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O medo e a curiosidade

Eu tinha medo de engravidar durante o colégio, porque eu tinha que estudar muito e entrar na USP.

Eu tive medo de engravidar nos primeiros anos de faculdade, porque eu dependia das minhas notas para escolher a engenharia que queria fazer e não podia perder aula por causa do parto.

Aí eu tive medo de engravidar nos demais anos de faculdade, porque eu precisava me formar.

E tive medo de engravidar logo depois de me formar, porque tinha que terminar o programa de trainee, terminar o mestrado, pagar o financiamento do carro.

A partir daí, tive medo de engravidar e estacionar minha carreira, porque eu tinha que ser promovida várias vezes.

Casei e tive medo de engravidar logo e não aproveitar a vida de casada sem filhos.

Aí quis adotar e tive medo de engravidar durante a habilitação para adoção, porque achava que não iriam me aprovar com um bebê na barriga.

Aí adotei gêmeos e tive medo de engravidar, porque… é óbvio, né?

Só que acho que o relógio biológico me pregou uma peça e comecei a ter curiosidade. Tenho vontade de engravidar para saber como é esse negócio de gravidez: o filho crescendo na barriga, o corpo mudando, o amor por um ser que nunca foi visto.

Mas só tenho curiosidade para saber como é estar grávida. Não tenho curiosidade para saber como é ter o terceiro filho. Nenhuma, para ser bem sincera. Racionalmente, nasci para ser mãe de dois.

Então eu fico pensando como seria legal engravidar sem querer. Porque aí não tem jeito, o bebê veio sem querer e tem que encarar. Aí mato a curiosidade e depois crio três.

Mas com tanto medo de engravidar, eu nunca vou ficar sem pílula e sem camisinha. Porque vai que engravido, que medo. E não acho que alguém que usa dois métodos anticoncepcionais vá engravidar sem querer. Pelo menos, espero que não, que medo de engravidar, credo!

Para resumir, vou passar por esta vida sem saber qualequié.

Mas fico feliz que não tive essa curiosidade antes de adotar. Porque acho que não teria encarado gêmeos na adoção se já tivesse uma criança em casa. E aí não teria sido escolhida pelo Isaac e pela Ruth, e nem consigo pensar em passar por esta vida sem os dois. Nenhuma outra criança seria tão legal quanto eles.

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Relato da melhor viagem de todos os tempos

Eu achava que hotéis-fazenda e resorts eram o maior mico paulistano para férias e que jamais entraria em um desses, mas paguei a língua. Em julho do ano passado, quando as crianças tinham 3 anos, não consegui pensar em nada mais divertido e que não fosse me deixar muito estressada. Fomos para um hotel-fazenda em Socorro – SP porque achei que era fácil.

Foi uma delícia, porque tinha muita coisa para eles fazerem mesmo com a pouca idade: passeios a cavalo (acompanhados por tios que iam a pé ao lado deles), passeios de charrete, passeios de triciclo (com a mamãe pedalando), passeios de trator, bichinhos para alimentar com ração, mini-tiroleza, pedalinho, parquinho. Só a piscina ficou de fora, porque fomos no inverno. Eles não podiam ficar com os recreadores porque era muito novinhos, então passamos os dias juntos. Gostei. Foi legal.

No Réveillon, eu queria tudo fácil de novo, então escolhi um ecoresort em Mairiporã, a uma hora de São Paulo. Neste hotel, a recreação recebia crianças a partir de três anos. Das 10h às 18h eles tinham atividades junto com os tios: brincadeiras, piscina, pedalinho, oficinas, filminho. Às 18h eles devolviam as crianças e pegavam de volta às 19h30 para jantar e para mais uma atividade noturna. Durante os cinco dias, me esbaldei. Tirei férias. Joguei tênis, andei de bike pela estrada de terra em volta do hotel, fiz stand-up paddle na represa, corri, li, dormi na rede. Depois das 18h ficávamos juntos para jantar e nanar, porque achei que recreação até 22h para crianças de três anos era muita coisa e eles precisavam descansar. Fizemos algumas atividades juntos, mas eles gostavam mesmo era de ficar com as outras crianças e com os tios. Quando chegou o Carnaval, tive preguiça de novo de pensar e fomos para o mesmo hotel. Mesmo esquema, mesmos recreadores, eles adoraram de novo. Mas eu fiquei beeeeeem entediada. Esse esquema piscina de hotel, restaurante de hotel e atividades do hotel realmente não é para mim. Além do mais, eu tirava uns dias com meus filhos e quase não via meus filhos.

