Arquivo do autor:Ruri

Édipo

Out of the blue:

– Mamãe, eu não quero que você tenha outro namorado nunca mais.

Affffff, cada uma, Isaac.

– Ah, é?

– É. Mas você podia ter uma namorada. Assim a gente teria duas mães e aí você poderia ser só minha mãe e a gente deixava a outra mãe pra Ruth.

A coisa que mais gosto nos cinco anos são as ideias de jerico que eles têm, cada vez mais bem elaboradas. 🙂

– Ótima ideia, Isaac, PENA que não é você que decide isso.

Negociação tem que ser ganha-ganha

Uma amiga me chamou para um café e eu estava com as crianças, então fomos em um lugar com brinquedoteca. O plano era a gente tomar café e conversar e eles brincarem, um plano lindo.

Funcionou bem um tempo. Aí a Ruth aparece na mesa:

– Mamãe, o Isaac está jogando um videogame e não deixa eu jogar e só tem um controle e eu quero jogar.

Afffff como é difícil ter dois. Respirei fundo e expliquei:

– Ruth, sabe o que acontece? Você me colocou em uma situação onde eu só me ferro. Não tem como eu sair ganhando, eu vou me ferrar. Ou eu te digo que você não vai jogar videogame e você vai ficar aqui chorando na minha orelha ou eu vou até lá e peço pro Isaac te deixar jogar e ele vai vir aqui ficar chorando na minha orelha. Não tem como isso que você está pedindo ser bom pra mim, entende? Me ajuda?

Ela passou bem uns cinco minutos quieta olhando pra minha cara.

Depois virou as costas e foi brincar com bexigas. Nada como ser sincera com as crianças e resolver todos os problemas!

Mentira. Passou uns 10 minutos, ela voltou com a mesma história e aí ferrou todo meu café. 😀

 

 

Conflito de gerações

Eu tava acompanhando a conversa da minha filha de 5 anos com minha avó que faz 97 mês que vem.

– Obatian, posso te ajudar a cozinhar?

– Não, você vai me atrapalhar, chama sua mãe pra ajudar que ela que devia cozinhar nessa casa.

Aí vem a pérola:

– Ruth, seu pai casou de novo?

– Não.

– Então fala pra sua mãe voltar com ele que tava bem melhor antes.

Nessa hora eu separei as duas porque o assunto ficou inadequado demais pra Ruth, mas não culpo a obatian, não, que é uma fofa.

Obatian, fica tranquila, eu vou me casar de novo. Mas vou me divorciar de novo, tá? Porque agora que entrei nessa disputa, faço questão de vencer a Gretchen e não posso perder tempo.

Outra coisa, obatian. Tem um produto que não existia na sua época e que por isso você nem considera, mas é muito comum hoje em dia e não vivo mais sem. Se chama “namorado que cozinha”, melhor coisa da vida atual.

🙃🙃🙃

Te amo, obatian!

Vida após a morte

Minha mãe tentando me convencer a comprar um apartamento:

– Filha, você tem que ter uma casa própria, imagina se você morre, onde Isaac e Ruth vão morar?

– Mãe, se eu morrer, Isaac e Ruth serão problema de quem ficar vivo, não meu. Não preciso me preocupar com isso, alguém vai resolver.

Isaac em uma declaração de amor:

– Mamãe, te amo tanto que quando você morrer eu vou morrer junto e ficar no mesmo caixão que você.

– Tá doido, menino, você quer ficar grudado em mim até quando eu morrer? Sai pra lá, vai curtir sua vida enquanto eu curto meu caixão em paz!

Mãe e filho: entidades que querem te controlar até depois da morte.

(amo muito vocês três, mamis, Isaac e Ruth) ❤

Homem hétero e seus problemas

Um amigo veio dizer pra mim que está saindo com uma mãe solo e que tá complicado, tá difícil, ele tá em crise, não sabe se continua blá blá blá. Queria dicas minhas. Eu pensei em classificar como “pequenos desgastes” e deixar pra lá, mas resolvi dissertar.

