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Quem é esse?

Odeio futebol. Nem Copa. Nem jogo do Brasil. Não gosto.

E esses dias ouvi Isaac dizendo alguma coisa pra Ruth e entendi que ele estava falando sobre o Neymar. Bateu aquela decepção de ter filho fã de jogador de futebol, confesso.

– Isaac, você sabe quem é Neymar?

– Sei!

– Ah… – cara de decepção.

– Um peixe! PROCURANDO NEYMAR. – aquele sorriso imenso no rosto de quem acertou a resposta.

Iééééééé. Esse é meu filho!

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Como sair com crianças

4 horas antes do horário de sair:

– Mamãe, já tá na hora de sair?

3 horas e 45 minutos antes do horário de sair:

– Mamãe, já posso me trocar e colocar o sapato?

3 horas e meia antes do horário de sair:

– Vamos logo, mamãe, não tá na hora?

3 horas e quinze minutos antes do horário de sair:

– Vai, mamãe, eu quero ir logo, vamos logo.

3 horas antes de sair:

– Já tá na hora? Vamos?

<repita este processo a cada 15 minutos durante as próximas três horas>

Na hora de sair:

– ISAAC, JÁ PEDI TRÊS VEZES PRA COLOCAR O SAPATO! NÃO, RUTH, NÃO PODE LIGAR A TV AGORA. ISAAC, QUANDO VOLTARMOS A GENTE PROCURA O DINOSSAURO QUE ESTÁ PERDIDO HÁ MESES. RUTH, POR FAVOR, VAI LOGO FAZER XIXI PRA SAIR. VAMOS, GENTE, ESTAMOS ATRASADOS, VAMOS PERDER O FILME. NÃO, RUTH, AGORA NÃO É HORA DE BRINCAR DE BONECA. RUTH, POR QUE NÃO SE TROCOU AINDA? ISAAAAAAAAC, DEIXA O CACHORRO EM PAZ E VAMOS LOGO PARA O ELEVADOR. VAMOOOOOOOOOS LOOOOGOOOO, DOIS!

$#*&$#*&%*$#&$#$@#@#¨¨&@!

 

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Vamos falar sobre férias

Vou começar o texto contando algumas babaquices que já fiz na minha vida com relação às minhas férias. Sim, férias, aqueles dias lindos em que podemos viajar, dormir até mais tarde, fazer sexo logo depois do almoço, curtir os filhos o dia inteiro, sabem? Então:

  • Eu já vendi 10 dias de férias várias vezes. Sei lá por que cargas d’águas algum dia eu entendi que algum dinheiro (no caso um terço do meu salário) valeria dez dias de descanso. Nos meus últimos meses trabalhando como CLT, eu não teria vendido dez dias de férias nem por cinco salários. Na verdade, uma vez eu até cheguei a perguntar pro RH se a lei permitia de alguma forma comprar mais férias sem ser demitida ou acusada de abandono de emprego. Gêzuiz, que ideia mané essa de vender férias.
  • Eu saí de uma empresa onde trabalhei por quase seis anos e recebi mais de sessenta dias de férias não gozadas. Não sei onde eu estava com a cabeça quando assinei um papel que me dava o direito de aproveitar trinta dias de férias e resolvi ficar lá enfiada no escritório. Fiz isso duas vezes em seis anos, percebem? Por quê, gente?
  • Eu já mudei a data de férias porque um chefe pediu; coisas do tipo “o projeto não pode atrasar” ou “preciso muito de você neste exato período”. Eu já deixei de tirar férias um ano inteirinho porque não deu (mesmo motivos anteriores). Eu já tirei férias exatamente no período que meu chefe autorizou + meu marido na época não conseguiu tirar férias no mesmo período + foi de última hora e tudo estava caro pra viajar = eu fiquei sozinha em casa sem fazer nada uma semana.
  • Eu já caí no conto “é impossível tirar trinta dias corridos” e “piquei” minhas férias em vários pedacinhos.

Não quero dizer que a gente trabalha *apenas* para poder tirar férias remuneradas. Mas férias são um direito e um período necessário para podermos viver melhor e todo mundo deveria sempre gozar as férias que tem direito. Esse verbo é ótimo para se referir às férias, aliás.

Ditas as babaquices e meu conceito de férias, passo para os filhos.

Crianças têm férias escolares em dezembro, janeiro e julho. Sempre foi assim. Com ajuda de familiares e de pais que não ficavam vendendo/ ignorando/ adiando férias, eu sempre aproveitei minhas férias escolares como uma criança deve aproveitar: descansando em casa, viajando, curtindo meus amigos. Mas aí eu virei mãe e virei high user de curso de férias.