No último feriado, eu quis fazer alguma coisa que fosse realmente especial com eles. Resolvi parar de ter preguiça e levei os dois para acampar, que é uma das formas que mais gosto de viajar. Preparamos tudo antes: eles ganharam uma barraca, saco de dormir, tênis de caminhada, mochila, capa de chuva. Pesquisei bastante o lugar e acertei na mosca. Queria um parque nacional, com muito mato e trilhas, mas também um camping com alguma estrutura para o caso de algum pânico. Fomos para São José do Barreiro, na região da Serra da Bocaina, e acampamos num lugar fofo demais no meio das montanhas.

Montamos as duas barracas, uma para crianças e uma para adultos, embaixo de uma árvore e nossa mesinha ficou ao lado delas – nela fazíamos as refeições e as crianças a usavam para brincar também. Muita gente me perguntou se não tive medo de deixar os dois sozinhos em uma barraca. Gente, não. Minha barraca estava a 30 centímetros da barraca deles, eu conseguia ouvir eles se mexendo lá dentro. Para sair da barraca, eles precisariam abrir três zíperes e eu com certeza iria ouvir. Até porque eles dificilmente iriam ter a ideia de sair da barraca no meio da madrugada sem antes conversar um com o outro, dar risadinhas e planejar a fuga – e eu iria acordar com essa movimentação. E, por fim, se em casa, onde temos luz elétrica e eles conhecem bem o lugar, dificilmente eles saem do quarto no meio da noite, não tinha porque achar que eles iriam andar no barro e no breu no camping. Nem cogitaram. Na primeira noite, ficaram eufóricos com a novidade e demoraram para dormir; nos outros dias, mal eu fechava o zíper já ouvia os suspiros de sono e eles não falavam uma palavra um com o outro, tamanho era o cansaço dos dias cheios de novidades.

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Os mocinhos dormiram em sacos de dormir sobre os isolantes – sem travesseiros, edredons ou bichos de pelúcia – e tomaram banho em banheiros coletivos. Toda água que usamos para cozinhar e para beber vinha de uma bica de água mineral que havia no camping, e eles eram responsáveis por encher as próprias garrafas (obviamente, viviam molhando a roupa também). Levei comida para os quatro dias e fizemos todas as refeições (café da manhã, almoço e jantar) ao lado das barracas – o camping tinha um restaurante, que seria o back up para emergências, mas não comemos lá nenhuma vez.

No primeiro dia, fizemos uma trilha de cerca de 1,5k até uma cachoeira, a partir do camping. Preciso dizer que nossa vida sem carro os ajudou muito, porque estão acostumados a andar bastante e aguentaram bem as subidas. Eles quiseram entrar na água congelante da cachoeira e amaram.

Trilha

Cachoeira da Usina

No dia seguinte, fomos até o parque nacional, que fica a uns 30k do camping. O carro ficou na portaria e andamos 1,5k até a primeira cachoeira. Foi muita fofura numa manhã só. Cada um deles tinha sua mochila com sua garrafinha de água e caminhamos sem pressa nenhuma, conversando sobre os cogumelos, sobre as árvores, sobre o céu azul lindo demais, sobre os brotinhos de plantas, sobre os passarinhos. A volta foi um pouco puxada porque já estava na hora do almoço, e a Ruth sofreu um pouco com o cansaço. Tínhamos levado o fogareiro e almoçamos macarrão sentados na grama. Depois eles colheram pinhões, que cozinhamos no camping para o lanche da tarde.

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Parque nacional da Serra da Bocaina

No terceiro dia, fizemos a mesma trilha que saía do camping, mas passamos a cachoeira e fomos até o alto da montanha. Aí eu morri de orgulho dos meus aventureiros, que encararam subidas que muito adulto não encara, não. Na volta, paramos para um merecido banho de água fria para refrescar.

Subida

Trilha

Nesse mesmo dia, subimos de volta até o parque nacional para ver o pôr-do-sol. E, no dia seguinte, acordamos cedo para ver o sol nascer atrás das montanhas e desmontamos tudo para voltar para casa.

Por do sol

Por do sol

Foi a viagem mais incrível que fiz nos últimos tempos. Ficamos muito juntos e eu fiz com eles algo que realmente gosto de fazer. Os dois foram companheiros, aventureiros, curiosos e curtiram demais. Na segunda, quando fui buscar na escola, a diretora veio me dizer que nunca tinha visto os dois tão felizes, que tinham falado da viagem o dia inteirinho, e eu fiquei mais feliz ainda.

Só para fechar: a conta do camping saiu R$ 290 para quatro pessoas e quatro dias, já inclusas todas as cervejas que comprei no bar. Cada um dos hotéis que ficamos antes custaram alguns milhares de reais. Com budget menor, multipliquei por 10 meus planos de viagens com eles esse ano agora que sei que gostaram tanto de dormir no meio do mato!