Vamos lá, meu querido.

Primeiro: o mesmo tipo de homem que diz que tá complicado sair com mãe solo também diz que não sai com mulher feia, mulher gorda, mulher pobre, mulher com doença, mulher com deficiência, mulher velha, mulher rodada, mulher divorciada e por aí vai porque ele enxerga o tipo ideal de mulher: branca, solteira, magra, bonita, inteligente, estudada, empregada, sem filhos, que tenha tido poucos parceiros sexuais, que queira casar só e somente só ele quiser e que queira filhos só e somente só ele quiser. Né não, gente? Quando eu ouço algo assim, parece que os homens finalmente entenderam que as mulheres não precisam mais ser virgens para valerem a pena, mas precisam manter a pureza e castidade mesmo assim. Filhos, casamentos anteriores, “bagagem” estragam tudo. Affff.

Amigo, quanto mais vivemos e mais velhos estamos e passamos a nos interessar por pessoas mais velhas (aka da nossa faixa etária, porque estou assumindo que pedofilia não é uma opção), maior a chance de estas pessoas já terem filhos. Aliás, não só filhos. As pessoas vivem, né? Elas passam por traumas, histórias, separações, doenças, dificuldades, conquistas, decisões, coisas que fazem parte da vida. Se chama “história de vida de cada um”.

Achar complicado sair com uma mãe solo significa o desejo de ter uma mulher disponível para o que você quiser a hora que você quiser, porque os filhos a impedem de sair quando der na sua telha, de dormir na sua casa, de viajar quando você está a fim de viajar. Significa que no fundo você quer controlá-la. Sou mãe solo e não são só meus filhos que não me deixam ter uma agenda 100% à disposição do meu namorado, sabe? Porque eu trabalho, estudo, faço esportes, tenho hobbies, tenho amigos e família e simplesmente não estou disponível a hora que ele quer, mas a hora que eu quero. E esta história de querer uma mulher disponível leva rapidamente a achar que você pode palpitar no cabelo, na roupa e no corpo dela, nos amigos e em quem ela conversa, no jeito que ela fala, no trabalho, nas coisas que ela quer fazer e por aí vai. O nome disso é controle e você começou querendo ter controle sobre o que ela viveu antes de te conhecer.

Ah, mas você diz que o relacionamento com uma mulher que tem filhos é diferente do relacionamento com uma mulher que não tem filhos. É, nego. Todo relacionamento é diferente um do outro porque as pessoas são diferentes, não importa se elas têm filhos ou não. Não adianta você comparar a ex-namorada sem filhos com a namorada atual com filhos porque a diferença não são os filhos, mas são as pessoas. Do jeito que você fala parece que namorar mulheres que não têm filhos é sempre igual, e você sabe que não é.

Os filhos dela não vão atrapalhar o relacionamento, não, porque são problema dela, não seu. Você pode escolher não conhecer as crianças, assim como ela pode escolher não te apresentar as crianças, mas vai por mim, os relacionamentos vão mal por causa dos adultos, não das crianças. E relacionamentos entre duas pessoas sem crianças vão mal o tempo todo, apenas para constar. E não precisa se preocupar agora se você quer casar/ não quer casar, quer ter filhos/ não quer ter filhos, porque casamento e filhos são decisões que duas pessoas tomam juntas (ou, no caso de gravidez acidental, é acidente que duas pessoas passam juntas). É a mesmo absurdo que começar a sair com uma mulher que não se casou e não teve filhos e ficar pensando AIMEUDEUSVAIQUEELAMEOBRIGAACASARCOMELA. Não, né? Qualquer mulher pode querer se casar e ter (outros) filhos, independente de ela já ter filho. Aliás, ele pode inclusive querer mais filhos mas não querer que você seja o pai, porque talvez você não seja o cara. Ou ela pode não querer. Sei lá. Só sei que você deveria assistir uns filmes abraçadinhos, transar loucamente, se enfiar no meio do mato no final de semana em vez de ficar se preocupando com isso. Assiste La La Land com ela, passa o dia cantando City of Stars e deixa pra pensar nisso no futuro, cara.

