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Todos os dias de mãe 

Isaac e Ruth,

Nesse dia das mães, quero dizer que ser mãe é – mesmo, mesmo, mesmo – a coisa que mais gosto na vida. É também uma das coisas mais difíceis, mais cansativas e mais irritantes, mas vou deixar as reclamações para outro dia. 🙂

Obrigada pelos sorrisos felizes que vocês me dão todos os dias, principalmente quando acordam e quando busco vocês na escola. Eu me sinto querida quando acordo vocês e me sinto perdoada por não ter passado o dia com vocês quando chego na escola. Adoro o sorriso de saudades que vocês abrem depois de algumas horas separados.

Obrigada por me pedirem desculpas quando erram. Eu sempre desculpo vocês mesmo antes de pedirem desculpas, mas gosto da preocupação que vocês têm em garantir que estamos bem. Obrigada também por sempre aceitarem meus pedidos de desculpas quando sou eu que erro. Eu me sinto muito amada quando vocês dizem “tudo bem, mamãe” com sorriso no rosto e realmente me perdoam, sem bicos, sem voltar na discussão depois.

Obrigada por sempre quererem minha companhia. É muito legal saber que sempre preferem ficar comigo e fazer as coisas comigo. Sei que não vai ser assim para sempre, mas quero que saibam o quanto me deixam felizes quando chega a sexta e seus olhinhos brilham porque vamos passar o dia juntos amanhã.

Obrigada por me respeitarem. Obrigada mesmo por todas as vezes que não estava me sentindo bem e vocês toparam ir pra cama cedo para eu cuidar de mim, porque eu sempre sinto que é uma forma que vocês têm de cuidar de mim.

Obrigada pela ajuda para cuidar da nossa casa. Obrigada por arrumarem a cama todos os dias e guardarem os brinquedos. Ruth, obrigada por ter limpado a bagunça que o Ernesto fez na cozinha hoje. Isaac, obrigada por ter limpado a mesa de jantar depois de você ter derrubado um monte de macarrão nela.

Vocês dois são o melhor relacionamento que tenho na vida. Vocês me dão dia das mães todos os dias, porque todos os dias me lembram que me amam, que sou importante e que vocês são minha família. Vocês são a melhor parte de mim.

PS: podem me acordar bem cedo neste domingo, que prometo não mandar ninguém de volta pra cama pra tentar dormir mais um pouco.

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Ninguém é mãe de pet

Eu já tinha rascunhado um texto sobre o assunto há um tempo, mas achei que estava fazendo uma comparação infeliz entre crianças e cachorros. Mas o dia das mães está chegando e tenho lido outras mães/ mulheres falando sobre a não-maternidade de cachorros/ gatos/ periquitos e afins. Então queria dizer para vocês: ninguém é mãe (ou pai) de pet. Você ama e cuida, mas não isso não caracteriza uma maternidade/ paternidade. Você não está treinando para um dia ter um filho porque tem/ ama/ cuida de um pet, porque isso não treina ninguém para nada.

Então, para ser clara, vou comparar o que é ser mãe e o que é ter um cachorrinho (Ernesto, nosso cachorro, foi adotado há uns seis meses).

  • Eu me preocupei em ensinar *apenas* duas coisas para o Ernesto: fazer xixi/ cocô no tapete higiênico e não latir enlouquecidamente quando fica sozinho em casa. Ele aprendeu essas duas coisas super bem em apenas algumas semanas na família e coloquei um ponto final na minha missão de ensinar algo para ele. Ah, sim, depois ensinamos a sentar, deitar, dar a pata e buscar a bolinha, mas são “acessórios”, sabe? Não vou ficar estressada se não tivesse aprendido mais nada. Nem vou ficar me cobrando se eu não ensinar mais nada na vida para ele, ponto final. Enquanto isso, estou lá diariamente ensinando duas crianças a andar, falar, comer sozinho, usar o banheiro, escovar os dentes sozinho, tomar banho sozinho, letras, cores, formas geométricas, jogos, amarrar o sapato, respeito, regras, brincadeiras, explicando filmes. Daí virá o Ensino Fundamental, as lições de casa, as provas, as amizades, os esportes, os cursos de língua, a convivência, o vestibular, a bicicleta sem rodinhas, as frustrações. Não tem ponto final, não termina.
  • Ernesto aprendeu a não latir enlouquecidamente quando fica sozinho em casa porque, veja bem, ele fica sozinho em casa desde o dia UM por aqui. Enquanto eu ainda não posso nem descer para pegar a pizza na portaria e deixar meus filhos sozinhos no apartamento, deixo meu cachorro por horas sozinho. E ele não morre. E não sou presa. E não me sinto abandonando ninguém. Ele fica sozinho durante o dia se saio para trabalhar ou durante a noite se vamos passear sem nenhum stress. Deixo água, comida, caminha e brinquedo e ele sempre está vivo quando volto para casa.
  • E, mais: se vou viajar, entro na Internet e posso escolher qualquer pessoa para ficar com Ernesto. É claro que já elegi uma cuidadora preferida pelo DogHero e sempre deixo Ernesto com ela, mas se um dia ela não puder e eu precisar viajar, Ernesto vai conhecer alguém de uma hora para outra sem muito stress. E vai ficar bem, vai ficar feliz e ninguém vai me julgar. Só quem é mãe sabe o-que-que-é deixar os filhos com alguém, seja amigo, parente ou babá, para sair por algumas horas ou viajar sem eles. Não, não tem aplicativo para isto.
  • Ernesto come todo dia a mesma coisa em todas as refeições e acho que só troca de ração quando ficar velhinho, né? Vem pronta, é só por no prato, nem precisa esquentar, ele vai lá sozinho e come. Ele só toma água. Sim, compro uns petiscos de vez em quando e dou uns pedacinhos de legumes e frutas às vezes, mas ele viveria bem só de ração e água. Nem preciso dizer o quão trabalhoso é gerenciar a alimentação de uma criança.
  • Faço home office alguns dias na semana e fico em casa com Ernesto. Mas estou trabalhando e não dou atenção para ele. Não tenho que dar atenção, não me cobro por não dar atenção e não me sinto mal. Ele fica quieto no canto dele e eu fico no computador, aí de vez em quando trocamos um carinho e a hora de brincar/ passear fica pra depois.
  • Ernesto parou de crescer em poucos meses, então a roupinha que comprei pra ele ontem por causa da frente fria vai durar pra sempre. E ele provavelmente só vai ter essa roupinha, porque quando eu precisar lavar ele não vai se importar de ficar pelado algumas horas.
  • Quando chega a hora de dormir, não tem processo nenhum, sabe? Eu só faço os meus processos (banho, escovar dentes, pijama etc.), deito, apago e luz e pronto. Ele encontra a caminha dele e fica lá até o dia seguinte. Ele não acorda durante a noite. Se acordar, ele faz o que quer fazer acordado e dorme de novo.
  • Sim, cachorro dá despesa. Mas não se compara. Não tem escola, plano de saúde, despesas médicas que o plano não cobre, roupas, sapatos, fraldas, refeições, brinquedos, material escolar, produtos de higiene de uso diário, Internet, festinha de amigo, cinema, aula de natação, curso de inglês, mesada, dinheiro do lanche, excursão da escola, livros.