Nos dias de hoje existe esta modernidade, curso de férias. Você paga para os filhos poderem frequentar a escola nos meses de janeiro e julho, exatamente nos mesmos horários. É claro que a programação é divertida, com muitas brincadeiras, oficinas e tal, mas eles continuam indo para a escola. Se a escola dos seus filhos não oferece curso de férias, nem se preocupe: existem lugares que não são escolas e que oferecem cursos de férias para os pais poderem trabalhar. E não estou criticando quem oferece curso de férias, acho ótimo que existam estas opções, de verdade mesmo. Estou me criticando por ter usado demais estes serviços até outro dia. Porque tinha outro problema: sempre existe o recesso de Natal e Ano Novo das escolas, uns 15 dias. As crianças ficam em casa e as empresas descontam esses 15 dias das férias se precisarmos ficar junto com elas. Aí sobram só outros 15 dias para distribuir entre os meses de dezembro, janeiro e julho. Como faz? Curso de férias.

Logo que tirei o sabático, passamos mais de metade do mês de julho viajando com as crianças e foi demais. Neste final de ano pela primeira vez na vidinha escolar meus pequenos tiraram mais de um mês de férias e estou mega feliz por ter dado isto para eles. Viajaram com o pai no final do ano e agora estamos curtindo as férias de janeiro em São Paulo, porque o tio está trabalhando. De forma alguma está sendo um tédio, cansativo ou desesperador. Estou adorando, mesmo estando aqui cozinhando almoço e jantar e mantendo a casa em pé. Fizemos vários passeios paulistanos (basicamente museus, parques e cinema) e passamos bastante tempo em casa, assistindo filmes, brincando de massinha, montando quebra-cabeças e usando os brinquedos. Não me preocupei em ocupar bastante a agenda deles ou mantê-los bem cansados. Pelo contrário, deixei os dois à toa bastante tempo, para escolher a brincadeira que quisessem ou para passar mais tempo vendo filmes. Acho que entra na minha definição de férias a liberdade de não fazer nada super programado ou super educativo.

Semana que vem as aulas começam e eu volto a trabalhar direito (porque, sim, até consegui trabalhar mais ou menos com eles em casa – mas foi bem mais ou menos). Estão descansados, relaxados, com baterias recarregadas e bem animados.

Toda criança merece tirar férias, por isso na minha lista de prioridades para me reencontrar na minha carreira incluí “conseguir deixar meus filhos tirarem todas as férias que merecem”.

 

Para aproveitar todos os feriados do ano

– Mamãe, vem logo, que eu e o Isaac fizemos xixi na cama.

Na verdade, estávamos todos em barracas, então nos poucos segundos que levei para sair da minha barraca e abaixar na frente da barraca deles fiquei me perguntando o que poderia ser pior do que lidar com duas crianças, dois sacos de dormir e dois isolantes cheios de xixi. Quando abri o zíper, achei algo pior: duas crianças alagadas dentro de uma barraca.

Choveu muito aquela madrugada, um temporal gigante. Como eu dormi seca e confortável, nem me ocorreu que a barraca deles pudesse alagar. Não foi pouca água. Eles acordaram encharcados, com dedinhos enrugados, e tinha pocinhas de água de chuva no fundo da barraca. Aí eu perguntei:

– Mas ninguém avisou a mamãe que estava molhando tudo?

– Eu avisei, mamãe. Eu disse que estava chovendo.

É, Ruth, verdade. No meio da chuva, você me chamou da sua barraca e me disse “mamãe, está chovendo”. E eu respondi “sim, está chovendo” e você voltou a dormir. Você não me disse especificamente que estava chovendo DENTRO DA BARRACA.

Quando vi aquilo, não tive dúvidas: banho quente nos dois para esquentar e início do processo de desmontar todo acampamento para voltar correndo para São Paulo e passar o resto do feriado embaixo das cobertas chorando. Quando eles perceberam que meu plano era sair correndo dali, ficaram desesperados.

– Não! Não! Não! Vamos secar tudo e ficar aqui!

Eu nem tinha alagado dentro da barraca e só pensava em sair dali. Na verdade, eu preferia ter alagado do que ter dormido confortavelmente enquanto meus filhos estavam mergulhados em água fria. A previsão era sol o dia todo e eles queriam praia. Ficamos. Foi ótimo, tudo secou, dormimos mais uma noite (sem chuva). E na volta para São Paulo, comprei rapidinho uma barraca nova para evitar novos alagamentos. Isaac e Ruth foram mais guerreiros que eu.

