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Para meu filho

Isaac, meu querido,

Sempre que minha mãe passa um tempo com você, ela me diz que estou pagando todos os meus pecados, porque eu era bem pior. Nossa, tadinha da minha mãe, porque não é fácil ficar cuidando de você, viu?

Outro dia, você chegou da escola e disse que ia enfeitar nossa casa para o Natal. Saiu espalhando brinquedos pela sala e pela cozinha, para nossa casa ficar bem bonita. Eu não quis te dizer que aquilo para mim era bagunça, então deixei você enfeitar tudo e arrumei tudo depois que você dormiu.

Aí você olhou a mesa de jantar e viu que eu não tinha guardado minhas coisas, então aproveitou para fuxicar meus papéis, fazer um desenho no meu caderno com minhas canetas e mexer em tudo. Eu te pedi para não mexer ali e sugeri fazer outra coisa e você disse que iria desenhar. Quando fui te ver na mesa da cozinha, você tinha molhado os papéis porque assim ficaria mais fácil de grudar nas paredes. Eu expliquei que não. Quando voltei de novo, você tinha colocado um banco na frente da geladeira e tinha tirado todas as fotos que temos lá, para poder colar os seus desenhos. Então você me disse que ia para seu quarto colocar a fantasia do Peter Pan e eu fui fazer o jantar.

Como você estava demorando para voltar, fui até lá e te encontrei completamente nu brincando de outra coisa. Pelo que entendi, você se distraiu com outro brinquedo logo depois de ter tirado a roupa e se esqueceu de colocar a fantasia, mas você não soube me explicar por que tinha tirado a cueca para colocar a fantasia. Eu pedi para você se vestir. Alguns minutos depois voltei para te ver e encontrei o Peter Pan em cima de uma cadeira que deveria estar no quarto na frente da pia do banheiro lavando uns brinquedos sujos. Eu sei, aquele sabonete líquido novo que eu comprei tem uma embalagem incrível, dá vontade de mexer. Mas eu te expliquei que não era para lavar brinquedos e coloquei a cadeira no lugar.

Aí você me pediu para brincar com um jogo cheio de bolinhas pequenas e eu pedi para ficar no quarto com a porta fechada, porque o cachorro poderia engolir tudo. Mas a cada 30 segundos eu ouvia barulhos de bolinhas no corredor, porque sem querer a porta do quarto se abria e as bolinhas se espalhavam para fora. E cada vez que acontecia isso, o cachorro corria, você gritava e eu parava de fazer o jantar para socorrer as bolinhas.

Então você quis ver o Mágico de Oz, e eu achei bom porque já tinha quase queimado a comida várias vezes, então achei bom que você ficasse sentado um pouco. Só que todas as vezes que a Dorothy cantava, você se levantava do sofá e saía pulando e cantando pela sala, e o cachorro saía atrás tentando morder sua mão porque queria participar da brincadeira, e você gritava, e eu tinha que parar tudo e ir acalmar o cachorro.

Depois do jantar, enquanto eu arrumava alguma coisa e me distraí, você abriu uma gaveta e pegou o rolo de fita crepe para fazer pulseiras no seu braço. E depois você me pediu mais alguma, e quando fui fazer você respondeu todo animado:

– Obrigado, mamãe, você é muito agradável.

“Agradável” foi ótimo, Isaac. Você é bagunceiro, mas é sempre agradável cuidar de você. Adoro essa cabecinha criativa e cheia de ideias, mesmo que isso não me deixe relaxar um minuto.

 

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A tal do passeio com fast food

Algumas pessoas me perguntaram o que eu tinha resolvido fazer com o passeio da escola com almoço no McDonald’s. Eu decidi não autorizar a participação dos meus filhos.

Eu tentei algumas coisas: conversei com a escola, conversei com outras mães e até liguei no parque para entender as opções. A única opção que todos me deram foi mandar um almoço saudável para meus pequenos. Mas só eles levariam uma comida diferente, já que as outras crianças comeriam fast food, e eu não queria fazê-los serem os únicos a comer uma comida diferente dos amigos em um dia de passeio. Levar um almoço diferente deveria ser uma escolha deles e, não, uma imposição minha.

Mas não foi só o fast food. O fato de ter fast food no passeio me fez pensar em outras coisas. Primeiro, era um passeio a um parque temático dentro de um Shopping Center, um lugar onde eu nunca iria. Nunca levo os dois a shoppings, sempre prefiro comprar as coisas para eles sozinha e depois voltar para trocar, se for necessário – acho que shopping não é lugar para criança passear. Segundo, não considero o parque temático uma “saída pedagógica”. Terceiro, custava muito caro.