Amo o Ernesto e acho o máximo ter cachorro. Amo muito e cuido muito, não tô dizendo que não dá trabalho. Ainda que seja tudo mais simples, ele faz sujeira, come, toma banho, precisa brincar e passear, fica doente e vai no médico. Faço com o maior prazer do mundo, dou e recebo muito amor dele, mas nada disso me faz mãe. O que me faz mãe são dois espuletas de cabelos encaracolados, eles, sim, me fazem mãe.

E, no papel de mãe, me sinto culpada, sou julgada, sou oprimida, sofri assédio moral no trabalho, tenho medo de errar, tenho muitas dúvidas sobre o que fazer, me sinto sozinha, me arrependo de coisas, mudei minha carreira, tenho menos liberdade, tenho uma responsabilidade maior que qualquer outra coisa que já tive na vida e sofro. Ser mãe tem seu lado bastante difícil, já falei várias vezes, e isso tudo faz parte da maternidade e nada disso existe quando você cuida de um cachorro. Por isso, afirmo: ninguém é mãe (ou pai) de pet.

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Spotlight

Assistiram este filme? Ganhou Oscar e tal.

Resenha que copiei da Internet: “Baseado em uma história real, o drama mostra um grupo de jornalistas em Boston que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo caso.”

Atentem para “baseado em uma história real” e “transferindo os padres da região ao invés de puni-los pelo caso“. Em suma, história da Igreja Católica acobertando milhares de padres que estupraram crianças por anos e anos. Não são poucos, não são casos isolados.

Dureza, né?

Vocês matriculariam seus filhos em uma escola se soubessem que vários professores estupraram alunos e foram acobertados pela diretoria, simplesmente transferidos para outras unidades?

Aí eu queria saber: vocês continuam batizando seus filhos e frequentando a igreja com eles, gente? Me contem, me expliquem.

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Chega de ter ódio de criança, gente!

Esta é minha conversa imaginária com culegas que detestam crianças e desejam viver longe delas. Antes, quero dizer que talvez eu já tenha sido um ser desses. Já tive dessas de querer tirar férias longe de crianças, de querer morar em um prédio onde havia poucas crianças, de detestar crianças em aviões, de escolher mesas bem longe de famílias com crianças em restaurantes. Eu entendo que vocês sejam assim, mas desaprovo. Sinto vergonha desse sentimento em relação às crianças. Mas, da mesma forma que muita gente me disse que nunca tinha pensado sobre o lápis “cor de pele” porque não tem um filho negro, talvez muita gente não tenha pensado no respeito com as crianças porque não convive com elas. Então, vamos lá.

Para começar: criança é uma pessoa em formação, que está aprendendo coisas todos os dias, o tempo todo, constantemente. A criança leva de 18 a 20 anos para se tornar um adulto. Crianças pequenas não têm a mesma maturidade e nenhuma condição para se comportar como um adulto. Elas precisam de tempo, paciência e muito treino. Existem alguns comportamentos que são absolutamente normais para uma criança pequena: 1) elas choram quando estão descontentes, e pode ser fome, cansaço, tédio, pode ser porque perderam um brinquedo, porque queriam fazer algo que não é possível fazer naquele momento, porque estão com saudades da mãe. Elas choram e precisam ser acolhidas – e, não, caladas; 2) elas não conseguem se concentrar tanto tempo como um adulto, seja quando estão à mesa em um restaurante, quando vão ao cinema, quando estão com os pais na casa de amigos. É normal que se entediem, que fiquem impacientes, que queiram se movimentar, mudar de lugar ou de atividade; 3) elas são curiosas, e que bom que são curiosas. Isso significa que vão mexer nas coisas, que vão querer andar pelos lugares, que vão falar com estranhos e que vão fazer um milhão de perguntas; 4) elas se distraem e esquecem o que foi combinado, e é papel dos adultos lembrar as regras com carinho e quantas vezes forem necessárias, como por exemplo, que não podem mexer nas obras em um museu ou que precisam falar baixo.