Acampar tem perrengues, mas é muito amor.

Eu acampei a primeira vez aos 18 anos com uma amiga de infância e nunca mais parei. Depois que casei pela segunda vez e juntamos as barracas, ou seja, encontrei um parceiro que topou apresentar campings para crianças pequenas, temos acampado cada vez.

Eu sei que nem todo mundo gosta ou tem vontade de experimentar. Sim, é desconfortável, o chão é sempre duro, o pé fica sempre sujo, a barraca é apertada, o sol nasce às 6h e fica um forno dentro da barraca. Mas acho uma experiência fantástica para crianças e acho que super bacana fazer isso por elas.

Em campings acordamos junto com o sol, por causa do calor e da claridade. Principalmente se estiver calor, somos obrigados a sair da barraca imediatamente para não morrermos cozidos. Isso nos faz sair ao ar livre e curtir o ar livre: sol, ventinho na cara, grama. Acordar cedo nos faz aproveitar mais o dia. Como dificilmente dá vontade de entrar na barraca antes do anoitecer, tudo acontece ao ar livre: as refeições, o deitar na grama para ler e descansar, as brincadeiras. Não tem TV, não tem preguiça no sofá. Tem lugar para correr, grama ou areia para brincar, pé descalço o tempo todo.

O fato de termos que nos adaptar a algo não tão confortável como nosso quarto também é um aprendizado para as crianças. Meus filhos têm sacos de dormir e isolantes térmicos e dormem com eles no piso da barraca, assim como nós. Não levo edredons, colchonetes, travesseiros de casa, colchões infláveis, porque se um dia formos fazer uma viagem com camping mais “selvagem” é assim que vai ser. Não é que eu ame dormir no piso duro, mas existem destinos onde a única opção é essa. Recentemente escalamos o Monte Roraima na Venezuela (sem eles) e a única opção eram barracas. Alguém que não tope acampar nunca vai brincar de Mr. Fredricksen e conhecer o Paraíso das Cachoeiras.

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Em geral, não dá para levar supérfluos para o camping. De novo, não quer dizer que eu não goste dessas coisas. Mas não dá para levar equipamentos eletrônicos (porque nem sempre tem tomada e agora aprendi que sempre podemos alagar e perder tudo), maquiagem, todos os cosméticos, um monte de troca de roupas. Na nécessaire, levamos apenas protetor, repelente, xampu, sabonete, pasta e escova de dentes. E aí vemos que tudo bem não secar o cabelo, não usar anti-rugas e não fazer maquiagem, e que as fotos ficam lindas do mesmo jeito.

Além disso, acampar com crianças é praticamente brincar de casinha. Sempre levamos coisas para fazer todas as refeições no próprio camping, o que é mais barato, mais prático porque economizamos todos os processos de comer fora com crianças e mais saudável. Preparamos a comida juntos no fogareiro e usamos uma mesinha desmontável para comer. Eu levo industrializados porque precisamos de coisas práticas, mas nunca sirvo “besteiras” para eles, nem acampando. Levo arroz em saquinhos, feijão/ grão de bico/ lentilha já cozidos em caixinha (já vêm temperados e não têm muitos conservantes), carne vegetal em lata, legumes em lata, spaghetti bem fininho para cozinhar rápido, molho de tomate pronto (escolho sem conservantes e sem glutamato monossódico), pães, frutas, bebidas e petiscos. Uma vez fomos fazer um passeio no parque nacional da Serra da Bocaina e levamos coisas para fazer o almoço porque esperávamos encontrar uma área de picnic por lá. Mas, não. Era proibido comer dentro do parque e não tinha nenhuma mesinha para fazer isso. Como a trilha tinha sido longa e o camping estava longe, resolvemos não matar as crianças de fome: sentamos na grama no estacionamento, preparamos um macarrão ali mesmo e eles comeram segurando pratinho em uma mão e colher na outra. Uma fofura.

E, por fim, é barato. Acabei de fechar um pacote para dois adultos, duas crianças e um cachorro para o próximo feriado de três dias por R$ 220. Nosso plano de viajar todos os feriados do ano leva em conta um monte de campings que queremos conhecer com as crianças. Mesmo que você precise comprar barraca para acampar a primeira vez vai sair mais barato que pagar o hotel (e barraca é um investimento para anos. Essa barraca que alagou viveu mais de 10 anos antes do desastre).

Bora?