O que aprendi neste tempo como mãe solo em que namorei, casei, divorciei, conheci pessoas e me envolvi é que existe uma coisa essencial na vida que se chama respeito. Respeito pela vida do outro, pelo que a pessoa já viveu e por quem ela é. A maternidade faz parte da vida da mulher com quem você está saindo assim como todas as outras coisas que ela escolheu viver ou teve que passar e que a tornam única. Uma das coisas mais legais que já senti nesses anos como mãe solo foi o respeito de alguém que sabe de toda minha vida e que não fica me achando uma complicação ou uma dificuldade por eu ser quem eu sou. Uma das coisas que acho que as mulheres esperam – tendo filhos ou não – é encontrar alguém que não julgue, que não critique, que não fique falando sobre defeitos, que não fique vendo problemas em tudo. É muito mais um “nossa que legal que você gosta de cinema pedal forró viagens drinks papo cabeça” que um “ah que droga que você não pode fazer o que eu quero hoje porque vai estar com filho/ amigo/ família/ trabalho”, entende?

Então quando você me pede dicas, eu tenho uma só: respeito. E não é só respeito pelas questões do filho, tá? É respeito pela liberdade dela, pelas vontades dela, pela forma como ela conduz a vida dela, pelo espaço dela, pelo tempo dela, pela vida toda dela. Vai por mim, respeito.

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Estranho no jantar

Eu estava jantando com os dois e tinha um homem, bem mais velho que eu, puxando conversa com eles da mesa ao lado. Só o fato de ele estar chamando a atenção dos meus filhos enquanto eu queria conversar com eles e enquanto eu queria que eles comessem direito já estava me incomodando, mas eu estava tentando não ser chata e não olhar torto.

– Qual o nome, quantos anos, que time vocês torcem, que gostam de fazer, que estão comendo. – moço, é tanto trabalho pra ensinar crianças a não falar com estranhos, porque infelizmente isso pode ser perigoso, e você estava definitivamente me irritando e atrapalhando nosso jantar.

Aí vem a pérola:

– Não vão comer muito pra não engordar. Deixa eu ver sua barriga. E a sua. Agora a sua, mamãe.

Isaac foi mais rápido que eu, que estava com um palavrão na ponta do língua:

– Minha mãe não vai mostrar a barriga dela pra você porque é particular.

Impressionante como tem homem que faz nossa fé na humanidade evaporar. Mais impressionante ainda é como Isaac é sensível e maduro quando preciso dele. Obrigada, pequeno.

Sem gravidez nesta vida :)

Há uns dias o Facebook me mostrou um post que publiquei há um ano atrás falando sobre meu luto por não ter engravidado. Eu estava a seis meses dos 35 anos, data mágica do relógio biológico, concluindo que apesar de ter, sim, uma curiosidade com a gravidez, eu não tinha vontade de ter um terceiro filho e que iria passar por esta vida sem a gravidez. Um pouco antes, na semana do meu aniversário de 34 anos eu publiquei outro post também falando sobre gravidez. Não tinha me dado conta até agora, mas eu senti os 35 chegando como minha data limite para pensar em engravidar e registrei isso em vários momentos.

E os 35 chegaram e ironicamente bateram o martelo na não-gravidez, por três motivos que não têm nada a ver com o relógio biológico. Primeiro eu me divorciei do meu segundo marido e fiquei sem um reprodutor. Considerando que maternidade solo de novo não é uma opção, ter ficado sem um potencial pai é um motivo para uma não-gravidez. Segundo eu tive câncer e eu não quero ter filhos biológicos que vivam com medo de ter câncer porque a mãe teve câncer aos 35 anos. De verdade, não quero, eu não conseguiria lidar com essa culpa de poder passar algum gene maluco que causa câncer para um filho. E, por fim, vou tomar um medicamento por dez anos que pode trazer sérias complicações para o feto. Eu poderia parar o medicamento para tentar engravidar, mas isso me deixaria exposta a uma recidiva, então não é uma boa opção.