“Mas eu não tenho nada a ver com isso, porque o filho não é meu”. Primeiro, se o filho não é seu, tenha a certeza que existe alguém que cuida desta criança e que não quer vê-la fazendo o que quiser. Ninguém leva a criança para almoçar fora e come tranquilamente enquanto a criança grita ou joga comida no chão como se fosse algo tão natural a ponto de não intervir. Não. Existe alguém que está cuidando e orientando a criança. Ninguém está dizendo que a responsabilidade é sua e que você deveria se levantar e fazer alguma coisa. Aliás, se não for fazer com boa vontade e com carinho, por favor, não faça nada. Não fazer nada significa inclusive não bufar ou reclamar que a criança está incomodando. Porque não existe nada mais desagradável do que estar tentando confortar um filho que está berrando e esperneando e sentir aqueles olhares de ódio atrás de você te dizendo “faz logo essa criança calar a boca!”. Porque, sim, é o que estou tentando fazer, mas não por sua causa, por causa dela, porque quero que ela se acalme e fique bem. O que você tem a ver com isso? Como você faz parte da sociedade, é sua obrigação tolerar e respeitar a situação.

“Ah, mas como assim? Eu não tenho nada a ver com crianças”. Tem, sim, senhor. Ser criança faz parte do ciclo da vida. As crianças fazem parte da sociedade, assim como os idosos, deficientes, negros, palmeirenses, pobres e qualquer outro grupo que você tente discriminar. Você já foi uma criança um dia, você já sentiu na pele o que é ser uma criança. Se teve sua infância respeitada, espero que repasse isto a outras crianças, mesmo que não sejam seus filhos. Se não teve sua infância respeitada, eu sinto mesmo de verdade e espero que você não deseje o mesmo sofrimento para outras crianças.

“Que p é essa de respeitar a infância?”. A criança não deve crescer isolada só porque não se comporta como um adulto se comporta ou como um adulto espera que ela se comporte. Pelo contrário. É vivendo as situações do dia a dia – fazendo supermercado com a mãe, visitando parentes e amigos, frequentando hotéis, acompanhando os pais em alguns compromissos profissionais – que ela vai entender e aprender. Respeitar a infância é entender que a criança tem limites diferentes dos adultos – e diferentes de outras crianças também – e ajudá-la e apoiá-la, mas nunca escondê-la. Da mesma forma, você deve respeitar os pais, mães e cuidadores, que não nasceram para se esconder de você porque têm filhos.

“Então você acha normal que mães e pais levem seus filhos para qualquer lugar”. Sim, desde que este lugar seja apropriado para crianças. Veja bem, com muita atenção, que quando digo “apropriado”, estou pensando no bem estar da criança. Existem lugares que podem colocar as crianças em risco (alguns exemplos: assistir filmes “de adultos”, com violência ou sexo, casas noturnas, onde serão expostas à música alta, cigarros e bebidas). Agora, não vejo por que hotéis, restaurantes e aviões – para citar apenas alguns exemplos – não seriam adequados. Então, sim, elas podem frequentar esses lugares.

“Mas crianças incomodam”. Qualquer pessoa intolerante como você vai se incomodar com os outros, não apenas com as crianças. Você provavelmente vai se incomodar se o cara na poltrona ao lado estiver lendo Carta Capital, se o rapaz da mesa ao lado gritar “gol do Corinthians” ou se um velhinho demorar muito para manobrar o carro no estacionamento. Não é a criança que está incomodando, é você que está sendo intolerante. Até porque, te juro: quando uma criança começa a chorar, gritar, espernear ou qualquer coisa assim, ela não está tentando te incomodar. Ela está pedindo ajuda. E ela não está pedindo ajuda para você. Ela está pedindo ajuda para a pessoa que está cuidando dela.

“Mas crianças fazem muito barulho”. Quando você estava batendo panelas e falando palavrões para a presidenta, gritando gol e soltando fogos de artifício ou fazendo aquele churrasco com os bródis, você estava fazendo o quê? Please, né? Em uma das minhas últimas viagens, fiz um trekking de quase 100 quilômetros até o topo do Monte Roraima, passeio não recomendado para crianças por causa do esforço físico. Lá em cima só tinha adultos e você não imagina a capacidade que eles tinham de fazer barulho enquanto eu estava tentando ouvir passarinhos ou curtir um pôr-do-sol em silêncio. Barulho é do ser humano, não apenas das crianças. A diferença – grande diferença – é que o adulto já é capaz de entender que seu barulho interfere no silêncio do outro e tem a capacidade de controlar o seu barulho. As crianças, como disse no início, estão A-P-R-E-N-D-E-N-D-O.

“Mas quando eu vou a um restaurante chique, quero ter um momento romântico, em paz”. E você quer tirar o direito de mães e pais de frequentar o seu restaurante chique só porque você quer que seja assim? Ou você quer que mães e pais não andem mais de avião? Eu tenho muitos momentos românticos com meu marido, junto com as crianças, porque a gente se ama e pronto. Nenhuma criança na mesa ao lado vai acabar com seu romance. Engraçado que se busco no Google “hotéis proibidos para crianças” recebo milhões de indicações. Mas obviamente não existem hotéis onde sejam proibidos negros ou deficientes. Então discriminar abertamente a família com crianças é ok? Você entra tranquilamente em um restaurante com uma placa na porta dizendo “não aceitamos crianças”, né? Como você se sentiria se estivesse escrito “não aceitamos deficientes mentais”?