Por que um sabático

Sempre achei que “sabático” significava necessariamente pedir demissão e comprar uma passagem só de ida para algum lugar exótico. Morria de inveja de pessoas em seus sabáticos. Muita inveja. Essa definição de sabático não encaixava na minha vida de mãe, então nenhum sabático estava programado pelos próximos 15 anos. Só que algumas coisas estavam acontecendo na minha vida:

  1. Conciliar carreira e maternidade estava impossível e eu achava que não era boa nem em uma coisa, nem em outra. Alguns textos meus sobre este item aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
  2. Aécio
  3. Eu não estava feliz no emprego atual e em determinado momento resolvi partir pro clássico atualizar-CV-e-sair-panfletando-por-aí. Procurar outro emprego significaria ser chamada para entrevistas, onde eu deveria contar o quão linda tinha sido minha carreira até então e o quão entusiasmada eu estava para ocupar um cargo em outra empresa. E aí eu me dei conta que não conseguiria entrar em um papo desses, porque eu não achava minha carreira linda e nem queria outro cargo em nenhuma outra empresa.
  4. Eu não era livre. Eu tinha que dar satisfações sobre o horário que ia chegar no escritório, sobre o horário que ia sair, sobre a hora que ia almoçar, onde eu ia e quanto tempo demoraria para voltar, sobre o motivo de ter desligado o celular ou não ter atendido uma chamada, sobre as reuniões de trabalho que eu tinha no dia, sobre os compromissos que meus filhos tinham em horário comercial etc. “Etc.” aqui significa outras 160 mil coisas sobre as quais eu tinha que dar satisfação para alguém. Eu vivia pedindo desculpas por não ter feito uma coisa ou por ter feito outra.
  5. Fazer doutorado está nos meus planos desde que terminei o mestrado e eu vinha pensando fortemente em fazer fora do país. Um dos requisitos em vários processos seletivos são notas altas no GMAT e no TOEFL e não havia nenhuma chance de encaixar a preparação para os exames naquela vida vulgar que eu levava, então eu comecei a cogitar uma parada de alguns meses na vida executiva para estudar. Só não tinha data para acontecer.
  6. Como eu pensava que em algum momento eu iria me dedicar somente ao GMAT, eu fiz as contas para saber quantos meses eu sobreviveria sem salário, então eu sabia que era financeiramente possível passar alguns meses sem trabalhar.

Sabático não era um plano, não tinha data, nada. Até que um belo dia eu “acordei” do que estava fazendo e me vi na seguinte cena: algumas pessoas em uma sala de reunião, um problema com cliente para resolver, todo mundo nervoso tentando achar culpados. Uma pessoa em pé na minha frente, gritando e gesticulando comigo, em um tom nem um pouco educado. Eu, sentada, em posição de defesa, falando em tom alto, respondendo, também não muito educada. Na hora em que “acordei”, olhei para duas cadeiras vazias na sala e imaginei Isaac e Ruth sentados ali. Quando imaginei os dois vendo aquela cena, imaginei duas carinhas de decepção. Imaginei perguntas assim: por que aquele moço grita tanto com você, mamãe? Por que você fala alto também, por que você não fala baixo e conversa como sempre ensina a gente? Por que você estava tão brava, você estava com raiva? Você não é feliz no trabalho, mamãe? E, por fim, imaginei a Ruth me dizendo: “a gente precisa sempre conversar falando baixo para resolver o problema e pedir desculpas quando grita”. Eu morri de vergonha. Eu nunca queria que meus filhos soubessem como era trabalhar. Aqueles dias em que a gente leva filhos para conhecer o trabalho dos pais é tudo uma farsa (sabem, dia das crianças e Natal?).

Eu pedi para reavaliarmos o tom de voz e o tom da conversa, mas não rolou. Pedi de novo, não rolou de novo. Na verdade, recebi um feedback de que estava me preocupando com questões não-importantes, que o problema do cliente era mais importante que o fato de estarmos ou não estarmos sendo educados um com o outro naquela reunião interna. Aí eu pedi licença, disse que iria para minha casa, que não queria seguir com uma reunião sem educação e que poderíamos continuar no dia seguinte. Saí do escritório às 17h30 pela primeira vez em 12 anos e fui para casa. No dia seguinte pedi demissão e fui viver a vida adoidado (mentira, trabalhei mais uns dias até passar minhas coisas para outras pessoas do time e tal).  Só para deixar claro: eu não pedi demissão por causa de uma reunião ruim. Já tive várias reuniões ruins durante minha vida profissional e aquela reunião foi muito parecida com outras 500 que já fiz. Só que naquele dia eu vi com clareza que eu não estava feliz fazendo o que eu fazia, que minha carreira e minha vida são responsabilidade só minha e que só eu poderia fazer alguma coisa para ser mais feliz.