A escola organiza cinco passeios por ano, todos são caros e eles sempre participaram de todos. Eu era a mãe que trabalhava muito e deixava os filhos na escola por horas e horas seguidas, ou seja, vivia com culpa e nunca tinha sequer cogitado negar um passeio. Hoje nossa vida está diferente. Estou fazendo poucos freelas e não ganho por dia o valor do passeio para os dois. E também não sinto mais culpa: viajamos oito (OITO!) vezes este ano, levei mais tarde para a escola, busquei mais cedo, fomos ao cinema no meio do dia, trouxemos amigo para brincar em casa no meio da semana, eles não foram para a escola em emendas de feriado. Não senti nenhuma culpa ao explicar para eles que eles já tinham participado dos outros quatro passeios do ano e que não iriam neste. Eles entenderam.

Eu tinha até pensado em não levar para a escola no dia do passeio, mas apareceram algumas aulas particulares no dia e não tô podendo recusar trabalho. Como Isaac tinha fono no dia e iria chegar mais tarde na escola, meu marido levou a Ruth para um café da manhã na padaria (e ela ficou muito mais animada com um café da manhã só dela do que tinha se animado com os outros passeios). Quando eles chegaram na escola, todos já tinham saído e eu expliquei que poucas crianças estariam por lá. À tarde busquei antes de as crianças voltarem. Dois dias antes tínhamos voltado de um camping na beira da praia e eles sabiam onde tínhamos decidido gastar nosso dinheiro (aliás, três dias acampando foi mais barato que o tal passeio). Foi tudo super tranquilo e não sofri nenhuma retaliação por não ter deixado ir ao parque temático. O comportamento deles me mostrou mais uma vez que criança quer presença e família. A gente passa muito tempo juntos e fazemos muita coisa juntos, então o passeio caro da escola com fast food não fez falta nenhuma. Sim, tenho certeza que foi divertido e que as crianças adoraram. Mas não ter ido também foi ok.

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Bad decision

Quando Isaac começou a falar e a cantar, ele já tinha aprendido a “se ninar” sozinho. Eu o colocava na cama, dava beijinhos e carinhos, dizia boa noite e ele ficava no escurinho até dormir. Sempre foi muito tranquilo. As musiquinhas vieram e começaram a fazer parte deste ritual só dele: depois que eu saía do quarto, ele cantava para si próprio uma musiquinha fofa de criança e logo dormia. Era uma fofura só. Tanta fofura que às vezes eu até ficava do lado de fora do quarto ouvindo a musiquinha fofa dele.

Não ter feito alguma coisa para ele mudar este processo foi a pior decisão que tomei. Se tem algo que eu queria ter feito diferente é a musiquinha da noite. Gente do céu, que coisa.

Hoje Isaac é uma criança de quase cinco anos com uma voz que chega no térreo. Hoje nosso apartamento é menor e os quartos são colados um no outro, então Isaac canta e Ruth grita pra reclamar que não consegue dormir. As musiquinhas não são exatamente fofas: às vezes rola um “livre estoooooooooooooouuuuuuuuu”, às vezes rola uma funkeira insuportável sobre a qual já falei aqui, às vezes algumas composições próprias. E ele também não canta mais UMA musiquinha; ele canta umas DOZE.

Aí todos os dias eu tenho que conversar com ele sobre os motivos pelos quais ele não pode cantar para dormir. Explico, explico, explico. Saio do quarto e ele volta a cantar. Volto pro quarto, saio do quarto, volto lá, e assim seguimos na cantoria diária até ele capotar de sono. Já me ofereci várias vezes para ficar com ele fazendo carinho até ele dormir, mas ele não quer; me diz para eu sair e deixá-lo cantar. Ele já me prometeu cantar bem baixinho, mas ele se esquece de cantar baixinho em 30 segundos e logo o porteiro volta a ouvi-lo. Acho que passei um ano achando a musiquinha da noite fofa e estou há mais de dois tentando me livrar dela. Aí hoje ele me disse assim: “mas é que eu gosto de cantar no escuro sozinho e quando eu era pequeno você deixava”. Mano, que memória. Por quê, meldels, por quê?