“Mas não dá para deixar a criança com outra pessoa?”. A gente que é mãe e pai não larga a criança em qualquer lugar por aí. É claro que às vezes elas vão dormir no vô ou na casa de um amiguinho, mas quando temos filhos estamos com nossos filhos a maior parte do tempo. E mais: a gente gosta de curtir os momentos de lazer com nossos filhos. Assim que funciona uma família. Então, não, não dá para deixar a criança com outra pessoa para podermos jantar ou nos hospedar em um hotel só porque você não nos quer lá. E, mesmo que a gente decida deixar a criança com um parente para fazer alguma coisa, essa decisão é nossa, não sua, nem do estabelecimento em questão.

“Tá, então o que você quer de mim?”. Eu quero tolerância e respeito com as crianças e com seus cuidadores. Eu não quero mais que você olhe feio para famílias com crianças, porque elas têm o direito de frequentar os lugares que você frequenta. Eu quero que você entenda que, como parte da sociedade, é seu papel também ajudar as crianças a aprenderem a participar da sociedade. Eu quero carinho com as crianças e não quero bufadas ou olhares impacientes. É bizarro ter que dizer isso, mas eu não quero mais ódio pelas crianças. É só isso que eu quero.

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Heroína

Final de sexta-feira santa com chuva, preguiça e silêncio na casa: cachorro dormia, crianças assistiam TV e mamãe fatiava berinjelas para uma lasagna. Até que – malditos orgânicos, que se eu consumisse agrotóxicos talvez estivesse livre dessas coisas – um bichinho de berinjela pula na tábua onde eu estava cortando os legumes.

Tenho um problema sério com seres rastejantes que se locomovem sem pernas. Minhocas, taturanas, lesmas, lagartas, caramujos, cobras, todos eles me fazem gritar como louca, como se eu tivesse visto um monstro, e não consigo parar até alguém me chacoalhar e mandar parar. Isaac já sabia disso. Uma vez estávamos andando numa calçada e demos de frente com uma taturana verde listrada horrorosa e eu gritei, gritei, gritei e só consegui parar quando atravessamos a rua, porque não fui capaz de passar ao lado da taturana. Na volta, ele me segurou com as duas mãos, pediu para eu ficar calma e não gritar, mas não consegui. Gritei e tive que atravessar a rua de novo.

Quando eu comecei a gritar na cozinha na frente do bicho de berinjela, eles vieram os três correndo – crianças e cachorro – e começaram a gritar junto comigo. No meio da gritaria, começo um diálogo com a Ruth, aos berros:

– É UMA TATURANA?

– NÃO!

– ELA QUEIMA?

– NÃO!

– ELA MORDE?

– NÃO!

– ELA VAI MACHUCAR ALGUÉM?

– NÃO!

– ENTÃO POR QUE VOCÊ TÁ GRITANDO?

– NÃO SEI!

Ruth, não sei viver sem você. Não sei viver sem você pegando um guardanapo e colocando o pobre bichinho de 1 (UM) centímetro no lixo e olhando pra mim pensando se devia mesmo se sentir segura com uma mãe dessas. Obrigada, Ruth.

 

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O que fazer durante a espera

A vida me trouxe muitas amigas que estão na fila de adoção. Eu não tive muito tempo de espera, mas consigo imaginar o quanto deve ser angustiante não saber que tempo é esse. A gestação biológica é mais regrada: são nove meses, você tem que fazer essas x coisas nos primeiros três meses, depois outras w coisas nos próximos três meses e use os três meses finais para z, aí o bebê chega e pronto. Na adoção não é assim, porque a espera não tem tempo definido e a gente não sabe o que fazer antes de a criança chegar, até porque muitas vezes a gente não sabe nem que idade a criança terá. Então, além das dicas clássicas como ler bastante sobre maternidade e sobre adoção, frequentar grupos de apoio e controlar a ansiedade, resolvi montar uma lista de coisas que eu queria ter feito mais antes de adotar.