Não é irônico? Eu achei irônico. Parece que eu sempre soube que gravidez não era uma opção para mim, porque nunquinha nunquinha eu fiz sexo desprotegida me deixando no risco de engravidar. E, por não ter engravidado, eu não virei mãe solteira de uma criança a mais nem vou viver me culpando por genes malucos espalhados por aí.

A parte linda dessa história tem dois nomes: Isaac e Ruth. Isaac e Ruth são as duas melhores escolhas que fiz nessa vida, porque me fizeram mãe da maneira como eu deveria ser mãe e que me fizeram chegar aos 35 totalmente bem resolvida com a questão da maternidade. Eles vieram para minha vida e hoje, depois de tanta confusão que passei, já sou mãe de duas crianças lindas e já dei check no to-do “maternidade” que eu tinha no planejamento estratégico da vida. Isaac e Ruth, porque vocês já existem, eu tô aqui vivendo felizona pensando em doutorado, em viagens, em projetos de consultoria, em trilhas de bike, em shows e passeios e me sinto completa. Obrigada por terem aparecido. E ao meu primeiro marido, obrigada por ter entrado nesta aventura junto comigo que me trouxe estas duas porcarias lindas. Adotar foi a melhor coisa que fiz nesta vida.

 

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A mãe no trem

Eu acordei quase chegando na estação, completamente zonza de sono, e vi que nas poltronas ao lado estavam uma mãe e duas crianças pequenas, menores que os meus. Sei lá de onde surgiu esse meu radar de mãe solteira e não tirei os olhos dela até achar algum parente ou amigo que fosse ajudá-la a descer na estação, mas ela realmente estava sozinha.

Eu pus meu casaco e a mochila nas costas e comecei a entrar num pânico pelo tanto de coisa que ela ainda tinha que fazer: colocar o casaco dela e das duas crianças, colocar a criança menor no sling, pegar duas malas que estavam acima da poltrona, pegas algumas sacolas que ela tava carregando e descer com tudo isso naqueles três minutos em que o trem fica na estação.

Mano do céu, desculpa, moça, mas eu não conseguia tirar os olhos de você. Era muita coisa para uma mãe ter que fazer sozinha e a gente realmente estava chegando na estação e teria só três minutos pra sair de lá de dentro.

Aí eu fui até lá e me ofereci para prender o sling. Me ofereci falando inglês porque meu espanhol é horroroso e a moça respondeu em espanhol que tava tudo bem, mas eu sei que não estava não. Porque quando eu prendi o sling nas costas e o bebê ficou na frente dela, ela não conseguiu mais ajudar a outra criança a colocar o casaco, e a criança não conseguia vestir um casacão de inverno sozinha – às vezes nem eu consigo – e eu fui colocar o casaco nela. E aí me deu um medo de esta criança correr, ou ficar pra trás, ou sei lá, e eu disse pra moça levar as crianças que eu ia carregar todas as coisas dela pra fora do trem. E eu só sosseguei quando deixei os três e todas as coisas lá fora e vi que ela conseguiria seguir sozinha.

Não sei se fiz isso por ela ou por mim, que tantas vezes me vi sobrecarregada sozinha com duas crianças pequenas. Foi como se eu me visse ali e pensasse que seria muito bom ter alguém pra me ajudar.

Olha, moça, eu sei que você não entendeu muito bem meu pânico e eu não estava te achando incapaz de fazer tudo sozinha. Eu sei que você faria. Mas eu estava com minhas duas mãos livres sem os meus filhos e precisava dividi-las com você. Porque nós somos mães e tamo juntas. Feliz ano para vocês três!

Happier than ever ou obrigada, 2016!

