma comida apimentada, de tomar banho com calma, de ficar sozinha.

É claro que tenho menos tempo para as coisas que eu gosto depois que virei mamãe, porque é claro que ficar com meus filhos é maior prazer que tenho na minha vida. É claro também que eu não sou uma pessoa amargurada porque só fui ao cinema três vezes esse ano. Mas, sim, eu faço algumas coisas sem os dois. Acho saudável. Tenho CERTEZAMAISQUEABSOLUTA que não falta muito amor, muito carinho, muita dedicação para eles e que posso me dar esse luxo absurdo, inimaginável, imperdoável e cruel de ter uma parte do tempo para mim. Acho também que cada mamãe cria seus filhos como quiser, como bem entender, que não tem certo, não tem errado, não tem julgamento, e a única exigência é que exista amor. De resto, gente linda, deixa conosco, que as mamães sabem o que fazem, eu juro.

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Sobre baladas e bebês

Hoje passei por dois assuntos polêmicos na minha taimeláine da rede social. Esse primeiro deve ter sido visto por quase todo mundo: um rapazinho com quase seus 40 anos gastando fortunas na náiti paulistana, dando dicas de como se dar bem com as garotas. A reportagem e os posts que li vieram acompanhados de comentários de pessoas irritadas, inconformadas, desconsoladas, que chamavam o moço de “otário”, “fútil”, “babaca”, “exibido” e por aí vai. Ah, minha gente, pliz. O moço ganha seu dinheiro honestamente (espero) e gasta como quiser. Faz isso porque tem plateia. Tá lá cheio de amigos, amigas, desconhecidos e desconhecidas aplaudindo as garrafas com foguinhos. Se ninguém desse bola, ele estaria com foco em outra coisa para chamar a atenção. Deixa ele? Ele podia estar matando, roubando, colocando funk bem alto no carro no posto de gasolina, dançando axé no calçadão, mas pelo menos ele está trancadinho na balada gastando seu dinheiro como bem entende. E o segurança dirige o carrão na volta pra casa. Tá tudo certo, pô.

Outra coisa que li foi sobre um tal de aplicativo para encontrar pessoas. Nada que nunca tenha existido antes em forma de sites ou agências de relacionamento. Você cadastra seu perfil lá e espera alguém te curtir, para começar um papo virtual, que depois migra para mensagens no whatsapp, depois por voz, depois marca encontro, e a gente sabe o que acontece daí para frente. Sério, gente, é só ganho de escala. As pessoas estão desfilando por aí nas baladas atrás de pares há anos e anos. Só que na balada, você só consegue conversar com uma pessoa de cada vez. Agora temos uma maravilha em nossas mãos: um aplicativo que nos permite conversar com várias pessoas ao mesmo tempo! E você nem precisa esperar a sexta/ sábado à noite para fazer isso. Dá pra paquerar durante o expediente. Eficiência e ganho de escala. Qual é o problema?

O problema foi chegar em casa e encontrar meus monstrinhos lindos, sorridentes, aprendendo a falar, brincando de panelinha, e desenvolver um terrível pânico. Chama-se “eu tenho medo de adolescência”. É claro que eles não vão ter fortunas para gastar na balada, a não ser que trabalhem muito para isso. Porque eu não tenho dinheiro assim disponível, nem acho que vou ter um dia. E, se tiver, não vou dar um cartão de crédito e pronto, né? Não, não é só isso. Eu não quero que eles sejam os amigos bajuladores que acompanham o mocinho gastão, somente atraídos pelo dinheiro. Nem que sejam as menininhas que dão bola e ficam penduradas no cangote dos moços só porque eles as deixam entrar no camarote. Também não quero ver perfis dos dois em aplicativos que ajudam a encontrar pessoas, porque espero que eles encontrem pessoas que se interessem por mais do que uma foto e uma descrição do tipo “moreno de cabelos cacheados e sorriso encantador, que se interessa por motocas, panelinhas e manga”. Porque sei que eles serão muito mais do que dá para mostrar nas redes sociais e nas baladas e uma mamãe superprotetora só consegue torcer para que eles encontrem pessoas que valorizem isso antes de mais nada.

Tá. Estou dando uma de louca e deveria estar mais preocupada com a excursão ao circo que eles terão na quinta que com essas coisas que só devem começar a aparecer na minha vida daqui uns 12 anos. 12 anos que eu espero que passem bem devagar. 🙂

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A principal função dos papais

Quando nós ainda não temos filhos, mas já estamos sonhando com a chegada deles, temos a doce ilusão que vamos ter muito trabalho com temas comuns, tipo alimentação, sono, educação e saúde, não é? Antes de ter filhos, eu achava que seria dificílimo enfrentar doenças, noites mal dormidas, crianças não querem comer e as milhões de dúvidas para escolher uma escola e decidir em que momento começar uma educação bilíngue.

Eu me enganei. Essas coisas são simples de resolver. Difícil mesmo é evitar o suicídio infantil, minha gente. Hoje eu invisto 90% do meu tempo tentando evitar que meus filhos se matem. Não sei se estou indo contra a seleção natural ou se existem outras espécies na natureza que também nascem com tendências suicidas como o ser humano. Mas a verdade é que a principal função dos papais até os filhos completarem três anos (assim espero) é mantê-los vivos.

Criança pequena é fogo, não dá para desgrudar o olho um segundo. Você olha o celular para conferir as horas, e a criança sobe na mesa de jantar. Você olha para o lado oposto, e depois encontra a criança pulando em cima de um banco. Ou dependurada na janela. Ou correndo como um monstrinho desgovernado rampa abaixo. Ou tentando fazer carinho em um cachorro imenso que ela nunca viu antes. Ou correndo para o meio da rua, sem nenhum incômodo com carros. Ou tentando engolir brinquedos com peças pequenas. Ou colocando feijões no nariz ou no ouvido. Criança gosta de abrir o gás do fogão e de mexer em gavetas com facas, então nunca podem ficar sozinhas em cozinhas. Criança gosta de correr na beira da piscina mesmo sabendo que não sabe nadar. Criança não faz a menor cerimônia para escalar uma estante para pegar alguma coisa no alto. Criança gosta de pular e dançar no banho, justamente depois que ensaboamos o pé e não deu tempo ainda de enxaguar.

Em casa nós temos elementos básicos de segurança (portãozinho na porta da cozinha, telas na janela, travas em alguns armários e gavetas), então aqui dentro eu não fico tão estressada. Tenho chiliques em garagens e na rua, porque meu filho foge e agora corre mais rápido que eu. Eu não uso nem pretendo usar, mas juro que entendo as mamães que usam coleiras em seus filhos. Juro. Não acho que seja a melhor forma de educar, mas tenho certeza que meus cabelos continuariam pretos alguns anos a mais. Não tem nada que me tire mais do sério do que um bebê tentando soltar minha mão para correr na rua.

Eu já expliquei, conversei, pedi, implorei, chorei, mas só parece ter funcionado mesmo depois que ele tomou uma bronca do tamanho da torcida do Corinthians no último sábado. Desde então está grudado em mim, mesmo que eu solte a mãozinha dele. Minha filha entendeu a bronca por tabela e está boazinha também. Vamos acompanhar até quando, né?

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