No dia em que pedi demissão, comprei nossas passagens para Paris. Não ia dar para viajar o mundo, mas eu iria me dar as férias mais legais do mundo junto com meus três amores. Eu não tinha muitos planos para os próximos meses; não sabia o que iria fazer da vida, mas já sabia o que não queria fazer. Usei meus meses de sabático para estudar, conversar com pessoas, pensar na vida, fazer cursos, cuidar da família, ler, escrever.

A sensação de liberdade que tive nesses últimos meses por não ter cobranças, por ser dona do meu tempo e por poder fazer só o que me faz feliz foi tão intensa, tão indescritível e tão necessária que não sei mais viver sem ela. Liberdade é um valor fundamental para mim. Em qualquer coisa que eu decida me envolver daqui para frente, liberdade será essencial. Eu quero ser para sempre dona do meu cérebro (ou seja, eu quero decidir como usar minha cabeça) e do meu tempo.

Hoje já tenho uma boa ideia dos meus próximos passos e do que quero fazer da vida, e já não me considero mais em um sabático. Não tenho um emprego nem renda fixa, mas estou envolvida em tanta coisa que já não dá mais para chamar de sabático, como se fosse um período passageiro. Já é uma nova fase.

Além da liberdade e de fazer questão de ser dona do meu tempo, aprendi outras coisas nesses últimos meses. A mais reveladora: trabalhar dá muita despesa. Eu recebia todos os meses um valor líquido e gastava 100% deste valor, então achei que este era o dinheiro que eu precisaria todos os meses para viver. Gente, sem trabalhar eu gasto metade. Grande parte das despesas que eu tinha existia porque eu trabalhava muitas horas por dia: empregada doméstica, babá, escola por 12 horas, jantar na escola para as crianças, taxi, perua escolar, almoços mega caros (oi, São Paulo e seus singelos almoços de R$ 50-R$ 80), roupas sociais, manicure semanal e, claro, aquele monte de presente de que a gente se dá para compensar o sofrimento todo. Custa caro trabalhar. Sabe aquela conta que diz que só começamos a receber nosso salário em abril, depois de pagarmos todos os impostos? Eu descobri que só começava a ganhar meu salário todo dia depois do almoço, porque trabalhava de manhã apenas para pagar a estrutura que eu tinha para poder trabalhar.

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Para meu filho

Isaac, meu querido,

Sempre que minha mãe passa um tempo com você, ela me diz que estou pagando todos os meus pecados, porque eu era bem pior. Nossa, tadinha da minha mãe, porque não é fácil ficar cuidando de você, viu?

Outro dia, você chegou da escola e disse que ia enfeitar nossa casa para o Natal. Saiu espalhando brinquedos pela sala e pela cozinha, para nossa casa ficar bem bonita. Eu não quis te dizer que aquilo para mim era bagunça, então deixei você enfeitar tudo e arrumei tudo depois que você dormiu.

Aí você olhou a mesa de jantar e viu que eu não tinha guardado minhas coisas, então aproveitou para fuxicar meus papéis, fazer um desenho no meu caderno com minhas canetas e mexer em tudo. Eu te pedi para não mexer ali e sugeri fazer outra coisa e você disse que iria desenhar. Quando fui te ver na mesa da cozinha, você tinha molhado os papéis porque assim ficaria mais fácil de grudar nas paredes. Eu expliquei que não. Quando voltei de novo, você tinha colocado um banco na frente da geladeira e tinha tirado todas as fotos que temos lá, para poder colar os seus desenhos. Então você me disse que ia para seu quarto colocar a fantasia do Peter Pan e eu fui fazer o jantar.

Como você estava demorando para voltar, fui até lá e te encontrei completamente nu brincando de outra coisa. Pelo que entendi, você se distraiu com outro brinquedo logo depois de ter tirado a roupa e se esqueceu de colocar a fantasia, mas você não soube me explicar por que tinha tirado a cueca para colocar a fantasia. Eu pedi para você se vestir. Alguns minutos depois voltei para te ver e encontrei o Peter Pan em cima de uma cadeira que deveria estar no quarto na frente da pia do banheiro lavando uns brinquedos sujos. Eu sei, aquele sabonete líquido novo que eu comprei tem uma embalagem incrível, dá vontade de mexer. Mas eu te expliquei que não era para lavar brinquedos e coloquei a cadeira no lugar.