2016 começou mal e eu vivi os piores meses da minha vida inteira até agosto. Mas a verdade é que a vida já vinha difícil nos dois anos anteriores, com muitas peças fora do lugar. Aí eu passei oito meses lamentando 2016 como todo mundo, por todas as separações, tragédias, golpes, doenças e coisas esquisitas que aconteceram comigo e com o mundo.

E aí setembro chegou junto com a primavera e os astros se alinharam e o universo conspirou a meu favor e de repente eu tive a vida que eu sempre quis ter: feliz de verdade. Sem nada fora do lugar. Sem nada me incomodando ou me chateando. Só com coisas boas.

Meus filhos estão na melhor fase possível. Tô adorando ter criança mais velha, cinco anos é uma idade linda e acho que daqui pra frente só vai melhorar até chegar a adolescência. Eles estão companheiros, divertidos, curtindo uns programas mais legais, aventureiros e fáceis. Passou aquele stress de correr de mim, de mexer em tudo, de se jogar no chão no meio da rua, de eu ter preguiça de sair com eles. Tá muito divertido, meus pequenos. E ser mãe de criança de 5 anos aos 35 é bom demais, porque eu me sinto ótima para curtir o resto da minha vida e já dei check no projeto maternidade da minha vida. Daqui pra frente é só curtir.

Eu e o pai deles também estamos na melhor fase desde a separação e a guarda compartilhada foi a melhor coisa que inventamos para esta família. Todos os quatros saímos ganhando – as crianças principalmente – e nosso relacionamento de pais separados nunca esteve tão bom. E essa nova dinâmica de dividir bem o tempo das crianças com o pai e com a mãe faz com que nós dois tenhamos bastante participação na vida deles e também bastante tempo para cuidar do trabalho e das baladas.

Ter mais tempo para cuidar do trabalho também me ajudou a finalmente encontrar um modelo perfeito para conciliar consultoria com doutorado com maternidade e eu encontrei os melhores parceiros de trabalho nos últimos meses. E, por sorte, trabalhei com uma equipe no cliente que era divertida demais e senti diariamente um prazer por sair cedo de casa e ir para o escritório que eu não sentia há mais de três anos. E agora eu sou oficialmente doutoranda e pude escolher a faculdade que quero fazer e tô feliz da vida que vou voltar a ser estudante ano que vem.

E, apesar de ter mais tempo, eu também aprendi neste ano que tempo é um recurso finito, escasso e não renovável e não usar bem nosso tempo é o pior negócio do mundo. Eu aprendi que tempo é uma das coisas mais maravilhosas que nós temos e passei a cuidar bem do meu tempo e a usar bem meu tempo para o que me faz feliz. Não faço coisas que não gosto ou que não me dão prazer. Dou meu tempo para as pessoas que importam. Organizo bem o tempo de trabalhar, de estudar, de ficar com Isaac e Ruth, de fazer esportes e de fazer coisas que me divertem. Acho que fui em mais shows, peças, filmes e exposições nos últimos quatro meses que nos últimos quatros anos. E decidi que não ter companhia nunca mais vai ser motivo para não fazer alguma coisa que quero muito porque ou eu vou sozinha ou eu vou fazer novos amigos com os mesmos hobbies. E essas duas coisas funcionam que é uma beleza.

Falando em amigos, vou escrever um parágrafo bem sentimental porque eu confirmei este ano que eu tenho os melhores amigos dessa vida. Passei por coisas super chatas que alteraram meu humor e minhas emoções, que me deixaram um tempo com dores e com limitações e eu precisava de ajuda pra tudo e que me deixaram amarga e eu tive meus amigos por perto o tempo todo. Bem perto. E a maior prova de amor que recebi de todos eles foi que eu não sou só legal quando estou empolgada para sair, mas também quando estou reclamando e chorando e não conseguindo me mexer direito. Minha vida não teve essa de ah-os-amigos-se-afastam-quando-estamos-com-problemas porque meus melhores amigos ficaram o tempo comigo e estão aqui comigo até hoje e é por isso que nunca fui tão feliz, porque nunca senti tanto amor.