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Meu luto pela não-gravidez

Quando decidi ter filhos com meu ex-marido e iniciar o processo de adoção, eu queria adotar duas crianças. Sempre quis ter dois filhos e sempre quis adotar, então queria colocar em nosso perfil duas crianças e já realizar todos os sonhos em uma tacada só. Como havia um possível desejo de talvez um dia termos um filho biológico, decidimos por uma criança ou gêmeos. Colocar “gêmeos” era minha esperança de ter dois filhos pela adoção. E eu fui presentada com gêmeos.

Eu tinha 31 anos quando meus filhos chegaram e achava que tinha até os 35 para pensar se queria tentar engravidar. 35 era a data mágica; eu não sei direito as estatísticas, mas sei que aumentam os riscos de várias coisas, então eu achava que, se quisesse muito, tinha que engravidar até os 35 anos. Muita coisa aconteceu: me separei, fui mãe solteira, encontrei um cara, começamos a namorar, casei de novo. E eu vou fazer 35 anos em exatos em seis meses.

Eu não quero um terceiro filho. Eu vivo todas as dores e as delícias da maternidade com o Isaac e a Ruth, sou louca pelos dois e não tenho vontade de ser mãe de novo. Estou repensando toda minha vida profissional, começando coisas novas, ganhando quase nada e uma gravidez e um bebê não se encaixam nos meus planos agora. Também não é um plano do casal (eu e meu marido) termos um filho. Ele também acha que vive a paternidade com Isaac e Ruth e que é muito feliz assim. Além disso, confesso, eu tenho muito medo de ser mãe solteira de novo.

Eu não sinto por não ter tido um recém-nascido ou por não ter amamentado. Minha maternidade é tão intensa e mexe tanto com minha vida que não ter vivido ao lado dos meus filhos do nascimento até 1 ano de idade não é uma questão. Mas tem algumas coisas que sinto não ter vivido: tentar engravidar (parar com a pílula e a camisinha e sair fazendo sexo adoidado sem proteção nenhuma), descobrir a gravidez, contar a gravidez para o futuro pai, viver a gravidez ao lado do futuro pai, acompanhar a barriga crescer, sentir o bebê se mexer. Isso tudo eu sinto muito por não ter vivido. Muitas vezes eu queria ter passado por isso.

Estou passando por um luto por não ter engravidado porque acho que eu deveria tentar agora, a seis meses dos 35 anos, mas eu não quero. Não quero, mas às vezes fico triste por não querer e não viver uma gravidez, e é muito confuso. Fiquei imaginando a dor que deve ser querer muito engravidar e não acontecer. Se você passou ou está passando por isto, só queria dizer que entendo a dor, mas que o luto vai ser apenas pela barriga. Ser mãe pela adoção é tão intenso, tão verdadeiro, tão igual, que duvido que alguma mãe vá lamentar não ter tido um filho biológico se o caminho for a adoção.

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Hoje meu filho tem consulta, chefe

Um dos maiores desafios nessa história toda de conciliar carreira e maternidade para mim foram as consultas médicas. Meus filhos são super saudáveis e não têm nenhum problema grave de saúde, mas acontecem muitas consultas. Tem a pediatra, a dentista e a oftalmo da Ruth que são semestrais, tem as terapias semanais que eles fazem, tem consultas eventuais com algum especialista diferente, aí estes profissionais todos pedem exames e avaliações. Tudo isso que estou falando deve ser feito em horário comercial, porque médicos trabalham em horário comercial. E criança também só funciona bem em horário comercial; não dá para marcar pediatra às 20h e achar que eles vão colaborar com o processo todo num super bom humor. Então eu tinha um emprego em horário comercial, consultas médicas acontecendo em horário comercial e muito samba para conciliar. Consulta cedinho, consulta no almoço, consulta no finalzinho da tarde, tudo para ser boa profissional.

Só para detalhar: não é só o horário da consulta em si. Levar uma criança a uma consulta médica envolve sair de onde você estiver (no escritório), buscar a criança onde ela estiver (na escola, no caso a 45 minutos do escritório), fazer o deslocamento até o médico (30, 45, 60 minutos), esperar (x?), ser atendido (30, 45, 60 minutos), fazer o deslocamento até onde a criança estava, voltar até onde eu estava. Somei aí umas quatro horas na brincadeira. Meio período. Metade das horas que eu deveria trabalhar. E, não. Não adianta achar que, só porque cheguei 12h no escritório porque levei alguém numa consulta, vou poder trabalhar 4 horas a mais no final do dia, porque no final do dia tem que buscar na escola, tem que ir para casa, tem que ser mãe de novo. Eles não iam me esperar na escola até às 22h só porque eu entrei mais tarde. Não existe isso.