Aí você me pediu para brincar com um jogo cheio de bolinhas pequenas e eu pedi para ficar no quarto com a porta fechada, porque o cachorro poderia engolir tudo. Mas a cada 30 segundos eu ouvia barulhos de bolinhas no corredor, porque sem querer a porta do quarto se abria e as bolinhas se espalhavam para fora. E cada vez que acontecia isso, o cachorro corria, você gritava e eu parava de fazer o jantar para socorrer as bolinhas.

Então você quis ver o Mágico de Oz, e eu achei bom porque já tinha quase queimado a comida várias vezes, então achei bom que você ficasse sentado um pouco. Só que todas as vezes que a Dorothy cantava, você se levantava do sofá e saía pulando e cantando pela sala, e o cachorro saía atrás tentando morder sua mão porque queria participar da brincadeira, e você gritava, e eu tinha que parar tudo e ir acalmar o cachorro.

Depois do jantar, enquanto eu arrumava alguma coisa e me distraí, você abriu uma gaveta e pegou o rolo de fita crepe para fazer pulseiras no seu braço. E depois você me pediu mais alguma, e quando fui fazer você respondeu todo animado:

– Obrigado, mamãe, você é muito agradável.

“Agradável” foi ótimo, Isaac. Você é bagunceiro, mas é sempre agradável cuidar de você. Adoro essa cabecinha criativa e cheia de ideias, mesmo que isso não me deixe relaxar um minuto.

 

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A tal do passeio com fast food

Algumas pessoas me perguntaram o que eu tinha resolvido fazer com o passeio da escola com almoço no McDonald’s. Eu decidi não autorizar a participação dos meus filhos.

Eu tentei algumas coisas: conversei com a escola, conversei com outras mães e até liguei no parque para entender as opções. A única opção que todos me deram foi mandar um almoço saudável para meus pequenos. Mas só eles levariam uma comida diferente, já que as outras crianças comeriam fast food, e eu não queria fazê-los serem os únicos a comer uma comida diferente dos amigos em um dia de passeio. Levar um almoço diferente deveria ser uma escolha deles e, não, uma imposição minha.

Mas não foi só o fast food. O fato de ter fast food no passeio me fez pensar em outras coisas. Primeiro, era um passeio a um parque temático dentro de um Shopping Center, um lugar onde eu nunca iria. Nunca levo os dois a shoppings, sempre prefiro comprar as coisas para eles sozinha e depois voltar para trocar, se for necessário – acho que shopping não é lugar para criança passear. Segundo, não considero o parque temático uma “saída pedagógica”. Terceiro, custava muito caro.

A escola organiza cinco passeios por ano, todos são caros e eles sempre participaram de todos. Eu era a mãe que trabalhava muito e deixava os filhos na escola por horas e horas seguidas, ou seja, vivia com culpa e nunca tinha sequer cogitado negar um passeio. Hoje nossa vida está diferente. Estou fazendo poucos freelas e não ganho por dia o valor do passeio para os dois. E também não sinto mais culpa: viajamos oito (OITO!) vezes este ano, levei mais tarde para a escola, busquei mais cedo, fomos ao cinema no meio do dia, trouxemos amigo para brincar em casa no meio da semana, eles não foram para a escola em emendas de feriado. Não senti nenhuma culpa ao explicar para eles que eles já tinham participado dos outros quatro passeios do ano e que não iriam neste. Eles entenderam.

Eu tinha até pensado em não levar para a escola no dia do passeio, mas apareceram algumas aulas particulares no dia e não tô podendo recusar trabalho. Como Isaac tinha fono no dia e iria chegar mais tarde na escola, meu marido levou a Ruth para um café da manhã na padaria (e ela ficou muito mais animada com um café da manhã só dela do que tinha se animado com os outros passeios). Quando eles chegaram na escola, todos já tinham saído e eu expliquei que poucas crianças estariam por lá. À tarde busquei antes de as crianças voltarem. Dois dias antes tínhamos voltado de um camping na beira da praia e eles sabiam onde tínhamos decidido gastar nosso dinheiro (aliás, três dias acampando foi mais barato que o tal passeio). Foi tudo super tranquilo e não sofri nenhuma retaliação por não ter deixado ir ao parque temático. O comportamento deles me mostrou mais uma vez que criança quer presença e família. A gente passa muito tempo juntos e fazemos muita coisa juntos, então o passeio caro da escola com fast food não fez falta nenhuma. Sim, tenho certeza que foi divertido e que as crianças adoraram. Mas não ter ido também foi ok.