Amanhã é nosso primeiro dia de férias e eu estava precisando muito tirar férias depois desse ano que passou, principalmente porque eu só consegui sair de férias no dia 22 de dezembro porque literalmente o ano parecia não acabar nunca mais. Mas parei de ser injusta com 2016 e de ficar dizendo que só me aconteceram coisas ruins porque não é verdade. O ano foi incrível. Nunca aprendi tanto, nunca cresci tanto e nunca me senti tão bem como me sinto agora. 2017 vai ser melhor ainda porque estou deixando todas as coisas ruins em 2016 e começando um ano com tudo zerado. R.I.P. 2016, obrigada por tudo e feliz ano novo!

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A individualidade, a escola e o adestramento

Nas férias de julho, a ex-babá dos dois, com quem ainda mantenho contato e tenho super carinho, os convidou para passar dois dias na casa dela no meio da semana. Eu estava trabalhando como doida e não estava dando nenhuma atenção direito para eles e topei. Levei os porqueiras numa terça de manhã e fui buscar no dia seguinte final da tarde e eles adoraram.

Eu estava toda atrapalhada de trabalhos, mas terça à noite sem filhos na vida de uma mãe solteira é raridade e eu resolvi sair. É obrigação de toda mãe ir pra balada quando os filhos dormem fora, não importa se é terça ou se você está toda cheia de coisas para fazer.

Eu disse balada.

Vocês me imaginaram dançando em cima de um balcão com um salto imenso até amanhecer.

Mas na verdade eu estava sentada em um bar tomando drinks e comendo frituras e voltei dormindo no Uber à meia-noite para casa.

Quando cheguei no prédio, já tomei uma bronca do porteiro porque meu cachorro estava latindo e uivando ininterruptamente pelas últimas cinco horas e ele já tinha recebido oitocentas e quarenta e sete reclamações dos vizinhos. No dia seguinte, mais uma bronca do síndico, seguida de uma multa bem salgada. E mais o aviso de que cada multa recebida pelo mesmo motivo viria com o dobro do valor e assim  sucessivamente, então se o Ernesto continuasse a latir eu rapidamente iria gastar mais dinheiro em multas que no aluguel.

Conversei, pedi desculpas pelo comportamento dele e avisei que eu iria contratar um adestrador com urgência. Contratei um adestrador, eu fui adestrada duas vezes por semana para conseguir sair de casa e deixar o cachorro calmo e tranquilo, Ernesto passou a ter o comportamento esperado pelos vizinhos e não tive mais problemas.

Fim.

Por que estou contando essa história?

Porque as escolas tratam as crianças como cachorros.

– Nossa, que horror!

Mas é.

Cansei de ser chamada na escola para ter conversas sobre como o comportamento dos meus filhos estava inadequado e cansei de ouvir recomendações para procurar “ajuda profissional”. Psicóloga, no caso. Porque a escola acha que a gente adestra os filhos levando em uma psicóloga, que é um profissional capaz de moldar o comportamento da criança. A escola entende que, uma vez que a criança não tem o comportamento que ela espera, ela vira um problema a ser resolvido por um profissional especializado em comportamento em massa.

Não estou criticando o trabalho de psicólogos, pelo contrário, meus filhos fazem terapia há bastante tempo e acho ótimo. Estou relatando que aprendi no último ano que, tão importante quanto linha pedagógica, sistema de ensino, espaço físico, localização, preço, alimentação saudável e todos aqueles itens do check list que levamos quando visitamos uma escola, é a postura da escola diante das questões individuais de cada criança.

Em suma: fujam de escolas que busquem massificar as crianças, que não respeitem o indivíduo e que as tratem como cachorros que precisam de adestramento. É difícil de acreditar, mas passamos por uma escola assim este ano e foi uma experiência horrorosa. Cada criança é uma criança, com suas vontades, limitações, timing, emoções, frustrações, e escola bacana é aquela que sabe respeitar a individualidade.

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