Isaac passou meses com acompanhamento mensal de um tratamento que fez nos dentes. Para não perder horas no trabalho, montei um esquema assim: meu padrinho (santo padrinho que meus pais – ele espírita e ela budista – me deram quando resolveram me batizar na igreja católica sei lá por quê) ia para minha casa às 7h no dia da consulta (ou seja, ele saía da casa dele umas 6h20), íamos juntos até o consultório (50-60 minutos de deslocamento), Isaac era atendido às 8h, saímos de lá umas 9h, meu padrinho partia com ele para a escola e eu ia para o outro lado trabalhar. Chegava no escritório 9h15 e ninguém percebia nada. Lindo.

Num desses dias, eu já estava pronta para sair com Isaac e meu padrinho me avisou que não ia conseguir ir comigo, estava passando mal. Desmarcar a consulta em cima da hora com o menino já prontinho para ir também não me parecia legal com meu filho. Afinal, o tratamento era importante, era minha responsabilidade levá-lo no acompanhamento todos os meses. Então fomos. No caminho, liguei para minha mãe, mas ela também estava enrolada, o que é compreensível, já que ninguém está à disposição de mães solteiras numa segunda-feira às 7h da manhã. Se eu tivesse que levar Isaac de volta para a escola para ir trabalhar depois, eu ia chegar no escritório umas 11h. Minha mãe sugeriu, então, que eu fosse para o escritório com ele e ela poderia ir buscá-lo umas 10h e pouco. A ideia era linda: eu não ia passar 2h do meu dia me deslocando e poderia começar a trabalhar no horário que eu queria. Isaac ficaria uma horinha desenhando ao meu lado e iria embora com a vovó. Plano B acionado e combinado. Teria sido perfeito, outra ótima solução para conciliar carreira e as consultas médicas que a maternidade nos traz. Se meu filho não tivesse sido proibido de ir comigo ao escritório. Ponto. Não sei mais o que dizer. Ponto. F$#*&$#*, né?

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Meu amigo secreto homofóbico

– Mamãe, é verdade que homem só pode se casar com mulher?

Não, ele não tirou essa frase da cabeça dele. Se Isaac tivesse pensado sobre o assunto uns 30 segundos, ele teria concluído que homem pode se casar com homem, pois temos dois casais de amigos super próximos e super queridos – todos homens – que convivem bastante com meus filhos. Então alguém disse isso para ele, alguém deu essa frase pronta para ele.

Eu não sei quem você é, mas te desprezo. Desprezo sua homofobia e desprezo o fato de você ter espalhado sua homofobia para crianças. Sim, estou falando crianças no plural porque duvido que você tenha dito isto somente para meu filho. Temos tantas coisas boas para espalhar para as crianças, fulanx, tipo amor, respeito, carinho, tolerância, amizade, são tantas e tantas coisas que uma lista exaustiva seria imensa. Mas você usou o tempo em que esteve com meu filho para tentar colocar nele sua homofobia.

Amigx secretx, eu não sei quem você é porque não quero intimidar meu filho fazendo-o me dizer quem disse isso para ele. Então, se você estiver lendo este texto, saiba que não é uma indireta. Se eu soubesse quem você é, teria te ligado para te pedir para deixar seu preconceito longe do coração das crianças. Amigx secretx, te desprezo.

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Ensaio sobre o meu tempo

Eu não soube conciliar carreira e maternidade. Vou saber um dia, sei que vou, mas ainda não sei. Tenho muitos textos falando sobre essa dificuldade. Falam da dificuldade de ser mulher e mãe no ambiente corporativo, do quanto é duro equilibrar todas as demandas, da dificuldade de cumprir os horários, da cobrança por parecer não fazer nada direito.

Até que um dia eu cheguei no escritório e cantei:

Um belo dia resolvi mudar/ E fazer tudo o que eu queria fazer/ Me libertei daquela vida vulgar/ Que eu levava estando junto a você/ E em tudo que eu faço/ Existe um porquê/ Eu sei que eu nasci/ Eu sei que eu nasci pra saber/ E fui andando sem pensar em voltar/ E sem ligar pro que me aconteceu

Mentira. A bem verdade foi que eu cantei:

Não consegui conter, bem que eu tentei/ Não podem vir, não podem ver/ Sempre a boa menina deve ser/ Encobrir, não sentir/ Nunca saberão/ Mas agora vão/ Livre estou, livre estou/ Não posso mais segurar/ Livre estou, livre estou/ Eu saí pra não voltar/ Não me importa o que vão falar/ Tempestade vem/ O frio não vai mesmo me incomodar

Saí para um sabático. Conto mais sobre essa decisão em outro texto. Aqui vou contar sobre meu principal projeto no sabático: entender o meu tempo.