  1. Vá muito ao cinema. Muito. Vá na terça à noite, sábado à tarde, domingo último horário. Assista filmes não recomendados para menores de 18 anos e legendados.
  2. Faça maratonas de séries no sofá. Não vale um capítulo por dia, assista 7 capítulos de uma vez só. Assista séries com sexo, palavrões, violência, nudez, drogas, álcool e assista tudo legendado. Fique lembrando que quando a criança chegar, seu Netflix só te recomendará coisas coloridas, fofas, inocentes e dubladas.
  3. Faça viagens bem difíceis. Resort all inclusive é muito fácil e você vai conseguir fazer isto com crianças. Faça treckings super longos, pegue um avião por 12 horas para passar um feriado na Europa, vá acampar sem banheiro ou chuveiro, saia do hotel às 7h da manhã para visitar oito pontos turísticos, emende no jantar e vá dormir meia noite, faça uma road trip de dias e dias, parando em motéis de beira de estrada.
  4. Faça muito sexo gemendo alto, ou gritando se você quiser. Você vai continuar a fazer sexo com a maternidade, mas sempre com o rosto enfiado no travesseiro e com a mão na boca dx parceirx pra não fazer barulho. E o mais assustador não é o medo de a criança perceber que os adultos estão fazendo sexo, porque ela não sabe o que é isso. Meu medo é que eles achem que estou me machucando e fiquem apavorados.
  5. Faça sexo às três da tarde no sábado. Bem no meio do dia.
  6. Faça sexo assim que acordar sem nenhum medo de alguém bater na porta e perguntar se já está na hora de acordar.
  7. Faça sexo com a porta aberta, principalmente quando estiver bastante calor, porque a janela já tem que ficar fechada pra não dar show pros vizinhos e você vai passar a vida no sexo-sauna.
  8. Durma até meio-dia.
  9. Acorde cedo, tome café, volte pra cama e durma até meio dia.
  10. Pense em um horário bem bizarro para tomar banho, resolva tomar banho e tome um banho.
  11. Faça cocô pensando como é legal fazer cocô sozinha no banheiro, com a porta fechada, sem ninguém batendo. Mesmo que ninguém esteja batendo, pense como é bom não estar preocupada se alguém vai derrubar a TV da sala no chão ou pular da janela.
  12. Coma o que quiser a hora que quiser e fique feliz com isso. Sério. Jante pipoca. Coma feijão no café da manhã. Porque não é só o exemplo que a gente quer dar para que os filhos se alimentem bem. Eu morro de medo que eles cheguem na escola e digam para a tia que a mamãe jantou banana com pasta de amendoim e sakê.
  13. Entre no restaurante e fique o tempo todo pensando como é maravilhoso se preocupar apenas com o que você vai comer. Demore bastante pra escolher o prato, faça perguntas pro garçom, peça só uma entrada e deixe pra escolher o prato principal só depois de uma hora. Quando seu prato chegar, olhe bem pra ele quentinho e pense como é bom não ter que cortar a comida de alguém, não ter que dar comida na boca de alguém, não ter que limpar nada, não ter ninguém enfiando o garfo babado no seu prato, não ter que se levantar pra limpar cocô no meio da refeição.
  14. Tome um porre na quarta, chegue em casa sem sapatos e não seja julgada.
  15. Saia do trabalho e não vá direto pra casa. Vá no mercado, farmácia, shopping, bar, balada, cinema, casa de alguém, centro espírita, sei lá. Não volte correndo pra casa.
  16. Acorde às 5h da manhã e vá correr na rua (ou andar de bicicleta, patins, sei lá). Acorde às 5h e saia de casa sem se preocupar que alguém vai acordar sozinho em casa e que isso é abandono de menores.
  17. Escolha uma atividade física que você goste e invista nisso (ou siga fazendo o que você já faz e gosta). Na maternidade fica mais difícil ter tempo e pique para exercícios e vai ser ótimo já ter este hábito.
  18. Tome cerveja no jantar de quinta e não seja julgada.
  19. Deixe alguma coisa pequena e de valor em cima da mesa de jantar e comemore o fato de ela ainda estar lá dois dias depois (vale brinco, anel, abotoadura). Porque o duro não é só perder uma coisa de valor. O duro é ficar revirando cocô durante dias com medo de a criança ter engolido aquela coisa.
  20. Sente num boteco na segunda e coma frituras com caipirinha falando sobre política. Fique mentalizando um “não preciso voltar pra casa”.
  21. Se curte um panelaço, aproveite agora. Entre muitas coisas que me fazem ter ódio dos panelaços é que eles sempre acontecem depois do horário de dormir e minhas crianças acordam assustadas e com medo. Idem para gritar gol do curintia e soltar fogos na quarta à noite.
  22. Falando em panela, aproveite para se afastar de panelas de pressão. Panela de pressão vai ser sua melhor na amiga na maternidade e você vai cansar do medo de explosão, das explosões porque não fechou direito, daquela sujeira toda na válvula. Ou já invista em uma panela de pressão elétrica, que o retorno vai ser bom.
  23. Se você é workaholic, trabalhe muito. Trabalhe até tarde, peça pizza no escritório, fique lá até duas da manhã e faça o barulho que quiser quando entrar em casa, porque ninguém vai acordar (e se x parceirx acordar, é um adulto que rapidamente dorme de novo).
  24. Vá pra balada. Escolha uma festa estranha com gente esquisita na segunda, porque você nunca vai encontrar nenhuma avó com vontade de cuidar de neto na segunda. Vá pra balada, volte pra casa apenas para trocar de roupa e tentar tirar o rímel, chegue acabada no trabalho e não seja julgada.
  25. Queria fazer o 25 só pra ter um número redondo, mas não pensei em nada. Acho que poderia ser um VIVA INTENSAMENTE A VIDA SEM FILHOS.

E lembre-se sempre que a vida fica bem melhor depois que eles chegam. Boa sorte!

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O desafiar e o acolher

Ninguém me desafiou a postar fotos da minha maternidade feliz nas redes sociais. Também nem seria um desafio, pois eu sempre postos muitas e muitas fotos mostrando momentos felizes que me fazem amar ser mãe. Eu, minhas amigas, amigas das amigas, quase todas as mães fazem isso. Não é nenhum desafio postar foto feliz. E, se acha legal fazer isso, faça, é legal fazer.

O desafio é reconhecer que são muitas dores junto com as delícias da maternidade. Muitas, tá? Eu comparo maternidade com a minha academia matinal e com minhas idas à depilação. Dói, a gente sofre, muitas vezes a gente não quer, cansa, às vezes enche o saco, às vezes dói bem mais que na vez anterior, dá vontade de parar no meio, dá vontade de sair correndo, a gente fica se arrependendo de não estar em casa dormindo em vez de estar lá sofrendo. Mas depois o resultado é ótimo, faz bem pra saúde, me deixa feliz, me acho mais bonita e eu volto.