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Bad decision

Quando Isaac começou a falar e a cantar, ele já tinha aprendido a “se ninar” sozinho. Eu o colocava na cama, dava beijinhos e carinhos, dizia boa noite e ele ficava no escurinho até dormir. Sempre foi muito tranquilo. As musiquinhas vieram e começaram a fazer parte deste ritual só dele: depois que eu saía do quarto, ele cantava para si próprio uma musiquinha fofa de criança e logo dormia. Era uma fofura só. Tanta fofura que às vezes eu até ficava do lado de fora do quarto ouvindo a musiquinha fofa dele.

Não ter feito alguma coisa para ele mudar este processo foi a pior decisão que tomei. Se tem algo que eu queria ter feito diferente é a musiquinha da noite. Gente do céu, que coisa.

Hoje Isaac é uma criança de quase cinco anos com uma voz que chega no térreo. Hoje nosso apartamento é menor e os quartos são colados um no outro, então Isaac canta e Ruth grita pra reclamar que não consegue dormir. As musiquinhas não são exatamente fofas: às vezes rola um “livre estoooooooooooooouuuuuuuuu”, às vezes rola uma funkeira insuportável sobre a qual já falei aqui, às vezes algumas composições próprias. E ele também não canta mais UMA musiquinha; ele canta umas DOZE.

Aí todos os dias eu tenho que conversar com ele sobre os motivos pelos quais ele não pode cantar para dormir. Explico, explico, explico. Saio do quarto e ele volta a cantar. Volto pro quarto, saio do quarto, volto lá, e assim seguimos na cantoria diária até ele capotar de sono. Já me ofereci várias vezes para ficar com ele fazendo carinho até ele dormir, mas ele não quer; me diz para eu sair e deixá-lo cantar. Ele já me prometeu cantar bem baixinho, mas ele se esquece de cantar baixinho em 30 segundos e logo o porteiro volta a ouvi-lo. Acho que passei um ano achando a musiquinha da noite fofa e estou há mais de dois tentando me livrar dela. Aí hoje ele me disse assim: “mas é que eu gosto de cantar no escuro sozinho e quando eu era pequeno você deixava”. Mano, que memória. Por quê, meldels, por quê?

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Meu luto pela não-gravidez

Quando decidi ter filhos com meu ex-marido e iniciar o processo de adoção, eu queria adotar duas crianças. Sempre quis ter dois filhos e sempre quis adotar, então queria colocar em nosso perfil duas crianças e já realizar todos os sonhos em uma tacada só. Como havia um possível desejo de talvez um dia termos um filho biológico, decidimos por uma criança ou gêmeos. Colocar “gêmeos” era minha esperança de ter dois filhos pela adoção. E eu fui presentada com gêmeos.

Eu tinha 31 anos quando meus filhos chegaram e achava que tinha até os 35 para pensar se queria tentar engravidar. 35 era a data mágica; eu não sei direito as estatísticas, mas sei que aumentam os riscos de várias coisas, então eu achava que, se quisesse muito, tinha que engravidar até os 35 anos. Muita coisa aconteceu: me separei, fui mãe solteira, encontrei um cara, começamos a namorar, casei de novo. E eu vou fazer 35 anos em exatos em seis meses.

Eu não quero um terceiro filho. Eu vivo todas as dores e as delícias da maternidade com o Isaac e a Ruth, sou louca pelos dois e não tenho vontade de ser mãe de novo. Estou repensando toda minha vida profissional, começando coisas novas, ganhando quase nada e uma gravidez e um bebê não se encaixam nos meus planos agora. Também não é um plano do casal (eu e meu marido) termos um filho. Ele também acha que vive a paternidade com Isaac e Ruth e que é muito feliz assim. Além disso, confesso, eu tenho muito medo de ser mãe solteira de novo.

Eu não sinto por não ter tido um recém-nascido ou por não ter amamentado. Minha maternidade é tão intensa e mexe tanto com minha vida que não ter vivido ao lado dos meus filhos do nascimento até 1 ano de idade não é uma questão. Mas tem algumas coisas que sinto não ter vivido: tentar engravidar (parar com a pílula e a camisinha e sair fazendo sexo adoidado sem proteção nenhuma), descobrir a gravidez, contar a gravidez para o futuro pai, viver a gravidez ao lado do futuro pai, acompanhar a barriga crescer, sentir o bebê se mexer. Isso tudo eu sinto muito por não ter vivido. Muitas vezes eu queria ter passado por isso.