Que tempo?

Simplificando, “tempo” eram as horas do meu dia, da minha semana, da minha vida, que se embaralhavam, que sumiam, que nunca eram suficientes para nada. Meus dias úteis eram cronometrados. Chego até a cansar só de escrever.

  • Despertador tocava 5h40 (CINCO E QUARENTA, MANO). Aí começava o processo matinal com objetivo de não perder a perua escolar: eu fazia minha higiene, me vestia, acordava um, trocava, higiene, acordava outro, trocava, higiene, fazia café da manhã deles, fazia meu café da manhã (são diferentes, sim, porque eles iam pra escola e eu ia malhar), terminava de arrumá-los, terminava de me arrumar, pegava tudo (criançasmochilassacoladaacademiagarrafinhadeágua), punha tudo no elevador, colocava tudo na perua. Se alguma coisa diferente acontecesse – por exemplo, se algum deles quisesse fazer cocô – já dava tudo errado. Perder a perua significava andar 800 metros até a escola (difícil para eles) e perder a academia (difícil para mim). Essa confusão matinal jamais poderia ser chamada de café da manhã em família.
  • Eu gosto de academia. É um tempo só meu, faço musculação, corrida e spinning feliz da vida. Mas eu só tinha 40 minutos para malhar. Nunca dava tempo de fazer o treino todo, eu sempre fuzilava quem sentava no aparelho que eu queria usar.
  • Eu voltava correndo para casa e fazia tudo no esquema já-tô-atrasada-pra-sair: tomar banho, me trocar, dar uma arrumada na casa e comer alguma coisa.
  • Dali para frente, era a carreira. Deslocamento até o trabalho (45 minutos), reuniões, chefe, clientes, equipe, coisas pra entregar, lista de to-dos que não termina nunca, pedir almoço e comer na mesa, esquecer de escovar os dentes depois do almoço, esquecer de fazer xixi, esquecer de tomar água, tomar 5 cafés por dia, sair correndo no final do dia, mais 45 minutos para chegar em casa.
  • Chegava em casa no horário limite de a babá ir embora (sim, porque em determinado momento da minha vida eu percebi que nunca chegaria na escola no horário certo e contratei babá) e virava “mamãe”, com 100% do foco neles: era então hora de dar banho, brincar, dar comida, dar atenção, arrumar as coisas para escola e tal. Tudo bem rápido, claro, porque eu tinha chegado tarde e eles já estavam com muito sono.
  • Só depois que eles iam dormir que eu conseguia sentar no sofá e relaxar. Não relaxava antes de ter certeza que tinha sido uma mãe “presente e atenciosa”, nem relaxava antes de garantir que eles fossem pra cama em um horário adequado. E só depois disso tudo eu podia tomar um banho, fazer xixi, jantar, assistir House – isso se eu não tivesse trazido trabalho para casa. Ah, sim, muitas vezes eu trazia trabalho para casa. Pior: muitas vezes eu ainda tinha call para fazer com o chefe, então muitas vezes eu estava estressada com o horário do call enquanto cuidava das crianças. Eu pensava coisas do tipo “durmam logo que eu tenho um call começando em 15 minutos”.
  • Enfim, meu dia tinha começado às 5h40 e por volta das 21h (MAIS DE QUINZE HORAS DEPOIS) eu começava a tentar relaxar um pouquinho, se o trabalho não engolisse mais tempo. E, claro, o tempo do trabalho era cada vez maior e às vezes invadia meu tempo de malhar e diminuía meu tempo com as crianças. E nem gosto de dizer quanto tempo eu dedicava para meus filhos por dia. Era uma vergonha.

Enfim, eu passava o dia todo esperando a hora de meus filhos irem para cama para poder relaxar. E mais, mesmo que eu me esforçasse e fizesse questão de passar um tempo com eles todos os dias, eu jamais poderia chamar esse tempo de “tempo de qualidade”. Não era. Eu era uma pessoa cansada, estressada, meu celular tocava, mesmo que eu não atendesse o celular eu tinha raiva de quem me ligava aquele horário e muitas vezes o computador do trabalho estava na mochila esperando eu terminar mais uns slides. Sim, gente, é isso. What the fuck?

