Crianças que comem verdinhos

Eu coleciono uma série de cagadas na vida, nem vou listar.

Mas tem uma coisa que fiz certo: eu ensinei meus filhos a comerem bem. Aqui tem criança comendo todo tipo de fruta, verdura, legume e salada, recusando doce, tomando suco e chá sem açúcar, me deixando jogar fora bala e pirulito que ganham em festinha (sou dessas).

Mas hoje a Ruth me deu a prova viva de que me esforcei pra valer. Hoje estávamos comendo um macarrão com molho caseiro, tudo orgânico, uma fofura, e eu mandei uma afirmação modesta:

– Nossa ainda bem que a mamãe só faz comida saudável pra vocês e nunca fez um miojo, né?

Aí a Ruth me respondeu a melhor coisa que ela poderia ter respondido. Ela disse:

Mãe, o que é um miojo?

Muitas palmas para mim (e para o pai deles também) que mantivemos duas crianças longe de miojo durante seis anos de vida. Não é pra qualquer um. Tamo de parabéns. SEIS ANOS E ELES NÃO SABEM O QUE É UM MIOJO! (Isaac também não sabia, tentou responder alguma coisa, mas nem sabia que miojo era de comer)

É nóis!

O que é uma criança

Crianças são seres que te xingam quando você as acorda às 7h para ir para a escola, mas que te acordam às 6h sem nenhuma cerimônia no sábado e no domingo.

Ou tem as tipo Ruth, que reclamou outro dia que eu a acordei 6h30 para ir para a escola, dizendo que estava muito cansada. No dia seguinte, um sábado, eu disse que ela poderia dormir o quanto quisesse e ela acordou 6h35.

Ah, mano.

O lar e as mulheres

Fui casada com um cara que deve mandar ver em discursos feministas por aí, e morávamos com meus dois filhos. Vocês devem saber a quantidade de roupa suja que quatro pessoas geram e um dia eu disse que aquilo estava demais para eu fazer sozinha (colocar na máquina separado por cores, tirar da máquina, separar o que tinha que ser passado, dobrar o que não seria passado e guardar tudo no armário). Aí eu sugeri que eu continuaria a lavar tudo, mas que só iria separar, dobrar e guardar as minhas roupas e das crianças, e que deixaria as roupas deles já lavadas em um cesto para que ele fizesse o mesmo.

Tá.

Mas não teve uma única vez que ele fez isso. Em uma semana o cesto foi acumulando roupas limpas, e quando não tinha mais cueca e meia dobradinhas no armário, ele reclamou. “Nossa mas parece que moro sozinho chego em casa cansado e tarde do trabalho e ainda tenho que arrumar minhas roupas”. Coitado. Mas como eu não ia fazer, ele deu para outra mulher fazer: a diarista que vinha algumas horas na semana nos ajudar com outras coisas passou a separar, dobrar e guardar as roupas dele. E eu posso jurar de pés juntos e apostar um bom dinheiro que até hoje é uma mulher que cuida do serviço doméstico na casa dele. (e, calma, antes de me perguntar qual o problema em pedir isto para a diarista, mentaliza aquele relatório mala e desnecessário que seu chefe te mandou fazer e se coloca no lugar dela)

Por que tô falando isso? Porque vocês tão chocadas com o discurso do Temer, e eu tô chocada mesmo com minha própria vida. Affff.

Para o amor que chegou

Se eu tivesse feito um anúncio do tipo “procura-se namorado”, eu teria pedido alguém que gostasse de pedal e de forró. Pedal e forró são as coisas que mais gosto de fazer e nunca tive boas companhias para isso. Meus amigos do coração são ótimos, mas não gostam de pedalar no mato nem de dançar forró comigo. Eu queria alguém pra acordar cedinho no domingo, enfiar bicicletas num carro e se sujar de barro comigo, pra depois voltar pra casa me aguentando com calor e com fome. E eu queria alguém que me tirasse para dançar na sala de casa mesmo, desviando do cachorro, me ensinando passos e me dando beijinhos entre os rodopios.