Eu amo ser mãe mas tem vários momentos em que eu desejo não ser mãe. Não tem nada a ver com meus filhos. Mesmo quando eles estão encapetados com o diabo no corpo, eu nunca desejo não ser mãe porque, sei lá, acho que essas coisas fazem parte. Odeio, mas acho que fazem parte. Pra mim é diferente: eu desejo não ser mãe em situações onde eu acho que meu mundo seria bem mais fácil sem eles. Vou contar alguns exemplos recentes (tudo em uma semana só).

  • Essa semana cheguei um dia em casa num calor e num cansaço tremendo e pensei em jantar pipoca com cerveja. Queria um treco bem salgado com algo bem gelado sem muita sujeira na cozinha. Mas eu tive que lidar com arroz, feijão, alho, cebola, temperos, quiabo, farinha de mandioca, <alguma outra coisa que não lembro>, manga cortadinha e suco. Queria não ser mãe neste dia.
  • Estamos sofrendo passando por uma reforma no banheiro da suíte por causa de um vazamento. A obra é no banheiro, mas o pó voa por todo o quarto, então tivemos que desocupar todo o meu quarto (incluindo o que estava no armário, que não é tão vedado assim) e o banheiro para os moços trabalharem. Virou caos, né? Chego em casa com aquela imundice e tem duas crianças espalhando mais ainda o pó. E precisei colocar os dois para dormir no mesmo quarto (já que fui deslocada também) e eles começaram a dormir mais tarde, acordar no meio da noite e levantar mega cedo por motivos de bagunça-com-qualquer-novidade. Queria não ser mãe durante reforma de banheiro.
  • Tinha um trabalho para entregar segunda de manhã e não terminei na sexta-feira até o horário de eles chegarem da escola. Coloquei pra dormir e segui trabalhando sexta à noite, mas não terminei. No final de semana eu tinha que trabalhar e não tinha negócio. É óbvio que eles já conseguem se concentrar para assistir um filme de duas horas, mas não é quando eu quero, é só quando eles querem, e ninguém quis ver filme pra mamãe poder fazer slide. E eles lá naquela energia toda e eu só pensando que ia me f#*$&*$%&$* e trabalhar a madrugada toda depois que eles finalmente dormissem. Queria não ser mãe neste final de semana.
  • Tenho uma aula daqui duas semanas e não acho UM ÚNICO SER VIVO nesta cidade que fique com eles neste dia (na amizade, tá, que eu sei que posso pagar babá folguista mas nos últimos tempos babá folguista custa mais do que eu ganho). Queria não ser mãe no dia da aula.

Enfim. Tô dizendo tudo isso porque é muito triste ler o julgamento que as pessoas fazem a uma mãe que faz um desabafo com relação a maternidade. “Por que não dá seu filho para adoção?”, “na hora do sexo foi bom, né?”, “devia tomar antidepressivo”, “só engravida quem quer”, “você devia saber como evitar um filho”. Gen-te-do-céu. Parem com isso.

A gente precisa aprender a acolher. Uma das coisas que a maternidade me ensina é a acolher, mesmo que no primeiro momento eu ache que o problema do outro é irrelevante. Explico: é muito comum uma das crianças vir chorando na minha direção com um problema que parece bobo (brinquedo quebrou, não acha alguma coisa, o irmão não quer fazer alguma brincadeira). Eu aprendi nestes anos como a mãe a não subestimar a tristeza deles, mesmo que dê vontade de dizer “ah, que bobeira, deixe de ser bobo e vá fazer outra coisa”. Eu entendi que o mundo deles é brincar e que qualquer coisa relacionada a isto que dá errado chateia muito. E que é muito legal da minha parte acolher, ouvir, tentar ajudar a resolver ou ajudar a encontrar alternativas. Eu, no mínimo, dou um abraço.

Então, galera, mesmo que a gente não entenda o quão difícil pode ser um bebê de dois meses (eu, por exemplo, não sei) ou mesmo que a gente tenha achado super simples e fácil ter um recém-nascido, é legal acolher a mãe que está desabafando porque tá difícil pra ela. Ajuda, sabe? A gente não precisa resolver os problemas dos outros. Apenas acolher os problemas dos outros já faz a humanidade ser melhor.

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Minha (única) crônica de Carnaval

Esses dias meus filhos me ouviram dizendo que odeio Carnaval e ficaram decepcionados, abalados. Depois de dias e dias e dias ansiosos com o baile de Carnaval na escola, ouvir que a mamãe odeia aquilo tudo foi esquisito. E foi difícil de explicar, né? Porque eu acho bem fofinho criança fantasiada, jogando confete e serpentina, com sorrisos lindos no rosto. Só não consigo fazer a transferência para o mundo dos adultos e continuar achando fofinho. Gosto não.

Carnaval é uma combinação de elementos que, mesmo sozinhos, não me atraem. Axé, samba enredo, bloquinho, muvuca, pegação, calor. Calor, principalmente. Qualquer coisa piora no calor. Axé piora no calor, samba enredo piora no calor e prefiro pegação em ambientes fresquinhos. Pegação suada, gosto não. Quando vejo fotos de Carnaval em Salvador, com aquela multidão gigante de gente vestida tudo igual ouvindo axé debaixo do sol escaldante, eu só posso achar que aquilo é a representação do inferno. Gêzuiz-me-salva-pliz.