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Toma essa bronca

Isaac contando uma história:

– Tio, hoje eu estava no ônibus com a mamãe e conhecemos um moço que não enxerga. Aí ele segurou no braço da mamãe e ajudamos ele a chegar no metrô. A gente ajudou o moço porque ele teve um dodói no olho e não consegue mais enxergar.

– Que legal, Isaac! – naquela empolgação.

– Claro que não é legal. Como legal? Não pode achar legal que o moço ficou dodói e não enxerga mais. Que feio!

Hahahaha. Isaac, maior amor dessa vida.

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Isso me mata

Criança gosta de Galinha Pintadinha, de Frozen, da Peppa. Já teve a época dos Backyardigans e Charlie e Lola. Tem o Ben 10, as Princesas da Disney e várias animações que fazem sucesso. E existem vários outros programas infantis que não conheço – porque sou uma pessoa alienada que não tem TV paga nem aberta em casa – e que fazem a alegria das crianças.

Ao mesmo tempo, eu nunca ouvi uma criança dizendo que adora Breaking Bad, ou Law and Order Special Victims Unit, ou Game of Thrones, ou que nunca perde um capítulo de Verdades Secretas. Nunca conheci uma criança que tenha assistido Ninfomaníaca ou Cinquenta Tons de Cinza. O que me leva a afirmar uma coisa: os adultos têm noção do que são programas televisivos para adultos e o que são programas televisivos para crianças.

Esta afirmação me leva a uma grande indignação com a humanidade: por que, adultos do meu coração, vocês não aplicam o mesmo filtro para músicas? Por que? Não quero discutir gosto musical, de forma alguma, please, ouçam o que quiserem. Mas não achem normal ouvir criança cantando “prepara, que agora é a hora do show das poderosas que descem e rebolam”. Ou “delícia, delícia, assim você me mata, ai, se eu te pego”. Ou, ainda, “por que hoje eu quero te pegar gostoso”. E por aí vai.

Não acho que seja necessário gastar muitas palavras explicando por que as letras dessas músicas (e de algumas outras tantas que seguem a mesma “linha”) não são – nem um pouco – adequadas para crianças. Nem vou perder tempo. Se ainda o mundo estivesse desprovido de música boa, né? E olha que tem muita música “de adulto” que é ótima para criança. Mas muita mesmo. Tem até o hino do Palmeiras em último caso. Então, gente, por misericórdia, vamos filtrar os que as crianças ouvem. Vocês não podem estar falando sério que acham isso normal.

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Pedro Henrique

Pedro Henrique e seus pais estavam em uma mesa ao lado da que eu estava no quiosque. Fiquei ao lado da família de Pedro Henrique por uns 40 minutos. Ele tinha uns dois anos.

Seu pai estava tomando um refrigerante e comendo um salgadinho de pacote. Durante o tempo em que estivemos lado-a-lado, ouvi o pai e a mãe de Pedro Henrique oferecerem diversos quitutes.

– Quer um gole de refrigerante, Pedro Henrique?

– Pega um pouco do meu salgadinho, Pedro Henrique. Ou você prefere a batatinha redondinha?

– Quer pipoca doce, Pedro Henrique? Vamos lá procurar o pipoqueiro?

– Quer um picolé, Pedro Henrique, ou um sorvete com cobertura de chocolate?

– Quer ir comprar pão de queijo, Pedro Henrique?

– Quer ir na padaria escolher um pão docinho, Pedro Henrique?

O pai e a mãe do Pedro Henrique insistiram bastante, mas Pedro Henrique não aceitou nada. Não estava com fome, suponho. Ou já tinha comido muitos outros quitutes antes de eu chegar. Eu não entendo como um pai ou uma mãe ficam insistindo tanto para que uma criança coma alguma porcaria. “Ah, é que hoje ele não almoçou bem.” – ótimo, leve-o para casa e faça um jantar. “Ah, mas é só de vez em quando” – não, não é. Pelo sotaque, acho que Pedro Henrique e sua família moram na cidade. Por acreditar que moram na cidade, acredito também que Pedro Henrique freqüente bastante a praia com seus pais. Ou seja, com freqüência Pedro Henrique deve brincar na areia enquanto seus pais tentam fazer com que ele coma alguma gordura trans, algum açúcar, algum glutamato monossódico ou algum conservante mucholoco.

Pedro Henrique pode ter uma história parecida com esse moço do vídeo. Esse aí pode ser o futuro de Pedro Henrique.

Boa sorte, Pedro Henrique.

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De onde saem os bebês (continuação)

Numa conversa com a professora do meu filho:

– Isaac me contou que você explicou para ele como os bebês nascem.