Mas eu não anunciei porque eu não estava fazendo uma busca ativa. Eu não usava aplicativos de dates porque eu queria acreditar que o lugar de conhecer pessoas era na vida real. Eu estava esperando conhecer alguém espontaneamente no bar, na fila do cinema, nos eventos dos amigos ou na sala de aula da faculdade. Eu queria algo old school, retrô mesmo, queria esse negócio de conhecer alguém pessoalmente e olhar nos olhos antes de mandar uma mensagem para ele. Eu queria escolher alguém pelo jeito de falar, de andar, pelo cheiro, não por fotos. E eu queria ser escolhida assim também. Eu não queria homem hétero analisando fotos minhas em aplicativo para decidir se sou gostosa o suficiente para querer sair comigo, porque, né, não sou obrigada.

Eu também não anunciei porque não estava buscando um namorado. Eu estava vivendo a fase mais feliz da minha vida inteira e não me faltava nada, e eu teria continuado a viver muito feliz sem namorado. Mas aparecer alguém com vontade de namorar sempre é legal. Quando aparece alguém que se interessa, que gosta, que trata bem, que quer ficar junto, mano do céu, é bom demais.

É bom demais quando você conhece alguém que não faz joguinho. Preguiça daquela competição pra ver quem consegue ficar mais tempo sem mandar mensagem. Sabe o que é legal mesmo? Dar “bom dia” e “boa noite”, perguntar como foi o dia, contar do próprio dia, responder as mensagens, iniciar as conversas, não sumir. É educado, é gentil, é fofo, e ninguém precisa tentar ser mais gostoso ou mais ocupado e ficar dando gelo no outro. Legal mesmo é querer se encontrar muitas vezes na semana, ficar tentando conciliar as agendas, mesmo que isso seja às 23h30 na quarta-feira.

Mas eu queria ficar junto de alguém que me desse espaço. Principalmente espaço para ser mãe solo, para cuidar dos meus pequenos, para me envolver 100% com eles no tempo em que estou com eles e não ter que pensar em mais nada. Queria alguém que entendesse que não quero apresentar outro namorado para meus filhos tão cedo e que isso significa que não tenho todos os finais de semana para namorar. E que, mesmo quando não estou com meus filhos, quero ver meus amigos, minha família e ficar sozinha em casa. E, para ser lindo, queria alguém que fosse fazer outras coisas legais por aí quando não nos encontramos. Porque eu não queria mais ciúmes, nem um pouco de ciúmes. Eu quero ser livre, quero alguém livre, e quero respeito, cuidado e carinho. Queria alguém que me deixasse segura e que se sentisse seguro comigo, sem controle, sem cobranças, sem acusações.

Eu tinha uma preguicinha do momento de contar tudo o que eu vivi para pessoas, confesso. Foi muita coisa nessa minha vida. Eu sempre conto que sou mãe, mas tenho preguiça de contar sobre dois casamentos e um câncer, entre outras coisas. Não devia, mas no fundo eu tinha medinho que isso afastasse as pessoas de mim. E foi incrível que alguém que já existia na minha vida há muito tempo e que acompanhou muitas dessas coisas tenha se aproximado cada vez mais, e não se afastado.

Eu queria uma química incrível e muito sexo nesta vida, sempre quis, todo mundo quer, não dá pra abrir mão disso. Mas fica ainda melhor quando é com alguém que te diz que a coisa que mais gosta é seu sorriso e que vai sempre te fazer sorrir mais. Fica mais legal ainda quando você encontra alguém que sempre te lembra que você não é só sexo e que vai estar ali no dia seguinte pra te ajudar a consertar o aspirador e o videogame das crianças. Melhor ainda quando a pessoa com quem você transa é a mesma pessoa que te faz cafuné quando você chora porque se emocionou com algo.