Estou passando por um luto por não ter engravidado porque acho que eu deveria tentar agora, a seis meses dos 35 anos, mas eu não quero. Não quero, mas às vezes fico triste por não querer e não viver uma gravidez, e é muito confuso. Fiquei imaginando a dor que deve ser querer muito engravidar e não acontecer. Se você passou ou está passando por isto, só queria dizer que entendo a dor, mas que o luto vai ser apenas pela barriga. Ser mãe pela adoção é tão intenso, tão verdadeiro, tão igual, que duvido que alguma mãe vá lamentar não ter tido um filho biológico se o caminho for a adoção.

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Hoje meu filho tem consulta, chefe

Um dos maiores desafios nessa história toda de conciliar carreira e maternidade para mim foram as consultas médicas. Meus filhos são super saudáveis e não têm nenhum problema grave de saúde, mas acontecem muitas consultas. Tem a pediatra, a dentista e a oftalmo da Ruth que são semestrais, tem as terapias semanais que eles fazem, tem consultas eventuais com algum especialista diferente, aí estes profissionais todos pedem exames e avaliações. Tudo isso que estou falando deve ser feito em horário comercial, porque médicos trabalham em horário comercial. E criança também só funciona bem em horário comercial; não dá para marcar pediatra às 20h e achar que eles vão colaborar com o processo todo num super bom humor. Então eu tinha um emprego em horário comercial, consultas médicas acontecendo em horário comercial e muito samba para conciliar. Consulta cedinho, consulta no almoço, consulta no finalzinho da tarde, tudo para ser boa profissional.

Só para detalhar: não é só o horário da consulta em si. Levar uma criança a uma consulta médica envolve sair de onde você estiver (no escritório), buscar a criança onde ela estiver (na escola, no caso a 45 minutos do escritório), fazer o deslocamento até o médico (30, 45, 60 minutos), esperar (x?), ser atendido (30, 45, 60 minutos), fazer o deslocamento até onde a criança estava, voltar até onde eu estava. Somei aí umas quatro horas na brincadeira. Meio período. Metade das horas que eu deveria trabalhar. E, não. Não adianta achar que, só porque cheguei 12h no escritório porque levei alguém numa consulta, vou poder trabalhar 4 horas a mais no final do dia, porque no final do dia tem que buscar na escola, tem que ir para casa, tem que ser mãe de novo. Eles não iam me esperar na escola até às 22h só porque eu entrei mais tarde. Não existe isso.

Isaac passou meses com acompanhamento mensal de um tratamento que fez nos dentes. Para não perder horas no trabalho, montei um esquema assim: meu padrinho (santo padrinho que meus pais – ele espírita e ela budista – me deram quando resolveram me batizar na igreja católica sei lá por quê) ia para minha casa às 7h no dia da consulta (ou seja, ele saía da casa dele umas 6h20), íamos juntos até o consultório (50-60 minutos de deslocamento), Isaac era atendido às 8h, saímos de lá umas 9h, meu padrinho partia com ele para a escola e eu ia para o outro lado trabalhar. Chegava no escritório 9h15 e ninguém percebia nada. Lindo.

Num desses dias, eu já estava pronta para sair com Isaac e meu padrinho me avisou que não ia conseguir ir comigo, estava passando mal. Desmarcar a consulta em cima da hora com o menino já prontinho para ir também não me parecia legal com meu filho. Afinal, o tratamento era importante, era minha responsabilidade levá-lo no acompanhamento todos os meses. Então fomos. No caminho, liguei para minha mãe, mas ela também estava enrolada, o que é compreensível, já que ninguém está à disposição de mães solteiras numa segunda-feira às 7h da manhã. Se eu tivesse que levar Isaac de volta para a escola para ir trabalhar depois, eu ia chegar no escritório umas 11h. Minha mãe sugeriu, então, que eu fosse para o escritório com ele e ela poderia ir buscá-lo umas 10h e pouco. A ideia era linda: eu não ia passar 2h do meu dia me deslocando e poderia começar a trabalhar no horário que eu queria. Isaac ficaria uma horinha desenhando ao meu lado e iria embora com a vovó. Plano B acionado e combinado. Teria sido perfeito, outra ótima solução para conciliar carreira e as consultas médicas que a maternidade nos traz. Se meu filho não tivesse sido proibido de ir comigo ao escritório. Ponto. Não sei mais o que dizer. Ponto. F$#*&$#*, né?

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