Eu já flertei com Carnaval em vidas passadas. Já fui em baile de clube, já fui até num show da Ivete uma vez. Mas gosto não. E decidi que definitivamente não fui feita para o Carnaval no evento que foi descrever neste post. Pequenos, um dia mamãe vai contar esta história para vocês, só não contei essa semana porque vocês não iam entender nada.

Uma vez eu resolvi desfilar em uma escola de samba. Eu decidi, ninguém me obrigou, eu quis. Fui lá, paguei o negócio em umas quatro prestações uns meses antes e me agendei para um desfile de escola de samba em São Paulo. Na época, eu nem sabia o que era o recuo da bateria, mas achei que deveria experimentar.

Quando foi chegando perto, foi batendo um arrependimento. Primeiro porque não deu para viajar, já que eu tinha que desfilar. Segundo porque fui buscar a fantasia e mano-do-céu. Eu não lembro se eu era um pássaro, um índio ou uma árvore, mas o fato é que eu tinha uma fantasia verde cheia de penas, com um costado imenso verde cheio de penas, com um chapéu maior ainda verde cheio de penas, com várias penas verdes penduradas no corpo. Imaginou uma coisa sexy? Não. Queria muito ter uma foto para colocar aqui. Nada sexy, uma coisa imensa, pesada, verde, cheia de penas, apenas imagine isso.

Aí saiu a escala de desfiles e eu ia desfilar às 4h da manhã. Quatro. Da. Manhã. A única coisa que topo fazer quatro da manhã é dormir ou viajar, nada mais. Isso significava sair de casa uma da manhã, e aos 20 anos eu já achava que isso era horário de voltar para casa e não de sair de casa. E, para piorar, eu ainda tive a brilhante ideia de tirar uma soneca antes de sair, já que eu ia passar a noite claro. Acordei num mau humor do cão e comecei tudo errado.

Aí pega carro, pega trânsito, estaciona carro, chega lá no Anhembi debaixo daquele monte de luz forte e eu achei que ia tentar me divertir a partir daquele momento. Eu não sei sambar, então meu plano era desfilar como se eu tivesse em uma rave, pulando como eu quisesse, depois de tomar algumas doses de cachaça para animar. Eu nem lembro se tinha bebida por lá. Eu lembro que não tinha muito banheiro e eu nunca achei que beber muito em locais onde não há muito banheiro fosse uma boa ideia. Talvez até houvesse banheiros químicos, mas, de qualquer forma, minha fantasia não cabia dentro de um banheiro químico, então eu não bebi. Resolvi só dançar para divertir e entrei na avenida sóbria.

Então. Existe uma função na escola de samba que se chama Chefe de Ala ou algo assim. É uma pessoa que acompanha a ala botando ordem pra ficar tudo bonito de se ver. Uma pessoa que fica gritando: MAIS RÁPIDO, MAIS DEVAGAR, FECHA O BURACO QUE ABRIU ALI, NÃO DANÇA ASSIM, DANÇA ASSADO, VEM MAIS PRA CÁ, MAIS DEVAGAR, MAIS RÁPIDO, ENCOSTA MAIS UM NO OUTRO, TÃO MUITO GRUDADOS, AGORA AFASTA, ISSO, BONITO, MAIS RÁPIDO, NÃO, DEVAGAR, VAMOS, TÁ BONITO. Não consegui dançar do jeito que eu queria, só fiquei ali tentando não estragar o visual da ala.

Quando aquilo estava terminando, quando eu estava vendo a luz no fim do túnel, eu já não aguentava mais aqueles dois versinhos sendo repetidos a cada dois minutos e já não aguentava mais estar vestida de árvore, índio ou pássaro. Quando saí da avenida, avistei uma caçamba e corri até lá. Comecei a tirar tudo – costado, chapéu, penas verdes – e a colocar tudo lá dentro, porque o carro tinha ficado do outro lado do sambódromo e eu não queria atravessar aquilo tudo de volta vestida com aquele peso todo. Aí veio alguém atrás de mim e me disse:

– Não! Não jogue sua fantasia agora! Se a escola ficar entre as cinco primeiras você pode desfilar de novo no Desfile das Campeãs.

AHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHA.

HAHAHAHAHAHHAHAHHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAH.

AHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHA.

Qual a chance de eu desfilar de novo no Desfile das Campeãs? Socorro. Não. Deixei tudo lá e espero ter feito alguém feliz no sábado (ou não, na verdade, não lembro se a escola ficou entre as cinco primeiras).

Fim.

Bom Carnaval, gente!

Beijo!

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Conversinhas com Isaac

Em casa:

– Mamãe, o que vamos jantar hoje?

– Arroz e feijão.

Ele atravessou a sala e veio na minha direção para um abraço:

– Obrigado, mamãe. Você é a melhor mãe do mundo porque você faz feijão.

E voltando para onde estava: – Posso colocar bastante farinha de mandioca?

Por isso que nunca comprei um videogame. Porque feijão com farinha de mandioca me fazem a melhor mãe do mundo.

No taxi:

– Tá, já entendi que tenho que obedecer o vovô e a vovó, tomar cuidado na piscina, dormir bonitinho, mamãe.

– Que bom.

– Se eu me comportar direitinho, quando eu chegar em casa você me dá um ABACATE?