Calma. Pera lá. Em minha defesa, eu não expliquei, eu apenas segui o que me ensinaram lá atrás: “responda apenas o que a criança perguntar” e “nunca minta”. Deu nesse diálogo aqui.

Acontece que, linguarudo que só ele, Isaac explicou como os bebês nascem para todo mundo. Acontece também que tem uma outra professora na escola que está grávida, e que ouve dele todos os dias:

– Calma, tia, que já já esse bebê sai daí pela sua periquita.

Orgulho desse pequeno defensor do parto humanizado. 

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Suicídio

Eles estavam no parquinho e eu estava olhando de longe, sempre conferindo se os dois não tinham fugido de lá. Uma hora olhei rápido e vi meu filho carregando alguma coisa estranha e grande, mas não consegui entender o que era. Pedi pro moço ir até lá dar uma conferida, fiquei com preguiça de andar.

Dali a pouco volta uma criança gritando:

– Mamãe, eu não pulei, não pulei, não briga, não pulei. Juro que não pulei.

Vai vendo.

Isaac pegou um cesto de lixo enorme, algo como 1,5 vezes a altura dele, e colocou cuidadosamente ao lado do trepa-trepa. Subiu até o alto e de lá estava olhando pra baixo, ensaiando um pulo para dentro do cesto.

Isaac, você tem sorte por eu não ter visto a cena, porque só assim consigo rir dela. Se eu tivesse visto você em cima de um trepa-trepa se preparando para pular dentro de um cesto de lixo, eu teria te deixado de castigo dentro do cesto. Com a tampa fechada.

Peste. Onde fui ter filho tão encapetado, senhor?

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Formigas

Isaac de chinelo na grama.

– Isaac, isso aqui é um formigueiro. Não pode pisar. As formigas picam. Ok?

Maieujuro que não deu 5 segundos.

– Manhêêêêêê!!! Buááááááá!!!!! Meu pééééééé!!!

– Mano, eu não falei que não podia pisar? Por que você pisou?

– Porque você falou para não pisar.

Pelo menos foi sincero.

Duas descobertas no episódio. Isaac aprendeu – ou pelo menos espero que tenha aprendido – que mãe não é *apenas* chata por prazer. Eu aprendi que ele não é alérgico a formigas, ufa.

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Nightmare

Você arruma um namorado e está dormindo com ele. No meio da madrugada, você começa a esmurrar e socar o moço com todas as suas forças, tentando acertar o nariz dele. Ele segura suas mãos, acende a luz e fica muito bravo. Por pouco ele não sai correndo no meio da madrugada. Fim.

Em meus sonhos, eu estava num happy hour com os culegas da firma que já durava umas cinco horas. Tava abrindo a nona garrafa de vinho e dando gargalhadas. Não tinha hora pra voltar pra casa, porque meus filhos estavam com o dito-cujo, que tinha buscado na escola, dado banho, comida e colocado para dormir. Quando olho pra porta do bar, vejo o moço sorridente chegando pra me dar um abraço. “Cadê as crianças?” – eu pergunto. “Estão nanando. Eu chequei, estavam num sono pesado, não vão acordar, então vim aqui te encontrar”. Nessa hora eu voei no pescoço dele e a história termina conforme o parágrafo acima.

Fatos:

1) Se já me diziam que seria difícil arrumar namorado sendo mãe solteira de gêmeos, imagina sendo sonâmbula desse jeito.

2) Mãe é mãe até sonhando. Ruth e Isaac, fiquem tranqüilos que mamãe defende vocês até dormindo.

3) No fundo, como se vê pelo sonho, uma mãe solteira não quer namorar para ter companhia no sábado à noite. A gente quer namorar pra poder ir pra balada sozinha sem precisar pagar babá folguista. Fica a dica, amor.

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Primeiras letras

– Letra C, letra U, I de Isaac, letra D, letra A, letra D, letra OVO. Letra D, E de elefante, letra do pai do Samuel, R de Ruth, letra A, U do nome da Ruth.

A gente estava sacolejando no busão e ele olhando fixamente para cima. E, assim, do nada, leu a frase que estava escrita no teto do ônibus: “CUIDADO DEGRAU”.

Meus comentários sobre o acontecimento:

1) Achei fofo demais.

2) Às vezes sinto que é cedo começar a aprender letras e números com quatro anos, mas ainda não sei qual é minha opinião sobre alfabetização precoce.

3) Como eu ouço em toda reunião da escola há dois anos que meu filho é agitado demais, desconcentrado demais e que provavelmente não vai conseguir acompanhar o processo de alfabetização com os amigos, eu só queria dizer “iééééééééééééé”.

Você é incrível, Isaac.

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