Pois bem, eu não posso me gabar de um super sucesso profissional nessa vida, porque isso eu não tive e nem sei se vou ter ainda, mas eu posso dizer que minhas escolhas profissionais guiaram toda a minha vida amorosa. Conheci meu melhor amigo no primeiro estágio, meu primeiro marido no primeiro emprego, meu segundo marido em uma mudança de carreira importante que fiz. Aí eu larguei tudo, pedi demissão, tirei um sabático, voltei para a universidade para fazer doutorado e encontrei alguém que veio me trazer amor, companheirismo e prazer (e bikes sujas de lama e muito xote). Encontrei alguém que se encaixa perfeitamente em tudo que estou vivendo, que melhora minha vida, mas não tenta mudar nada do que eu vivo, nem tenta mudar nada em mim, e que me respeita o tempo todo, que me trata com carinho e que cuida de mim. Que desde que chegou está sempre por perto e agora não quero mais que vá embora.

Não vá embora. Fica mais. Tô gostando muito. ❤

 

Oi, segurança do camping

– Esse carro é de vocês?

– É.

– E onde está seu esposo?

– Pra quê?

– Pra tirar o carro daqui, não pode estacionar aqui.

– Ah, eu não tenho esse produto.

– O carro?

– Não, o esposo.

– Mas o carro é seu?

– O carro é.

– E a senhora pode tirar daqui porque não pode parar aqui?

– Não.

– Por que não?

– Porque o senhor me disse que preciso de um esposo pra fazer isso pra mim.

🤔

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Conto do meu amor pela Europa

Eu não fiz intercâmbio durante o colégio ou faculdade, não fiz pós-graduação fora, fiz apenas cursos de inglês e francês durante poucos meses na Europa e um projeto de consultoria na África do Sul.

Mas eu tinha essa vontade imensa de morar fora, lá na Europa. Meu passaporte italiano sempre falou mais alto que o brasileiro e eu passei anos pensando em planos para morar na Europa, com meu primeiro marido, com meus filhos, depois com o segundo marido, e nada deu certo.

Eu queria viver em uma cidade com predinhos baixos e varandas fofas, andar de bicicleta sem medo de ser atropelada, falar outra língua, ter um inverno de verdade com neve, não ter tanto medo de violência, essas coisas que nunca experimentei.

Mas aí me vi doente e agradeci com todas as forças o fato de morar na mesma cidade que minha família, que meus amigos e que o pai dos meus filhos. Eu usei e abusei de toda essa rede e não teria sobrevivido sozinha. E criei raízes. Aos 35 anos, depois de 35 anos querendo fugir de São Paulo, criei raízes e decidi que o melhor para nossa vida é viver pertinho do pai, da família e dos amigos.

Mas eu fui lá pra Europa passear, porque é lá também que gosto de passear, e me apaixonei.

Por um europeu.

Que vive na Europa.

Amo muito a vida e todas as suas ironias.

Foi amor à primeira vista, quando eu o vi, eu já sabia que eu ia querer largar tudo e correr pra ele.

Rasguei as raízes, quis comprar outra passagem assim que voltei pra São Paulo e seguir pra lá de volta porque eu tinha que viver um amor europeu.

Mas não.

Porque tenho meus pequenos.

Porque eu só tenho R$ 3,80 pro busão e não posso gastar R$ 3.800 em passagens.

Porque nosso plano continua a ser viver em São Paulo, perto do pai, da família e dos amigos, até que eles sejam adolescentes e possam decidir junto comigo se também querem aproveitar o passaporte italiano que herdaram de mim.

Vou viver em São Paulo com vocês, meus pequenos, mas meu coração agora vive um pouquinho mais praqueles lados. ❤

A gente fala sobre esses planos de viver lá daqui a 10 anos, combinado?

Escrito no comecinho de janeiro de 2017, publicado hoje porque
encontrei nos arquivos antigos e achei fofinho.