E quanto tempo afinal eu queria?

Quando tirei o sabático, eu tinha uma lista imensa de coisas para fazer, coisas para organizar, coisas para estudar, cursos para fazer, pessoas para encontrar, viagens, projetos, livros e coisa e tal. Mas a primeira coisa que fiz durante o sabático foi prestar atenção no meu tempo. Se fosse um projeto de pesquisa, eu estaria investigando as seguintes questões: quanto tempo quero ficar com meus filhos durante a semana? quanto tempo quero passar na academia? que horas quero acordar e ir dormir? quanto tempo tenho para trabalhar? quanto tempo preciso para relaxar (i.e., fazer nada, namorar, passear)?

Fui testando. Acordar mais tarde, dormir mais cedo, malhar em outros horários, mudar horários das crianças na escola, ficar sem babá, estudar de manhã, estudar à tarde, estudar de madrugada, bundar no meio do dia.

E hoje, seis meses depois, me descobri assim:

  • Eu gosto de acordar cedo. O despertador continua tocando às 5h40. Sou assim. Não sei se meus filhos gostam de acordar tão cedo, mas eles têm mãe louca, que posso fazer? Acontece que eu só tenho pique se entrar na academia cedão e malhar bem cedo. Gosto que meu dia comece cedo, então continuei tirando a galera toda da cama cedo mesmo depois de parar de trabalhar.
  • Quarenta minutos era pouco, mas uma hora de academia por dia tá bom pra mim. Uma vez por semana fico lá 1h30, porque tem aula de spinning e abdominal na sequencia e gosto das duas. Eu achava que iria malhar umas duas ou três horas por dia no sabático, mas, não. Vinte minutos a mais, tudo o que eu queria!
  • Meu dia começa às 8h30. Às 8h30 eu já estou sentada em casa para estudar ou já estou pronta para sair.
  • Gosto que meus filhos voltem da escola às 16h. Ainda é um horário integral, mas é bem menos puxado para eles, ainda é dia quando eles chegam. E eu já tive seis horas produtivas mais uma horinha para almoçar. Quando eles chegam da escola, a mamãe está em casa, não a babá. Ficamos juntos. Às vezes nem brincamos juntos: eles brincam sozinhos, mas se sentem bem porque a mãe está por perto em casa fazendo outras coisas. Fico com eles enquanto eles jantam. E o horário de ir para cama mudou de 20h30 para 19h ou 19h30. Depois que começaram a dormir mais cedo, todas as indisposições deles na escola melhoraram, porque estão mais descansados.
  • Gente, às 19h eles estão dormindo. E estão dormindo bem e tranquilos, porque sabem que a mamãe está em casa se precisarem de alguma coisa. Às 19h eles estão dormindo e eu tenho mais CINCO horas até meia-noite. CINCO. 5. CINCO HORAS. 1 + 1 + 1 + 1 + 1 = 5. C-I-N-C-O. E nem preciso fazer jantar, porque preparo o jantar deles e como a mesma coisa um pouco mais tarde. CINCO HORAS. Hoje estou escrevendo, ontem fiquei lendo, antes de ontem estudei um pouco, num outro dia fui ver um filme. Em um dia fiquei até uma da manhã no computador porque queria terminar um projeto até o dia seguinte. CINCO HORAS.

E aí eu aprendi que eu posso trabalhar oito horas por dia se quiser. Posso trabalhar mais de oito horas se precisar. Que o problema não são as oito horas diárias. O problema são as oito horas no tal do horário comercial das 9h às 18h, o problema são os deslocamentos, o problema é a falta de flexibilidade da coisa toda.

Tem diversos textos que dizem que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a acolher a maternidade, alguns meus e de outras mulheres (este, este e este). Minha descoberta mais importante durante o sabático é que não sou uma folgada tentando fazer corpo mole e tentando trabalhar pouco. Pelo contrário. Estou disponível para trabalhar. Mães estão disponíveis para trabalhar. Falta o mercado de trabalho entender que flexibilidade é vida. Que talvez resultado seja mais importante que facetime. Que oito horas angustiada dentro do escritório são bem menos produtivas que menos horas bem trabalhadas. Que está na hora de encontrarmos formas mais humanas de acolher as mães no mercado de trabalho.