Vocês tinham que ver a cara do taxista quando soube que meu filho iria ganhar abacate como prêmio por bom comportamento.

Construção do afeto

Essa história de que a gente já ama a criança mesmo antes de ela chegar é bullshit. Durante a gestação, seja ela biológica ou “do coração”, a gente ama o conceito. A gente quer ter filho, quer ser mãe, quer aumentar a família e fica esperando uma criança para satisfazer os desejos. Não estamos amando uma criança e nem amando a maternidade, estamos amando um sonho, um desejo, uma vontade. Então a(s) criança(s) nasce(m)/ chega(m) e você diz pra ela: “oi, pequeno estranho, então é você que veio realizar meu sonho?”.

Estranho, sim. A criança que chega é bonitinha, fofa, engraçadinha, mas é uma pessoinha estranha, que você não conhece e não faz a menor ideia de como vai ser. Quando meus pequenos estranhos chegaram, eles não me mostraram loucamente o quão lindo é ser mãe. Nada disso. Eles fizeram um cocô fedido (e eu tive que lidar com minha primeira fralda na vida), um deles não me deixou de jeito nenhum escovar os dentes, eles choraram infinitamente sem conseguir me explicar o problema, o outro colocou a mão no vaso de plantas e jogou terra pelo chão da sala toda (e ainda riu quando eu reclamei). Eu também não fiquei tentando mostrar o quão linda é a maternidade: eu fiquei preocupada com a comida que eles iriam comer, com as coisas que não tínhamos em casa e deveríamos ter (tá com febre? kedê termômetro? COMO ASSIM NÃO TEM TERMÔMETRO?), tive nojo de sujar a mão de cocô quando eu ia limpar, fiquei brava com a quantidade de vezes que eles queriam brincar com objetos de decoração em vez de usar os brinquedos, ouvi choro e mais choro sem saber o que fazer.

Porque é isso: ser mãe dá trabalho e não existe manual, nem regra, nem previsão do vai acontecer e tudo o que era fácil na vida (gente, como era fácil apenas fazer jantar e comer antes de ter filhos) começa a virar um inferno processo imenso. Como é que entra amor nessa história toda? Pois é. Não sei.

Eu não sei em que momento comecei a amar tanto. É claro que eu gosto deles desde que chegaram em casa, senão eles não teriam vindo para casa. Sempre gostei muito deles, mas no início o principal sentimento que eu tinha era cuidado. Tinha que cuidar. Tinha que cuidar para que eles não morressem, para que se alimentassem bem, para que não ficassem doentes, para que se recuperassem de doenças, para que não chorassem tanto, para que ficassem felizes, para que aprendessem as coisinhas da idade, para que estivessem limpos, seguros, tranquilos, aquecidos/ fresquinhos, sem fome, sem sede, sem medo etc. etc. etc. Nos meus primeiros meses eu quis desempenhar meu cargo de mãe da melhor forma possível seguindo todo o job description, porque eu tinha sonhado tanto com isso que não poderia ser uma mãe meia boca. Não é que eu estava lá amando. Eu estava lá tentando performar bem e afastando todo e qualquer pensamento do tipo “mano do céu, que foi que eu fiz da minha vida?”.

O afeto veio aos poucos, um pouquinho por dia, até virar esse amor imenso que sinto hoje. Depois de três anos e meio juntos, eu continuo controladora, cuidadora e doida como escrevi acima. Mas hoje não é só isso. Em algum momento eles viraram de verdade a parte mais importante da minha vida. Eles são meus melhores amigos, são as duas pessoinhas que eu conheço melhor nessa vida e são as duas pessoinhas que me conhecem melhor também. Consigo saber o que eles estão sentindo e como vão reagir só de olhar pra eles. Não consigo ficar muito tempo longe deles. Gosto da companhia, do cheirinho, do olhar. Gosto até das bagunças. É claro que existem coisas que não gosto, de verdade, não gosto mesmo: não gosto de ser acordada de madrugada, detesto quando eles falam com a boca cheia de comida e vem aquele monte de pedacinho de comida mastigada na minha cara e na minha roupa (vale também quando escovam os dentes), fico brava quando peço para não fazer alguma coisa e eles ignoraram totalmente e continuam fazendo, não gosto quando ficam bravos comigo e batem porta, me xingam e dizem que não gostam mais de mim. Não gosto de um monte de coisas nessa história toda de maternidade, mas hoje eu sei o que é “amor de mãe”, “amor incondicional”, “maior amor da vida”. Só que só fui experimentar estes sentimentos todos aos poucos, com o tempo, quando o trabalho todo deixou de ser tão dolorido e passei a ver prazer nos cuidados e em ter duas pessoinhas dependendo de mim e me querendo tanto.

Amo meus filhos porque eles são incríveis, eles são as pessoas mais incríveis deste mundo. E amo ser mãe. Não amo ser mãe porque maternidade é uma coisa linda. Maternidade é uma coisa do cão, na verdade. Amo ser mãe porque meus filhos me transformaram em uma versão muito melhor de mim mesma. Sou menos egoísta, menos ambiciosa, menos workaholic, menos consumista, cuido bem mais das minhas atitudes porque quero ser um bom exemplo, me alimento melhor porque não quero que eles consumam bobeiras e me tirei do foco central da minha vida pela primeira vez para dar lugar a outra pessoa.

Ainda bem que essa coisa toda de filho e de ser mãe é pra sempre, é definitivo, não muda, não acaba, faz parte de mim, faz parte deles, porque é bom demais!

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