A confiança que depositam na gente

Meu melhor amigo compartilha comigo uma imensa falta de habilidade para conduzir a vida. Quando digo vida, digo num sentido bem amplo: a vida amorosa, a vida financeira, a vida profissional, a vida doméstica, tudo é difícil de conduzir direito. E aí a gente estava papeando sobre isso, e no meio da conversa eu mencionei o aniversário de 97 anos da minha avó na semana que vem, e ele disse assim:

– Pqp, Ruri, a velhinha tá aqui fazendo hora extra e não consegue morrer em paz porque você não resolve sua vida nunca.

Pois é. E olha que obatian tá preocupada com minha vida amorosa, mas a vida amorosa tá ótima perto da minha conta bancária. Ainda bem que ela não sabe.

Aí tem a minha mãe, filha desta minha vó. Minha mãe também fica de cabelo em pé com a minha vida, mas a preocupação dela não é a falta de marido. Pelo contrário, na cabeça dela rola um “ainda bem que essa doida tem dois filhos que impedem um outro casamento rápido porque eu tenho certeza que ela vai fazer caca de novo”. Para minha mãe, falta um emprego fixo, uma previdência privada, um imóvel, uma estabilidade financeira, uns bens, umas rendas para garantir o sustento das crianças, um monte de coisa que não tenho.

Aí a gente almoçou, eu estava ouvindo um sermão sobre como conduzir melhor esta vida de deus-me-livre e eu contei a história acima para ela, sobre a obatian estar fazendo hora extra por minha causa. E minha mãe me respondeu o seguinte:

– Eu não. Eu faço questão de morrer na hora em que eu tiver que morrer. O que eu não quero é viver muito e ficar assistindo o desenrolar da sua vida, EU NÃO MEREÇO.

Nada como o amor de nossos pais pra gente seguir firme e forte na vida. Também te amo, mãe. ❤

 

 

Fast forward

– Bom dia, mamãe! Quando você vai chamar alguém (jurei que ela ia dizer “arquiteto”) pra transformar meu quarto em um quarto de adolescente (“adolescente” ela falou)?

– Affff, Ruth, acordou com fast forward? Põe seu uniforme e vai pra escola aprender a ler que depois a gente conversa.

Édipo

Out of the blue:

– Mamãe, eu não quero que você tenha outro namorado nunca mais.

Affffff, cada uma, Isaac.

– Ah, é?

– É. Mas você podia ter uma namorada. Assim a gente teria duas mães e aí você poderia ser só minha mãe e a gente deixava a outra mãe pra Ruth.

A coisa que mais gosto nos cinco anos são as ideias de jerico que eles têm, cada vez mais bem elaboradas. 🙂

– Ótima ideia, Isaac, PENA que não é você que decide isso.

Negociação tem que ser ganha-ganha

Uma amiga me chamou para um café e eu estava com as crianças, então fomos em um lugar com brinquedoteca. O plano era a gente tomar café e conversar e eles brincarem, um plano lindo.

Funcionou bem um tempo. Aí a Ruth aparece na mesa:

– Mamãe, o Isaac está jogando um videogame e não deixa eu jogar e só tem um controle e eu quero jogar.

Afffff como é difícil ter dois. Respirei fundo e expliquei:

– Ruth, sabe o que acontece? Você me colocou em uma situação onde eu só me ferro. Não tem como eu sair ganhando, eu vou me ferrar. Ou eu te digo que você não vai jogar videogame e você vai ficar aqui chorando na minha orelha ou eu vou até lá e peço pro Isaac te deixar jogar e ele vai vir aqui ficar chorando na minha orelha. Não tem como isso que você está pedindo ser bom pra mim, entende? Me ajuda?

Ela passou bem uns cinco minutos quieta olhando pra minha cara.

Depois virou as costas e foi brincar com bexigas. Nada como ser sincera com as crianças e resolver todos os problemas!

Mentira. Passou uns 10 minutos, ela voltou com a mesma história e aí ferrou todo meu café. 😀