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As delicadezas da minha menina

História 1: a moça na cadeira de rodas

A gente estava na sala de espera e tinha uma moça em uma cadeira de rodas. Ruth começou a me fazer perguntas do tipo: “ela não anda?” e “por que ela tem cadeira de rodas?”. Eu achei natural que ela ficasse curiosa, e achei que seria natural falar sobre isso também. Mas não queria ficar falando sobre a moça, porque a gente está aprendendo a não ficar falando dos outros. E eu também não sabia explicar por quê a moça estava na cadeira de rodas.

– Ruth, por que não vai lá conversar com ela?

– Porque eu não a conheço, não posso. – ah, sim, também estamos aprendendo a não falar com estranhos, porque meus filhos exageram na socialização por aí.

– Eu a conheço, ela é psicóloga aqui. Pode ir lá.

E lá foi ela. Fiquei pensando se ela ia chegar bombardeando a moça de perguntas, mas não falei nada, deixei ela ir. Que nada. Até fiquei emocionada com ela, que chegou, mostrou as fotos da nossa família que ela estava olhando comigo, disse o nome dela, falou sobre o irmão, falou sobre outras coisas e só depois começou a perguntar sobre a cadeira de rodas. Ela mesma sentiu que precisava se apresentar e ter um assunto para quebrar o gelo antes de invadir a moça com perguntas. E depois conversaram sobre a cadeira de rodas com a maior naturalidade do mundo e, quando ela voltou, não me contou nada, falou sobre outro assunto.

História 2: Isaac aos prantos

Ele escolheu um bichinho de pelúcia para dormir e sujou o bichinho minutos antes de ir para a cama. Ele chorava, chorava, chorava, e eu não conseguia falar com ele. Eu estava tentando explicar que não dava para lavar o bichinho a tempo de ir dormir e ele chorava e me pedia desculpas, achando que eu não ia devolver o bichinho como um castigo. Eu tentava explicar que não estava brava, que não tinha problema ter sujado, só que lavar um bichinho de pelúcia não era um processo rápido assim, e ele chorava mais ainda que queria o bichinho. Cada vez que eu tentava explicar alguma coisa, ele chorava mais e mais e mais. A gente estava num looping infinito. Aí aparece a Ruth, com um bichinho dela nos braços como se fosse o bebê. Entregou o bichinho para ele, deu um abraço, deu um beijo nele e saiu. Não disse uma palavra. E ele parou de chorar, deitou e dormiu. Fim.

Ruth, a vida é bem melhor com você. Ainda bem que tenho você.

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Dois tá bom

A moça se aproximou da mesa com a conta e a maquininha do cartão e paramos de falar. Como o silêncio ficou constrangedor, resolvi dividir o assunto com ela:

– Não consigo convencê-lo a ter o terceiro filho!

Aí eu vi duas pessoas com olhos arregalados. Ele, com uma expressão de “não acredito que você disse isso”. Ela, que perguntou:

– Você já tem DOIS?

– Já!

– Pára, meu! Concordo com ele!

Hahaha. Ok, gente, dois tá bom.

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A história da lata

Esta história não é um desabafo, porque já desabafei bastante. Também não é uma reclamação, porque reclamei bastante (por escrito, por telefone e pessoalmente). É apenas uma das histórias que me mostram como é importante sermos participativos na vida e na educação dos nossos filhos.

A escola pediu uma lata de leite condensado da marca X para cada aluno até o dia tal para uma atividade em sala de aula.

Eu fiquei brava.

Leite integral, açúcar e lactose. Primeiro, eu sou vegana, ou seja, não consumo derivados do leite. Meus filhos não são veganos (eu compro leite de vaca para eles), mas gostaria de ser respeitada, porque eles poderiam ser veganos também, uai. Segundo, eu não uso açúcar refinado em casa (aliás, nem o açúcar demerara orgânico que temos em casa saiu do armário nos últimos meses). Terceiro, eu tenho dois filhos, então duas latas de leite condensado até o dia tal seria bastante doce para uma família de quatro pessoas. Quarto, nós poderíamos ser alérgicos a lactose, ou poderíamos ter alguém na família em um regime, ou poderíamos preferir o leite condensado caseiro. Ou poderíamos já ter comprado outra marca, já que tinha uma marca específica para levar. Enfim, a primeira questão que levantei com a escola foi “que p é essa de leite condensado da marca X”? Erro número um: assumir que todo mundo consome ou deveria consumir leite condensado da marca X.

– Vou mandar lata de ervilhas, ok? – também não costumo comprar lata de ervilhas, mas preferia comprar ervilhas, usá-las em alguma receita e mandar a lata para a escola.

– Não serve, porque o tamanho não é o mesmo, e nós precisamos do tamanho XPTO da marca X para fazer a atividade.

Vamos ao segundo erro nessa porcaria toda. Se a atividade é com lixo, ela tem objetivo de ensinar para as crianças o reaproveitamento do lixo. A ideia, na minha humilde opinião, era mostrar que algo que iríamos jogar no lixo poderia ser reaproveitado em uma atividade ou em uma brincadeira. Então, eu esperava que meus filhos aprendessem isso. Eu esperava comer as ervilhas e mostrar que a lata não tinha ido para o lixo, mas, sim, para a mochila. Não esperava ter que comprar leite condensado, jogar o conteúdo na pia da cozinha e mandar a lata para a escola. Pra ser assim, era melhor entrar em uma loja e comprar um pote logo de uma vez. Oras.

– Nenhum outro pai ou mãe reclamou disso? Só eu?

– Só…

Realmente. Quando conversei com o grupo de mães da sala da Ruth e da sala do Isaac, ninguém estava com o mesmo problema que eu. Pelo contrário. Duas mães foram bem gentis e mandaram a lata de leite condensado da marca X para a Ruth e para o Isaac.

Eu até pensei em insistir em mandar latas de ervilhas. Por que não fiz isso? Porque Isaac e Ruth ainda não muito novos para carregar nas costas esse erro todo do processo. Eu não quis que eles fossem os únicos com latas diferentes dos amiguinhos e se sentissem mal com isso. Porque aí vem o erro três: se a escola tivesse pedido simplesmente “latas”, cada criança traria uma lata diferente e meus filhos não se sentiriam excluídos com suas latas de ervilhas. A justificativa da escola aqui é que tinha que haver um padrão. Tá bom, que pedissem latas de comida então, embora eu duvide muito que alguém fosse mandar uma lata de tinta de parede.

Parecia tudo resolvido, até o belo dia em que chegaram em casa com o produto da tal da atividade. Chutem, gente.

Vasinhos.

Vasinhos de flores. Para comemorar a chegada da primavera.

Erro quatro: em que momento alguém entendeu que vasinhos de flores precisam ser padronizados?

Vasinhos. De flores. Padronizados. Como se fosse ser bem esquisito cada criança ter um vasinho de flores de formato diferente.

varanda

(Esta é minha varanda bem esquisita, com tudo despadronizado)

Ah, pensam que parou por aí? Não. Claro que não. Não é que era tudo exatamente padronizado. O vasinho da Ruth era vermelho e o vasinho do Isaac era verde. Porque temos vasinhos de meninas e vasinhos de meninos. Porque depois de tudo isso somos sexistas e deixamos isso bem claro para as crianças. E lá se foi ao erro cinco.

vasinhos

Só para fechar (e prometo que paro): tá na cara que foi o Isaac e a Ruth que criaram isso aí, né? Tô bem vendo os dois nessa delicadeza toda fazendo essas flores. Liberdade de criação, pra quê?

Pronto, parei.

Já falei com a escola sobre esse assunto diversas vezes, já abri meu coração e reclamei sobre tudo o que eu podia ter reclamado. Já tô mais calma.

Sim, a escola cometeu muitos erros e perdeu uma grande oportunidade de discutir com as crianças o reaproveitamento do lixo e de incentivar a criatividade delas. Também perdeu a oportunidade de não ser sexista. Mas também acho que nós, pais, cometemos o erro de não pensar nessas questões, de não discutir as questões com a escola, de sermos passivos com o que a escola propõe para nossos filhos.

Eu não consegui mudar uma palha no processo todo, mas fico feliz por ter levantado a bunda da cadeira e ido até lá para falar diversas vezes. Falei bastante também sobre a questão da lanchonete fast food (lembram dessa história?), mas também não consegui mudar nada. Mesmo assim, tô aqui fazendo minha parte no que acho importante na educação dos meus pequenos, e realmente espero que a escola também pense melhor nessas questões.

Meu convite aqui não é apenas para as mães e pais dos amiguinhos do Isaac e da Ruth. É para todos. É um convite para que todos participem mais da vida escolar das crianças. As escolas são responsáveis por pensar, mas nós também temos o poder de mudar as coisas. Pelos nossos filhos, vamos?

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